
ARTIGO ORIGINAL
SAÚDE MENTAL DE ENFERMEIROS NO DECURSO DA PANDEMIA DE COVID-19: ESTUDO QUALITATIVO SOCIOPOÉTICO*
Odilon Adolfo Branco de Souza1, Cláudia Mara de Melo Tavares2
1 Universidade Federal Fluminense, Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa. Niterói, Rio de Janeiro, Brasil. ORCID: 0000-0003-4482-8582. E-mail: obranco@id.uff.br
2 Universidade Federal Fluminense, Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa. Niterói, Rio de Janeiro, Brasil. ORCID: 0000-0002-8416-6272. E-mail: claudiatavares@id.uff.br
RESUMO
Objetivos: Analisar a autopercepção da saúde mental de enfermeiros de um hospital universitário durante a pandemia de COVID-19; identificar medidas adotadas para o cuidado de si e discutir o suporte institucional percebido diante das necessidades de cuidado. Método: Trata-se de um estudo qualitativo participativo, fundamentado na abordagem teórico-metodológica da sociopoética como dispositivo para a produção de dados, realizado em maio de 2025. As discussões obtidas em grupo foram submetidas à análise de conteúdo. Resultados: O grupo pesquisador foi composto por seis enfermeiros que atuaram em unidades de atendimento a pacientes sintomáticos em um hospital universitário na cidade de Niterói, estado do Rio de Janeiro. Após a análise, emergiram três categorias: a) varal das emoções: entre medo, exaustão e resistência; b) tecendo caminhos de cuidado com fios de proteção; c) corpos protegidos, emoções invisibilizadas. Conclusão: Os enfermeiros relataram medo, ansiedade e exaustão emocional; adotaram estratégias de autocuidado centradas na espiritualidade, na atividade física e no fortalecimento dos vínculos familiares; e perceberam a ausência de um suporte institucional estruturado e voltado à saúde mental. Os resultados reforçam a necessidade de implementação de estratégias institucionais permanentes de apoio psicossocial.
Descritores: COVID-19; Enfermagem; Saúde Mental; Assistência Hospitalar; Gestão em Saúde.
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Como citar: Souza OAB, Tavares CMM. Nurses’ mental health during the COVID-19 pandemic: a sociopoetic qualitative study. Online Braz J Nurs. 2026;25(1):e20266954. https://doi.org/10.17665/1676-4285.20266954 |
O que já se sabe:
A experiência da pandemia atravessou os corpos, afetos e subjetividades dos enfermeiros que atuaram na linha de frente, produzindo sofrimento, ressignificações e novas formas de perceber o cuidado e o trabalho.
Para enfrentar as incertezas e os desafios do período, os profissionais acionaram potências individuais e coletivas, expressas na espiritualidade, nos vínculos afetivos, na criatividade e na construção compartilhada de sentidos.
A literatura evidencia que, embora tenham sido fortalecidas as medidas de proteção biológica, permanecem desafios relacionados ao reconhecimento das dimensões emocionais, simbólicas e subjetivas do trabalho em enfermagem.
O que este artigo acrescenta:
A abordagem sociopoética permitiu revelar os afetos, as memórias e os significados produzidos pelos enfermeiros acerca de sua experiência de cuidado durante a pandemia de COVID-19, valorizando os saberes construídos a partir do vivido.
As narrativas do grupo pesquisador evidenciaram tensões entre a proteção dos corpos por meio das medidas de biossegurança e a insuficiência de ações voltadas ao acolhimento das dimensões emocionais e subjetivas do trabalho.
O estudo amplia a compreensão sobre a saúde mental dos enfermeiros ao destacar a importância de espaços coletivos de escuta, partilha e produção de sentidos como estratégias de cuidado.
INTRODUÇÃO
Em janeiro de 2020, a Organização Mundial da Saúde declarou o surto provocado pela COVID-19 como uma emergência de saúde pública de grande importância global, mobilizando todas as esferas de controle e de ação para o enfrentamento, em virtude da agressiva disseminação do vírus SARS-CoV-2(1-3). No Brasil, o início dessa crise sanitária insólita caracterizou-se pela alta frequência percentual de casos novos e por uma curva ascendente e vertiginosa de óbitos registrados, amplamente divulgados pelos diversos meios de comunicação, o que gerou medo na população(2,4).
