Figura1

 

ARTIGO ORIGINAL

 

SAÚDE MENTAL INFANTOJUVENIL NO CONTEXTO PANDÊMICO DE COVID-19: ANÁLISE DE DADOS SECUNDÁRIOS

 

Francisco Amauri dos Santos Verçosa Júnior1, Cristina Albuquerque Douberin2

 

1 Centro Universitário Maurício de Nassau, Unidade Doroteias, Curso de Enfermagem. Fortaleza, CE, Brasil. ORCID: 0009-0007-9727-4698. E-mail: juniorsant7@gmail.com  

2 Universidade Estadual do Ceará, Núcleo de Tecnologias e Empreendedorismo em Enfermagem. Fortaleza, CE, Brasil. ORCID: 0000-0003-0023-0036. E-mail: cristina.douberin@uece.br

 

RESUMO

Objetivo: Descrever características relacionadas à saúde mental infantojuvenil no contexto pandêmico de covid-19. Método: Estudo transversal, exploratório-descritivo, com abordagem quantitativa, realizado em um Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil no estado do Ceará, Brasil. A amostra de conveniência foi composta por 185 prontuários. Foram extraídas variáveis sociodemográficas e clínicas no período de agosto a outubro de 2023. A análise dos dados foi realizada por meio de estatística descritiva. Resultados: Foram analisados 185 prontuários. Observou-se predominância do sexo feminino (58,9%) e da faixa etária entre 12 e 17 anos (65,4%). Os diagnósticos mais frequentes foram transtornos de ansiedade (45,9%) e transtornos do humor (28,1%). Entre os principais sintomas que motivaram a busca por atendimento destacaram-se ansiedade generalizada (62,7%), ideação suicida (35,1%), isolamento social (31,9%) e agitação psicomotora (25,4%). Em crianças com transtorno do espectro autista, foram recorrentes relatos de desorganização sensorial e perda de habilidades previamente adquiridas. Conclusão: A pandemia de covid-19 intensificou a demanda por cuidados em saúde mental infantojuvenil, com predominância de transtornos de ansiedade e do humor. Os achados reforçam a necessidade de políticas públicas e estratégias clínicas voltadas à mitigação dos efeitos prolongados da crise sanitária nessa população vulnerável e ao fortalecimento da rede de atenção psicossocial.

 

Descritores: Adolescente; Centro de Atenção Psicossocial; Covid-19; Criança; Enfermagem; Saúde Mental.

 

Como citar: Verçosa Júnior FAS, Douberin CA. Child and adolescent mental health in the context of the COVID-19 pandemic: analysis of secondary data. Online Braz J Nurs. 2026;25(1):e20266936. http://doi.org/10.17665/1676-4285.20266936

 

O que já se sabe:

 

 

 

O que este artigo acrescenta:

 

 

 

INTRODUÇÃO

A pandemia de covid-19, desencadeada pelo vírus SARS-CoV-2, configurou-se como uma crise sanitária global sem precedentes, com profundas repercussões sociais, econômicas e na saúde pública(1). Para além dos impactos diretos da doença, as medidas de controle adotadas, como o distanciamento social, o fechamento de escolas e a interrupção de atividades cotidianas, alteraram de forma significativa a rotina e o desenvolvimento psicossocial de populações vulneráveis(2-3).

Nesse cenário, crianças e adolescentes destacaram-se como um grupo particularmente suscetível aos efeitos na saúde mental(4). A interrupção abrupta do convívio com pares, a necessidade de adaptação ao ensino remoto, a exposição a estressores familiares de ordem financeira e de saúde, bem como o luto pela perda de entes queridos, contribuíram para um contexto propício ao surgimento ou agravamento de transtornos mentais(5-6). Estudos internacionais já apontavam aumento significativo na prevalência de sintomas de ansiedade, depressão e estresse pós-traumático nessa população durante o período pandêmico(7-8).

