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 ARTIGO ORIGINAL

 

PREVENÇÃO E MANEJO DA HEMORRAGIA PÓS-PARTO: PRÁTICAS DE ENFERMEIROS NA ASSISTÊNCIA OBSTÉTRICA

 

Igor Matheus Nascimento Barbosa1, Ana Leticia Soares Valdivino2, Izabel Lorrane Alves da Silva3, Luciana da Rocha Cabral4, Ana Márcia Nóbrega Dantas5

 

1 UniFacisa - Centro Universitário. Campina Grande, PB, Brasil. ORCID: 0000-0002-1799-3585. E-mail: igormatheusenfermeiro@gmail.com.

2 UniFacisa - Centro Universitário. Campina Grande, PB, Brasil. ORCID: 0000-0003-1824-1024 .E-mail: enf.leticia.valdivino@gmail.com.

3 Universidade de Pernambuco. Ouricuri, PE, Brasil. ORCID: 0009-0001-0415-6809. E-mail: izabel.lasilva@upe.br.

4 Universidade de Pernambuco. Ouricuri, PE, Brasil. ORCID: 0000-0002-6396-3897. E-mail: luciana.rcabral@upe.br.

5 Universidade de Pernambuco. Programa Associado de Pós-Graduação em Enfermagem UPE/ UEPB. Ouricuri, PE, Brasil. ORCID: 0000-0001-5729-8512. E-mail: anamarcia.dantas@upe.br

 

RESUMO

Objetivo: Descrever as práticas de enfermeiros atuantes na assistência obstétrica relacionadas à prevenção e ao manejo da hemorragia pós-parto (HPP) em uma maternidade pública. Método: Pesquisa de campo, de caráter descritivo, com abordagem qualitativa, realizada com 12 enfermeiros vinculados a diferentes setores assistenciais de uma maternidade pública. Resultados: Foram identificadas três categorias temáticas: i) o conhecimento do enfermeiro na identificação da HPP; ii) as estratégias de prevenção, intervenção e monitorização da HPP; e iii) as dificuldades enfrentadas pelos profissionais na atuação frente à emergência puerperal. Conclusão: Os achados demonstram que parte dos enfermeiros apresenta conhecimento e atuação compatíveis com os protocolos assistenciais. Entretanto, foram observadas fragilidades relacionadas ao monitoramento da perda volêmica e à realização da massagem uterina.

 

Descritores: Hemorragia Pós-Parto; Enfermagem Obstétrica; Saúde da Mulher; Cuidados de Enfermagem; Obstetrícia.

 

Como citar: Barbosa IMN, Valdivino ALS, Silva ILA, Cabral LR, Dantas AMN. Prevenção e manejo da hemorragia pós-parto: práticas de enfermeiros na assistência obstétrica. Online Braz J Nurs. 2026;25(1):e20266940. http://doi.org/10.17665/1676-4285.20266940

 

O que já se sabe:

 

O que este artigo acrescenta:

 

INTRODUÇÃO

A hemorragia pós-parto (HPP), definida como perda sanguínea igual ou superior a 500 ml após parto vaginal, 1.000 ml após parto cirúrgico ou qualquer perda capaz de causar instabilidade hemodinâmica no pós-parto, permanece como a principal causa de morte materna no mundo(1). Apesar dos avanços nas estratégias de prevenção e manejo, essa condição ainda é responsável pela morte de milhares de mulheres todos os anos. Trata-se de um agravo evitável e potencialmente tratável quando identificado precocemente e manejado de forma adequada(1).

A mortalidade materna corresponde à morte da mulher durante a gestação ou em até 42 dias após o término da gravidez, independentemente da duração ou localização da gestação(2). Além da HPP, condições como hipertensão arterial sistêmica e infecções puerperais contribuem de forma expressiva para a morbimortalidade materna, especialmente em países de baixa renda, nos quais o acesso aos cuidados obstétricos ainda é limitado(3).

A Organização Mundial da Saúde estima que aproximadamente 92% dos óbitos maternos ocorram em países de baixa e média-baixa renda(4). No Brasil, dados do Painel de Monitoramento da Mortalidade Materna do Ministério da Saúde mostraram que, em 2024, a HPP foi a causa obstétrica direta da morte de 149 puérperas(5).