Além das implicações epidemiológicas, a pandemia produziu importantes repercussões sociais, econômicas e psicológicas. Os impactos ficaram evidentes no campo econômico global, com efeitos sistêmicos na recuperação pós-crise e repercussões em diferentes setores da sociedade(5). O distanciamento social, as incertezas relacionadas à evolução da doença, as mudanças abruptas nas rotinas de vida e de trabalho e a elevada exposição a situações de sofrimento e morte constituíram fatores potencialmente desencadeadores de desgaste psicológico(6-10).
Entre os grupos mais vulneráveis aos efeitos da pandemia, destacam-se os profissionais de saúde, especialmente aqueles que atuaram diretamente na assistência aos pacientes acometidos pela COVID-19. Estudos apontam elevada frequência de sintomas como ansiedade, estresse, depressão, insônia, medo, exaustão emocional e sofrimento moral entre os trabalhadores da linha de frente(9,11,12). A sobrecarga de trabalho, a escassez inicial de informações científicas consolidadas, a necessidade constante de adaptação dos protocolos assistenciais e o receio de contaminar os familiares contribuíram para o agravamento dessas condições(11-14).
Durante a pandemia de COVID-19, muitas condições de trabalho precisaram ser modificadas, seja para atender às exigências sanitárias, seja devido ao aumento da demanda nos serviços de saúde em função do alto índice de pessoas acometidas pela doença. Esse contexto intensificou a exposição dos profissionais de enfermagem a fatores psicossociais e laborais que comprometem o bem-estar, aumentou a ocorrência de transtornos mentais e comportamentais, e evidenciou problemas recorrentes na profissão, embora frequentemente invisíveis para grande parte da população(15).
A saúde mental dos trabalhadores de enfermagem tornou-se uma prioridade científica e institucional diante do aumento de transtornos relacionados ao trabalho e do impacto do desgaste psicológico sobre a qualidade do cuidado, o absenteísmo e a retenção de profissionais. Mesmo após o arrefecimento da emergência sanitária, evidências indicam que seus efeitos psicossociais persistem e reverberam no cotidiano dos serviços, configurando um legado pós-pandêmico para os trabalhadores da linha de frente(16).
No contexto da enfermagem, tais desafios foram potencializados pela permanência contínua junto aos pacientes e familiares, pela responsabilidade no gerenciamento do cuidado e pela convivência cotidiana com situações de agravamento clínico e óbito(12,17,18). O setor da saúde destaca-se entre aqueles cujos trabalhadores sofrem com a violência laboral, especialmente no campo da enfermagem, que representa o maior quantitativo de profissionais da saúde e evidencia maior suscetibilidade a consequências adversas para o trabalho e para a vida(19).
Embora estudos quantitativos tenham evidenciado os impactos da pandemia sobre a saúde mental desses profissionais, ainda são necessárias investigações que aprofundem a compreensão das experiências subjetivas vivenciadas e das percepções acerca do suporte institucional recebido(9,11,12). É essencial que grupos com alto risco de desenvolver problemas emocionais sejam monitorados, permitindo a instituição precoce de intervenções psicológicas e psiquiátricas para o restabelecimento da saúde mental(16,20).
Nesse sentido, a sociopoética apresenta-se como uma abordagem capaz de acessar dimensões sensíveis da experiência humana, valorizando os saberes produzidos pelos próprios participantes por meio da criatividade, da expressão estética e da construção coletiva do conhecimento(21-23). Compreender como os enfermeiros perceberam sua saúde mental durante a pandemia, quais estratégias mobilizaram para o cuidado de si e como avaliaram o suporte institucional recebido pode contribuir para o fortalecimento de políticas e práticas voltadas à saúde do trabalhador(11,12,23).
