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Night shift pros and cons in nursing: qualitative study

Facilidades e dificuldades enfrentadas por enfermeiros no trabalho noturno: estudo qualitativo

Las facilidades y las dificultades enfrentadas por los enfermeros en el trabajo nocturno: un estudio cualitativo

Rosângela Marion da Silva 1, Carmem Lúcia Colomé Beck 2, Laura de Azevedo Guido 3, Liana Lautert 4, Juliana Petri Tavares 5, Francine Cassol Prestes 6, Lucimara Rocha 7 

1,2,3,5,6,7 Universidade Federal de Santa Maria, RS, Brasil; 4 Universidade Federal do Rio Grande do Sul, RS, Brasil. 

Abstract: Working at the night shift interferes with the worker personally, socially, and with family matters. The objective of the following qualitative research, conducted in a university hospital in the state of Rio Grande do Sul (Brazil), was to identify the pros and cons faced by nurses in performing nocturnal work. The data collection was made from March to April 2008 through semi-structured interview. The transcription and theme analysis on the data originated pros such as interaction among nursing team and more time availability for personal life; as well as categories for cons, like lack of supporting services and social/work isolation, among others. It is suggested that managers promote collective activities for reflection, stimulating workers to identify benefits and difficulties in the working process, favoring work satisfaction.

Keywords: Work Schedule Tolerance; Occupational Health Nursing; Job Satisfaction. 

Resumo: O trabalho no período noturno interfere na esfera pessoal, social e familiar do trabalhador. O objetivo desta pesquisa qualitativa, que foi realizada em um hospital universitário do Estado do Rio Grande do Sul (Brasil), foi identificar as facilidades e dificuldades enfrentadas por enfermeiros na realização do trabalho noturno. A coleta dos dados foi realizada no período de março a abril de 2008 por meio de uma entrevista semi-estruturada. A transcrição e análise temática dos dados originaram categorias para facilidades, como a interação entre a equipe de enfermagem e a maior disponibilidade de tempo para a vida particular; e categorias para dificuldades, como a carência dos serviços de apoio e o isolamento social e no trabalho dentre outras. Sugere-se que os gestores promovam momentos coletivos de reflexão, para estimular os trabalhadores a identificar benefícios e dificuldades do processo de trabalho, o que poderá favorecer a satisfação no trabalho.

Palavras-chave: Tolerância ao Trabalho Programado; Enfermagem do Trabalho; Satisfação no Emprego. 

Resumen: El trabajo en el período nocturno interfiere en la esfera personal, social y familiar del trabajador. El objetivo de esta investigación cualitativa, que se llevó a cabo en un hospital universitario de la provincia del Rio Grande do Sul (Brasil), fue identificar las facilidades y dificultades enfrentadas por enfermeros en la realización del trabajo nocturno. La recolección de los datos fue realizada en el periodo de marzo a abril del 2008 por medio de una entrevista semiestructurada. La transcripción y el análisis temático de los datos originaron categorías para facilidades, como la interacción entre el equipo de enfermería y  mayor disponibilidad de tiempo para la vida privada; y categorías para dificultades, como la carencia de los servicios de apoyo y el aislamiento social y en el trabajo, entre otras. Se sugiere que los gestores promuevan momentos colectivos de reflexión, para estimular a los trabajadores a identificar beneficios y dificultades del proceso laboral, lo que podrá favorecer la satisfacción en el trabajo. 

Palabras-clave: satisfacción laboral; trabajo nocturno; enfermería.  

Introdução

Esse artigo é um recorte da dissertação de mestrado “Satisfação profissional dos enfermeiros de um hospital universitário no trabalho noturno” 1, defendida no Programa de Pós Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM-RS). Apresenta as facilidades e dificuldades enfrentadas por enfermeiros no exercício profissional no período noturno.

A motivação para a realização deste estudo decorreu da constatação da importância do trabalho na vida do homem, bem como da inquietação diante das facilidades e dificuldades enfrentadas pelo enfermeiro  na realização do trabalho noturno. Nessa direção, estudo 2 aponta que em nossa sociedade, o trabalho é mediador de integração social, tanto por seu valor econômico quanto cultural repercutindo, assim, no modo de vida das pessoas e, consequentemente, na sua saúde física e mental.

O trabalho noturno para os trabalhadores da área saúde, decorre da necessidade de atendimento à população para além do turno diurno. Há estudos que fazem referência tanto a fatores que ora favorecem a realização do trabalho noturno; ora desfavorecem.

