ARTIGO ORIGINAL
PROCESSO DE ADAPTAÇÃO DA PESSOA À LESÃO TRAUMÁTICA DA MEDULA ESPINHAL: TEORIA DE MÉDIO ALCANCE*
Kênia Rocha Leite Zaccaro1, Marcos Antonio Gomes Brandão2
1 Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia. Rio de Janeiro, RJ, Brasil; Universidade Federal Fluminense, Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa. Niterói, RJ, Brasil. ORCID: 0000-0002-0251-1651. E-mail: kzaccaro@id.uff.br.
2 Universidade Federal do Rio de Janeiro, Escola de Enfermagem Anna Nery. Rio de Janeiro, RJ, Brasil. ORCID: 0000-0002-8368-8343. E-mail: marcosantoniogbrandao@gmail.com.
RESUMO
Objetivo: Descrever os elementos de uma teoria de médio alcance do processo de adaptação da pessoa com lesão medular traumática baseado no Modelo de Adaptação de Roy. Método: Pesquisa teórica, de natureza explicativa e prescritiva, através do General Method of Theory Building in Applied Disciplines e das estratégias de teorização utilizando componentes terminológicos para teorias produtoras de situação. Resultados: Aplica-se a pessoas com 18 anos ou mais, em processo adaptativo à lesão medular, no período de até três anos após o trauma. Definiu conceitos e interrelações. Apresentou 10 afirmativas relacionais, 9 proposições teóricas e tecnologias orientadoras do processo de enfermagem. Conclusão: O processo adaptativo da pessoa à lesão medular traumática se apresenta por meio de respostas de enfrentamento que se dão no escopo das respostas humanas fisiológicas, de autoconceito, de alterações de papéis e de interdependência, moduladas pelo sentido da vida, pelas experiências prévias e pela postura interna em relação aos desafios, produzindo respostas efetivas ou comprometidas.
Descritores: Teoria de Enfermagem; Enfermagem; Adaptação; Traumatismos da Medula Espinal; Processo de Enfermagem; Terminologia Padronizada em Enfermagem.
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Como citar: Zaccaro KRL, Brandão MAG. Adaptation process in people with traumatic spinal cord injuries: a middle-range theory. Online Braz J Nurs. 2026;25(1):e20266942. https://doi.org/10.17665/1676-4285.20266942 |
O que já se sabe:
O processo de adaptação da pessoa à lesão traumática da medula espinhal envolve aspectos fisiológicos, psicossociais, espirituais e culturais.
A lesão traumática da medula espinhal é um conceito complexo e multidimensional. Dessa forma, requer uma assistência multiprofissional, interdisciplinar, colaborativa e centrada no paciente.
A assistência na reabilitação deve transcender a dicotomia sucesso e fracasso no processo de adaptação, mas considerar cada pessoa e cada momento vivido por ela neste processo.
O que este artigo acrescenta:
A Teoria de Médio Alcance descreve e explica o processo de adaptação à lesão medular como multidimensional, integral, integrado e recursivo, sendo modulado pelo sentido da vida, pelas experiências prévias e pela postura interna da pessoa diante dos desafios.
Apresenta o processo de adaptação da pessoa à lesão traumática da medula espinhal com linguagens padronizadas para as respostas de enfrentamento fisiológicas, de autoconceito, de desempenho de papéis e de interdependência.
A teoria preenche a lacuna entre grandes modelos conceituais abstratos e a prática real. Promove o protagonismo da pessoa no processo de adaptação à lesão medular traumática.
INTRODUÇÃO
A lesão medular é um problema de dimensões significativas. Todos os anos, afeta entre 250.000 e 500.000 pessoas(1,2). Em 90% dos casos, ocorre por traumas, decorrentes de acidentes automobilísticos, quedas e violência (incluindo a tentativa de suicídio)(1–5). Tal condição afeta a motricidade e a sensibilidade logo abaixo do nível da lesão, o que determina a maior ou menor gravidade(3,4,6–8). O ganho motor e funcional ocorre com maior frequência no primeiro ano após a lesão medular, entretanto, estudo aponta que podem acontecer até o terceiro ano(3). As alterações sistêmicas, motoras e sensitivas, geram consequências psíquicas, emocionais, espirituais e interpessoais, especialmente relacionadas aos sentimentos de impotência, falta de autonomia e de dependência para a execução de tarefas, com impacto também no autocuidado(9,10).