A crescente preocupação com os fatores psicossociais relacionados ao trabalho tem ganhado destaque no cenário brasileiro contemporâneo. A recente revisão da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), ao reforçar a necessidade de identificação e gerenciamento dos riscos psicossociais nos ambientes laborais, ratifica a relevância de estudos que investiguem o sofrimento mental e as condições organizacionais que possam favorecer ou comprometer a saúde dos trabalhadores.
Dessa forma, este estudo teve como objetivos analisar a autopercepção da saúde mental de enfermeiros de um hospital universitário durante a pandemia de COVID-19, identificar as estratégias utilizadas para o cuidado de si e discutir o suporte institucional percebido diante das necessidades concretas de cuidado.
MÉTODO
Aspectos éticos
O estudo foi realizado com seis enfermeiros assistenciais de um hospital universitário, fundamentando-se estritamente em depoimentos voluntários e expressões artísticas geradas nas oficinas desenvolvidas com o grupo pesquisador. A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da instituição sob o Parecer nº 5.962.069. Todas as informações necessárias constam no Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), apresentado aos participantes para informar seus direitos, assegurar sua proteção e esclarecer sobre a liberdade de desistência em qualquer fase da pesquisa diante de eventuais desconfortos.
Referencial teórico-metodológico
Utilizou-se a abordagem teórico-metodológica da sociopoética, que possibilita a produção de conhecimento por meio da sensibilidade, da criatividade e da relação com o outro. A pesquisa sociopoética busca potencializar os saberes dos sujeitos, conferindo a cada um a condição de co-pesquisador, além de explorar o potencial cognitivo de cada emoção, sensação, gestualidade, bem como do imaginário, da razão e da intuição no ato de pesquisar. Suas bases teóricas estão alicerçadas no pensamento de Paulo Freire, Deleuze e Guattari, Augusto Boal e René Lourau.
Tipo de estudo
Trata-se de um estudo qualitativo participativo, fundamentado na abordagem teórico-metodológica da sociopoética e centrado na autopercepção da saúde mental de enfermeiros. O estudo foi conduzido e estruturado em conformidade com o Consolidated Criteria for Reporting Qualitative Research (COREQ).
Procedimentos metodológicos
A análise de conteúdo seguiu os princípios de Bardin, sendo operacionalizada com base em um processo contemporâneo de organização e interpretação de dados qualitativos. Embora a sociopoética privilegie formas criativas e sensíveis de produção do conhecimento, optou-se por essa estratégia analítica pela capacidade de organizar, sistematizar e interpretar o material empírico produzido, sem desconsiderar sua riqueza simbólica e subjetiva.
A utilização da análise de conteúdo permitiu identificar núcleos temáticos recorrentes nas narrativas dos participantes, preservando os sentidos construídos coletivamente durante a oficina sociopoética. Desse modo, buscou-se articular a potência criativa da sociopoética com o rigor analítico necessário à produção científica, contribuindo para a originalidade metodológica e analítica da investigação.
Cenário do estudo
O estudo foi desenvolvido em um hospital universitário de grande porte do Rio de Janeiro, especificamente nas unidades assistenciais e gerenciais definidas como Serviço de Emergência, Terapia Intensiva e Setor de Doenças Infecto-Parasitárias, que prestaram assistência direta a pacientes suspeitos ou diagnosticados com COVID-19.
Fonte de dados
O grupo pesquisador foi composto por seis enfermeiros do hospital universitário. Inicialmente, estimou-se a participação de 20 profissionais assistenciais (dez enfermeiros, cinco técnicos de enfermagem e cinco médicos), convidados de forma individualizada por meio de carta-convite enviada via aplicativo de mensagens.
Na primeira oficina, agendada para 14 de maio de 2025, não houve comparecimento de participantes em virtude de questões administrativas internas, como o elevado índice de absenteísmo na data, o que exigiu o reagendamento para 29 de maio de 2025, ocasião em que compareceram apenas seis enfermeiros. Os demais 14 profissionais convidados não compareceram e não justificaram a ausência.
A participação de apenas seis enfermeiros pode ter influenciado a dinâmica coletiva — característica essencial da sociopoética —, reduzindo a diversidade de experiências e perspectivas mobilizadas na construção compartilhada dos dados; contudo, a riqueza dos relatos permitiu alcançar os objetivos propostos pela investigação.
