
ARTIGO ORIGINAL
UNIVERSIDADE PROMOTORA DA SAÚDE E CONSTRUÇÃO DE UM MARCO CONCEITUAL: ESTUDO QUALITATIVO DOCUMENTAL*
Antônio Carlos Pereira Junior1, Ivonete Teresinha Schülter Buss Heidemann2, Priscila Verônica Smolen Monteiro3
1 Universidade Federal de Santa Catarina, Programa de Pós-Graduação em Enfermagem. Florianópolis, Santa Catarina, Brasil. ORCID: 0000-0002-4111-7438. E-mail: acpjunior5@hotmail.com.
2 Universidade Federal de Santa Catarina, Programa de Pós-Graduação em Enfermagem. Florianópolis, Santa Catarina, Brasil. ORCID: 0000-0001-6216-1633. E-mail: ivoneteheideman@gmail.com.
3 Universidade Federal de Santa Catarina, Programa de Pós-Graduação em Enfermagem. Florianópolis, Santa Catarina, Brasil. ORCID: 0009-0004-3728-8674. E-mail: priscila.smolen@yahoo.com.br.
RESUMO
Objetivo: Analisar as cartas, declarações e documentos estruturantes produzidos no âmbito da Rede Ibero-Americana de Universidades Promotoras da Saúde e, a partir dessa análise, construir um marco conceitual para a Universidade Promotora da Saúde. Método: Estudo qualitativo, documental e de caráter teórico-analítico, orientado pela análise temática reflexiva. O corpus foi composto por 12 documentos produzidos entre 2003 e 2025, selecionados por sua centralidade na consolidação do movimento e por seu papel na definição de diretrizes institucionais. Resultados: Os documentos evidenciaram que o campo das Universidades Promotoras da Saúde se constitui como uma construção histórica e progressiva, marcada pela passagem de iniciativas de legitimação institucional para um modelo integrado. A análise permitiu identificar cinco dimensões estruturantes e inter-relacionadas: institucional, política, pedagógica, sociocomunitária e transversal-sistêmica. A articulação entre essas dimensões fundamentou o marco conceitual proposto. Observou-se assimetria no desenvolvimento do campo, com maior consolidação das dimensões institucional e política e menor detalhamento da dimensão pedagógica. Conclusão: O estudo sistematiza teoricamente o campo das Universidades Promotoras da Saúde, propõe um marco conceitual e evidencia a centralidade do fortalecimento da dimensão pedagógica para a consolidação do modelo no ensino superior.
Descritores: Promoção da Saúde; Política de Educação Superior; Universidades; Capacitação Profissional; Política de Saúde.
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Como citar: Pereira Junior AC, Heidemann ITSB, Monteiro PVS. Health-promoting university and construction of a conceptual framework: a qualitative documentary study. Online Braz J Nurs. 2026;25(1):e20267021. https://doi.org/10.17665/1676-4285.20267021 |
O que já se sabe:
A Universidade Promotora da Saúde tem se consolidado como abordagem estratégica para integrar promoção da saúde, responsabilidade social e sustentabilidade no ensino superior.
A produção da Rede Ibero-Americana evidencia avanços conceituais e políticos, expressos em cartas e declarações ao longo de mais de duas décadas.
Persistem lacunas na sistematização teórica do campo, especialmente na articulação entre as dimensões institucional, pedagógica e territorial.
O que este artigo acrescenta:
Propõe um marco conceitual estruturado para a Universidade Promotora da Saúde, fundamentado na análise de documentos da Rede Ibero-Americana.
Identifica cinco dimensões inter-relacionadas que organizam o campo e ampliam a compreensão de sua complexidade institucional, política e pedagógica.
Evidencia assimetria no desenvolvimento do campo, destacando a fragilidade da dimensão pedagógica e a necessidade de sua operacionalização curricular.
INTRODUÇÃO
Nas últimas décadas, a promoção da saúde passou por um importante deslocamento teórico e político, deixando de ser compreendida como um conjunto de ações preventivas centradas no comportamento individual para consolidar-se como abordagem estratégica voltada à atuação sobre os determinantes sociais, à promoção da equidade e ao fortalecimento da participação social. Esse movimento contribuiu para a emergência da abordagem dos ambientes promotores de saúde, ampliando o papel de instituições sociais na produção de bem-estar e qualidade de vida, incluindo escolas, cidades, locais de trabalho e universidades(1-2).