Trata-se de um desafio aprender a viver com uma deficiência adquirida já na fase adulta ao ter de encarar grandes mudanças, sofrer incontáveis perdas e ressignificar diferentes aspectos do ser e do viver, exigindo do indivíduo acometido a busca por novos recursos para adaptar-se a uma nova realidade, permeada por limitações, dificuldades e possibilidades(10). Neste sentido, o protagonismo da pessoa no enfrentamento, com a consequente adaptação psicológica, emocional e social ao trauma que levou à lesão medular, favorece sua adaptação à nova condição(11).
Ao longo do tempo, diversos aspectos relacionados à lesão traumática da medula espinhal têm sido investigados. No entanto, tal conhecimento encontra-se disperso, com poucas variáveis correlacionadas e abordagens predominantemente especializadas e pouco integradas. No tangente à disciplina de enfermagem, não possibilita responder às singularidades da ótica do enfermeiro na compreensão do processo de adaptação, bem como à integração teórica e a aplicação do processo de enfermagem à esta população. Assim, a produção de teorias mais aplicáveis à prática, como de médio e micro alcances é útil para explorar a capacidade agregadora das teorias, sem, contudo, renunciar aos benefícios das evidências de pesquisas empíricas. É essencial incorporar a descrição e explicação do processo de adaptação, bem como a prescrição de intervenções de enfermagem que possam facilitar este processo.
Dessa forma, o presente estudo objetiva descrever os elementos de uma teoria de médio alcance do processo de adaptação da pessoa com lesão medular traumática baseado no Modelo de Adaptação de Roy.
MÉTODO
Tipo de estudo
Trata-se de um estudo do tipo teórico ou básico, de natureza explicativa e prescritiva. Para tal, foram utilizadas as fases de conceitualização e operacionalização do General Method of Theory Building in Applied Disciplines (GMTBAD) de Swanson e Chermack(12) e as estratégias de teorização utilizando componentes terminológicos para teorias produtoras de situação de Brandão e Santana(13).
Procedimentos metodológicos
Na construção da Teoria de Médio Alcance (TMA), foram utilizadas as estratégias dedutiva e indutiva. A fase dedutiva, consistiu na elaboração de elementos teóricos baseados nos constructos do modelo de adaptação de Roy (MAR), que orientaram a categorização dos dados empíricos, frutos de uma revisão de escopo (estratégia de indução pela pesquisa) num processo de dedução e indução. A construção teórica se deu inicialmente com a seleção do fenômeno de estudo, da teoria base para a dedução e dos métodos a serem aplicados em sua construção. Deste modo, a partir da seleção do MAR, no nível conceitual, seus constructos e conceitos, bem como os termos das taxonomias de referência foram deduzidos para orientar a elaboração do instrumento de extração de dados da revisão de escopo e subsidiar as análises e correlações no procedimento de teorização.
Para mapear o conhecimento existente acerca do processo de adaptação da pessoa com lesão na medula espinhal foi realizada uma revisão de escopo, conforme metodologia delineada pelo Joanna Briggs Institute (JBI)(14). A revisão de escopo seguiu as etapas: Formulação da questão de revisão; Definição dos critérios de inclusão e exclusão; Localização dos estudos por meio de pesquisa; Seleção dos estudos para inclusão; Extração dos dados; Análise e síntese dos estudos relevantes.
A estratégia de busca foi desenvolvida pela equipe de pesquisa e com auxílio de uma bibliotecária. As bases de dados pesquisadas incluíram Literatura da Ciência da Saúde da América Latina e Caribe (LILACS) através do Portal da BVS em português, inglês e espanhol, CINAHL, Cochrane Library, Embase, ERIC, MEDILINE via PUBMED, Ovid Journals JBI EBP database, SCIELO, Scopus, Web of Science, PsycINFO. Fontes de estudos não publicados e literatura cinzenta também foram pesquisadas: Open Grey, Catálogo de Teses e Dissertações da CAPES, British Library EthOS, MedNar e Open Access Theses and Dissertations (OATD). Não houve limitações de tempo, idioma ou tipo de estudo. Foram recuperados 17.656 artigos de bases científicas e 1.339 de literatura cinzenta. Houve 6.841 estudos duplicados, 10.699 excluídos após leitura de título e resumo e 1.322 após leitura de texto completo. Deste modo, o corpus foi composto por 133 estudos incluídos. A revisão de escopo foi base para a estratégia de indução pela pesquisa, possibilitando a definição dos limites teóricos, a seleção dos conceitos e a correspondência entre os constructos do MAR e os elementos da taxonomia NANDA-I.