Coleta e organização dos dados
A produção de dados ocorreu em uma sala de reunião multiprofissional, espaço físico adequado, com boa iluminação, ventilação e fácil acesso. Utilizou-se a técnica artística denominada "o varal das emoções", na qual o grupo pesquisador, a partir da identificação de figuras expostas em um varal de sisal, exteriorizou sentimentos e emoções vivenciados de maneira subjetiva, artística, estética e política. Também foi realizada a construção coletiva de uma poesia a partir das falas proferidas durante a oficina, traduzindo fortemente o período difícil vivenciado pelo grupo e as estratégias adotadas para o cuidado de si e a mitigação de danos à saúde mental.
Empregou-se a seguinte pergunta disparadora previamente acordada com os participantes: "Durante o período mais difícil da pandemia de COVID-19, quais foram as impressões que vocês tiveram e que estratégias usaram para aliviar os possíveis desconfortos emocionais causados por tudo o que passaram? Com que apoio puderam contar no âmbito hospitalar ou setorial em que trabalhavam?"
O encontro teve duração de uma hora e quarenta e cinco minutos, realizado em horário livre de atividades laborais dos participantes. Todas as etapas planejadas para a oficina sociopoética foram cumpridas, assegurando a participação integral e o respeito à individualidade e à subjetividade de cada envolvido. Os depoimentos foram gravados para posterior transcrição na íntegra, viabilizando a estruturação das categorias analíticas.
Análise dos dados
A análise ocorreu após o encontro, com a verificação rigorosa de todo o material produzido conforme as etapas da análise de conteúdo de Bardin: pré-análise, exploração do material ou codificação, tratamento dos resultados, inferência e interpretação.
Três categorias emergiram da análise e foram apresentadas ao grupo pesquisador na oficina de contra-análise, sendo validadas pelos enfermeiros: a) percepções da condição emocional; b) estratégias de cuidado de si; e c) percepção do suporte emocional recebido da instituição. Na ocasião, reafirmou-se a importância do caráter participativo da sociopoética, permitindo que o conhecimento emergisse do diálogo entre experiências, afetos e a fala do coletivo. O grupo reconheceu a contra-análise como um espaço de reconstrução simbólica, momento de cuidado mútuo e reconhecimento, viabilizando o refinamento das categorias e o aprofundamento da compreensão dos fenômenos estudados, em respeito à singularidade e à complexidade das narrativas.
RESULTADOS
A análise do material produzido durante a realização da oficina possibilitou a identificação de três categorias temáticas: (1) varal das emoções: entre medo, exaustão e resistência; (2) tecendo caminhos de cuidado com fios de proteção; e (3) corpos protegidos, emoções invisibilizadas, apresentadas a seguir:
Categoria (1) – Varal das emoções: entre medo, exaustão e resistência
O grupo pesquisador relatou que a pandemia de COVID-19 produziu importantes repercussões emocionais em suas vidas pessoais e profissionais. Os depoimentos evidenciaram sentimentos de medo, ansiedade, insegurança, sofrimento e exaustão decorrentes da rápida disseminação da doença, do elevado número de internações e óbitos, e das constantes mudanças nos processos assistenciais. A necessidade de lidar diariamente com situações de alta complexidade, associada às incertezas sobre a evolução clínica dos pacientes, gerou intenso desgaste emocional entre os profissionais.
Um período muito difícil tanto profissionalmente como pessoalmente. A gente ficou muito exausto, trabalhando demais […] vendo morrer muita gente e adoecendo de forma grave. (P1)
A preocupação com a possibilidade de adoecimento próprio e de familiares esteve presente nos relatos. O grupo descreveu a experiência como marcada pelo medo da transmissão do vírus para pessoas próximas, especialmente aquelas pertencentes aos grupos de risco, além da vivência de sintomas relacionados à ansiedade durante o período pandêmico.
