ARTIGO ORIGINAL
CARACTERIZAÇÃO DOS ÓBITOS FETAIS E DA ASSISTÊNCIA EM MATERNIDADE DE ALTO RISCO: ESTUDO TRANSVERSAL
Kauane Vicari1, Tatiane Herreira Trigueiro2, Larissa de Oliveira Peripolli3, Karine Amanda de Arruda4, Marcelexandra Rabelo5
1 Complexo Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (CHC-UFPR/Ebserh). Curitiba, PR, Brasil. ORCID: 0000-0001-8228-6046. E-mail: kauane.vicari@gmail.com.
2 Setor de Ciências da Saúde, Departamento de Enfermagem, Universidade Federal do Paraná. Curitiba, PR, Brasil. ORCID: 0000-0003-3681-4244. E-mail: tatiherreira@gmail.com.
3 Complexo Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (CHC-UFPR/Ebserh). Curitiba, PR, Brasil. ORCID: 0000-0003-0582-874X. E-mail: lperipolli@gmail.com.
4 Complexo Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (CHC-UFPR/Ebserh). Curitiba, PR, Brasil. ORCID: 0000-0001-5760-0988. E-mail: ka.aarruda@gmail.com.
5 Complexo Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (CHC-UFPR/Ebserh). Curitiba, PR, Brasil. ORCID: 0000-0002-0291-5373. E-mail: marcelexandrar@gmail.com.
RESUMO
Objetivo: Descrever e analisar o perfil dos óbitos fetais e da assistência prestada em uma maternidade de alto risco. Método: Pesquisa quantitativa, transversal, com coleta retrospectiva de dados secundários, realizada em uma maternidade de alto risco de Curitiba, Paraná. Foram analisados 36 registros de natimortos provenientes de 35 mulheres atendidas em 2022. A coleta ocorreu em 2023, com análise descritiva e aplicação do teste exato de Fisher (nível de significância de 7%; p=0,07). Resultados: Prevaleceram mulheres entre 20 e 34 anos, com estratificação de alto risco e multigestas. Quanto à assistência, registraram-se 13 métodos não farmacológicos de alívio da dor, com atuação direta de enfermeiros e médicos. A maioria dos óbitos ocorreu no anteparto, com predominância de fetos de extremo baixo peso e do sexo feminino. Houve associação estatística entre a estratificação de risco materno e o momento do óbito (p=0,06), bem como entre a idade gestacional e o total de métodos não farmacológicos de alívio da dor aplicados (p=0,01). Conclusão: O estudo contribuiu para a visibilidade da assistência integral na perda gestacional, evidenciando como essencial a atuação da equipe multiprofissional, a oferta de cuidados para a ressignificação do luto e a implementação de protocolos para a uniformização de condutas.
Descritores: Morte fetal; Complicações na gravidez; Parto humanizado.
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Como citar: Vicari K, Trigueiro TH, Peripolli LO, Arruda KA, Rabelo M. Characterization of fetal deaths and care in a high-risk maternity hospital: a cross-sectional study. Online Braz J Nurs. 2026;25(1):e20266926. https://doi.org/10.17665/1676-4285.20266926 |
O que já se sabe:
O óbito fetal impacta diretamente os indicadores de saúde perinatal e de qualidade da assistência obstétrica, além de afetar profundamente a saúde mental das pessoas envolvidas.
Suas causas relacionam-se a fatores fetais, maternos ou placentários, variando conforme a idade gestacional e a qualidade da assistência pré-natal.
O acolhimento humanizado e o suporte ao luto são preconizados por diretrizes internacionais, embora a prática clínica ainda apresente lacunas.
O que este artigo acrescenta:
A relevância de compreender o perfil obstétrico específico de uma população assistida em maternidade de alto risco, permitindo a identificação detalhada das práticas assistenciais vigentes no contexto do óbito fetal.
A identificação de fragilidades na assistência, fundamentando ações que promovam a integralidade do cuidado, como o suporte emocional contínuo e a sensibilização da equipe multiprofissional.