É o caso de pesquisa 3 que foi realizada com 415 trabalhadores de enfermagem que destacou como elementos motivadores para a realização do trabalho noturno o tempo disponível junto a familiares, mais tempo durante o dia para resolver assuntos pessoais, a menor freqüência no deslocamento para o emprego, o adicional noturno e a possibilidade de conciliar mais de uma atividade profissional.

Por outro lado, estudos comprovam que o trabalho noturno pode prejudicar as relações sociais e familiares porque impõe, muitas vezes, a continuidade da assistência nos finais de semana e feriados e impede a presença do trabalhador em comemorações familiares e em outros eventos que, na maioria das vezes, são realizados à noite 4,5.

Além disso, é importante observar que esse turno impõe aos trabalhadores a realização de tarefas em horários que contrariam o ritmo biológico 6, ou seja, o trabalho é executado quando o organismo está menos apto a fazê-lo, e o repouso só se efetiva quando o organismo está em atividade intensa. Isso pode levar esse trabalhador a perceber queda no estado de alerta durante a realização do seu trabalho bem como perturbação no seu repouso.

Desse modo, esse estudo se justifica por entender que há a necessidade de conhecer a relação do trabalhador com o processo de trabalho no noturno, uma vez que essa relação pode ter impacto na qualidade da assistência prestada, bem como na satisfação pessoal e profissional do enfermeiro.

          Diante dessas considerações, o objetivo estabelecido pelos pesquisadores foi identificar as facilidades e as dificuldades enfrentadas por enfermeiros na realização do trabalho noturno.  

Metodologia

Para atender ao objetivo, foi utilizada a investigação qualitativa por entender que nessa abordagem são trabalhadas atitudes, crenças, comportamentos e ações, na perspectiva de compreender o ser humano em suas relações com o mundo 7

Os dados foram coletados em março de 2008 em um hospital universitário de alta complexidade da região sul do Brasil. Este é referência em saúde para a região-centro do Rio Grande do Sul enquanto hospital-escola, com sua atenção voltada para o desenvolvimento do ensino, da pesquisa e assistência em saúde.

Os critérios de inclusão dos enfermeiros foram: atuar há, pelo menos, um ano no serviço noturno do hospital universitário em questão, pertencer ao quadro permanente da instituição e estar em efetivo exercício no período da coleta de dados. Foram excluídos os que estavam em licença de qualquer natureza.

A técnica de coleta de dados utilizada foi a entrevista semi-estruturada apoiada em um roteiro com tópicos temáticos. Optou-se por esse tipo de entrevista porque “combina perguntas fechadas e abertas, em que o entrevistado tem a possibilidade de discorrer sobre o tema em questão sem se prender à indagação formulada” 8:91. A entrevista foi individual, em data e horário previamente combinados com o enfermeiro em sua unidade de trabalho, sendo gravada em microgravador digital – MP3 player após a autorização do entrevistado.

Os enfermeiros foram informados sobre os objetivos da pesquisa e a garantia do anonimato. Após os esclarecimentos, foram orientados a realizar a leitura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e, em caso de concordância com os termos expostos, assiná-lo.

Os depoimentos transcritos foram submetidos a técnica de análise temática, uma das modalidades da análise de conteúdo, na tentativa de agrupar as informações por temas que se constituíram nas categorias de análise. Operacionalmente, a análise temática é constituída de três etapas: pré-análise; exploração do material, tratamento dos resultados obtidos e interpretação 8.

As entrevistas foram identificadas por letras e números arábicos a fim de preservar a identidade dos enfermeiros. Assim, foi atribuída a letra E (Enfermeiro) seguida do número arábico (E1, E2, E3,...).

          Ressalta-se que a pesquisa atendeu os princípios da Resolução 196/96 do Conselho Nacional em Saúde 9 e foi submetida ao Comitê de Ética e Pesquisa da instituição em que o hospital está vinculado. Obteve parecer favorável do Certificado de Apresentação para Apreciação Ética (CAAE) sob n° 0012.0.243.000-08 em 12 de fevereiro de 2008, número do processo 23081.000770/2008-61. 

Resultados e Discussão

É importante salientar que foram identificados e entrevistados 66 enfermeiros que atuavam no período noturno no momento da coleta dos dados. No entanto, a partir dos critérios de inclusão e exclusão, a amostra foi composta por 42 enfermeiros que eram do sexo feminino (90,48%), com faixa etária predominante superior a 41 anos de idade (64,28%) e que optaram pelo trabalho noturno (90,48%).