No Brasil, os Centros de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPSi) constituem dispositivos estratégicos da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) para o cuidado de crianças e adolescentes com transtornos mentais graves e persistentes(9). O aumento da demanda por esses serviços durante e após a pandemia sugere sobrecarga assistencial e evidencia a necessidade de compreender o perfil das novas admissões, de modo a subsidiar a adequação das práticas de cuidado(10).

Apesar da relevância do tema, ainda são escassos os estudos brasileiros que utilizam dados de serviços de saúde mental para caracterizar os impactos da pandemia na população infantojuvenil. Grande parte das publicações nacionais concentra-se em revisões narrativas ou em investigações baseadas em sintomas autorreferidos, coletados por meio de formulários online.

Além disso, a desproporção entre a relevância do tema e a disponibilidade de dados secundários no país pode ser explicada pela fragmentação dos sistemas de informação em saúde e pela subnotificação de diagnósticos ocorrida durante o período de isolamento social. A escassez de estudos que analisem o fluxo de atendimento e os padrões de procura nos CAPSi limita a compreensão do possível represamento de demandas e da gravidade dos casos que chegaram ao sistema de saúde durante e após o período crítico.

Preencher essa lacuna é fundamental para subsidiar o planejamento de ações e políticas públicas voltadas à mitigação dos efeitos de longo prazo da pandemia na população infantojuvenil brasileira. Assim, este estudo tem como objetivo descrever características relacionadas à saúde mental infantojuvenil no contexto pandêmico de covid-19, a partir da análise do perfil de usuários admitidos em um CAPSi.

 

MÉTODO

Delineamento e cenário do estudo

Trata-se de um estudo transversal, descritivo-exploratório, com abordagem quantitativa, baseado na análise de dados secundários provenientes de prontuários. A pesquisa foi realizada no CAPSi do município de Aquiraz, Ceará, serviço destinado ao atendimento de crianças e adolescentes com transtornos mentais graves e/ou em uso de substâncias psicoativas.

O CAPSi mencionado caracteriza-se como um dispositivo público de saúde que oferece assistência a crianças e adolescentes com intenso sofrimento psíquico decorrente de transtornos mentais graves e persistentes, com idade até 17 anos, 11 meses e 29 dias, bem como a usuários com sofrimento psíquico associado ao uso e/ou abuso de substâncias psicoativas, com idade até 15 anos, 11 meses e 29 dias. O serviço funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h, e os usuários podem acessar o atendimento por demanda espontânea ou mediante encaminhamentos da atenção básica, de outras secretarias, como a de educação, de instituições de acolhimento e de clínicas particulares, sempre acompanhados por familiares ou responsáveis.

A equipe do serviço é multidisciplinar, composta por terapeuta ocupacional, psicólogo, enfermeiro, assistente social, técnico de enfermagem, fisioterapeuta e médico. Esses profissionais desenvolvem ações assistenciais que abrangem atendimentos individuais e grupais, incluindo atividades terapêuticas e oficinas.

 

População e amostra

A população do estudo foi constituída por todos os prontuários de usuários atendidos no referido CAPSi. A amostra, de caráter não probabilístico e por conveniência, incluiu os prontuários físicos que atenderam aos seguintes critérios de inclusão: registros referentes à primeira admissão no serviço e ocorridos no período entre março de 2020 e março de 2023. Foram excluídos os prontuários com dados incompletos que impossibilitavam a análise das variáveis de interesse.

 

Coleta e análise de dados

Após a aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa, os pesquisadores foram autorizados pelos gestores do CAPSi a iniciar a coleta de dados, sendo previamente apresentados à equipe profissional do serviço.

A coleta ocorreu entre agosto e outubro de 2023 e foi conduzida em etapas planejadas para assegurar consistência e confiabilidade. Inicialmente, realizou-se a definição do universo de prontuários elegíveis e a sistematização das variáveis a serem extraídas. Em seguida, o processo de coleta foi realizado em dois momentos principais: uma primeira fase de identificação e verificação dos prontuários disponíveis e elegíveis e uma segunda fase de extração das informações, com supervisão periódica para controle de qualidade.