No ensino superior, essa inflexão se materializa na proposta das Universidades Promotoras da Saúde, que concebe a universidade como ambiente complexo capaz de influenciar modos de vida, relações sociais, produção de conhecimento e compromisso com o desenvolvimento sustentável. Nessa perspectiva, a promoção da saúde deixa de ser uma dimensão periférica e passa a integrar a cultura institucional, as políticas organizacionais e as práticas acadêmicas, configurando uma abordagem sistêmica e transversal(3-4).
A Carta de Okanagan representa um marco central nesse processo ao propor a integração da promoção da saúde em todos os aspectos da vida universitária e ao convocar as instituições de ensino superior a assumirem liderança local e global nesse campo. Embora produzida fora do âmbito formal da Rede Ibero-Americana de Universidades Promotoras da Saúde (RIUPS), a carta foi amplamente incorporada ao movimento ibero-americano, passando a integrar seu repertório conceitual e político e sendo disponibilizada, difundida e referenciada pela própria rede em suas estratégias de cooperação e desenvolvimento institucional. Seus princípios influenciaram diretamente documentos posteriores da RIUPS, especialmente no que se refere à abordagem sistêmica, à integração institucional da promoção da saúde, à governança participativa, à sustentabilidade, à responsabilidade social e à articulação entre universidade e território. Processo semelhante ocorreu, ainda que em menor intensidade, com a Edmonton Charter, cujos princípios relativos aos ambientes saudáveis e ao compromisso institucional contribuíram para a consolidação inicial do campo. Desde então, observa-se a ampliação do uso desses referenciais para reorganização de políticas institucionais, fortalecimento de abordagens integradas e incorporação de princípios como equidade, sustentabilidade e responsabilidade social. No entanto, a literatura também aponta que a tradução desses princípios em práticas institucionais concretas, especialmente no âmbito da formação acadêmica, permanece desigual e incompleta(5-6).
No contexto ibero-americano, a Rede Ibero-Americana de Universidades Promotoras da Saúde tem desempenhado papel central na consolidação política e conceitual do campo, articulando congressos, declarações e documentos orientadores que expressam compromissos coletivos e diretrizes institucionais. Ao longo de mais de duas décadas, esse conjunto documental passou a constituir um corpus normativo relevante para a compreensão da evolução da Universidade Promotora da Saúde, evidenciando deslocamentos conceituais, ampliação de escopo e fortalecimento da institucionalização do movimento(7-8).
Apesar desse acúmulo, ainda são limitados os estudos que sistematizam teoricamente esse corpus como base para a construção de um marco conceitual integrado. Revisões recentes indicam que o campo das Universidades Promotoras da Saúde é sustentado por múltiplos referenciais, mas carece de uma estrutura analítica capaz de articular princípios, dimensões institucionais e implicações formativas. De forma convergente, estudos sobre implementação mostram que as universidades apresentam níveis desiguais de incorporação dessas diretrizes, com fragilidades na institucionalização, na avaliação e, sobretudo, na integração curricular da promoção da saúde(4,9).
Essa lacuna torna-se particularmente relevante no campo da formação acadêmica, no qual persistem desafios relacionados à fragmentação curricular, à baixa integração interprofissional e à dificuldade de articulação entre saberes acadêmicos e demandas sociais. Evidências recentes apontam a insuficiência de modelos pedagógicos capazes de sustentar uma formação crítica, transversal e orientada ao território, indicando a necessidade de maior densidade conceitual e operacional nesse campo(10-11).
Nesse cenário, as cartas e declarações da Rede Ibero-Americana de Universidades Promotoras da Saúde podem ser compreendidas não apenas como registros históricos, mas como um corpus documental estratégico para análise dos sentidos, compromissos e limites do movimento. Produzidos no contexto dos congressos ibero-americanos e de processos coletivos de pactuação institucional, esses documentos expressam, de forma acumulativa, a evolução conceitual e política do campo, constituindo um espaço privilegiado de síntese e direcionamento das agendas de promoção da saúde no ensino superior.
Em uma leitura preliminar desse corpus textual, evidencia-se que os documentos não constituem um conjunto homogêneo, mas expressam uma trajetória progressiva de consolidação do movimento das Universidades Promotoras da Saúde. Observa-se a transição de uma fase inicial de mobilização e definição conceitual para um momento de institucionalização e integração sistêmica, culminando, mais recentemente, em uma agenda ampliada que incorpora dimensões como equidade, sustentabilidade, saúde mental e responsabilidade social. Essa dinâmica histórica reforça a necessidade de uma articulação que considere não apenas o conteúdo dos documentos, mas também seus deslocamentos ao longo do tempo.