A análise das 42 entrevistas foi organizada a partir de dois temas relevantes: facilidades e dificuldades para a realização do trabalho noturno. As facilidades para a realização do trabalho noturno são entendidas como fatores que influenciam positivamente a realização e o desenvolvimento do trabalho do enfermeiro nesse turno e as dificuldades como os fatores que interferem negativamente nesse processo.

          Com relação ao tema facilidades para a realização do trabalho noturno, emergiram cinco categorias empíricas: ambiente de trabalho mais tranqüilo; interação entre a equipe de enfermagem; maior disponibilidade de tempo para a vida particular; trabalho noturno como possibilidade de maior autonomia e trabalho noturno como possibilidade de qualificação da assistência de enfermagem.

          Na categoria ambiente de trabalho mais tranqüilo, os enfermeiros mencionaram que um dos elementos que facilita a realização das tarefas no noturno é decorrente do menor fluxo de pessoas circulando pelo hospital nesse horário, conforme evidencia o depoimento a seguir: 

[...] a tranqüilidade da unidade, o movimento menor, tu não trabalha com a cabeça tão agitada [...] aquele movimento todo que tem do dia, dos problemas internos e visitas, é muito mais tranqüilo de noite ...se trabalha com a cabeça melhor (E43) 

As atividades desenvolvidas pelo enfermeiro somadas às constantes solicitações a que são submetidos no ambiente de trabalho, muitas vezes, o sobrecarrega. O enfermeiro precisa conciliar as tarefas, prestar assistência com qualidade, supervisionar e orientar os demais trabalhadores de enfermagem e realizar o gerenciamento da unidade. Dessa forma, o ambiente de trabalho mais tranqüilo apontado pelos enfermeiros, que é favorecido pela redução do fluxo de pessoas, pode ser um dos elementos que possibilita a maior satisfação profissional desses trabalhadores porque está diretamente relacionado à atenção diferenciada aos pacientes, acompanhantes e à equipe com quem trabalha.

À semelhança deste estudo, auxiliares de enfermagem 5  também expressaram que o ambiente mais tranqüilo no noturno favorece a realização do trabalho, podendo ser caracterizado como uma particularidade do mesmo.

A limitação no fluxo de pessoas no noturno, por vezes, favorece o relacionamento interpessoal porque promove o entrosamento entre os membros que atuam na assistência direta ao paciente. Assim, na análise das entrevistas, emergiu a categoria empírica interação entre a equipe de enfermagem, que é ilustrada na fala a seguir: 

[...] o entrosamento com o pessoal eu acho muito bom, parece que a gente fica um pouco mais unido, porque fica mais tempo junto.  (E36) 

O trabalho é uma das formas que as pessoas têm de conviver socialmente. Em se tratando, especialmente, de trabalho noturno, o silêncio da noite somado ao enfrentamento pessoal para manter-se acordado possibilita aos trabalhadores a interação. Isso ocorre devido às características do trabalho hospitalar, em que as relações interpessoais assumem papel importante na concepção do trabalho e no sentido que lhe poderá ser conferido10, uma vez que ele congrega diversos trabalhadores com visões diversificadas de mundo e do trabalho assistencial.

Outra facilidade para a realização do trabalho noturno advém na maior disponibilidade de tempo para a vida particular. Nessa categoria, a análise dos depoimentos evidenciou que um dos fatores que facilita a realização do serviço noturno é a menor freqüência de deslocamento para o trabalho, o que compreende a possibilidade de ter mais tempo para a família, para si e para realizar outras atividades como conciliar outro emprego, o que está evidenciado nos depoimentos a seguir:  

[...] parece que tem mais tempo para a família, para se organizar nas coisas da casa. (E54) 

[...] pode conciliar dois empregos [...] se eu tivesse um emprego só, eu preferiria trabalhar de dia. Para mim, eu só estou no turno da noite para conciliar os dois empregos. (E15) 

            O trabalho noturno pode permitir o uso mais flexível das horas diurnas para atender a necessidades particulares, como ter mais tempo com a família, a realização de tarefas domésticas ou ter outro emprego11, Nessa direção, é possível que a busca por outro emprego no período diurno seja questão de sobrevivência, uma complementação na renda da familiar ou, dentre outras possibilidades, uma forma de lutar por espaço na vida social. De qualquer maneira, o duplo vínculo pode possibilitar maior ganho financeiro para suprir as necessidades dos enfermeiros e de seus familiares.