A redução da mortalidade materna demanda ações contínuas voltadas à qualificação da assistência obstétrica. Entre elas, destacam-se o fortalecimento da infraestrutura dos serviços de saúde, a ampliação dos investimentos no setor e a capacitação dos profissionais para prevenção, diagnóstico precoce e manejo adequado das emergências obstétricas(6-7).

A gravidade da HPP está relacionada à sua rápida evolução clínica, o que torna o reconhecimento precoce fundamental para redução dos desfechos maternos graves(8). Nesse contexto, destaca-se o conceito de hora de ouro (golden hour) no manejo da HPP. Protocolos assistenciais recomendam que a identificação da causa do sangramento, baseada na mnemônica dos 4Ts, e a estabilização hemodinâmica ocorram simultaneamente nos primeiros 60 minutos após o diagnóstico(8-9). Para isso, é necessário que os enfermeiros dominem os protocolos institucionais e atuem com segurança na condução dos cuidados(9-10).

Durante a assistência ao trabalho de parto, parto e puerpério, o enfermeiro deve estar apto a reconhecer alterações clínicas associadas à perda volêmica, incluindo sinais de instabilidade hemodinâmica e comprometimento das trocas gasosas(11). Nesse sentido, compreender as práticas assistenciais adotadas por esses profissionais no manejo da HPP pode contribuir para o planejamento de ações de educação permanente e qualificação da assistência obstétrica. Além disso, pode colaborar para o alcance da meta 3.1 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, a qual prevê a redução da razão de mortalidade materna global para menos de 70 óbitos por 100.000 nascidos vivos até 2030(3,12).

Diante disso, torna-se relevante conhecer as práticas adotadas por enfermeiros na prevenção e no manejo da HPP, desde as medidas preventivas até as intervenções realizadas diante da emergência obstétrica. Assim, elaborou-se a seguinte questão norteadora: quais são as práticas de enfermeiros atuantes na assistência obstétrica frente à prevenção e ao manejo da HPP?

Desse modo, o objetivo deste estudo foi descrever as práticas de enfermeiros atuantes na assistência obstétrica na prevenção e no manejo da HPP em uma maternidade pública.

 

MÉTODO

Trata-se de estudo descritivo, com abordagem qualitativa, elaborado conforme as recomendações do COnsolidated criteria for REporting Qualitative research(13).

A pesquisa foi desenvolvida em uma maternidade pública localizada no estado da Paraíba. A instituição é composta pelos setores de centro de parto normal, triagem, sala de parto, unidade de terapia intensiva (UTI) neonatal, enfermaria de alto risco, UTI materna, alojamento conjunto e bloco obstétrico.

Participaram do estudo 12 enfermeiros atuantes em seis setores da maternidade. O encerramento da coleta ocorreu por saturação dos dados, observada quando os depoimentos passaram a apresentar repetição das informações, sem acréscimo de novos elementos relevantes ao objeto investigado.

Foram incluídos enfermeiros com atuação mínima de 1 ano na instituição e que possuíam especialização em enfermagem obstétrica, saúde da mulher, residência na área ou pós-graduação lato sensu em Enfermagem. Foram excluídos os profissionais que interromperam a participação durante a entrevista ou que estavam em período de férias no momento da coleta.

O estudo foi conduzido por um graduando em Enfermagem, sob orientação de uma professora doutora. Antes da coleta de dados, o pesquisador recebeu treinamento em entrevista e pesquisa qualitativa, com o objetivo de garantir rigor metodológico. Não havia vínculo prévio entre pesquisador e participantes. O contato ocorreu exclusivamente durante o convite para participação no estudo e realização da entrevista.

Os participantes foram selecionados por conveniência. Inicialmente, o pesquisador teve acesso à escala de trabalho dos enfermeiros da instituição. Em seguida, realizou abordagem individual durante os turnos de trabalho para apresentação dos objetivos, procedimentos metodológicos e aspectos éticos da pesquisa.