Eu tive crise de ansiedade muito disparada nesse processo […] tinha muito medo do lado de fora do hospital. (P2)
Além do medo da contaminação, emergiu a sensação de impotência frente ao desconhecimento sobre a doença e à elevada mortalidade dos pacientes. (P3)
Os depoimentos também revelaram sentimento de impotência diante do desconhecido e da elevada mortalidade observada nos serviços de saúde. A escassez de informações sobre a doença, principalmente nos momentos iniciais da pandemia, exigiu constantes adaptações das práticas assistenciais e contribuiu para o aumento da sobrecarga emocional dos trabalhadores.
Mesmo fazendo tudo, a gente perdia muitos pacientes, a sensação de impotência diante daquilo era muito grande. (P4)
Apesar da predominância de sentimentos relacionados ao sofrimento psíquico, os depoimentos também revelaram a capacidade de adaptação às adversidades impostas pela pandemia. A convivência diária com situações de elevada complexidade exigiu o desenvolvimento de recursos emocionais para lidar com as incertezas, as perdas e as mudanças constantes nos processos de trabalho. Nesse contexto, observou-se a construção de mecanismos de enfrentamento que favoreceram a permanência dos profissionais na assistência, mesmo diante das dificuldades encontradas.
Nós que estamos aqui hoje falando […] a gente se reconheceu como herói. (P6)
Os relatos sugerem que a experiência pandêmica, embora marcada por sofrimento e desgaste emocional, também contribuiu para o fortalecimento de competências relacionadas à capacidade de adaptação e ao senso de propósito do trabalho desenvolvido durante a emergência sanitária.
Categoria (2) - Tecendo caminhos de cuidado com fios de proteção
O grupo pesquisador descreveu diferentes estratégias utilizadas para a preservação da saúde mental e o enfrentamento dos desafios impostos pela pandemia. As práticas de autocuidado envolveram recursos individuais, familiares, sociais e espirituais, evidenciando a busca por mecanismos capazes de minimizar o sofrimento emocional decorrente do contexto pandêmico.
Entre as estratégias mencionadas, destacou-se a manutenção dos vínculos familiares e sociais, mesmo diante das medidas de distanciamento físico. O uso de tecnologias de comunicação e a realização de atividades de lazer em ambientes considerados controlados e seguros contribuíram para a preservação das relações interpessoais e para a sensação de apoio emocional.
Comecei a andar de bicicleta com meu marido […] isso era uma coisa que me tirava um pouco da pandemia. (P1)
As falas também evidenciaram a adoção de práticas voltadas ao equilíbrio emocional, como meditação, ioga, escrita reflexiva e desenvolvimento pessoal. Essas atividades foram percebidas como recursos importantes para lidar com a ansiedade, manter o foco no presente e favorecer o bem-estar psicológico.
Fui apresentada ao aplicativo de ioga […] meditar é uma coisa que faço todos os dias. (P2)
Outro aspecto amplamente mencionado foi o fortalecimento da espiritualidade e da fé como formas de enfrentamento. Para o grupo pesquisador, a conexão espiritual representou uma importante fonte de conforto, esperança e fortalecimento emocional diante das incertezas e dificuldades vivenciadas. Nesse sentido, evidenciou-se o processo de resiliência expresso na capacidade de reorganização frente às adversidades e na adaptação às mudanças impostas.
Foi um período em que eu rezei muito […] acho que boa parte dessa minha força veio dessa conexão com o Divino. (P4)
Além disso, atividades físicas, convivência familiar, momentos de descanso e descompressão, contato com ambientes acolhedores e práticas de gratidão foram descritos como elementos fundamentais para a manutenção da saúde mental durante o período. Esses achados demonstram que o grupo mobilizou diferentes recursos pessoais para enfrentar os impactos psicossociais da pandemia.
Categoria (3) - Corpos protegidos, emoções invisibilizadas
Os participantes reconheceram os esforços institucionais direcionados à proteção física dos trabalhadores durante a pandemia. Foram frequentemente mencionados o fornecimento de equipamentos de proteção individual (EPIs), a realização de treinamentos, a reorganização dos fluxos assistenciais e o suporte operacional necessário para o enfrentamento da emergência sanitária.