No entanto, há de se ressaltar que o enfermeiro que trabalha no noturno realiza suas atividades em um horário em que precisaria descansar. Ir de encontro ao ritmo fisiológico natural pode representar uma agressão ao organismo e comprometer a qualidade de vida e saúde do trabalhador. Colaboram para essa idéia autores que afirmam que “trabalhar no sentido inverso ao funcionamento fisiológico do organismo pode levar a alterações do desempenho, com conseqüências prejudiciais para a segurança dos trabalhadores” 12:394 . Portanto, o trabalhador deveria conhecer seu cronotipo para evitar a discordância  entre o turno de trabalho e ritmo biológico de seu corpo.

O trabalho noturno como possibilidade de maior autonomia foi outra categoria empírica construída. Para os enfermeiros, o trabalho no noturno possibilita maior liberdade para tomar decisões: 

[...] o trabalho noturno é bastante diferente do diurno [...] tu toma várias decisões [...] não é que nem do dia, que tu tem várias pessoas a quem recorrer, tipo direção, outros serviços. Durante a noite tu tens várias decisões que são tuas mesmo! Eu acho que tem mais autonomia e um pouco mais de responsabilidade! (E64) 

A autonomia do enfermeiro no período noturno é inquestionável uma vez que, muitas vezes, pela ausência dos gestores nesse período, ele gerencia o cuidado e resolve as intercorrências do serviço, mesmo sem a cooperação dos gestores no processo de tomada de decisão o que pode ser um fator que favoreça a emancipação desse trabalhador. No entanto, ainda há limitações por parte dos enfermeiros no desenvolvimento de uma prática autônoma13, tendo em vista que a formação acadêmica não tem fomentado a autonomia, aspecto potencializado pela ausência na discussão acerca do papel profissional do enfermeiro.

Os enfermeiros, inseridos no mundo do trabalho, assumem papéis de autonomia de ação, governabilidade de seu exercício profissional e desenvolvem um ambiente de trabalho saudável por meio da alteração de situações desgastantes que exigem tomadas de decisão 14.

            Propiciar a autonomia dos trabalhadores por meio do pensar/fazer seu trabalho e por meio da ampliação dos processos de criação, permite transitar da dor ao prazer no trabalho 15. Assim, “quando o sofrimento pode ser transformado em criatividade, ele faz uma contribuição que beneficia a identidade” 16:137.

Nessa perspectiva, compreende-se que o trabalhador que tem oportunidade de exteriorizar suas opiniões, atuando de forma efetiva no processo de tomada de decisões, tem retorno do seu trabalho, o que pode contribuir para a sua satisfação profissional.

Outra categoria empírica construída foi trabalho noturno como possibilidade de qualificação da assistência. A questão da possibilidade de se organizar melhor no serviço, bem como se dedicar mais às necessidades dos pacientes foi destaque: 

[...] durante a noite a assistência é mais direta com o paciente. De dia tu te envolves com muitas coisas, é horário de visita, é exame toda hora, então tu fica mais afastada da assistência, porque tu ficas resolvendo burocracia [...] é um aspecto que à noite fica mais direcionada para a assistência. (E33) 

Em estudo17 sobre as atividades desenvolvidas pelo enfermeiro para atender o paciente hospitalizado se verificou que diante da rotina diária, intensa e complexa do trabalho hospitalar a equipe de enfermagem, geralmente, tem pouco tempo disponível para tocar, conversar e ouvir o paciente.

No entanto, conforme análise das entrevistas, a realização do trabalho no período noturno faz emergir no enfermeiro o sentimento de recompensa do seu trabalho nas 12 horas, ou seja, há uma tendência em pensar que a assistência é mais qualificada à noite, uma vez que nesse turno o enfermeiro tem menor demanda de atividades burocráticas, o que possibilita a realização de atividades junto aos pacientes.

No processo de trabalho em saúde ocorre uma utilização intensa do corpo e da mente dos trabalhadores de enfermagem como instrumentos de seu trabalho18. Assim, a enfermagem, por deter boa parcela das informações relativas às condições do ambiente de trabalho e do processo assistencial, organiza o ambiente do cuidado e controla a assistência.