Antes das entrevistas, os participantes receberam esclarecimentos sobre os objetivos do estudo e sobre a necessidade de realização da entrevista em ambiente reservado, de modo a garantir privacidade e sigilo das informações. Permaneceram na sala apenas o pesquisador e o participante. Também foi solicitada autorização para gravação do áudio em dispositivo eletrônico. Após concordância, os participantes receberam uma via do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), enquanto a via assinada permaneceu com o pesquisador responsável.

A coleta de dados ocorreu em setembro de 2023, no próprio local e horário de trabalho dos participantes. Utilizou-se roteiro de entrevista semiestruturado, contendo questões relacionadas às características profissionais dos participantes, como tempo de formação, sexo, idade e especialização, além de perguntas voltadas ao objeto da pesquisa. Previamente, realizou-se teste piloto para avaliação da adequação das perguntas e identificação de possíveis ajustes no roteiro.

O instrumento foi composto pelas seguintes questões norteadoras: Como você identifica uma puérpera com HPP? Qual a melhor estratégia para monitorar a perda sanguínea pós-parto? Quais estratégias você utiliza para evitar ou reduzir a HPP? Como você identifica uma atonia uterina? O que deve compor um kit hospitalar para atendimento da HPP? Quais estratégias você utiliza no tratamento da HPP? Você encontra dificuldades para atuar frente à emergência puerperal? Se sim, quais? Você utiliza algum protocolo para profilaxia da HPP? Se sim, quais?

As entrevistas tiveram duração mínima de 6 minutos e máxima de 13 minutos. A coleta foi encerrada após alcance da saturação dos dados, caracterizada pela repetição das informações e ausência de novos elementos relevantes ao objeto investigado(11). Não houve repetição de entrevistas. Para preservação do anonimato, os participantes foram identificados por código numérico, representado pela sigla “Enf” seguida do número correspondente à entrevista.

Os depoimentos foram transcritos integralmente para constituição do corpus textual. Para organização e processamento inicial dos dados, utilizou-se o software IRaMuTeQ®, responsável pela análise lexical das formas textuais. Nessa etapa, realizou-se a geração da nuvem de palavras, ferramenta utilizada para identificação gráfica dos termos com maior frequência nos discursos dos participantes.

Posteriormente, os dados foram submetidos à análise temática de conteúdo de Bardin, seguindo-se as etapas de pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados, culminando na definição das categorias temáticas finais(14-15).

O estudo atendeu aos preceitos éticos e legais estabelecidos pela Resolução nº 466/12. A coleta de dados ocorreu após aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa do Centro de Ensino Superior e Desenvolvimento sob CAAE nº 69297623.0.0000.5175. Todos os participantes assinaram o TCLE antes da realização das entrevistas.

 

RESULTADOS

Participaram deste estudo 12 enfermeiros atuantes em uma maternidade pública. A investigação teve como foco as práticas relacionadas à prevenção e ao manejo da HPP.

Os dados foram organizados de acordo com as variáveis de caracterização dos participantes, incluindo código de identificação, idade, sexo, tempo de formação, especialização e setor de atuação (Tabela 1).

 

Tabela 1 – Caracterização dos enfermeiros que participaram da pesquisa, na maternidade pública (n = 12). Campina Grande, PB, Brasil, 2023

ID

Idade

Sexo

Tempo desde a formação

Setor de atuação

Especialização

Enf_1

32 anos

Feminino

10 anos

CPN

Obstetrícia

Enf_2

24 anos

Masculino

2 anos

CPN

Residente em Obstetrícia

Enf_3

31 anos

Feminino

9 anos

CPN

Obstetrícia

Enf_4

35 anos

Feminino

4 anos

Triagem

Urgência e Emergência e UTI

Enf_5

30 anos

Feminino

5 anos

UTI neonatal

Estética e Dermatologia

Enf_6

41 anos

Feminino

12 anos

Alto risco

Obstetrícia e Neonatologia

Enf_7

26 anos

Feminino

4 anos

Alto risco

Urgência e Emergência e UTI

Enf_8

61 anos

Feminino

37 anos

Alto risco

Obstetrícia

Enf_9

39 anos

Feminino

3 anos

Sala de parto

Urgência e Emergência e UTI

Enf_10

48 anos

Feminino

8 anos

Sala de parto 

Saúde da Mulher

Enf_11

31 anos

Feminino

6 anos

Sala de parto 

Saúde Pública

Enf_12

32 anos

Feminino

2 anos

UTI materna

Obstetrícia

CPN: centro de parto normal; UTI: unidade de terapia intensiva.