Apesar de sua relevância, esses documentos têm sido, em geral, utilizados de forma fragmentada na literatura, sem uma análise integrada capaz de apreender sua articulação histórica e suas implicações para a organização do campo. Nesse sentido, a análise sistemática e contextualizada desse conjunto documental representa uma abordagem ainda pouco explorada, permitindo compreender o que esses textos enunciam quando considerados em conjunto e como estruturam, de forma implícita e progressiva, um referencial para a Universidade Promotora da Saúde.
Ao propor uma leitura articulada, este estudo avança ao sistematizar esse corpus como base para a construção de um marco conceitual interpretativo, contribuindo para a organização teórica do campo e para o enfrentamento de suas lacunas, especialmente no que se refere à sua tradução em práticas institucionais e formativas no ensino superior. Diante disso, este estudo teve como objetivo analisar cartas, declarações e documentos estruturantes da Rede Ibero-Americana de Universidades Promotoras da Saúde e de marcos internacionais incorporados ao movimento, com vistas à construção de um marco conceitual para a Universidade Promotora da Saúde.
MÉTODO
Trata-se de um estudo qualitativo, de natureza documental e caráter teórico-analítico, orientado pela análise temática reflexiva proposta por Braun e Clarke(12), compreendida como um processo interpretativo, iterativo e recursivo de construção de sentidos, no qual os movimentos analíticos se desenvolvem de forma dinâmica e reflexiva ao longo da investigação. Essa abordagem permite a identificação e interpretação de padrões de sentido, convergências, deslocamentos e lacunas em um corpus de natureza normativo-política, no qual os documentos são compreendidos como artefatos institucionais e políticos que expressam direcionalidades do campo.
O corpus foi composto por documentos produzidos no âmbito da Rede Ibero-Americana de Universidades Promotoras da Saúde e por marcos internacionais posteriormente incorporados e apropriados pelo movimento ibero-americano das Universidades Promotoras da Saúde, elaborados entre 2003 e 2025 e selecionados por sua centralidade na trajetória de consolidação do campo e por seu papel na definição de diretrizes institucionais.
Foram incluídos documentos fundacionais, declarações congressuais e cartas orientadoras que expressam marcos sucessivos de organização do campo, a saber: Guía para Universidades Saludables y otras Instituciones de Educación Superior de 2003(13), Edmonton Charter de 2006(14), Acta constitutiva da RIUPS de 2007(8), Declaração de Pamplona de 2009(15), Declaração de Costa Rica de 2011, Declaración conmemorativa de los diez años del Movimiento de Universidades Promotoras de la Salud en la Región de las Américas de 2013(16), Carta de Okanagan de 2015(17), Declaração de Alicante de 2017(18), Declaração de Monterrey de 2019(19), Declaração de Coimbra de 2022(20), Carta de Niterói de 2024(21) e o Marco de Ação de Limerick de 2025(22).
Destaca-se que a análise da Declaração de Costa Rica valeu-se de material analítico reconstruído a partir de registros institucionais e referências secundárias oriundas da própria rede, devido à indisponibilidade de versão oficial integral do documento.
A constituição do corpus e o processo interpretativo foram conduzidos à luz de critérios de rigor metodológico reconhecidos para pesquisas qualitativas documentais, contemplando a autenticidade dos documentos, sua credibilidade institucional, representatividade para a trajetória do movimento e significado analítico no contexto investigado (23,24). Esses critérios orientaram tanto a seleção documental quanto a interpretação dos achados, contribuindo para a consistência e a robustez da análise.
A seleção considerou documentos com caráter orientador, abrangência internacional e reconhecimento institucional no campo das Universidades Promotoras da Saúde, disponibilizados pela Rede Ibero-Americana de Universidades Promotoras da Saúde e por instâncias correlatas do movimento.
Em consonância com a natureza iterativa e recursiva da Análise Temática Reflexiva, a análise foi desenvolvida em quatro movimentos analíticos articulados(12). O primeiro consistiu na constituição e ordenamento cronológico do corpus, permitindo a apreensão da trajetória histórica do movimento. O segundo envolveu leitura integral, repetida e comparativa dos documentos, com vistas à familiarização com seus enunciados centrais, compromissos explícitos e pontos de inflexão. O terceiro correspondeu à codificação temática dos núcleos de sentido recorrentes, com atenção às dimensões relacionadas à institucionalização da promoção da saúde, ao papel da universidade, à formação acadêmica, à participação da comunidade universitária e à transversalidade das ações. Os temas foram derivados indutivamente a partir do corpus, sem definição prévia de categorias analíticas, em consonância com a abordagem reflexiva. O quarto movimento consistiu na síntese interpretativa dos temas, com agrupamento em dimensões analíticas mais amplas e construção de relações entre elas, resultando na proposição de um marco conceitual para a Universidade Promotora da Saúde. Essa etapa foi conduzida de forma reflexiva, considerando o contexto de produção dos documentos, suas convergências e tensões, bem como os deslocamentos conceituais identificados ao longo do tempo, permitindo a construção de uma leitura analítica orientada pela historicidade do corpus.