          O tema dificuldades para a realização do trabalho noturno é constituído por quatro categorias: carência dos serviços de apoio; ausência de plantonista médico para cada unidade hospitalar; isolamento social e no trabalho e desgaste do enfermeiro causado pela realização do trabalho noturno.

A carência dos serviços de apoio foi construída a partir de relatos de descontentamento em relação a vários setores que não funcionam ou funcionam precariamente no noturno, o que dificulta tanto a assistência direta ao paciente, quanto o trabalho burocrático da enfermagem. Destacam-se a carência do serviço de radiologia, da farmácia, da ausência de serviços de manutenção elétrica e de equipamentos, de secretária a partir de determinado horário noturno, das chefias de enfermagem e do setor administrativo na instituição. Nas entrevistas, a dificuldade para agilizar a assistência, somada à dificuldade para resolver as intercorrências foram destaque, conforme fala a seguir: 

[...] é que às vezes é mais difícil resolver as coisas, porque de dia tem secretário, telefonista, coordenação, se quer resolver alguma coisa [...] nesse aspecto administrativo e gerencial eu vejo essa dificuldade, porque de dia parece que tem muito mais recurso do que no alto da madrugada. (E17) 

No depoimento, percebe-se que o enfermeiro relata as dificuldades enfrentadas na realização do trabalho no período noturno uma vez que não consegue desempenhar as atividades como gostaria porque procura resolver as mais diversificadas situações. A precariedade dos demais serviços hospitalares pode impossibilitar a realização da assistência de enfermagem com a qualidade desejada pelo enfermeiro, fator esse que tem influência sobre o sentimento do trabalhador com relação à atividade desempenhada. Essa situação pode atingir a saúde dos trabalhadores possibilitando a ocorrência de desgaste, envelhecimento e doenças somáticas.

Sobre isso, cabe lembrar que além do desgaste físico, ocorre também o sofrimento psíquico, pois o corpo é de um sujeito portador de desejos e projetos16. O sofrimento ou desgaste psíquico precisa ser identificado no cotidiano laboral uma vez que pode comprometer a saúde do trabalhador.

Estudo 10 aponta o ritmo de trabalho como fator de desgaste psíquico de enfermeiras de um hospital universitário e apresenta relevantes considerações sobre a valorização do trabalho do enfermeiro, no sentido de que esse profissional é mais valorizado quando trabalha sob condições inadequadas de trabalho, nas quais parece “estar purificando a alma”. O referido estudo compara a situação enfrentada pela enfermeira com a Idade Média, em que o mérito dos cuidadores estava no sacrifício, na abnegação e na doação incondicional. A inadequação das condições do ambiente de trabalho interfere negativamente na realização do trabalho, principalmente quando há falta de profissionais para compartilhar as decisões 10.

Por que os enfermeiros precisam resolver questões que não são de sua responsabilidade? Uma das respostas para essa questão pode residir na hegemonia feminina da profissão de enfermagem, que traz consigo a figura da mulher atrelada à profissão, ou seja, aquela que resolve todos os problemas.

Acredita-se que a adequada oferta de serviços de apoio poderia contribuir para melhores resultados no que se refere à qualidade da assistência prestada e, conseqüentemente, para a satisfação profissional do enfermeiro 18. Também denota respeito, proporcionando ao trabalhador um ambiente laboral favorável à realização das atividades e ao controle sobre a realização do trabalho.

Os sentimentos de indignação e preocupação com as condições de trabalho manifestadas pelos enfermeiros estão vinculados a aspectos que não dependem deles, o que repercute na sobrecarga, por terem que assumir responsabilidades e papéis que não lhes competem, conduzindo-os a um progressivo sofrimento. Acredita-se que estratégias para esses problemas deveriam ser construídas cotidianamente pelos enfermeiros do serviço noturno, bem como se espera que haja o compartilhamento das responsabilidades entre chefias, enfermeiros e equipe multiprofissional.

Outra dificuldade apontada pelos enfermeiros para a realização do trabalho no noturno se refere à ausência de médicos plantonistas em cada unidade hospitalar. Há justificativa quanto à necessidade de plantão médico: 

[...] acho que já foi aquele tempo de ser reconhecido pelo fazer: aquela enfermeira faz tudo na unidade!, O médico não precisa estar lá, porque ela toma conta de tudo!. Não! Cada um tem que dar conta da sua atividade, de acordo com a sua competência [...] (E45) 

A ausência de médicos plantonistas tem repercussões no atendimento, especialmente nas intercorrências e, consequentemente, na assistência de enfermagem inviabilizando, muitas vezes, a sua realização. Assim, o sentimento de impotência para resolução de determinadas situações pode interferir negativamente no sentimento de satisfação do enfermeiro, pois a inexistência de um médico plantonista para cada unidade se traduz na impossibilidade de realizar medidas interventivas imediatas ao paciente.