Fonte: elaborado pelos autores, 2023.

 

Para este estudo, foram construídas três categorias temáticas: i) o conhecimento do enfermeiro na identificação da HPP; ii) as estratégias de prevenção, intervenção e monitoramento da HPP; e iii) as dificuldades enfrentadas pelo enfermeiro na atuação frente à emergência puerperal.

 

O conhecimento do enfermeiro na identificação da hemorragia pós-parto

Em relação à identificação da HPP, observou-se que a maior parte dos participantes (n = 7) baseava a avaliação principalmente na observação do sangramento visível. Em contrapartida, parte dos enfermeiros (n = 5) relatou uma avaliação mais abrangente, incluindo parâmetros hemodinâmicos e cálculo do índice de choque, conforme os depoimentos:

Pelo sangramento. (Enf_7)

 

Eu verifico apenas a presença de sangue vaginal. (Enf_9)

 

Figura2

Fonte: elaborado pelos autores, 2023.

Figura 1 – Nuvem de palavras com as formas de identificação da hemorragia pós-parto pelos enfermeiros participantes da pesquisa na Maternidade Elpídio de Almeida (n = 12). Campina Grande, PB, Brasil, 2023

 

A análise da Figura 1 evidencia o predomínio do termo “sangramento” nos discursos dos participantes, reforçando sua centralidade na identificação da HPP.

Os demais enfermeiros relataram associação entre avaliação clínica e monitoramento hemodinâmico para identificação precoce da HPP:

 Aqui a gente identifica os sinais vitais, assim que a mulher dá à luz já começamos a fazer o índice de choque, que são quatro aferições da pressão arterial (PA) dividida pela frequência cardíaca e respiratória, depois é feito aquele cálculo todo de choque. Então é o nosso primeiro sinal. Em seguida, a gente vai ver a tonalidade do útero, se está contraído ou não e ver a questão da perda sanguínea também. (Enf_1)

 

 A gente avalia primeiro a questão dos sinais vitais dela. Calcula o índice de choque a partir da PA sistólica e frequência cardíaca. Fico atenta aos sinais clínicos, se estiver hipocorada, se tem algum episódio de desmaio e também a quantidade de sangue, o volume de líquido perdido, tudo isso tem que ser analisado. (Enf_3)

 

Principais estratégias de prevenção, intervenção e monitoramento da hemorragia pós-parto

No que se refere às estratégias de prevenção, alguns participantes relataram utilizar protocolos institucionais e recomendações ministeriais como base para a assistência:

O ministério de saúde em parceria com a organização panamericana de saúde lançou aquela estratégia zero morte materna por hemorragia. Nela trás pra gente fazer o manejo ativo do 3° período de parto, que seria contato pele a pele precoce, estímulo ao aleitamento materno, tração controlada do cordão, administração profilática de ocitocina logo após o nascimento. Então na assistência a gente sempre busca fazer esse manejo ativo. (Enf_2)

 

Quanto ao monitoramento da perda sanguínea, observou-se predominância da avaliação clínica e da estimativa visual. Alguns enfermeiros relataram abandono de métodos objetivos em favor da experiência prática:

As melhores estratégias para monitorar a perda sanguínea são os sinais vitais e os sinais clínicos da mulher, porque às vezes uma mulher descompensa mesmo com um volume visivelmente pouco. Mas se os sinais clínicos dela e os sinais vitais descompensam, aí a gente entra com um protocolo. A gente não avalia nada de toalhinha, de absorvente não, é no olho mesmo. (Enf_3)

Assim que me formei usava muito o da fraldinha, mas com o passar do tempo comecei a utilizar só o olho mesmo porque é mais rápido e é eficaz também. (Enf_8)

 

Em relação às intervenções, os participantes relataram utilização de protocolos assistenciais, investigação da causa da HPP, principalmente da atonia uterina, e manejo farmacológico com ocitocina, ácido tranexâmico e metilergometrina.

