
ARTIGO DE REFLEXÃO
APLICAÇÃO DA TEORIA DO ALCANCE DE METAS DE IMOGENE KING NA EDUCAÇÃO PERMANENTE EM SAÚDE: UMA REFLEXÃO
Milena Mendes Jorge1, Heloisa Duarte Gabriel2, Paulo Philip de Abreu Gonzaga3, Cristine Alves Costa de Jesus4, Diana Lúcia Moura Pinho5
1 Universidade de Brasília, Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, Brasília, Distrito Federal, Brasil. ORCID: 0000-0002-4864-1603. E-mail: milenamendes.jorge@gmail.com.
2 Universidade de Brasília, Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, Brasília, Distrito Federal, Brasil. ORCID: 0000-0002-0846-5983. E-mail: heloisagabriel@gmail.com.
3 Universidade de Brasília, Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, Brasília, Distrito Federal, Brasil. ORCID: 0000-0002-1195-282X. E-mail: ppdagenf@gmail.com.
4 Universidade de Brasília, Docente do Departamento de Enfermagem, Brasília, Distrito Federal, Brasil. ORCID: 0000-0002-8638-4468. E-mail: cristine@unb.br.
5 Universidade de Brasília, Docente do Departamento de Enfermagem, Brasília, Distrito Federal, Brasil. ORCID: 0000-0003-4212-2340. E-mail: diana@unb.br.
RESUMO
Objetivo: Refletir sobre a aplicabilidade da teoria do alcance de metas de Imogene King no contexto da educação permanente em saúde (EPS). Método: Trata-se de um ensaio teórico-reflexivo que analisa a correlação entre a teoria do alcance de metas de Imogene King e as práticas de EPS desenvolvidas por profissionais da saúde. Desenvolvimento: A articulação entre os conceitos propostos por King e a aplicação prática da EPS pode ser compreendida à luz dos princípios da andragogia e da interprofissionalidade. Como contribuição deste estudo, propõe-se uma adaptação do modelo esquemático de King, alinhando-o ao contexto da EPS, com o objetivo de ampliar sua aplicabilidade nesse cenário. Nessa perspectiva, o modelo pode ser reinterpretado como um processo que favorece a construção de transações coletivas entre o educador e os demais profissionais da saúde. Conclusão: As reflexões apresentadas evidenciam que a teoria do alcance de metas de Imogene King constitui uma ferramenta relevante para orientar práticas de EPS, uma vez que sua aplicabilidade está fundamentada na interação, na comunicação e no estabelecimento de metas compartilhadas.
Descritores: Educação Permanente; Teoria de enfermagem; Cuidados de Enfermagem.
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Como citar: Jorge MM, Gabriel HD, Gonzaga PPA, Jesus CAC, Pinho DLM. Application of Imogene King’s theory of goal attainment in continuing health education: a reflection. Online Braz J Nurs. 2026;25(1):e20266919. http://doi.org/10.17665/1676-4285.20266919 |
O que já se sabe:
A teoria do alcance de metas de Imogene King tem sido amplamente utilizada para orientar a prática, a pesquisa e a educação em enfermagem, com ênfase no estabelecimento de metas compartilhadas entre profissionais e pacientes;
A educação permanente em saúde propõe processos coletivos de aprendizagem no ambiente de trabalho, fundamentados na problematização de situações reais da prática;
Ainda são limitados os estudos que articulam teorias clássicas da enfermagem com a educação permanente em saúde, sobretudo em contextos interprofissionais.
O que este artigo acrescenta:
O estudo propõe uma articulação teórica entre a teoria do alcance de metas de Imogene King, a educação permanente em saúde e os princípios da andragogia e da interprofissionalidade;
Apresenta uma adaptação do modelo esquemático de King para o contexto da educação permanente em saúde, ampliando sua aplicabilidade no desenvolvimento profissional em saúde;
A teoria de King pode fundamentar processos educativos baseados na interação, em transações coletivas e no estabelecimento de metas compartilhadas no ambiente de trabalho.
INTRODUÇÃO
Historicamente, a prática da enfermagem desenvolveu-se sob forte influência do modelo biomédico, o que resultou em uma atuação predominantemente instrumental. Nesse contexto, as práticas frequentemente se restringiam a tarefas tradicionais e ritualísticas, muitas vezes realizadas sem justificativa clara ou fundamentação conceitual consistente. Diante desse cenário, os modelos conceituais e as teorias emergiram como ferramentas fundamentais para que os enfermeiros expressassem suas convicções profissionais, estabelecessem bases morais e éticas para suas ações e adotassem uma abordagem sistemática e reflexiva na prática assistencial(1).
A introdução e consolidação das teorias de enfermagem, a partir da segunda metade do século 20, representaram uma ruptura paradigmática relevante para o desenvolvimento da profissão. Esse movimento contribuiu para a construção de um corpo próprio de conhecimento e possibilitou a transição para uma prática crítica, autônoma e cientificamente orientada(2).