A partir da análise dos estudos primários, foram realizadas as seguintes etapas: 1- a conceitualização e correlação dos constructos teóricos do modelo de adaptação de Roy, 2- o agrupamento dos indicadores em conceitos por semântica ou significado; 3- a compatibilidade destes conceitos aos constructos do MAR, tais como estímulo focal, contextual e residual, modos adaptativos (fisiológico/físico, autoconceito / identidade de grupo, papel/função e interdependência) e processo de enfermagem; 4- a descrição estatística para apresentação de conceitos considerando a frequência encontrada nos estudos; 5- o estabelecimento dos limites da teoria por identificação de estímulos focais e contextuais presentes no corpus da revisão de escopo; 6- a compatibilidade dos elementos empíricos com os domínios e Diagnósticos de Enfermagem da taxonomia de interface da NANDA-I 2021-2023, por meio da identificação dos elementos diagnósticos encontrados nos estudos.
Poucos estudos continham declarações claras do diagnóstico de enfermagem ou mesmo de identificações de estímulos e modos adaptativos. Assim, o instrumento de extração de dados foi confeccionado incluindo os elementos descritos no MAR, como sendo estímulos focais, contextuais e residuais, bem como comportamentos adaptativos nos modos fisiológico, autoconceito, desempenho de papéis e interdependência, comportamento adaptativo ou inefetivo, adaptações positivas, problemas adaptativos e nível de adaptação dos processos de vida (integrado, compensatório e comprometido). O mesmo princípio foi adotado em relação aos diagnósticos de enfermagem. A partir da identificação dos fatores de risco, características definidoras, fatores relacionados, população em risco e condições associadas presentes em cada um dos estudos, foi possível selecionar as respostas humanas dos participantes de pesquisa.
Na fase indutiva da construção da teoria, a revisão de escopo auxiliou na seleção dos conceitos, bem como na definição dos limites e escopo teórico, enquanto a dedução do MAR possibilitou sua organização.
Aspectos éticos
O presente estudo não envolveu os seres humanos de forma direta, porém cabe ressaltar que foram respeitados os direitos dos autores.
RESULTADOS
A teoria do processo de adaptação da pessoa com lesão traumática da medula espinhal tem por finalidade explicar o processo adaptativo e indicar possíveis intervenções de enfermagem que promovam respostas de enfrentamento efetivas. É aplicada a pessoas com 18 anos ou mais, em processo de adaptação, no período de até três anos da ocorrência da lesão traumática na medula espinhal, causada por acidente automobilístico, queda e/ou violência por arma de fogo que tivessem comprometido quaisquer segmentos da coluna, caracterizando paraplegia ou tetraplegia, tendo sido classificadas como ASIA A, B, C ou D. Os pressupostos são entendidos como crenças preconcebidas, declaradas como verdadeiras e que são aceitas sem necessidade de comprovação por meio de teste empírico(15). Entre os pressupostos da TMA, podemos mencionar: a pessoa é protagonista da sua história; a pessoa e o meio ambiente encontram-se em interação constante, por meio de ondas de perturbação e acomodação, num continuum do processo adaptativo; o processo de adaptação da pessoa à lesão traumática na medula espinhal é multidimensional, interativo e integrado. Suas respostas ocorrem nas dimensões fisiológicas, psicológicas, emocionais, sociais, culturais e espirituais de forma simultânea; e a enfermagem auxilia a pessoa no processo de adaptação por meio da implementação do processo de enfermagem individualizado.
Conceitualização teórica
Na fase de conceitualização teórica os conceitos são definidos e organizados, de forma que sejam estabelecidas leis da interação entre eles(12). Os conceitos foram organizados em categorias constituídas pelos conceitos centrais, moduladores, intrínsecos às respostas humanas fisiológicas, de autoconceito, das relações de interdependência e relacionadas às alterações de papéis. Estas referem-se à forma como “os indivíduos, as famílias e as comunidades respondem aos processos de vida ou aos problemas de saúde e aos seus esforços proativos para melhorar a saúde e evitar esses problemas”(16). Também foram agrupadas as respostas de enfrentamento efetivas e comprometidas. Cada conceito foi estruturado em termos dos diagnósticos de enfermagem da NANDA-I e da taxonomia de interface Systematized Nomenclature of Medicine — Clinical Terms (SNOMED CT). Tal estruturação não é objeto do presente manuscrito, mas segue no Quadro 1, como se deu a correspondência e a exemplificação da estruturação teórica de um dos conceitos intrínsecos às respostas humanas fisiológicas.