 

Imagem 2

Fonte: elaborado pelos autores, 2023.

Figura 2 – Nuvem de palavras com as principais intervenções realizadas pelos enfermeiros participantes da pesquisa na Maternidade Elpídio de Almeida (n = 12). Campina Grande, PB, Brasil, 2023

 

A análise da Figura 2 reforça esses achados, com destaque para o termo “medicação”. Esse resultado evidencia a centralidade do manejo farmacológico nos discursos dos enfermeiros participantes, especialmente por meio do uso de ocitocina e outros uterotônicos.

 

As dificuldades do enfermeiro na atuação frente à emergência puerperal

Em relação às dificuldades no manejo da HPP, os relatos sugerem associação entre insegurança profissional, tempo de formação e área de atuação. Enfermeiros sem experiência prévia em emergências obstétricas ou sem especialização na área relataram limitações relacionadas ao raciocínio clínico, à tomada de decisão e à aplicação prática dos protocolos institucionais, conforme os depoimentos:

Na primeira experiência eu tive dificuldade, só que a vivencia que a residência trás me trouxe mais segurança no manejo. Eu acho que a principal dificuldade é raciocinar, diagnosticar e intervir. Sabemos que o sistema brasileiro tem algumas dificuldades em disponibilizar materiais e medicamentos, uma coisa que percebi foi a dificuldade dos profissionais que estão na minha equipe em identificar os fluxogramas e aplicá-los na prática, alguns vão pelo acham melhor, outros seguem o protocolo, com isso a atuação da enfermagem fica confusa, pois não se sabe o que seria melhor para o paciente, se o protocolo ou especialista. Mas sabe-se que o protocolo é mais correto e seguro. (Enf_2)

 

Por nunca ter presenciado, eu diria que sim, até porque não sou enfermeira obstetra, não sei intervir da maneira que um especialista da área interviria, acredito que tenho que estudar mais sobre o tema. (Enf_9)

 

Tenho sim, todas! Preciso estudar mais sobre o assunto. (Enf_5)

 

Figura3

Fonte: elaborado pelos autores, 2023.

Figura 3 - Nuvem de palavras com as principais dificuldades enfrentadas pelos enfermeiros participantes da pesquisa na Maternidade Elpídio de Almeida (n = 12). Campina Grande, PB, Brasil, 2023

 

A análise da Figura 3 reforça esses achados, com destaque para os termos “protocolo”, “dificuldade” e “intervir”. O termo “rotina” também apresentou frequência relevante nos discursos dos participantes.

Em contrapartida, enfermeiros inseridos na rotina da assistência ao parto relataram maior segurança no manejo clínico e maior familiaridade com os protocolos institucionais:

Não tenho dificuldade, por fazer parte da rotina acaba pegando a prática. (Enf_10)

 

Não, por fazer parte da rotina sempre é seguido o protocolo da instituição e com alguns treinamentos sobre o tema acaba pegando o manejo da prática. (Enf_11)

 

DISCUSSÃO

Os achados deste estudo demonstram que o conhecimento e a segurança do enfermeiro no manejo da HPP estão relacionados à formação profissional e à vivência assistencial. Observou-se que a identificação da HPP permanece fortemente baseada na estimativa visual do sangramento, prática que pode comprometer o reconhecimento precoce da instabilidade clínica da puérpera.

A enfermagem possui papel fundamental na assistência à mulher durante todo o ciclo gravídico-puerperal. Nesse contexto, o enfermeiro deve ser capaz de diferenciar perdas sanguíneas fisiológicas das situações hemorrágicas com risco materno, além de reconhecer fatores de risco, prevenir complicações e conduzir adequadamente o manejo da HPP(16).

Em relação às estratégias de prevenção e intervenção, o destaque do termo “medicação” nos discursos evidencia maior centralidade do manejo farmacológico, principalmente com uso de ocitocina, ácido tranexâmico e metilergometrina.