A proposição de elaboração e implementação de protocolos institucionais humanizados, visando padronizar condutas e facilitar a vivência e a elaboração do luto pelos envolvidos.
INTRODUÇÃO
O óbito fetal gera impactos profundos nos indicadores de saúde perinatal e na qualidade de vida dos envolvidos(1). Além disso, a Taxa de Mortalidade Fetal (TMF) constitui um importante indicador da qualidade da assistência prestada durante a gestação e o parto(2).
Aproximadamente 1,9 milhão de natimortos foram registrados globalmente em 2023, o que corresponde a uma taxa estimada de 14,3 óbitos fetais por 1.000 nascimentos totais — valor significativamente inferior aos observados em décadas anteriores. Essa tendência de declínio ressalta avanços nos padrões de saúde reprodutiva e no acesso aos serviços de obstetrícia em muitos países, embora disparidades entre regiões de alta e baixa renda permaneçam acentuadas(3). No Brasil, a TMF apresenta um quadro de relativa estabilidade nas últimas décadas; dados indicam que o índice passou de 8,19 a cada 1.000 nascimentos em 1996 para 9,5 em 2015(2).
As definições conceituais acerca do óbito fetal apresentam variações e demandam clareza terminológica. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o óbito fetal é definido como a morte do produto da concepção antes da expulsão ou extração completa do corpo materno, independentemente da duração gestacional, sendo caracterizado pela ausência de respiração, batimentos cardíacos, pulsações do cordão umbilical ou movimentos voluntários de contração muscular(4,5). Adicionalmente, o óbito fetal tardio (ou natimorto) refere-se aos casos em que o peso ao nascer é igual ou superior a 1.000 g ou com idade gestacional estimada a partir de 28 semanas(5).
No Brasil, de acordo com o Ministério da Saúde (MS), a emissão da Declaração de Óbito (DO) é obrigatória quando o óbito ocorre a partir da 20ª semana gestacional e/ou o feto possui peso igual ou superior a 500 g e/ou estatura a partir de 25 cm (coroa-calcanhar), integrando-o ao cálculo do coeficiente de natimortalidade. Até a 28ª semana de gestação, a natimortalidade é classificada como precoce; após esse período, é denominada tardia. Sob o referencial do momento do parto, o óbito pode ainda ser classificado como anteparto ou intraparto(6).
As causas relacionam-se a fatores fetais, maternos ou placentários e variam conforme a idade gestacional. Infecções, descolamento prematuro de placenta e malformações fetais predominam entre a 24ª e a 27ª semana gestacional, enquanto, a partir da 28ª semana, uma parcela significativa dos óbitos é de origem desconhecida. Existem, ainda, fatores de risco que podem propiciar tal desfecho, como a etnia (maior incidência em populações vulneráveis), doenças maternas (síndromes hipertensivas, diabetes e trombofilias), gemelaridade, extremos da idade materna, histórico de natimortalidade ou complicações em gestações anteriores, idade gestacional superior a 41 semanas e exposição a teratógenos, como tabaco, álcool ou drogas ilícitas(6).
Nesse contexto, a assistência ao parto de um feto sem vida constitui uma situação de extrema fragilidade para os profissionais, a mulher e sua rede de apoio(7). Assim, cabe à equipe de saúde a oferta de uma assistência humanizada e holística às mulheres com diagnóstico de óbito fetal(8).
Diante do exposto, este estudo justifica-se pela relevância de caracterizar a população assistida em uma unidade de referência sob a circunstância do óbito fetal, visando identificar particularidades diagnósticas e assistenciais em relação à literatura vigente. O objetivo deste trabalho é descrever e analisar o perfil dos casos de óbitos fetais e da assistência prestada em uma maternidade de alto risco.