Utilizou-se um formulário padronizado para a extração das seguintes variáveis: sociodemográficas (idade, sexo e município de residência) e clínicas (diagnóstico principal conforme a Classificação Internacional de Doenças, 10ª revisão [CID-10], sintomas relatados na admissão ou motivo da procura e presença de comorbidades).

Os dados foram organizados em planilha no software Microsoft Excel® e posteriormente analisados com o auxílio do software IBM SPSS Statistics for Windows, versão 25.0 (IBM Corp., Armonk, NY, USA). Foi realizada análise estatística descritiva, com cálculo de frequências absolutas (n) e relativas (%).

 

Aspectos éticos

Este estudo deriva de um trabalho de conclusão de curso submetido à Plataforma Brasil e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da instituição proponente (CAAE nº 73988623.3.0000.5193; parecer nº 6.416.190). A pesquisa está em conformidade com a Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde e com a Declaração de Helsinque.

 

RESULTADOS

Após a aplicação dos critérios de elegibilidade, foram incluídos na análise 185 prontuários, de um total de 238, sendo os 53 restantes excluídos por apresentarem dados inconclusivos. A caracterização sociodemográfica revelou predominância de usuários do sexo feminino (n = 109; 58,9%) e da faixa etária correspondente à adolescência, entre 12 e 17 anos (n = 121; 65,4%).

A Tabela 1 apresenta a distribuição dos principais diagnósticos registrados conforme a CID-10. Os transtornos de ansiedade (F40–F48) foram os mais prevalentes, correspondendo a 45,9% dos casos, seguidos pelos transtornos do humor (afetivos) (F30–F39), com 28,1%.

 

Tabela 1 – Distribuição de diagnósticos psiquiátricos em crianças e adolescentes admitidos no CAPSi. Aquiraz, CE, Brasil, 2023 (n=185)

Diagnóstico (CID-10)

n

%

Transtornos de ansiedade (F40–F48)

85

45,9

Transtornos de humor (afetivos) (F30–F39)

52

28,1

TDAH (F90)

21

11,4

TEA (F84)

15

8,1

Outros transtornos (do comportamento, psicóticos etc.)

12

6,5

Total

185

100,0

CAPSi: centro de atenção psicossocial infantojuvenil; TDAH: transtorno do déficit de atenção e hiperatividade; TEA: transtorno do espectro autista.

Fonte: elaborado pelos autores, 2023.

 

Os principais sintomas e motivos que levaram à busca pelo serviço estão apresentados na Tabela 2. Sintomas ansiosos, como nervosismo e preocupação excessiva, foram relatados em 62,7% das admissões. Destaca-se a elevada frequência de ideação suicida (35,1%) e de queixas relacionadas ao isolamento social (31,9%).

 

Tabela 2 – Frequência dos principais sintomas relatados na admissão. Aquiraz, CE, Brasil, 2023 (n= 185)

Sintoma/motivo da procura

n

%

Ansiedade/nervosismo

116

62,7

Ideação suicida/automutilação

65

35,1

Isolamento social/tristeza profunda

59

31,9

Agitação psicomotora/irritabilidade

47

25,4

Dificuldades de sono (insônia/hipersonia)

41

22,2

Luto

28

15,1

Uso abusivo de substâncias

14

7,6

Nota: as categorias não são mutuamente excludentes; um mesmo paciente pode ter relatado múltiplos sintomas.

Fonte: elaborado pelos autores, 2023.

 

Nos prontuários de crianças com necessidades específicas, como aquelas com transtorno do espectro autista (TEA) e síndrome de Down, os registros frequentemente indicavam que a ruptura abrupta da rotina decorrente do distanciamento social resultou em desorganização sensorial e psicológica, bem como em perda de habilidades motoras e sociais previamente adquiridas. Esses achados estão apresentados na Tabela 3.