Entretanto, os relatos mostraram predomínio da estimativa visual como método de avaliação da perda sanguínea. Esse achado merece atenção, uma vez que a literatura desaconselha a utilização isolada desse método devido à possibilidade de subestimação do volume perdido(9). O Enf_8, apesar de possuir 37 anos de formação e experiência em setor de alto risco, referiu utilizar exclusivamente avaliação visual (Tabela 1). Esse resultado demonstra que a experiência prática não necessariamente se associa à utilização de métodos objetivos de monitoramento.

Estudos apontam que a subestimação da perda sanguínea pode retardar o reconhecimento da HPP e o início das intervenções terapêuticas(9). Dessa forma, a coleta sistemática de dados clínicos e a realização do exame físico são fundamentais para identificação precoce da HPP e definição do manejo adequado. Além disso, a identificação dos fatores de risco para HPP deve ocorrer desde o pré-natal(17-18).

A prevenção da HPP deve iniciar ainda durante a gestação, por meio da identificação de fatores de risco, tratamento da anemia gestacional e revisão de medicações associadas à discrasias sanguíneas(17).

As dificuldades relatadas pelos participantes, representadas pelos termos “protocolo”, “dificuldade” e “intervir”, demonstram limitações relacionadas à aplicação prática dos protocolos assistenciais. Os dados da Tabela 1 mostram que profissionais sem especialização em obstetrícia, como o Enf_5 e o Enf_9, relataram insegurança diante das emergências puerperais. Em contrapartida, enfermeiros inseridos rotineiramente na assistência ao parto relataram maior domínio dos protocolos institucionais e maior segurança no manejo clínico.

Essa disparidade sugere não apenas uma lacuna individual, mas uma fragilidade institucional, indicando que o serviço pode carecer de programas formais de treinamento na admissão ou de atualizações obrigatórias.

Esses resultados evidenciam a necessidade de fortalecimento das estratégias institucionais de capacitação profissional. A literatura destaca que treinamentos baseados em simulação realística contribuem para o desenvolvimento do raciocínio clínico, da tomada de decisão e da execução do manejo ativo do terceiro período do parto(19-20).

Sob essa perspectiva, as diretrizes da Organização Pan-Americana da Saúde preconizam o manejo ativo do terceiro período do parto, incluindo clampeamento oportuno do cordão umbilical entre 3 e 5 minutos, contato pele a pele, profilaxia universal da HPP com uterotônico (preferencialmente ocitocina), tração controlada do cordão umbilical e avaliação periódica do tônus uterino nas primeiras 2 horas após o parto(9).

Para investigação das causas da HPP, utiliza-se a estratégia da “Regra dos 4Ts”: tônus, trauma, tecido e trombina. Essa ferramenta possibilita avaliação sistematizada da HPP, sendo a atonia uterina a causa mais frequente, seguida por traumas, retenção de tecidos e coagulopatias(10). Nesses casos, o reconhecimento precoce da alteração do tônus uterino deve desencadear imediatamente medidas como massagem uterina e administração de uterotônicos, especialmente durante a “hora de ouro”(10).

Nesse contexto, o enfermeiro deve correlacionar sinais vitais, índice de choque e frequência de pulso, além de reconhecer rapidamente sinais sugestivos de atonia uterina, principal causa de HPP. O controle do sítio hemorrágico deve ocorrer preferencialmente na primeira hora após identificação da HPP(9).

De acordo com os protocolos assistenciais, a massagem uterina constitui uma das principais intervenções no manejo inicial da atonia uterina e pode ser realizada pelos profissionais de saúde, incluindo enfermeiros(9). Entretanto, os resultados deste estudo evidenciaram baixa valorização dessa intervenção nos discursos dos participantes. Achados semelhantes foram identificados em revisão integrativa da literatura, que descreveu dificuldades dos enfermeiros na realização desse procedimento e destacou a necessidade de fortalecimento da educação continuada, além da valorização de cuidados básicos às puérperas, como aferição dos sinais vitais e avaliação da involução uterina(21).