MÉTODO
Trata-se de uma pesquisa quantitativa, descritiva, de corte transversal e com coleta retrospectiva de dados secundários. A pesquisa quantitativa utiliza procedimentos ordenados para a obtenção de informações, enquanto o estudo descritivo visa observar, descrever e documentar aspectos de determinada situação(9). Delineamentos transversais são empregados para investigar fenômenos em um único momento no tempo e, frequentemente, possuem caráter retrospectivo(10).
O estudo foi realizado na maternidade de alto risco de um hospital universitário de grande porte em Curitiba, Paraná. Em 2022, a unidade registrou uma média de 294 partos mensais no Centro Cirúrgico Obstétrico e Ginecológico (CCOG), setor que conta com enfermeiros obstetras e médicos obstetras na equipe de assistência direta ao parto.
A coleta de dados ocorreu entre julho e dezembro de 2023, mediante a análise da planilha de indicadores de nascimentos e do livro físico de registros de admissões e de óbitos fetais do CCOG. Foram incluídos todos os atendimentos de óbitos fetais anteparto e intraparto cujos nascimentos ocorreram na instituição no período de janeiro a dezembro de 2022. Foram excluídos registros duplicados (n=1), casos com pontuação na escala de Apgar maior ou igual a 1 no primeiro minuto (n=5), nascimentos ocorridos fora da maternidade (n=1) ou domiciliares (n=3) e perdas gestacionais que não se enquadravam no conceito de óbito fetal do Ministério da Saúde (n=7). Assim, a amostra final perfez 36 registros de natimortos provenientes de 35 mulheres atendidas.
Para a organização da coleta de dados, elaborou-se um instrumento no programa Microsoft Excel contendo variáveis relativas às pacientes (idade, estratificação de risco, paridade, setor de origem e motivo do internamento); à assistência (métodos de indução, métodos farmacológicos e não farmacológicos de alívio da dor, intervenções, via de nascimento, posição materna no parto, presença de laceração perineal, profissional assistente, cuidados no puerpério, assistência multiprofissional e tempo de internação); e aos recém-nascidos (momento do óbito, classificação por peso e idade gestacional, sexo, manobras de reanimação, contato pele a pele, tempo de permanência do corpo no CCOG e solicitação de necropsia).
Os dados foram submetidos à análise descritiva no programa Microsoft Excel 2013. Para verificar a associação entre as variáveis “idade gestacional” e “total de métodos de alívio da dor”, bem como entre “estratificação de risco materno” e “momento do óbito fetal”, aplicou-se o teste exato de Fisher com nível de significância de 7% (p=0,07) e análise de resíduos padronizados ajustados. O nível de significância adotado justifica-se pelo tamanho amostral, visando identificar correlações substanciais e assegurar a inclusão de variáveis com poder explicativo relevante.
Para garantir o rigor metodológico, o estudo seguiu as diretrizes do checklist Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE)(11). A pesquisa cumpre os preceitos éticos para estudos com seres humanos, tendo sido aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da instituição em 18 de janeiro de 2022 (Parecer CAAE: 51476321.2.0000.0096), em conformidade com as resoluções vigentes no Brasil.
RESULTADOS
Das 35 (100%) mulheres atendidas, a principal porta de entrada ao CCOG foi o Pronto Atendimento Ginecológico e Obstétrico (PAGO) em 31 (88,57%) dos casos, enquanto quatro (11,43%) foram encaminhadas das unidades de Alojamento Conjunto. Entre os motivos de internação no CCOG, destacaram-se a indução do parto por óbito fetal em 16 (45,71%) casos e o trabalho de parto prematuro em nove (25,71%). Outras causas incluíram o óbito fetal (diagnóstico prévio) em três (8,57%), trabalho de parto a termo em dois (5,71%) e casos isolados (2,86% cada) por hipertermia, pré-eclâmpsia, suspeita de óbito fetal, pós-datismo e rotura prematura de membranas ovulares.
Quanto à assistência pré-natal, 18 (51,43%) mulheres realizaram ao menos uma consulta; em 16 (45,71%) casos não houve registro dessa informação e uma (2,86%) paciente não realizou o acompanhamento. As características maternas detalhadas encontram-se na Tabela 1.