Quadro 1 - Correspondência entre os elementos da TMA, o MAR, Diagnósticos de enfermagem e Intervenções. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2026
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MAR |
TMA |
Exemplo de estruturação da conceitualização teórica |
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Conceito da TMA |
Diagnóstico de Enfermagem NANDA-I |
Intervenções mapeadas na SNOMED CT |
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Estímulos focais |
Conceitos centrais |
Mobilidade espacial autônoma |
Domínio 4 Atividade/Repouso Classe 2 Atividade/Exercício
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Procedimentos de avaliação: - 430481008 | Assessment of mobility (procedure) | - 370866001 | Mobility deficit assessment (procedure) | - 430481008 | Assessment of mobility (procedure) |
Escala de avaliação: - 273933004 | World Health Organization mobility handicap scale (assessment scale) | Intervenções:
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Estímulos residuais |
Conceitos moduladores |
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Modo adaptativo fisiológico |
Conceitos intrínsecos às respostas humanas fisiológicas |
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Modo adaptativo de autoconceito |
Conceitos intrínsecos às respostas humanas de autoconceito |
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Modo adaptativo de desempenho de papéis |
Conceitos intrínsecos às respostas humanas relacionadas às alterações de papéis |
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Modo adaptativo de interdependência |
Conceitos intrínsecos às respostas humanas das relações de interdependência |
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Comportamento adaptativo |
Respostas de enfrentamento efetivas |
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Comportamento inefetivo |
Respostas de enfrentamento comprometidas |
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Fonte: elaborado pelos autores, 2026.
Os conceitos centrais são aqueles que fundamentam a compreensão da teoria. São eles: o processo de adaptação da pessoa à lesão traumática da medula espinhal e as respostas de enfrentamento. O primeiro é definido como o processo sistemático e contínuo de respostas de enfrentamento a evento traumático, que resulta em lesão da medula espinhal, e se expressa por comportamentos que alteram o estado de equilíbrio fisiológico, psicológico, emocional, social, cultural e espiritual na tentativa de alcançar a integridade da pessoa. As respostas de enfrentamento são respostas humanas e demais condições ligadas à saúde desencadeadas quando a pessoa sofre a lesão na medula espinhal, usualmente manifestadas em categorias fisiológicas, de autoconceito, de interdependência e relacionadas às alterações de papéis.
Os conceitos intrínsecos às respostas humanas fisiológicas são aqueles inerentes às respostas humanas relacionadas ao funcionamento dos sistemas orgânicos; os de autoconceito são aqueles inerentes aos sentimentos e crenças que a pessoa possui sobre si mesma; os relacionados às alterações de papéis são aqueles inerentes aos comportamentos, atividades e responsabilidades sociais esperadas da pessoa em cada uma das funções que lhe foram atribuídas em cada um dos espaços que ocupa; e os das relações de interdependência são aqueles inerentes aos relacionamentos interpessoais próximos que objetivam suprir as necessidades de amor, afeto, respeito e cuidado. Essas respostas são influenciadas por conceitos moduladores que podem favorecer respostas de enfrentamento efetivas ou comprometidas. O conjunto deste processo sistemático e não linear, resulta no que aqui é conceituado como processo de adaptação. Há uma relação recursiva entre os conceitos centrais da teoria e os conceitos moduladores. Da mesma forma, há influência dos conceitos moduladores na seleção e produção das respostas de enfrentamento que retroalimentam o processo de adaptação da pessoa à lesão na medula espinhal.
A Figura 1 representa de forma pictórica a acepção teórica central. A imagem de base é a própria anatomia da medula espinhal e sua fisiologia representa a relação entre as categorias conceituais estabelecidas. Ao centro, o processo de adaptação da pessoa à lesão traumática da medula espinhal. Os vasos sanguíneos que nutrem a medula em toda sua extensão, representam os conceitos moduladores. As categorias de respostas humanas (autoconceito, fisiológicas, interdependência e de papéis) estão representadas pelas meninges que envolvem intimamente e de forma interrelacionada o processo adaptativo. Os neurônios sensitivo e motor representam a interação entre a pessoa e o meio ambiente. Esta interação gera respostas efetivas ou comprometidas.