 

Tabela 3 – Cruzamento entre diagnósticos específicos e relatos de impactos da pandemia. Aquiraz, CE, Brasil, 2023 (n = 52)

Diagnósticos

Desorganização sensorial e psicológica

Perda de habilidades motoras e sociais

Total de prontuários por grupo

TEA

26

16

42

Síndrome de Down

5

5

10

Subtotal (necessidades específicas)

31

21

52

Outros diagnósticos/sem registro

133

Total geral

31

21

185

Nota: os valores de relatos (n = 31 e n = 21) referem-se exclusivamente ao grupo de necessidades específicas, conforme descrito nos prontuários analisados.

TEA: transtorno do espectro autista.

Fonte: elaborado pelos autores, 2023.

 

DISCUSSÃO

Os resultados deste estudo corroboram a hipótese de que a pandemia de covid-19 impactou de forma significativa a saúde mental da população infantojuvenil, modificando o perfil da demanda por serviços especializados, como o CAPSi. A predominância de usuários do sexo feminino (58,9%) e da faixa etária adolescente (65,4%) atendidos no CAPSi de Aquiraz, Ceará reflete uma mudança epidemiológica observada em escala global, ainda que com particularidades relacionadas ao contexto brasileiro.

A RAPS enfrentou o desafio de acolher uma “nova clientela” emergente durante a pandemia: adolescentes que, privados do espaço escolar como principal locus de socialização e proteção, passaram a manifestar sofrimentos psíquicos internalizados de forma mais intensa(11). Esse achado em Aquiraz converge com notas técnicas da Fundação Oswaldo Cruz, que indicam que, enquanto transtornos do neurodesenvolvimento, mais comuns em crianças mais jovens e do sexo masculino, mantiveram sua base assistencial, houve incremento significativo de quadros depressivos e ansiosos em meninas adolescentes. Tal fenômeno pode estar associado ao aumento da violência doméstica e à sobrecarga emocional no ambiente familiar durante o período de confinamento(12).

A concentração da demanda na faixa etária de 12–17 anos no município cearense também dialoga com estudos internacionais realizados em países de média e baixa renda, nos quais a infraestrutura de suporte digital e o acesso a terapias remotas mostraram-se desiguais. A precariedade das redes de apoio informais durante o isolamento transformou o CAPSi de Aquiraz em um importante ponto de acolhimento para crises que, em contextos pré-pandêmicos, poderiam ter sido manejadas na atenção primária ou no ambiente escolar. Dessa forma, os dados locais não representam apenas registros pontuais, mas evidências que reforçam a necessidade de reformulação das estratégias de busca ativa e acolhimento nas redes municipais, com atenção ao recorte de gênero e à vulnerabilidade específica da juventude feminina no período pós-crise sanitária(13).

A predominância de transtornos de ansiedade e de humor na amostra (Tabela 1) está alinhada a achados de revisões sistemáticas e estudos longitudinais internacionais, que apontam esses quadros como as principais consequências psiquiátricas da pandemia em jovens(6-14). Essa elevada prevalência pode ser interpretada à luz do conceito de estresse tóxico, amplamente discutido em estudos brasileiros realizados durante a crise sanitária(15). A interrupção prolongada das atividades escolares não representou apenas perda pedagógica, mas a privação do principal ambiente de mediação social e proteção para crianças e adolescentes.

Para os jovens atendidos no CAPSi, a escola exercia papel estruturante na organização da rotina. Sua ausência, associada ao medo do contágio e à incerteza econômica familiar, contribuiu para um ambiente de hipervigilância emocional, favorecendo a intensificação de sintomas ansiosos e episódios depressivos. Nesse sentido, a literatura nacional aponta que, em municípios com características demográficas semelhantes às de Aquiraz, nos quais as redes comunitárias exercem papel central, o isolamento social promoveu um processo de “desfiliação social”. A vulnerabilidade psíquica observada, portanto, não pode ser compreendida apenas sob a perspectiva biológica, mas também como resultado da fragilização dos suportes relacionais(16).

No contexto pandêmico, a sintomatologia de humor registrada nos prontuários (Tabela 1) reflete também processos de luto que nem sempre se associaram à morte física, mas à perda simbólica de liberdade, rotina e perspectivas futuras. Trata-se de uma resposta esperada diante de um desastre de longa duração, exigindo do serviço público uma abordagem que vá além da medicalização(12).