Tabela 1 - Características maternas das pacientes atendidas no CCOG em 2022. Curitiba, PR, Brasil, 2023
|
Variáveis |
N |
% |
|
Idade (anos) |
35 |
100,00 |
|
15 ⊢ 19 |
2 |
5,71 |
|
20 ⊢ 24 |
8 |
22,87 |
|
25 ⊢ 29 |
14 |
40,00 |
|
30 ⊢ 34 |
7 |
20,00 |
|
35 ⊢ 39 |
2 |
5,71 |
|
40 ⊢ 44 |
2 |
5,71 |
|
Estratificação de Risco |
35 |
100,00 |
|
Alto Risco |
21 |
60,00 |
|
Baixo Risco |
13 |
37,14 |
|
Sem estratificação |
1 |
2,86 |
|
Número de gestações |
35 |
100,00 |
|
Primigestas |
12 |
34,29 |
|
Multigestas |
23 |
65,71 |
Fonte: elaborado pelos autores, 2025.
No que tange aos métodos de indução do parto, utilizou-se misoprostol vaginal em 14 (40,00%) casos, sonda de Foley intracervical em 12 (34,29%) e ocitocina sintética endovenosa em 10 (28,57%). Das 21 (100%) pacientes submetidas à indução, nove (42,86%) utilizaram apenas um método, enquanto em nove (42,86%) houve associação de dois métodos e, em três (14,29%), utilizaram-se os três métodos combinados. Ressalta-se que 12 (34,29%) mulheres não passaram por indução e, para duas (5,71%), não houve registro.
Sobre a assistência ao parto e nascimento (Tabela 2), 33 (94,28%) pacientes utilizaram ao menos um método não farmacológico de alívio da dor. No âmbito farmacológico, a analgesia (raquianestesia ou peridural) foi realizada em apenas três (8,57%) casos, não tendo sido utilizada em 19 (54,29%); contudo, houve elevada ausência de registros sobre essa intervenção, correspondendo a 13 (37,14%) pacientes.
Tabela 2 - Características da assistência ao trabalho de parto e nascimento de pacientes atendidas no CCOG em 2022. Curitiba, PR, Brasil, 2023
|
Variáveis |
N |
% |
|
Métodos de alívio da dor não farmacológicos |
35 |
100,00 |
|
Acompanhante |
31 |
88,57 |
|
Deambulação |
11 |
31,43 |
|
Chuveiro |
10 |
28,57 |
|
Quatro apoios |
10 |
28,57 |
|
Massagem |
8 |
22,86 |
|
Agachamento |
6 |
17,14 |
|
Penumbra |
6 |
17,14 |
|
Bola |
3 |
8,57 |
|
Banqueta |
3 |
8,57 |
|
Banheira |
2 |
5,71 |
|
Spinning Babies |
2 |
5,71 |
|
Música |
1 |
2,86 |
|
Cavalinho |
1 |
2,86 |
|
Intervenções |
35 |
100,00 |
|
Amniotomia |
6 |
17,14 |
|
Fórceps |
4 |
11,43 |
|
Episiotomia |
1 |
2,86 |
|
Via de nascimento |
36 |
100,00 |
|
Parto vaginal |
28 |
77,78 |
|
Cesárea |
8 |
22,22 |
|
Laceração |
28 |
100,00 |
|
Grau I |
2 |
7,14 |
|
Grau II |
3 |
10,71 |
|
Períneo íntegro |
19 |
67,86 |
|
Desconhecido |
4 |
14,29 |
|
Posição de nascimento |
36 |
100,00 |
|
Decúbito dorsal |
10 |
27,78 |
|
Semi sentada |
9 |
25,00 |
|
Desconhecido |
6 |
16,66 |
|
Quatro apoios |
2 |
5,56 |
|
Em pé |
2 |
5,56 |
|
Litotômica |
2 |
5,56 |
|
Sentada |
2 |
5,56 |
|
Banqueta |
1 |
2,77 |
|
Decúbito lateral |
1 |
2,77 |
|
Profissional assistente no nascimento |
36 |
100,00 |
|
Médicos e residentes médicos |
23 |
63,89 |
|
Enfermeiros |
6 |
16,66 |
|
Médicos |
2 |
5,56 |
|
Enfermeiros e residentes de enfermagem |
2 |
5,56 |
|
Enfermeiros e residentes médicos |
2 |
5,56 |
|
Enfermeiros e médicos |
1 |
2,77 |
Fonte: elaborado pelos autores, 2025.