Outra categoria empírica que emergiu da análise dos depoimentos foi o isolamento social e no trabalho. As relações sociais dos enfermeiros que exercem suas atividades no noturno ficam prejudicadas porque eles trabalham enquanto as demais pessoas dormem, trabalham enquanto os familiares se reúnem para comemorar feriados e datas importantes. Logo, a família fica em segundo plano, conforme evidencia a fala a seguir:

[...] muitas vezes meu marido vai às festas sozinho, porque eu preciso trabalhar, muitas vezes não consigo trocar de plantão [...] (E23) 

Para os que trabalham à noite, em particular, os problemas vivenciados relacionam-se a um cotidiano diferente do restante da comunidade, como é o caso da convivência com familiares e amigos, além da relativa impossibilidade de participar de outros compromissos, caminhando para o isolamento social.

Além do sentimento de isolamento social, os enfermeiros expressaram o sentimento de solidão com relação ao ambiente de trabalho. Manifestaram que se sentiam solitários, isolados, fora da rotina, e que o desenvolvimento de seu trabalho no noturno, muitas vezes, inviabiliza também a sua participação em atividades propostas pelo hospital: 

[...] a gente fica mais afastada do dia-a-dia. Às vezes, chega de noite e já teve muitas mudanças [...]  tu chega e já está diferente, já foi mudado e tu vai ficar sabendo bem mais tarde.  (E33) 

            Na literatura, há destaque para os sentimentos dos trabalhadores que realizam suas atividades no noturno em relação ao restante do grupo, como sentimento de exclusão, revolta, desprezo e de isolamento19. Outro estudo 5 também encontrou dados relativos a sentimentos de discriminação dos auxiliares de enfermagem do noturno em relação aos colegas do diurno.

Outra dificuldade para a realização do trabalho noturno foi o desgaste do enfermeiro causado pela realização do trabalho no noturno, outra categoria empírica. Por meio da análise das entrevistas, observa-se a menção ao sono e ao descanso, em relatos que permitem depreender temas que descrevem como o trabalhador vivencia a inversão dos horários:  

O repouso, por mais que no outro dia tu possas descansar, o teu organismo não descansa, a própria luz, por mais que tu te esconda em um quarto escuro o organismo não descansa como à noite [...] o sono da noite é diferente do dia [...] (E28) 

Em determinadas circunstâncias, as alterações dos horários de sono e vigília, somadas à discordância entre os ritmos biológicos e o turno de trabalho, conduzem ao desgaste. O organismo tenta se adaptar à situação imposta diariamente, o que exige do trabalhador esforços físicos ou psíquicos elevados, que podem levar a distúrbios relacionados ao bem-estar e até mesmo a doenças 4.  

Trabalhar no período noturno pode comprometer o desempenho das atividades e a segurança do trabalhador uma vez que, inevitavelmente, há queda do estado de alerta. Esse fator implica em menor concentração, o que o expõe a maiores riscos de acidentes de trabalho e pode comprometer a qualidade da assistência.

Desse modo, a especificidade da organização do trabalho noturno ao desconsiderar, o limite do trabalhador, o conduz a um sentimento de impotência, uma vez que ele é confrontado com o seu ritmo biológico, ou seja, com o sono que naturalmente surge. Esse sentimento pode levar a insatisfação e descontentamento em relação ao trabalho, pois é exigido do enfermeiro grande esforço físico e mental para manter-se acordado.

Alguns entrevistados, apesar de perceberem o desgaste decorrente do trabalho noturno, afirmam fazê-lo por opção, o que pode levar à banalização do sofrimento. É o que mostra o relato a seguir:       

[...] serviço noturno é muito desgastante! Embora eu goste do noturno, eu me sinto cansada! Eu me sinto fora do “eixo”, tive dificuldades de ir para casa outro dia. O desgaste à noite é muito grande. Mesmo assim, ainda prefiro trabalhar no noturno, porque tenho mais tempo em casa. (E36) 

O trabalhador, embora reconheça uma das conseqüências do serviço noturno em sua vida, transcende as próprias indicações do corpo e banaliza o seu sofrimento. Isso traz alguns questionamentos para a discussão: como garantir a qualidade da assistência de enfermagem, profissão que trabalha com vidas, quando o trabalhador fica com o estado de alerta diminuído em função do desgaste físico e mental?