Não houve um trabalho específico para a saúde mental dos profissionais […] creio que poderíamos ter tido um acompanhamento voltado para a saúde mental. (P1)
Apesar do reconhecimento dessas medidas, os relatos apontaram para a percepção de insuficiência de ações voltadas ao cuidado emocional dos profissionais. Os participantes referiram não recordar iniciativas estruturadas de apoio psicológico ou acompanhamento sistemático da saúde mental durante o período de maior sobrecarga assistencial.
Tivemos todos os recursos de proteção individual para o funcionário […] mas apoio emocional, não. (P4)
Os depoimentos indicaram que o suporte emocional ocorreu predominantemente por meio do apoio entre colegas de trabalho e das relações construídas no cotidiano profissional. Entretanto, os participantes destacaram que esse suporte informal não substitui a necessidade de estratégias institucionais planejadas e conduzidas por profissionais capacitados para o cuidado em saúde mental.
A saúde mental não foi e não é prioridade até hoje. Muito se fala, mas pouco se faz. (P6)
De forma geral, os resultados evidenciam que, embora os participantes tenham reconhecido os investimentos institucionais na segurança física dos trabalhadores, houve percepção de fragilidade nas ações destinadas à promoção, à proteção e ao acompanhamento da saúde mental das equipes durante a pandemia.
DISCUSSÃO
Um dos principais achados deste estudo refere-se à percepção compartilhada pelos participantes de que as ações institucionais estiveram concentradas prioritariamente na proteção física dos trabalhadores, mediante o fornecimento de equipamentos de proteção individual, treinamentos e a reorganização dos processos assistenciais. Em contrapartida, os enfermeiros não reconheceram a existência de estratégias estruturadas voltadas à promoção da saúde mental ou ao acolhimento emocional das equipes(12,14,27).
Tal resultado sugere que, diante da emergência sanitária, as instituições priorizaram medidas consideradas mais imediatas para a manutenção da assistência, relegando a saúde mental dos trabalhadores a um plano secundário. Essa realidade pode estar associada à escassez de recursos especializados, à ausência de políticas institucionais previamente estruturadas para situações de crise e à predominância de uma cultura organizacional historicamente voltada aos aspectos operacionais do trabalho (11,12,14,28,29).
Os depoimentos revelam que o suporte emocional foi construído predominantemente entre os próprios colegas de trabalho e familiares, evidenciando a fragilidade dos dispositivos institucionais de cuidado. Considerando que os impactos psicológicos da pandemia permanecem presentes mesmo após o período crítico da emergência sanitária, torna-se fundamental que as instituições de saúde incorporem ações permanentes voltadas à saúde mental dos trabalhadores(11,13,28,29).
O reduzido número de componentes do grupo pesquisador pode ter impactado a dinâmica coletiva da sociopoética, restringindo a multiplicidade de vozes e experiências que enriquecem a produção compartilhada do conhecimento; contudo, a potência sensível percebida nas oficinas se sobrepôs, resultando em dados consistentes de uma realidade vivida e revisitada profundamente pelo grupo pesquisador.
Entre as estratégias possíveis, destacam-se a implementação de grupos de apoio e escuta qualificada, plantões psicológicos, acompanhamento psicossocial para profissionais expostos a situações críticas, programas de promoção da saúde mental e iniciativas relacionadas à organização do processo de trabalho, incluindo a gestão adequada das cargas horárias e o fortalecimento das redes de apoio institucional. Tais medidas podem contribuir para a redução do sofrimento psíquico e para a construção de ambientes de trabalho mais saudáveis e protetivos(12,14).
A Educação Permanente em Saúde possui papel primordial para que medidas protetivas sejam evidenciadas e aplicadas aos processos de trabalho, promovendo um ambiente laboral mais saudável, o que vai ao encontro da determinação da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1).
Após a identificação por meio de entrevistas virtuais, concluiu-se que os profissionais de saúde que estiveram na linha de frente da COVID-19 foram afetados por inúmeros fatores laborais, tais como sobrecarga de trabalho, medo de ser contaminado e de contaminar seus entes, insegurança e medo da morte(11).