Em relação às intervenções, em 22 (62,86%) registros apontou-se que não houve a manobra de Kristeller; contudo, em 13 (37,14%) casos, esse dado é desconhecido devido à incompletude das informações. Ainda, 14 (40,00%) mulheres não receberam nenhuma das intervenções descritas na Tabela 2, sete (20,00%) foram submetidas a pelo menos uma delas, duas (5,71%) a duas e, em 12 (34,29%) prontuários, não houve o registro dessa informação. Além disso, 12 (34,29%) pacientes foram submetidas à curetagem no puerpério.
No que se refere aos cuidados puerperais, a inibição farmacológica da lactação foi administrada a 32 (91,43%) mulheres. Após a alta, 12 (34,29%) foram encaminhadas para acompanhamento psicológico na Atenção Primária à Saúde. O cuidado multiprofissional durante a internação caracterizou-se pela assistência médica a todas as 35 (100%) mulheres, de enfermeiros a 34 (97,14%), do serviço social a 30 (85,71%) e da psicologia a 21 (60,00%); terapia ocupacional, fisioterapia, odontologia e nutrição prestaram assistência a uma (2,86%) paciente cada. O tempo médio de internação na instituição foi superior a 46 horas, com intervalo variando entre 7 e 218 horas.
As características fetais estão detalhadas na Tabela 3. Observou-se a presença do pediatra em 17 (47,22%) nascimentos e a ausência em um (2,78%); em 18 (50,00%) casos, não houve registro sobre essa assistência.
Tabela 3 - Características dos recém-nascidos em óbito atendidos no CCOG em 2022. Curitiba, PR, Brasil, 2023
|
Variáveis |
N |
% |
|
Momento do óbito |
36 |
100,00 |
|
Anteparto |
23 |
63,89 |
|
Intraparto |
12 |
33,33 |
|
Desconhecido |
1 |
2,78 |
|
Classificação de acordo com o peso |
36 |
100,00 |
|
Extremo baixo peso |
15 |
41,67 |
|
Muito baixo peso |
5 |
13,89 |
|
Baixo peso |
8 |
22,22 |
|
Acima de 2500g |
7 |
19,44 |
|
Desconhecido |
1 |
2,78 |
|
Classificação de acordo a idade gestacional |
36 |
100,00 |
|
Pré-termo extremo |
13 |
36,11 |
|
Muito pré-termo |
8 |
22,22 |
|
Pré-termo moderado |
2 |
5,56 |
|
Pré-termo tardio |
8 |
22,22 |
|
Termo |
5 |
13,89 |
|
Sexo |
36 |
100,00 |
|
Feminino |
21 |
58,33 |
|
Masculino |
11 |
30,56 |
|
Desconhecido |
4 |
11,11 |
|
Realização de manobras de reanimação neonatal |
36 |
100,00 |
|
Realizada |
8 |
22,22 |
|
Não realizada |
10 |
27,78 |
|
Desconhecido |
18 |
50,00 |
|
Contato Pele a Pele |
36 |
100,00 |
|
Imediato |
8 |
22,22 |
|
Não imediato |
5 |
13,89 |
|
Não realizado |
10 |
27,78 |
|
Desconhecido |
13 |
36,11 |
|
Intervalo de tempo do corpo no CCOG |
36 |
100,00 |
|
Inferior a 1 hora |
3 |
8,33 |
|
Entre 1 a 3 horas |
7 |
19,44 |
|
Entre 3 a 6 horas |
10 |
27,78 |
|
Entre 6 a 9 horas |
4 |
11,11 |
|
Acima de 10 horas |
2 |
5,56 |
|
Desconhecido |
10 |
27,78 |
|
Solicitação de necropsia |
36 |
100,00 |
|
Sim |
13 |
36,11 |
|
Não |
21 |
58,33 |
|
Desconhecido |
2 |
5,56 |
Fonte: elaborado pelos autores, 2025.