O processo analítico foi conduzido de forma iterativa e reflexiva, com retorno contínuo aos documentos ao longo das etapas de codificação e síntese, garantindo coerência interna e aprofundamento interpretativo. Em consonância com os pressupostos da Análise Temática Reflexiva, as interpretações produzidas foram continuamente discutidas, refinadas e problematizadas no contexto das atividades de orientação e acompanhamento da pesquisa de doutorado, incluindo momentos de discussão analítica com a orientadora e espaços acadêmicos de acompanhamento e avaliação da investigação, funcionando como estratégia de debriefing analítico, refinamento interpretativo e ampliação da reflexividade do processo de análise.
O rigor metodológico foi sustentado pela leitura reiterada do corpus, comparação constante entre documentos, revisão contínua das interpretações e observância dos critérios de autenticidade, credibilidade, representatividade e significado, reconhecidos como referenciais de qualidade para pesquisas qualitativas documentais.
A análise foi posteriormente contextualizada à luz da literatura científica recente sobre Universidades Promotoras da Saúde, com o objetivo de situar os achados no campo acadêmico e ampliar sua interpretação.
A análise adotou uma perspectiva interpretativa crítica, reconhecendo os documentos como produções sociopolíticas situadas.
Este estudo integra uma pesquisa de doutorado em Enfermagem, cujo recorte corresponde à etapa teórico-analítica de análise documental e construção de um marco conceitual.
RESULTADOS
O corpus analisado foi constituído por 12 documentos institucionais publicados entre 2003 e 2025. Quanto à natureza dos materiais, o perfil caracteriza-se por uma predominância de Cartas e Declarações oriundas de congressos internacionais da Rede Ibero-Americana de Universidades Promotoras da Saúde, além de marcos de ação estratégica e guias técnicos de orientação institucional. Os documentos apresentam abrangência internacional, com publicações originais nos idiomas espanhol, inglês e português, refletindo a pluralidade e a cooperação entre as instituições da rede ibero-americana. No que se refere ao público-alvo, os textos enunciam diretrizes voltadas a gestores universitários, formuladores de políticas públicas e à comunidade acadêmica ampliada, estabelecendo compromissos políticos e normativos para a institucionalização da promoção da saúde no ensino superior.
A análise dos documentos evidenciou que o campo das Universidades Promotoras da Saúde se constitui como uma construção histórica e progressiva, marcada por deslocamentos na compreensão do papel da universidade, na institucionalização da promoção da saúde e na sua articulação com a formação acadêmica.
Ao longo do período analisado, observa-se a passagem de iniciativas voltadas à legitimação da universidade como espaço promotor de saúde para a consolidação de um modelo institucional integrado, com implicações políticas, pedagógicas e sociocomunitárias mais amplas. Essa trajetória não se desenvolve de forma linear, mas por meio de sobreposições e aprofundamentos sucessivos, nos quais novos documentos retomam, ampliam e ressignificam diretrizes anteriormente estabelecidas, evidenciando um processo cumulativo de densificação conceitual e operacional(8,13,16-17).
O Quadro 1 apresenta a síntese dos documentos analisados e suas principais contribuições para a evolução do campo. Destaca-se que a análise da Declaração de Costa Rica (2011) foi realizada a partir de registros institucionais e referências secundárias produzidas, difundidas ou reconhecidas no âmbito da RIUPS e do movimento das Universidades Promotoras da Saúde, em razão da indisponibilidade de sua versão oficial integral.