Se por um lado, o estado de alerta é fundamental na realização de uma assistência de enfermagem com qualidade; de outro, o prolongamento do mesmo pode trazer sérios prejuízos à vida, considerando-se que a percepção do estado de alerta e o seu enfrentamento dependem de cada indivíduo e se constituem elementos fundamentais para a realização profissional e pessoal. No entanto, o estado de alerta permanente aliado à ausência de estratégias para condução das situações desgastantes no trabalho podem levar o trabalhador a uma fragilização do corpo e do espírito.

          Diante disso, embora o objeto central desse estudo sejam as facilidades e dificuldades enfrentadas por enfermeiros no serviço noturno, não há como desconsiderar que essas questões têm relação direta com a satisfação profissional desse trabalhador.  

Considerações Finais

          Como facilidades, os enfermeiros mencionaram que o trabalho noturno proporciona maior interação entre a equipe de enfermagem, mais autonomia ao enfermeiro e a possibilidade de oferecer uma assistência diferenciada ao paciente. Isso de deve a possibilidade de contato mais prolongado com o mesmo, viabilizando um cuidado específico, o que pode ser um importante fator relacionado à satisfação pessoal e profissional.

          Entretanto, a maior autonomia referida pelos enfermeiros neste estudo, em algumas situações, pode se configurar em desafio e retratar o desamparo dos enfermeiros diante de situações comuns no noturno, como a ausência de plantonista médico para cada unidade hospitalar, carência dos serviços de apoio e o próprio sentimento de solidão com relação à instituição, o que pode remeter a sobrecarga de trabalho e ao desgaste, apontados como dificuldades no trabalho noturno. Acredita-se que essas situações podem comprometer a qualidade da assistência e a satisfação profissional dos enfermeiros do noturno.

Muitas vezes o cotidiano laboral não possibilita aos enfermeiros momentos para refletir sobre o seu processo de trabalho. No entanto, na ocorrência desse momento, podem surgir estratégias e o desejo dos trabalhadores de se envolverem em benefício da qualidade de vida no trabalho.

Dessa forma, as recomendações deste estudo são de que os gestores promovam ações voltadas para a melhoria das condições de trabalho no noturno, como serviços de apoio, plantonista para cada unidade de trabalho, bem como haja a oferta de momentos coletivos de reflexão que possibilitem ao trabalhador exteriorizar seus sentimentos com relação ao trabalho.

          A abordagem “trabalho noturno” e “saúde do trabalhador de enfermagem” é atual e desafiadora, apresentando-se como uma temática que carece de investigações por parte dos pesquisadores, no sentido de ofertar aos trabalhadores noturnos dados que os auxiliem a identificar os benefícios e as dificuldades que podem estar presentes no exercício laboral no noturno bem como estratégias para enfrentá-lo. 

Referências

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Nota: Este artigo é um recorte de uma dissertação de mestrado apresentada em dezembro de 2008 ao Programa de Pós Graduação em Enfermagem da UFSM, Santa Maria, RS.  

Banca da Examinadora da Dissertação: Dra. Laura de Azevedo Guido (UFSM) e Dra. Liana Lautert (UFRGS). 

Contribuição dos autores: Pesquisa bibliográfica: Rosângela Marion da Silva, Juliana Petri Tavares, Francine Cassol Prestes - Coleta dos dados- Rosângela Marion da Silva - Concepção e desenho: Rosângela Marion da Silva, Carmem Lúcia Colomé Beck - Análise e interpretação Rosângela Marion da Silva, Carmem Lúcia Colomé Beck, Laura de Azevedo Guido, Liana Lautert, Juliana Petri Tavares, Francine Cassol Prestes, Lucimara Rocha - Revisão crítica do artigo: Rosângela Marion da Silva, Carmem Lúcia Colomé Beck, Laura de Azevedo Guido, Liana Lautert, Juliana Petri Tavares, Francine Cassol Prestes, Lucimara Rocha - Aprovação final do artigo: Rosângela Marion da Silva e Carmem Lúcia Colomé Beck.  

Rosângela Marion da Silva: e-mail: rosangelamarion@smail.ufsm.br

 

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