Também houve associação estatística significante entre o total de métodos não farmacológicos de alívio da dor utilizados pelas mulheres e a classificação dos recém-nascidos (RN) de acordo com a idade gestacional. A análise dos resíduos padronizados ajustados evidenciou uma associação positiva quando o RN é classificado como muito pré-termo e há o registro de apenas um método de alívio da dor aplicado, bem como nos casos de RN a termo com a aplicação de oito e nove métodos. Inversamente, observou-se uma frequência menor de casos quando o RN é pré-termo tardio e apenas um método foi executado. Esses dados estão detalhados na Tabela 4.
Tabela 4 - Análise dos resíduos padronizados ajustados entre a classificação do recém-nascido de acordo com a idade gestacional e a quantidade de métodos de alívio da dor não farmacológicos executados em 2022. Curitiba, PR, Brasil, 2023
|
Número de métodos |
Muito Pré-termo |
Pré-termo extremo |
Pré-termo moderado |
Pré-termo tardio |
Termo |
|
|
NA / (p-valor) |
NA / (p-valor) |
NA / (p-valor) |
NA / (p-valor) |
NA / (p-valor) |
|
Nenhum |
0 / (-0,54) |
0 / (-0,76) |
0 / (-0,24) |
1 / (1,89) |
0 / (-0,40) |
|
1 |
7 / (2,06) |
9 / (1,24) |
2 / (1,30) |
1 / (-2,77) |
1 / (-1,72) |
|
2 |
0 / (-0,96) |
1 / (-0,10) |
0 / (-0,43) |
2 / (1,93) |
0 / (-0,72) |
|
3 |
0 / (-0,77) |
1 / (0,42) |
0 / (-0,35) |
1 / (0,97) |
0 / (-0,58) |
|
5 |
0 / (-0,77) |
1 / (0,42) |
0 / (-0,35) |
0 / (-0,77) |
1 / (1,51) |
|
6 |
0 / (-0,54) |
0 / (-0,76) |
0 / (-0,24) |
1 / (1,89) |
0 / (-0,40) |
|
7 |
1 / (0,48) |
0 / (-1,36) |
0 / (-0,43) |
2 / (1,93) |
0 / (-0,72) |
|
8 |
0 / (-0,54) |
0 / (-0,76) |
0 / (-0,24) |
0 / (-0,54) |
1 / (2,52) |
|
9 |
0 / (-0,77) |
0 / (-1,09) |
0 / (-0,35) |
0 / (-0,77) |
2 / (3,62) |
|
Desconhecido |
0 / (-0,54) |
1 / (1,34) |
0 / (-0,24) |
0 / (-0,54) |
0 / (-0,40) |
Fonte: elaborado pelos autores, 2025.
Adicionalmente, o teste exato de Fisher demonstrou associação entre as variáveis "estratificação de risco materno" e "momento do óbito fetal" (p=0,06). A análise dos resíduos padronizados ajustados entre essas variáveis está descrita na Tabela 5.
Tabela 5 - Análise dos resíduos padronizados ajustados entre o momento do óbito fetal e a estratificação de risco materno em 2022. Curitiba, PR, Brasil, 2023
|
|
Anteparto |
Intraparto |
Desconhecido |
|
|
NA / (p-valor) |
NA / (p-valor) |
NA / (p-valor) |
|
Alto Risco |
14 (-0,03) |
8 (0,48) |
0 (-1,27) |
|
Baixo Risco |
9 (0,50) |
4 (-0,24) |
0 (-0,76) |
|
Sem estratificação |
0 (-1,34) |
0 (-0,71) |
1 (6,00) |
Fonte: elaborado pelos autores, 2025.