Quadro 1 – Documentos analisados e síntese analítica da evolução do campo das Universidades Promotoras da Saúde. Florianópolis, SC, Brasil, 2026
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Documento |
Ano |
Foco analítico predominante |
Contribuição para o campo |
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Guía para Universidades Saludables |
2003 |
Reconhecimento da universidade como entorno promotor de saúde |
Introduz diretrizes iniciais e amplia a noção de promoção da saúde para cultura institucional e processos formativos |
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Edmonton Charter |
2006 |
Ambientes saudáveis e compromisso institucional |
Consolida princípios conceituais e define o papel da universidade na promoção da saúde |
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Acta constitutiva da RIUPS |
2007 |
Articulação em rede |
Institucionaliza o movimento e estabelece estrutura de cooperação internacional |
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Declaração de Pamplona |
2009 |
Expansão e cooperação |
Amplia o papel da universidade na formação, inovação e impacto social |
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Declaração de Costa Rica |
2011 |
Comunidade e transformação social |
Fortalece a dimensão sociocomunitária e a formação crítica |
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Declaração comemorativa dos dez anos do movimento |
2013 |
Institucionalização |
Define a incorporação da promoção da saúde à missão, visão e planejamento institucional |
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Carta de Okanagan |
2015 |
Integração sistêmica |
Estabelece abordagem transversal e integração em toda a universidade |
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Declaração de Alicante |
2017 |
Governança e participação |
Reforça políticas institucionais, participação democrática e sustentabilidade |
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Declaração de Monterrey |
2019 |
Articulação com políticas públicas |
Amplia o papel político e a inserção social da universidade |
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Declaração de Coimbra |
2022 |
Equidade e sustentabilidade |
Integra promoção da saúde aos ODS e à agenda global |
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Carta de Niterói |
2024 |
Institucionalização avançada |
Consolida políticas institucionais e enfatiza formação e governança |
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Marco de Ação de Limerick |
2025 |
Implementação e avaliação |
Propõe framework operacional e consolida a agenda contemporânea |
Fonte: elaborado pelos autores, 2026.
Evolução histórica do campo
Os documentos iniciais concentram-se na legitimação da universidade como espaço estratégico para a promoção da saúde e na construção de seus fundamentos conceituais e organizacionais. A Guía de 2003(13) indica a necessidade de superar abordagens centradas no comportamento individual ao introduzir a universidade como entorno promotor de saúde, articulando cultura institucional, ambiente e processos formativos. Essa formulação estabelece um deslocamento da promoção da saúde para além da dimensão individual, inserindo-a na lógica institucional.
Essa perspectiva é aprofundada pela Edmonton Charter, que explicita que as funções universitárias de ensino, pesquisa e extensão posicionam a universidade como agente ativo na produção de saúde e bem-estar(14). A Acta constitutiva da RIUPS, ao institucionalizar o movimento em rede, organiza essa agenda emergente e estabelece mecanismos de cooperação, formação e disseminação que permitem a transição de experiências isoladas para um campo estruturado(8).
Observa-se, nesse conjunto inicial de documentos, a coexistência entre a definição conceitual do campo e a criação de condições políticas e organizacionais para sua expansão.
A partir de 2009, os documentos passam a ampliar de forma consistente o papel social e político da universidade. A Declaração de Pamplona desloca o foco da organização institucional para a atuação da universidade como agente de transformação social, articulando formação integral, inovação e compromisso com a sociedade(15). Essa inflexão é aprofundada pela Declaração de Costa Rica, que introduz de forma mais explícita a centralidade da comunidade universitária como sujeito coletivo e reforça a relação entre promoção da saúde, território e formação crítica.
Esse movimento culmina na Declaração comemorativa de 2013, que retoma e sistematiza os avanços dos documentos precedentes ao estabelecer a necessidade de incorporar a promoção da saúde à missão, à visão e aos planos estratégicos institucionais(16).
Nesse percurso, observa-se uma progressiva convergência entre os documentos, que passam de formulações mais abertas para diretrizes mais estruturadas, consolidando a promoção da saúde como eixo organizador da universidade.
A partir de 2015, o campo passa a apresentar maior densidade conceitual e maior grau de integração entre suas dimensões. A Carta de Okanagan propõe a incorporação da promoção da saúde em todos os aspectos da vida universitária, articulando cultura institucional, políticas, práticas acadêmicas e responsabilidade social(17). Essa formulação é retomada e aprofundada pela Declaração de Alicante, que enfatiza governança participativa, sustentabilidade e compromisso coletivo(18).
Nos documentos mais recentes, observa-se a incorporação de agendas contemporâneas e o aprofundamento da operacionalização do modelo. A Declaração de Monterrey amplia a articulação com políticas públicas e reforça o papel da universidade como ator político(19), enquanto a Declaração de Coimbra integra a promoção da saúde à agenda dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável(20).
A Carta de Niterói consolida a centralidade das políticas institucionais e explicita a importância da formação acadêmica em promoção da saúde(21), e o Marco de Ação de Limerick traduz os princípios acumulados em diretrizes operacionais voltadas à implementação e avaliação(22).
Dimensões analíticas estruturantes
A análise temática permitiu identificar cinco dimensões estruturantes que atravessam o corpus e se articulam ao longo da trajetória do movimento.