Figura 1 - Representação gráfica do processo de adaptação da pessoa com lesão traumática da medula espinhal. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2026

Fonte: elaborada pelos autores com auxílio de inteligência artificial generativa, 2026.
Afirmativas relacionais são declarações que demonstram a existência de relações entre os conceitos. As afirmativas relacionais da teoria(17) são:
1. O processo de adaptação da pessoa à lesão traumática na medula espinhal é caracterizado por respostas de enfrentamento que são moduladas pelo sentido da vida, pelas experiências prévias e pela postura interna em relação aos desafios de forma recursiva, e por um ambiente de inclusão social e comunitária.
2. As respostas de enfrentamento são compostas pelas respostas humanas fisiológicas, de autoconceito, de alterações de papéis e inerentes às relações de interdependência.
3. As respostas humanas fisiológicas são disreflexia autonômica, hipotensão ortostática, bexiga neurogênica, intestino neurogênico, dor, lesão por pressão, mobilidade espacial autônoma, atividade física e autocuidado.
4. As respostas humanas de autoconceito são autoconsistência, autoeficácia, autoestima, resiliência, espiritualidade, esperança, ansiedade, desesperança, impotência, pesar crônico e sofrimento espiritual.
5. As respostas humanas relacionadas às alterações de papéis incluem conflito de papéis, desempenho de papel, desempenho de papel ocupacional ineficaz, inclusão social e comunitária, atividades de recreação, processos familiares interrompidos, sexualidade, alteração de papéis e participação em grupos.
6. As respostas humanas das relações de interdependência são adequação afetiva, autonomia, relacionamentos significativos, sistemas de suporte, suporte reverso e risco de ansiedade por separação.
7. A dor compromete a mobilidade espacial autônoma, a prática de atividade física, o autocuidado, a autoconsistência, a autoeficácia, a autoestima, a autonomia, o desempenho de papel, a participação em grupos e em atividades de recreação.
8. A mobilidade espacial autônoma inclui a mobilidade física prejudicada, porém amplia seus limites ao estabelecer relações estreitas com a autonomia, autoeficácia, autoestima e esperança.
9. As reivindicações pela inclusão social e comunitária devem estar presentes nas agendas, pois estão associadas a um maior engajamento em respostas de enfrentamento efetivas.
10. O enfermeiro é profissional responsável para promover o processo de adaptação da pessoa à lesão traumática na medula espinhal, por meio de um planejamento assistencial que congregue suas características de multidimensionalidade, interatividade e integralidade.
Operacionalização teórica
As proposições identificam os resultados esperados, dada a construção do conjunto de conceitos, aproximando a teoria da realidade empírica, com o intento de clarificar as relações mais concretas existentes entre os conceitos no âmbito da teoria(12). As proposições teóricas da TMA do processo adaptativo da pessoa com lesão medular(17) são:
1. Se a pessoa reafirma seu propósito de vida e protagonismo, há maior possibilidade de adaptação.
2. Se a pessoa possui experiências prévias positivas de acessibilidade e inclusão social de pessoas com deficiência, há maior possibilidade de produção de respostas de enfrentamento efetivas.
3. Se a postura interna em relação aos desafios é proativa e possui como foco o problema, há respostas efetivas ao processo de adaptação.
4. Se a postura interna em relação aos desafios está focada nas emoções e em sentimentos negativos, há barreiras para que o processo de adaptação se desenvolva.
5. A dor pode gerar respostas de enfrentamento comprometidas como sentimento de impotência, pesar crônico, desempenho de papel ocupacional ineficaz e risco de ansiedade da separação.
6. Quanto maior a liberdade para exercer sua volição de forma independente e autônoma para além da função física, maior será sua participação no autocuidado, na prática de atividade física, nas atividades em grupo e de recreação, desempenho do papel social, construção e manutenção de relacionamentos significativos saudáveis, integração social e comunitária.
7. A presença de resiliência, esperança ou espiritualidade podem aumentar a autoeficácia, a autoestima e a autoconsistência, quando relacionadas a respostas de enfrentamento efetivas.