DISCUSSÃO
No que concerne ao perfil obstétrico, a faixa etária predominante (25 a 29 anos) concentrou 40% dos casos de óbito fetal, com densidade expressiva no intervalo entre 20 e 34 anos. Tais dados corroboram o cenário nacional de 2021, no qual essa faixa etária foi prevalente em quase todas as regiões do país, exceto na região Norte(12). Na região Sul, especificamente, observa-se que mulheres entre 25 e 29 anos apresentam índices de óbito fetal superiores aos daquelas entre 20 e 24 anos(12).
Em relação ao tipo de gestação, para o mesmo ano, o número de óbitos fetais em gestações únicas no Brasil foi superior ao de gestações múltiplas, correspondendo a 91,91%(12). Diante do exposto, os resultados desta pesquisa alinham-se à realidade nacional. Quanto ao pré-natal, embora 51,43% das mulheres tenham realizado ao menos uma consulta, o elevado índice de registros incompletos compromete a análise fidedigna desse fator. Vale ressaltar que o Ministério da Saúde recomenda o mínimo de seis consultas, com início precoce no primeiro trimestre e periodicidade crescente conforme o avanço da idade gestacional, intercalando o atendimento entre médicos e enfermeiros no pré-natal de baixo risco(13).
No âmbito da assistência ao parto, destaca-se a presença do acompanhante em 88,57% dos casos como método não farmacológico de alívio da dor. Este é um direito garantido por lei desde 2005 e reforçado em 2023, assegurando a presença de uma pessoa de escolha da mulher em unidades públicas e privadas durante todo o período de atendimento(14,15). A literatura demonstra que o apoio emocional do acompanhante fortalece laços familiares e humaniza a conduta profissional, auxiliando na segurança da paciente e na evolução fisiológica do processo, bem como na amenização da dor(16).
A pesquisa evidenciou que, quanto menor a idade gestacional no momento do óbito, menor o número de métodos de alívio da dor utilizados. É imperativo que o cuidado holístico e humanizado seja garantido independentemente da viabilidade fetal. Estudo realizado em uma maternidade pública do Sul do Brasil apontou que, diante de uma situação de perda gestacional, a assistência ao trabalho de parto é percebida como de difícil acompanhamento pelos profissionais; a fragmentação do cuidado e a pouca oferta de orientações sobre métodos de alívio da dor resultam na restrição do poder de escolha das mulheres quanto à via de nascimento(17).
Acerca da equipe multiprofissional, sua importância pauta-se tanto na prevenção quanto no desfecho da assistência ao óbito fetal. O acompanhamento pré-natal de qualidade e o cuidado à saúde integral são fundamentais para prevenir desfechos desfavoráveis, bem como para o acolhimento no enfrentamento ao luto. Ressalta-se a necessidade de pesquisas que investiguem o acompanhamento gestacional no alto risco — público que representou o maior quantitativo de óbitos anteparto neste estudo —, a fim de identificar fragilidades na rede de atenção e aprimorar a assistência.
Estudos comparativos entre Brasil e Canadá evidenciam diferenças assistenciais, principalmente acerca do suporte para a prevenção do luto complicado. O contato físico com o bebê, a interação e o ato de guardar lembranças (objetos, fotos ou vídeos), além do apoio profissional após a perda, são meios que auxiliam a família na elaboração do luto(18). Outras pesquisas abordam a responsabilidade da equipe em incentivar a criação de memórias: ver, tocar, banhar, trocar e nomear o bebê são rituais de cuidado fundamentais(19). Enfatiza-se a necessidade de respeitar a cultura de cada família e sua possível recusa ao contato, cabendo à equipe, com ênfase no enfermeiro, a oferta sensível desses cuidados.