Fatores como sobrecarga de trabalho, falta de fundamentação científica, escassez de insumos gerais e específicos — tais como os equipamentos de proteção individual —, a incerteza da vacinação à época, o luto, o medo e o compromisso social foram indicadores elencados para o registro do desenvolvimento do adoecimento psicossomático de muitos profissionais(12,30).
A exaustão dos profissionais ficou evidenciada pela extensa atividade laboral exigida, em virtude da gravidade dos pacientes admitidos, das mudanças rotineiras dos processos de trabalho, dos treinamentos em serviço e ainda pelo medo da contaminação iminente à qual estavam expostos, com riscos de serem potenciais vetores para a sua família mediante o retorno aos lares.
Registram-se as implicações que a pandemia de COVID-19, baseada na intensidade de incertezas, gerou nos profissionais de saúde que estiveram na linha de frente de atuação durante o período mais crítico(31,32).
O medo e a insegurança dos profissionais frente à prática da realização das testagens durante a pandemia de COVID-19, necessárias para a identificação da presença de contaminação, foram, por si só, considerados fatores agravantes do medo, em virtude da espera pelos resultados e do receio de terem sido infectados ou de serem um potencial vetor infectante para seus familiares(13,27).
Com o aumento populacional no número de casos de infectados, foi crucial a realização de adaptações estruturais, o abastecimento de insumos relacionados à proteção dos trabalhadores e o aumento do número de profissionais para trabalharem na linha de frente do combate. Porém, evidenciou-se inicialmente uma fragilidade do sistema, traduzida pela modificação do ambiente laboral, escassez de insumos, número restrito de vagas disponíveis para internações, desconhecimento sobre a patologia, necessidade de treinamentos para a promoção da assistência de alta complexidade dos casos e ainda o enfrentamento angustiante e marcante do elevado número de óbitos diários(27).
Evidenciou-se que os profissionais da saúde, durante o período inicial da pandemia, identificaram a sobrecarga de trabalho, a presença de angústias e medos, e apontaram ainda a importância do acesso ao serviço de saúde mental para minimizar os possíveis danos emocionais identificados, pois esses profissionais afetados reduziam sua potência no desempenho das atividades diárias(14,33).
O desprezo que é observado e a falta de medidas acolhedoras são pontos a serem sanados, objetivando com isso a redução dos impactos psicossociais experienciados pela população de um modo geral frente à pandemia. Corrobora-se a necessidade de investimentos nos cuidados em saúde mental, pois sentimentos como ansiedade, medo e preocupações foram potencializados pela pandemia(14,33).
Os resultados deste estudo tornam-se particularmente relevantes no contexto das recentes atualizações da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que reforçam a necessidade de identificação, avaliação e gerenciamento dos riscos psicossociais relacionados ao trabalho no âmbito do Programa de Gerenciamento de Riscos(4,34). Embora o período investigado anteceda a implementação dessas diretrizes, os relatos dos participantes evidenciaram a presença de fatores associados ao sofrimento psíquico, tais como sobrecarga de trabalho, medo, insegurança, exposição contínua ao sofrimento humano e ausência de suporte emocional institucional(4,34).
Sob essa perspectiva, os achados apontam para a necessidade de que instituições de saúde desenvolvam estratégias permanentes de promoção da saúde mental, não apenas em emergências sanitárias, mas como componente estruturante da gestão do trabalho. A identificação precoce de fatores psicossociais, associada à implementação de espaços de escuta, apoio psicológico e monitoramento das condições de trabalho, encontra respaldo nas atuais diretrizes nacionais de saúde e segurança do trabalhador(4).
Limitações do Estudo
O estudo apresenta limitações quanto ao tamanho da amostra, visto que não houve adesão satisfatória ao convite para participação na oficina por parte dos demais profissionais convidados, que não justificaram a ausência.
Contribuições para a Área
O presente estudo traz à tona a importância da valorização profissional, contribuindo para que novas investigações se debrucem sobre a temática da saúde do trabalhador. A saúde mental é elemento integrante da saúde e do bem-estar, e seus determinantes abrangem não apenas características individuais, mas também sociais, culturais, econômicas, políticas e ambientais, a exemplo das condições de trabalho.