A dimensão institucional emerge de forma incipiente nos documentos iniciais e se consolida progressivamente a partir de 2013, quando passa a ser explicitamente associada à missão institucional, à governança e aos planos estratégicos. Essa dimensão é continuamente reforçada nos documentos posteriores, especialmente em Okanagan, Alicante e Niterói, que ampliam seu escopo ao incluir políticas institucionais e cultura organizacional(16-18,21).
A dimensão política atravessa o corpus ao redefinir o papel da universidade como ator social comprometido com a equidade e a transformação da realidade. Já presente em Edmonton, essa dimensão ganha maior densidade em Pamplona e Costa Rica, sendo posteriormente ampliada por documentos como o de Monterrey(14-15,19).
A dimensão pedagógica aparece de forma recorrente ao longo de todo o corpus, associada à formação de profissionais e sujeitos críticos capazes de atuar na promoção da saúde. No entanto, observa-se que essa dimensão apresenta menor desenvolvimento operacional quando comparada às demais, sendo menos detalhada mesmo em documentos mais recentes.
A dimensão sociocomunitária é fortalecida sobretudo a partir de Costa Rica e aprofundada em Alicante e Niterói(18, 21), que enfatizam participação democrática, articulação com o território e compromisso social.
A dimensão transversal-sistêmica sintetiza o amadurecimento do campo ao afirmar que a promoção da saúde deve atravessar todas as funções universitárias, sendo formulada de maneira mais explícita em Okanagan(17) e reforçada nos documentos subsequentes.
Marco conceitual da universidade promotora da saúde
A articulação entre as dimensões identificadas permite compreender a Universidade Promotora da Saúde como uma construção conceitual resultante de um processo histórico de acumulação, convergência e refinamento das diretrizes institucionais.
A Universidade Promotora da Saúde é compreendida como uma instituição que incorpora a promoção da saúde à sua identidade e governança, assume responsabilidade social ampliada, reconhece a formação acadêmica como eixo constitutivo, valoriza a participação da comunidade e a relação com o território e opera de forma integrada por meio de uma lógica transversal e sistêmica, conforme sintetizado no modelo conceitual proposto na Figura 1.
Figura 1 – Marco conceitual da Universidade Promotora da Saúde estruturado em cinco dimensões inter-relacionadas. Florianópolis, SC, Brasil, 2026

Fonte: elaborada pelos autores, 2026.
Conforme ilustrado na Figura 1, as dimensões institucional, política, pedagógica e sociocomunitária articulam-se de forma dinâmica e interdependente, enquanto a dimensão transversal-sistêmica atua como eixo integrador responsável pela coerência e pela articulação do modelo conceitual proposto.
Esse modelo evidencia que a promoção da saúde não se configura como um conjunto de ações isoladas, mas como um princípio organizador da universidade, que orienta suas políticas, práticas e relações.
A análise também evidencia uma assimetria no desenvolvimento do campo, na medida em que as dimensões institucional e política apresentam maior grau de consolidação, enquanto a dimensão pedagógica apresenta menor nível de detalhamento, especialmente no que se refere à sua tradução em modelos formativos estruturados(16-18).
DISCUSSÃO
Os achados deste estudo convergem com a literatura científica recente ao evidenciar que o campo das Universidades Promotoras da Saúde avançou na formulação de princípios e diretrizes institucionais, mas permanece marcado por heterogeneidade conceitual e desigualdade de implementação entre instituições. A revisão de escopo mais recente demonstra que o campo ainda carece de maior sistematização teórica, sendo sustentado por múltiplos referenciais e abordagens que nem sempre se articulam de forma integrada. Nesse contexto, o modelo conceitual aqui proposto contribui ao organizar, em uma estrutura analítica única, dimensões que frequentemente aparecem de forma dispersa na literatura(9).
A análise histórica desenvolvida neste estudo representa um diferencial importante. Enquanto a literatura recente tende a privilegiar estudos de implementação e análise de experiências institucionais, os resultados aqui apresentados demonstram que o campo se constituiu por meio de deslocamentos progressivos entre legitimação inicial, institucionalização e integração sistêmica. Essa trajetória, marcada por sobreposições, retomadas e aprofundamentos sucessivos, evidencia um movimento de convergência conceitual ao longo do tempo, ao mesmo tempo em que revela diferentes níveis de maturidade institucional. Esse achado é convergente com estudos que apontam variações na capacidade organizacional das universidades para sustentar políticas e práticas de promoção da saúde, ainda que a literatura enfatize mais os estágios de implementação do que os processos históricos de construção do campo(25-26).