O isolamento social, o medo da infecção e a instabilidade familiar constituem estressores crônicos reconhecidamente associados ao desenvolvimento de transtornos ansiosos e depressivos(17-18). A elevada prevalência de ideação suicida (35,1%) observada na amostra configura um achado particularmente preocupante e consistente com pesquisas que apontaram agravamento de comportamentos autodestrutivos em adolescentes durante a pandemia(19). Esse dado reforça a necessidade de vigilância clínica permanente e de priorização da avaliação do risco de suicídio nos serviços de saúde mental.

A interrupção das atividades escolares presenciais também privou crianças e adolescentes de seu principal espaço de socialização e de construção de redes de apoio, o que pode explicar a alta frequência de queixas relacionadas a isolamento social e tristeza profunda (Tabela 2). O aumento do tempo de tela, embora tenha funcionado como alternativa para manutenção de algum contato social, tem sido associado, em diferentes estudos, a piores desfechos em saúde mental, incluindo sintomas depressivos e ansiosos(20).

Os achados referentes ao impacto em crianças com necessidades específicas, como aquelas com TEA, reforçam a elevada vulnerabilidade desse grupo. A rigidez cognitiva e a necessidade de rotinas estruturadas são características centrais do autismo. A desorganização imposta pela pandemia, conforme relatado nos prontuários, esteve associada à desestruturação comportamental e à regressão de habilidades, fenômeno também descrito por outros autores(21-22).

Essa vulnerabilidade pode ser compreendida à luz do caráter multissetorial do suporte demandado por essas crianças. Para esse público, a escola e as terapias especializadas não representam apenas espaços de aprendizagem, mas constituem pilares fundamentais de regulação sensorial e social. A transição abrupta para o ambiente exclusivamente doméstico impôs uma sobrecarga adaptativa significativa, dificultando a manutenção de padrões comportamentais previamente estabilizados. A ausência de previsibilidade ambiental funciona como gatilho para o aumento de comportamentos disruptivos e estereotipias, o que explica os registros de desorganização comportamental encontrados nos prontuários analisados(23).

A regressão de habilidades também pode ser compreendida a partir da interrupção das intervenções precoces. O desenvolvimento de competências motoras, comunicacionais e de autonomia em crianças com neurodivergências depende de estímulos contínuos e sistemáticos. A pausa prolongada nessas atividades durante o isolamento pode ter contribuído para a perda de marcos evolutivos anteriormente conquistados.

Outro aspecto relevante refere-se ao esgotamento dos cuidadores. A literatura brasileira aponta que o estresse parental atua como importante preditor do agravamento dos sintomas em crianças com deficiência. Nos prontuários analisados, menções à desestruturação familiar sugerem que os impactos da pandemia não recaíram apenas sobre o paciente, mas sobre todo o núcleo cuidador, que se viu privado de redes formais e informais de apoio. Esses achados reforçam a necessidade de estratégias de cuidado centradas na família, reconhecendo que a reabilitação no período pós-pandêmico depende diretamente do suporte emocional e técnico oferecido aos responsáveis(24).

No que se refere aos usuários com síndrome de Down, os relatos de perda de habilidades motoras e sociais (Tabela 3) encontram respaldo na literatura que discute os efeitos da interrupção da estimulação precoce e das terapias de suporte, como fisioterapia e fonoaudiologia. A suspensão dessas atividades durante o isolamento contribuiu para uma involução funcional perceptível nos registros clínicos. Esse grupo enfrentou uma vulnerabilidade particular, marcada pela combinação de riscos biológicos e sociais, incluindo maior suscetibilidade a complicações pela covid-19 e intensificação do isolamento comunicativo devido à ausência da escola e dos centros de reabilitação(25).