8. Os sentimentos negativos em relação ao trauma podem gerar respostas de enfrentamento comprometidas como déficit de autocuidado, ansiedade, desesperança, sentimento de impotência, pesar crônico, sofrimento espiritual e conflito de papéis.
9. O tempo prolongado de internação e do processo de reabilitação contribui para processos familiares interrompidos, alterações de papéis, sentimento de impotência e ansiedade da separação.
DISCUSSÃO
A TMA do processo de adaptação da pessoa com lesão traumática da medula espinhal tem como ponto de partida o Modelo Teórico da Adaptação de Callista Roy. Tal escolha se justifica porque a mesma se situa no paradigma interativo integrador, ou seja, tem aproximação com a escola pós-positivista da ciência, além de possuir uma visão de mundo multidimensional e contextual, em que tanto a objetividade, quanto a subjetividade são desejáveis(15). Esta visão de mundo coaduna com a perspectiva necessária para contemplar o fenômeno do processo de adaptação de uma pessoa às consequências abruptas de um trauma de grande energia que levou a uma lesão na medula espinhal. Nesta perspectiva, os conceitos centrais da teoria, processo de adaptação e respostas de enfrentamento são fundamentais para o entendimento do fenômeno. A compreensão dessas respostas fisiológicas, de autoconceito, relacionadas aos papéis sociais e às relações de interdependência é necessária para uma avaliação multidimensional, integral e integradora.
É neste intento que os conceitos intrínsecos às respostas fisiológicas contemplam não apenas as alterações celulares, mas também as alterações sistêmicas passíveis de avaliação e de intervenções de enfermagem autônomas e/ou colaborativas. Nesta perspectiva fisiológica e sistêmica, é possível encontrar a falta de sensibilidade e motricidade abaixo do nível da lesão e, a depender deste nível, disfunções respiratórias, cardíacas, sexuais, urinárias e intestinais, além de termorregulação ineficaz e desordens metabólicas diversas, incluindo as relacionadas à secreção de insulina(6,7,18,19). Igualmente, agravos decorrentes da imobilização como espasticidade, lesão por pressão, dor, desobstrução ineficaz de vias aéreas, ossificação heterotópica, osteoporose e disreflexia autonômica(6,7,18–20). Estas alterações sistêmicas, motoras e sensitivas geram desdobramentos psíquicos, emocionais, espirituais e interpessoais. A limitação motora e a dependência para a execução de tarefas, incluindo o autocuidado, levam ao sentimento de impotência, à sensação de perda da autonomia e à ansiedade relacionada às expectativas de ganho funcional. Assim, as respostas humanas de autoconceito se configuram.
Na contramão de impactos negativos, a psicologia positiva enfatiza que a adaptação psicológica a doenças crônicas e à deficiência envolve a capacidade e os recursos para lidar com adversidades, crises, traumas e eventos estressantes. Isso inclui ser automotivado para perseguir e implementar ativamente objetivos de vida; ter motivação para crescer nos domínios pessoal e interpessoal; encontrar propósito, significado e benefícios após a adversidade; e demonstrar competência, domínio, autonomia e comprometimento(21,22). A autoeficácia está relacionada à percepção da pessoa acerca de sua capacidade em realizar uma ação e, dessa forma, alcançar o resultado esperado da reabilitação(23). Este processo cognitivo influencia a motivação humana, a conduta e o comportamento adotado pelo indivíduo(24). Na mesma medida, a resiliência, a religiosidade e a espiritualidade, bem como o significado global que a pessoa dá a sua vida modulam as estratégias de enfrentamento da pessoa à lesão medular.
No âmbito das respostas humanas de alterações de papel social desempenhado, há contribuição significativa das atividades de lazer(25), entretenimento e ocupação, preferencialmente, que propiciem renda(26). Estas atividades trazem um impacto positivo no processo adaptativo. No entanto, a empregabilidade entre as pessoas que usam cadeira de rodas para se locomover é menor que entre pessoas que deambulam(26). A disfunção sexual é uma resposta humana fisiológica, mas também afeta respostas de autoconceito, relacionadas a papéis e, até mesmo, as de interdependência(27). Tal conceito exemplifica a complexidade do fenômeno, que, embora, descrito por meio de respostas humanas fragmentadas, requer que o enfermeiro e a equipe multidisciplinar superem o discurso estritamente biomédico, realizando avaliações e intervenções multidimensionais, integrais e integradas(28). Neste sentido, é indispensável a avaliação da rede de apoio para a reabilitação e a reintegração social e comunitária da pessoa com lesão medular traumática por meio das respostas humanas de interdependência. Os cuidadores das pessoas com lesão medular, familiares, cônjuges e amigos são fundamentais para a adesão aos cuidados de reabilitação(29,30).