No que se refere às dimensões do modelo, a literatura recente sustenta de forma consistente as dimensões institucional e política, indicando convergência com os achados deste estudo. Fatores como liderança, reconhecimento institucional, financiamento, coordenação e abordagem de sistema inteiro são descritos como determinantes para a implementação efetiva de Universidades Promotoras da Saúde, exigindo a participação de diferentes atores institucionais e profissões da saúde em posições estratégicas de gestão e governança. Esses elementos também se apresentam de forma progressivamente mais estruturada nos documentos analisados, evidenciando alinhamento entre o movimento ibero-americano e o debate internacional sobre institucionalização e sustentabilidade das iniciativas(25,27).
A dimensão sociocomunitária também encontra respaldo na literatura, que reconhece a participação como princípio central da promoção da saúde. Entretanto, observa-se uma divergência parcial entre a centralidade atribuída à participação nos documentos e sua efetiva operacionalização. Estudos indicam fragilidade na tradução desse princípio em práticas institucionais concretas, o que é corroborado pelos resultados deste estudo ao evidenciar a ausência de maior detalhamento sobre mecanismos de participação. Essa tensão entre centralidade discursiva e operacionalização prática constitui um ponto crítico no desenvolvimento do campo(28-29).
A principal contribuição deste estudo concentra-se na dimensão pedagógica. Os resultados demonstraram que, embora essa dimensão esteja presente de forma recorrente nos documentos, ela apresenta menor grau de detalhamento e operacionalização quando comparada às dimensões institucional e política. A literatura recente sustenta essa assimetria ao indicar que a promoção da saúde ainda é pouco integrada aos currículos e frequentemente abordada de forma fragmentada, sem articulação consistente com abordagens interdisciplinares. Esse achado é particularmente relevante no contexto latino-americano, onde persistem desafios estruturais para a consolidação de propostas formativas mais integradas(9,30).
Ao evidenciar essa assimetria, o estudo estabelece uma convergência analítica que aprofunda e sistematiza um debate já presente na literatura, ao situar a lacuna pedagógica não apenas como limitação operacional, mas como elemento estruturante para a consolidação do campo. Embora a literatura reconheça a formação como um dos componentes das Universidades Promotoras da Saúde, os resultados aqui apresentados sugerem que a fragilidade dessa dimensão pode comprometer a efetivação da proposta como um todo.
A dimensão transversal-sistêmica reforça essa interpretação ao posicionar a promoção da saúde como princípio organizador da universidade. A literatura aponta que a efetividade das Universidades Promotoras da Saúde depende da integração entre ensino, pesquisa, extensão e gestão, exigindo coerência entre valores institucionais e práticas concretas. Os resultados deste estudo convergem com essa perspectiva ao evidenciar a incorporação progressiva da transversalidade nos documentos analisados(9,29).
Entre as limitações do estudo, destaca-se a utilização de um corpus documental específico, composto por marcos institucionais e declarações internacionais, o que pode não abarcar a totalidade das experiências e produções acadêmicas sobre o tema. Além disso, embora a análise tenha sido conduzida por um único pesquisador, característica inerente ao desenho teórico-analítico adotado, reconhece-se a possibilidade de vieses interpretativos. Para sua mitigação, foram adotadas estratégias de sistematização, reflexividade e rigor analítico. Nesse sentido, as interpretações produzidas foram continuamente discutidas e refinadas no âmbito da orientação e do acompanhamento da pesquisa de doutorado, funcionando como estratégia de debriefing e refinamento analítico e contribuindo para ampliar a consistência interpretativa e reduzir potenciais vieses inerentes ao processo de análise. Ressalta-se, ainda, que a natureza qualitativa e teórico-analítica do estudo não permite generalizações empíricas, mas sim a construção de interpretações conceituais ancoradas no corpus analisado.
As implicações deste estudo são relevantes para o avanço da área da saúde e da enfermagem, especialmente no campo da formação profissional. Ao evidenciar a lacuna pedagógica na operacionalização das Universidades Promotoras da Saúde, o estudo aponta para a necessidade de desenvolvimento de estratégias formativas estruturadas, com integração curricular, abordagem interdisciplinar e articulação com o território.
Para a Enfermagem, essa discussão assume relevância particular em razão da posição estratégica historicamente ocupada pela profissão na articulação entre cuidado, educação, gestão e ação comunitária. No contexto das Universidades Promotoras da Saúde, enfermeiros podem desempenhar papel central na liderança e operacionalização das dimensões pedagógica e transversal-sistêmica do modelo proposto, atuando na formulação e coordenação de políticas institucionais, na gestão acadêmica, na reconfiguração de projetos pedagógicos e na construção de processos formativos orientados pela promoção da saúde, pela interprofissionalidade, pela responsabilidade social e pela atuação sobre os determinantes sociais da saúde.