Assistir à saúde mental dos profissionais de saúde e das equipes envolvidas é fundamental. Gerir a saúde mental e o bem-estar psicossocial reveste-se de extrema importância, especialmente para que os profissionais possam cumprir seus processos de trabalho de maneira assertiva e protetiva.
CONCLUSÃO
Os enfermeiros perceberam agravos em sua saúde mental no decurso da pandemia de COVID-19, com alteração na percepção das próprias demandas de cuidado, sobretudo no enfrentamento do medo. Ainda que tenham demonstrado compromisso profissional intensificado pela pandemia — em detrimento da própria saúde global —, não usufruíram de medidas institucionais protetivas voltadas ao cuidado da saúde mental. Contudo, estratégias de promoção da saúde mental foram adotadas pelo grupo para garantir a continuidade da assistência com qualidade.
Estar atento às necessidades de saúde mental manifestadas pelos enfermeiros, ainda que de forma velada, é fundamental para assegurar os direitos à saúde dos próprios profissionais e garantir a integralidade do cuidado. Ratifica-se a importância de as instituições e os profissionais voltarem o olhar para si e buscarem estratégias para minimizar os efeitos deletérios decorrentes da pandemia de COVID-19 no contexto hospitalar.
O cuidado de si torna-se imprescindível para que a sobrecarga laboral não se sobreponha ao controle emocional dos profissionais de saúde, evitando o desenvolvimento de alterações psicológicas capazes de causar sérios danos à vida pessoal, afastar o trabalhador de sua rotina e de seus momentos de lazer, e potencializar sua vulnerabilidade enquanto ser humano e profissional.
A Educação Permanente em Saúde configura-se como importante estratégia para o enfrentamento dos agravos relacionados à saúde mental dos trabalhadores. Ao promover processos educativos baseados na reflexão crítica sobre o cotidiano laboral, essa prática favorece o reconhecimento precoce dos fatores geradores de sofrimento psíquico, fortalece mecanismos individuais e coletivos de enfrentamento e viabiliza espaços de descompressão, escuta e diálogo essenciais para a promoção da saúde do trabalhador.
*Artigo extraído da Tese de Doutorado intitulada “O enfermeiro e o cuidado de si perante as exigências físicas e emocionais intensas decorrentes do contexto pandêmico”, apresentada ao Programa de Pós-Graduação - Programa Acadêmico em Ciências do Cuidado em Saúde – PACCS, da Universidade Federal Fluminense, Niterói, Rio de Janeiro, Brasil, no ano de 2025.
AGRADECIMENTOS
Ao grupo pesquisador, participante das oficinas, sem o qual os dados obtidos no estudo não seriam possíveis.
CONFLITO DE INTERESSES
Os autores declaram não haver conflito de interesses.
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Submissão: 24-Fev-2026
Aprovado: 29-Jun-2026
Editores:
Rosimere Ferreira Santana (ORCID: 0000-0002-4593-3715)
Geilsa Soraia Cavalcanti Valente (ORCID: 0000-0003-4488-4912)
Mayane Cristina Pereira Marques (ORCID:0000-0003-3341-0818)
Autor Correspondente: Odilon Adolfo Branco de Souza (obranco@id.uff.br)
Editora:
Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa – UFF
Rua Dr. Celestino, 74 – Centro, CEP: 24020-091 – Niterói, RJ, Brasil
E-mail da revista: objn.cme@id.uff.br
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CONTRIBUIÇÃO DOS AUTORES |
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Concepção do estudo: Souza OAB e Tavares CMM. Obtenção de dados: Souza OAB. Análise de dados: Souza OAB e Tavares CMM. Interpretação dos dados: Souza OAB e Tavares CMM. Todos os autores se responsabilizam pela redação textual e revisão crítica do conteúdo intelectual, pela versão final publicada e por todos os aspectos éticos, legais e científicos relacionados à exatidão e à integridade do estudo. |