Embora a instituição não possua registros formais desses rituais, os dados mostram que o corpo do bebê permanece no setor entre 1 e 6 horas em 47,22% dos casos — intervalo viável para a oferta de suporte pela equipe. Ainda, os indicadores demonstraram que o contato pele a pele ocorreu em 36,11% dos casos; esse cuidado pode ser mais estimulado para que mais famílias se beneficiem. Ressalta-se que a assistência ao nascimento de um feto sem vida representa uma vivência delicada para os profissionais, cujo incômodo pode refletir na qualidade da assistência, especialmente pela falta de suporte institucional para lidar com tais situações(7,20). Protocolos como o SPIKES e o guideline do Royal College of Obstetricians & Gynaecologists podem guiar a equipe nesse processo(21,22).
Neste estudo, observou-se que 91,43% das mulheres realizaram a inibição farmacológica da lactação, 60,00% receberam atendimento psicológico institucional e 34,29% foram encaminhadas para a atenção primária. A falta de um protocolo institucional específico resulta em uma cobertura de atendimento psicológico que pode ser reflexo de limitações estruturais ou do quantitativo de profissionais para atender à demanda.
Quanto às características fetais, 63,89% dos óbitos ocorreram no anteparto, o que corrobora dados do IBGE de 2021 (89,84%)(12). Entretanto, houve divergência quanto ao sexo: nesta pesquisa prevaleceu o feminino (58,33%), enquanto no cenário nacional prevalece o masculino(12). Em relação ao peso e idade gestacional, este estudo apontou predominância de pré-termos extremos e de extremo baixo peso, opondo-se à tendência nacional de pré-termos moderados e baixo peso(12).
Dentre as limitações do estudo, destacam-se a dificuldade na coleta devido à segmentação dos registros e a ausência de um protocolo institucional, o que dificulta a compilação de informações. A incompletude dos dados demonstra fragilidade no processo de registro pelos profissionais e ineficácia do atual método de captação de informações nos casos de óbito fetal.
CONCLUSÃO
Enfatiza-se que o cuidado humanizado deve iniciar-se no acolhimento realizado pelo enfermeiro já na porta de entrada do serviço, permeando o pré-parto, o parto e o puerpério. É imprescindível que essas pacientes tenham acesso a cuidados holísticos, independentemente da viabilidade fetal.
Este estudo contribui para dar visibilidade à assistência ao luto, destacando como essenciais o acompanhamento multiprofissional, a oferta de rituais de cuidado para a ressignificação do processo e a implementação de protocolos que uniformizem as condutas na perda gestacional.
Por fim, infere-se que o objetivo proposto foi atingido, sugerindo-se uma reorganização da assistência e do registro das perdas. Tal medida visa conferir maior visibilidade a esses casos, considerando a estreita relação entre a taxa de mortalidade fetal e a qualidade da assistência prestada na rede de saúde.
CONFLITO DE INTERESSES
Os autores declaram não haver conflito de interesses.
REFERÊNCIAS
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Submissão: 19-Dez-2025
Editores:
Rosimere Ferreira Santana (ORCID: 0000-0002-4593-3715)
Geilsa Soraia Cavalcanti Valente (ORCID: 0000-0003-4488-4912)
Carla Oliveira Shubert (ORCID: 0000-0002-3406-3160)
Autor correspondente: Kauane Vicari (kauane.vicari@gmail.com)
Editora:
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Concepção do estudo: Trigueiro TH, Rabelo M. Obtenção de dados: Peripolli LO, Arruda KA, Rabelo M. Análise de dados: Vicari K, Trigueiro TH. Interpretação dos dados: Vicari K, Trigueiro TH. Todos os autores se responsabilizam pela redação textual e revisão crítica do conteúdo intelectual, pela versão final publicada e por todos os aspectos éticos, legais e científicos relacionados à exatidão e à integridade do estudo. |
