Resumo
Introdução: Este artigo de reflexão discute o letramento racial (LR) como sugestão de ferramenta formativa para o enfrentamento das desigualdades étnico-raciais na saúde. Apesar da expressiva presença da população negra no Sistema Único de Saúde (SUS), a formação em saúde ainda privilegia modelos hegemônicos que desconsideram a diversidade étnico-racial. Nesse cenário, destaca-se a enfermagem como categoria estratégica na promoção da equidade, sobretudo na educação permanente. Assim, o objetivo desse artigo de reflexão foi discutir criticamente o LR, à luz da pedagogia engajada de bell hooks, apontando possibilidades e desafios. Desenvolvimento: À luz da pedagogia engajada de bell hooks e de referenciais decoloniais, propõe-se um percurso formativo composto por quatro dimensões: fundamentação teórica afrocentrada, apresentação de evidências, aprofundamento conceitual e proposição de práticas concretas. Ressalta-se o papel da enfermeira como possível agente articuladora de saberes e promotora de ações educativas críticas e antirracistas no cotidiano das equipes interprofissionais. Conclusão: A inserção do LR na educação permanente em saúde requer intencionalidade política, compromisso ético e abordagem interseccional. Ao assumir esse protagonismo, a enfermagem fortalece sua identidade como prática social comprometida com a transformação das relações de cuidado e com a promoção de ambientes institucionais mais equânimes e inclusivos.
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