Além disso, a tradição da enfermagem na educação em saúde, na coordenação de ações intersetoriais, na saúde do trabalhador e na gestão de serviços posiciona a profissão como ator estratégico para promover a integração entre ensino, pesquisa, extensão e território, contribuindo para a formação de profissionais capazes de atuar sobre os determinantes sociais da saúde e de desenvolver práticas transformadoras nos diferentes contextos de atuação.
Dessa forma, a principal contribuição do artigo reside na organização conceitual de um campo ainda em consolidação, na proposição de um modelo analítico estruturado em cinco dimensões inter-relacionadas e na explicitação de uma assimetria estrutural entre avanço institucional e fragilidade pedagógica. Trata-se de uma contribuição teórica que qualifica o debate e oferece base para análises mais consistentes sobre a implementação das Universidades Promotoras da Saúde.
Por fim, os achados indicam a necessidade de avançar na operacionalização pedagógica do modelo. O desenvolvimento de estratégias curriculares, a incorporação de abordagens interdisciplinares e a criação de mecanismos de avaliação de impacto configuram-se como elementos centrais para o fortalecimento do campo. Nesse sentido, o modelo proposto não encerra o debate, mas orienta uma agenda de pesquisa e intervenção voltada à consolidação da promoção da saúde no ensino superior(25-26,29).
CONCLUSÃO
A análise das cartas, declarações e documentos estruturantes da Rede Ibero-Americana de Universidades Promotoras da Saúde permitiu compreender a Universidade Promotora da Saúde como uma construção histórica e progressiva, marcada pela ampliação de seu escopo, pela consolidação institucional e pela integração de dimensões organizacionais, sociais e formativas.
A sistematização desse percurso possibilitou a identificação de cinco dimensões estruturantes: institucional, política, pedagógica, sociocomunitária e transversal-sistêmica, cuja articulação fundamenta o marco conceitual proposto. Como contribuição, o estudo oferece uma base analítica para a organização teórica de um campo ainda caracterizado por dispersão conceitual e uso fragmentado de seus referenciais.
Os resultados evidenciaram uma assimetria no desenvolvimento dessas dimensões. Enquanto as dimensões institucional e política apresentam maior grau de consolidação, a dimensão pedagógica permanece menos desenvolvida, especialmente no que se refere à sua tradução em práticas formativas e arranjos curriculares.
Conclui-se que o fortalecimento da dimensão pedagógica constitui condição central para a consolidação da Universidade Promotora da Saúde como modelo institucional. Nesse sentido, o marco conceitual elaborado neste estudo contribui para orientar estratégias curriculares, análises futuras e processos institucionais voltados à integração da promoção da saúde no ensino superior.
*Artigo extraído como resultado parcial da Tese de Doutorado intitulada “Universidade Promotora da Saúde: Formação Multiprofissional e Transdisciplinar na Educação Superior”, apresentado ao Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, a ser defendida em banca de qualificação em 2026.
CONFLITO DE INTERESSES
Os autores declaram não haver conflito de interesses.
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Submissão: 06-Maio-2026
Aprovado: 15-Jul-2026
Editores:
Rosimere Ferreira Santana (ORCID: 0000-0002-4593-3715)
Geilsa Soraia Cavalcanti Valente (ORCID: 0000-0003-4488-4912)
Elaine Antunes Cortez (ORCID: 0000-0003-3912-9648)
Autor correspondente: Antônio Carlos Pereira Junior (acpjunior5@hotmail.com)
Editora:
Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa – UFF
Rua Dr. Celestino, 74 – Centro, CEP: 24020-091 – Niterói, RJ, Brasil
E-mail da revista: objn.cme@id.uff.br
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CONTRIBUIÇÃO DE AUTORIA |
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Concepção do estudo: Pereira Junior AC, Heidemann ITSB. Obtenção de dados: Pereira Junior AC, Monteiro PVS. Análise de dados: Pereira Junior AC, Heidemann ITSB, Monteiro PVS. Interpretação dos dados: Pereira Junior AC, Heidemann ITSB, Monteiro PVS. Todos os autores se responsabilizam pela redação textual e revisão crítica do conteúdo intelectual, pela versão final publicada e por todos os aspectos éticos, legais e científicos relacionados à exatidão e à integridade do estudo. |