O avanço da tecnologia assistiva, bem como a utilização de exoesqueletos(31), robôs de membros inferiores(32) e mesmo inteligência artificial(33–35) para o tratamento, reabilitação e integração social e comunitária é crescente, trazendo benefícios significativos para o processo adaptativo da pessoa com lesão traumática da medula espinhal. O custo, no entanto, é muito alto, estando acessível apenas a população mais abastada ou de países desenvolvidos. Os esforços para que estejam mais acessíveis devem ser envidados por toda a população.
A abordagem integradora da TMA do processo de adaptação da pessoa com lesão medular traumática possibilita que a pessoa desempenhe o papel de protagonista no processo de adaptação, que incorpora — para além dos limites biológicos e de ganho funcional — o autoconceito, a autoimagem, a autoestima, o retorno ao mercado de trabalho, a participação em grupos e em atividades de recreação e a busca da inclusão social e comunitária, dentre outros. Tais correlações evidenciam a imbricada rede tecida na construção desta teoria e que explicita a aliança entre a arte e a ciência da enfermagem, especialmente, por apresentar aspectos importantes da sua aplicação na prática por meio de elementos do processo de enfermagem.
Este estudo, no entanto, apresenta limitações. O processo de indução empírica foi realizado por meio de uma revisão de escopo, tendo por substrato os dados produzidos por outras pesquisas, ou seja, dados secundários, o que trouxe como benefício a representatividade de todos os continentes na contribuição para a construção teórica, mas também possibilidade de viés na seleção destes conceitos. Isto porque podem ser tópicos mais investigados por suscitarem maior interesse de pesquisadores ou por possuírem maior fomento para tal.
CONCLUSÃO
A teoria de médio alcance possibilita compreender o processo de adaptação da pessoa à lesão traumática da medula espinhal e sua aplicação na prática clínica do enfermeiro, tendo em vista que oferece um arcabouço teórico baseado nas taxonomias padronizadas. Apresenta um esquema pictórico com a presença de seus conceitos e inter-relações.
O processo de adaptação da pessoa à lesão medular traumática é complexo e multidimensional, requer do enfermeiro um olhar para o fenômeno e intervenções orientadas pelo paradigma interativo-integrador, respeitando a individualidade e as especificidades de cada pessoa. Tal perspectiva permite a compreensão de que este corpo de conhecimento disciplinar instrumentaliza o enfermeiro na aplicação do processo de enfermagem em sua prática clínica, alinhando teoria e prática com o objetivo de auxiliar a pessoa com lesão traumática da medula espinhal em seu processo adaptativo, integrando as dimensões biológicas, existenciais, sociais, culturais e políticas.
*Artigo extraído da Tese de Doutorado intitulada “Teoria de médio alcance do processo adaptativo da pessoa com lesão traumática da medula espinhal baseado no modelo de adaptação de Roy”, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil, no ano de 2022.
CONFLITO DE INTERESSES
Os autores declaram não haver conflito de interesses.
USO DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
A ferramenta de inteligência artificial generativa ChatGPT Plus (OpenAI) foi empregada como suporte à elaboração da Figura 1, intitulada “Representação gráfica do processo de adaptação da pessoa com lesão traumática da medula espinhal”, a partir da concepção teórica desenvolvida neste estudo.
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Submissão: 19-Dez-2025
Editores:
Rosimere Ferreira Santana (ORCID: 0000-0002-4593-3715)
Geilsa Soraia Cavalcanti Valente (ORCID: 0000-0003-4488-4912)
Renan Alves Silva (ORCID: 0000-0002-6354-2785)
Autor correspondente: Kênia Rocha Leite Zaccaro (kzaccaro@id.uff.br)
Editora:
Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa – UFF
Rua Dr. Celestino, 74 – Centro, CEP: 24020-091 – Niterói, RJ, Brasil
E-mail da revista: objn.cme@id.uff.br