Além da avaliação do tônus uterino, também é necessário investigar possíveis causas traumáticas da HPP, incluindo lacerações, hematomas, roturas e inversão uterina(9). Nesse cenário, a Resolução nº 672/2021 do Conselho Federal de Enfermagem assegura autonomia ao enfermeiro obstetra para realização da síntese de tecidos lesionados decorrentes do parto(22).

Os enfermeiros obstetras possuem autonomia para atuação nas emergências obstétricas. Pesquisa nacional demonstrou que a assistência realizada por esses profissionais é baseada em evidências científicas e respaldada por políticas públicas voltadas à humanização do cuidado durante o parto e puerpério(23).

Entretanto, enfermeiros com pouca vivência em urgências obstétricas relataram limitações no conhecimento dos protocolos clínicos para manejo da HPP. Esses achados evidenciam a necessidade de fortalecimento das estratégias de capacitação profissional, com foco na prevenção, avaliação e tratamento da HPP(24-26).

Os resultados também demonstraram que a segurança no manejo da HPP esteve mais presente entre profissionais com maior experiência direta na assistência ao parto. Esse cenário reforça a importância de investimentos em programas de residência em enfermagem obstétrica e em capacitações práticas voltadas aos profissionais recém-formados ou recém-admitidos em setores obstétricos.

A atuação em emergências obstétricas exige competências que ultrapassam o conhecimento teórico. Nesse contexto, estratégias como simulação realística e preceptoria qualificada podem contribuir para o desenvolvimento do raciocínio clínico, da tomada de decisão e das habilidades práticas necessárias ao manejo da HPP(19-20).

Como limitação, este estudo foi realizado em um único serviço de saúde, o que restringe a extrapolação dos resultados para outros contextos assistenciais, considerando as diferenças na organização do trabalho entre as instituições.

 

CONCLUSÃO

Os achados demonstram que parte dos enfermeiros apresenta conhecimento e atuação compatíveis com os protocolos assistenciais para manejo da HPP. Entretanto, persistem fragilidades relacionadas ao monitoramento da perda volêmica e à realização da massagem uterina.

Observou-se que enfermeiros com maior experiência profissional ou atuação direta na assistência ao parto relataram maior segurança no manejo das emergências puerperais. Em contrapartida, profissionais sem atuação rotineira na área obstétrica apresentaram maiores dificuldades relacionadas ao raciocínio clínico, diagnóstico e intervenção.

Os resultados reforçam a necessidade de fortalecimento da educação permanente nos serviços de saúde, com treinamentos periódicos, simulações realísticas e atualização contínua dos protocolos institucionais, visando à qualificação da assistência obstétrica.

 

AGRADECIMENTOS

Agradecemos a toda equipe do hospital pela acessibilidade e contribuição com a pesquisa.

 

CONFLITO DE INTERESSES

Os autores declaram não haver conflito de interesse.

 

REFERÊNCIAS

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Submissão: 19-Dez-2025

Aprovado: 13-Abr-2026

 

Editores:

Rosimere Ferreira Santana (ORCID: 0000-0002-4593-3715)

Geilsa Soraia Cavalcanti Valente (ORCID: 0000-0003-4488-4912)

 

Autor correspondente: Ana Márcia Nóbrega Dantas (anamarcia.dantas@upe.br)

 

Editora:

Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa – UFF

Rua Dr. Celestino, 74 – Centro, CEP: 24020-091 – Niterói, RJ, Brasil

E-mail da revista: objn.cme@id.uff.br 

 

CONTRIBUIÇÃO DE AUTORIA 

Concepção do estudo: Barbosa IMN, Dantas AMN.

Obtenção de dados: Barbosa IMN, Dantas AMN.

Análise de dados: Barbosa IMN, Valdivino ALS, Silva ILA, Cabral LR.

Interpretação dos dados: Barbosa IMN, Valdivino ALS, Silva ILA, Cabral LR.

Todos os autores se responsabilizam pela redação textual e revisão crítica do conteúdo intelectual, pela versão final publicada e por todos os aspectos éticos, legais e científicos relacionados à exatidão e à integridade do estudo.

 

Figura4