A regressão observada nos prontuários reflete, portanto, o comprometimento de processos essenciais à autonomia, como a neuroplasticidade e a sociabilidade, exigindo dos serviços estratégias voltadas à “recuperação de marcos” no cenário pós-pandemia. Tais evidências indicam que, embora necessárias, as medidas de saúde pública adotadas tiveram efeitos desproporcionais sobre determinados grupos, demandando respostas assistenciais mais específicas e adaptadas.

Este estudo apresenta limitações que devem ser consideradas. O delineamento transversal não permite estabelecer relações de causalidade, e a natureza retrospectiva, baseada em dados secundários, está sujeita a vieses de registro e subnotificação. Além disso, a amostra de conveniência, proveniente de um único serviço, restringe a generalização dos resultados. Ainda assim, o estudo oferece um retrato relevante da realidade de um serviço público essencial em um período crítico.

Cabe destacar que, apesar dessas limitações, o CAPSi de Aquiraz adotou estratégias de manejo clínico voltadas à preservação do vínculo terapêutico e à contenção de crises. Entre as principais ações, destacaram-se o reordenamento do fluxo de acolhimento, com priorização do atendimento presencial de casos agudos de ideação suicida, automutilação e crises psicóticas; a renovação de receituários e o manejo farmacológico para manutenção da estabilidade clínica e prevenção de interrupções no tratamento; e o matriciamento com a Atenção Básica, especialmente para o acompanhamento de casos leves de ansiedade. Recomenda-se que pesquisas futuras adotem delineamentos longitudinais, capazes de acompanhar a trajetória clínica desses jovens, e estudos multicêntricos que permitam compreender de forma mais ampla a realidade brasileira, investigando fatores de risco e de proteção associados aos impactos da pandemia na saúde mental infantojuvenil.

 

CONCLUSÃO

O presente estudo caracterizou o perfil da saúde mental dos usuários atendidos no CAPSi de Aquiraz, Ceará, evidenciando transformações importantes na demanda assistencial decorrentes da crise sanitária. A pandemia de covid-19 atuou como um potente estressor psicossocial, exacerbando a vulnerabilidade a transtornos mentais na população infantojuvenil.

Os dados obtidos em um serviço de linha de frente demonstram aumento expressivo na procura por cuidados especializados, com predominância de quadros de ansiedade e de humor, além de elevada frequência de ideação suicida.

Os achados reforçam a necessidade de fortalecimento da RAPS, com capacitação das equipes para o enfrentamento de demandas complexas e persistentes que emergiram nesse período. Evidenciam, ainda, a importância da implementação de programas de prevenção e promoção da saúde mental no ambiente escolar, com o objetivo de mitigar os efeitos de longo prazo da pandemia.

 

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem, imensamente, à colaboração dos gestores e profissionais do Centro de Atenção Psicossocial infantojuvenil, uma vez que essa atitude muito contribuiu para a realização da coleta de dados.

 

CONFLITO DE INTERESSES

Os autores declaram não haver conflito de interesses.

 

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Submissão: 19-Dez-2025

Aprovado: 01-Fev-2026

 

Editores:

Rosimere Ferreira Santana (ORCID: 0000-0002-4593-3715)

Geilsa Soraia Cavalcanti Valente (ORCID: 0000-0003-4488-4912)

Gicelle Galvan Machineski (ORCID: 0000-0002-8084-921X)

 

Autor correspondente: Cristina Albuquerque Douberin (cristina.douberin@uece.br)

 

Editora:

Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa – UFF

Rua Dr. Celestino, 74 – Centro, CEP: 24020-091 – Niterói, RJ, Brasil

E-mail da revista: objn.cme@id.uff.br

 

CONTRIBUIÇÃO DE AUTORIA 

Concepção do estudo: Verçosa Júnior FAS.

Obtenção de dados: Verçosa Júnior FAS.

Análise de dados: Verçosa Júnior FAS, Douberin CA.

Interpretação dos dados: Verçosa Júnior FAS, Douberin CA.

Todos os autores se responsabilizam pela redação textual e revisão crítica do conteúdo intelectual, pela versão final publicada e por todos os aspectos éticos, legais e científicos relacionados à exatidão e à integridade do estudo.

 

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