A aplicação das teorias de enfermagem oferece uma estrutura organizada para o conhecimento da área, permitindo a coleta sistemática de dados para descrever, explicar e prever a prática como fenômeno. Além disso, favorece uma atuação mais racional e fundamentada, contribuindo para a definição de metas, resultados e propósitos da prática assistencial. Dessa forma, fortalece a autonomia da enfermagem e amplia sua visibilidade entre as demais profissões da área da saúde. Ao mesmo tempo, contribui para a consolidação de um corpo próprio de conhecimentos, promovendo um cuidado mais coordenado e menos fragmentado(1).
A teoria do alcance de metas de Imogene King, publicada em 1981(3), fundamenta-se em modelos conceituais que enfatizam as interações interpessoais entre profissionais e clientes, com foco na colaboração para o alcance de objetivos específicos. Nessa perspectiva, os indivíduos, entendidos como participantes ativos do processo, buscam atingir suas metas no interior de três sistemas interconectados: pessoal, interpessoal e social.
O sistema pessoal abrange conceitos como percepção, identidade, crescimento e desenvolvimento, imagem corporal, espaço e tempo. O sistema interpessoal inclui interação, comunicação, transação, papéis e estresse. Já o sistema social envolve aspectos como organização, autoridade, poder, status e tomada de decisão. Esses sistemas encontram-se interligados e influenciam diretamente a forma como os indivíduos estabelecem e alcançam seus objetivos(3).
A definição clara e estruturada dos conceitos e subconceitos é essencial para o desenvolvimento de uma teoria, pois permite uma abordagem mais precisa e alinhada à estrutura proposta. Essa organização conceitual favorece sua aplicação na prática, contribuindo para a melhoria do cuidado e para o desenvolvimento profissional na enfermagem(4). Nesse sentido, a teoria do alcance de metas destaca-se por sua abordagem sistemática e aplicável à prática, sendo amplamente utilizada para orientar a assistência, a educação e a pesquisa em enfermagem(3).
Diversos estudos têm utilizado a teoria de King como referencial teórico em diferentes contextos. Entre suas aplicações destacam-se: a construção de instrumentos para organização do cuidado de enfermagem, capazes de potencializar a segurança do cliente e a qualidade da assistência(5); a avaliação da efetividade de intervenções de enfermagem, com impactos positivos na adesão ao tratamento de diabetes melito e na melhoria do cuidado(6); e a elaboração de modelos de educação continuada em enfermagem, com benefícios tanto para os enfermeiros participantes quanto para os usuários dos serviços de saúde, além de contribuir para o avanço da profissão(7). Tais evidências reforçam o potencial dessa teoria para o fortalecimento do desenvolvimento institucional e da qualificação profissional.
A educação permanente em saúde (EPS), definida pela Política Nacional de Educação Permanente em Saúde (PNEPS), configura-se como um dispositivo pedagógico que articula formação, gestão e assistência. Seu propósito central é integrar ensino e serviço de forma orgânica, promovendo desenvolvimento institucional, qualificação profissional contínua e fortalecimento do controle social(8).
Nesse contexto, a EPS emerge como uma estratégia para superar a fragmentação dos processos formativos ao propor práticas coletivas de aprendizagem baseadas em problemas concretos da realidade dos serviços de saúde. Essa abordagem valoriza ações coletivas que incorporam dimensões sociais, políticas, econômicas e históricas presentes no ambiente de trabalho, promovendo uma formação mais contextualizada e alinhada às demandas reais do setor(9). Dessa forma, busca articular os sistemas (ou dimensões) pessoal, interpessoal e social.
Nesse cenário, a teoria do alcance de metas de Imogene King e a EPS convergem ao promoverem reflexão crítica, diálogo e valorização das experiências cotidianas como elementos centrais para a qualificação do cuidado. Ambas favorecem a construção de práticas fundamentadas em evidências, sustentadas pela análise sistemática dos fenômenos assistenciais e pela aprendizagem no contexto do trabalho(9).
Diante disso, surge o seguinte questionamento: como a teoria do alcance de metas pode contribuir para a aplicação prática da EPS?
A teoria de King alinha-se aos princípios da EPS, especialmente por meio de sua estrutura conceitual baseada nos sistemas pessoal, interpessoal e social, mediada por conceitos centrais como interação, comunicação, tomada de decisão, papéis, percepção e transação. Esses elementos convergem com a proposta da EPS de promover aprendizagem significativa a partir das necessidades concretas dos serviços, favorecendo mudanças individuais, coletivas e organizacionais(10). Ambas compartilham a premissa de que o aprendizado, assim como o cuidado, constitui um processo colaborativo e dinâmico que requer participação ativa dos indivíduos.
Assim, a teoria do alcance de metas oferece um arcabouço teórico capaz de sustentar a EPS no ambiente de trabalho, articulando desenvolvimento profissional, organização do cuidado e melhoria dos resultados em saúde. Nesse sentido, o objetivo deste estudo é refletir sobre a aplicabilidade da teoria do alcance de metas de Imogene King nas práticas de EPS no contexto interprofissional.
MÉTODO
Trata-se de um ensaio teórico-reflexivo, desenvolvido a partir de estudos e discussões realizados na disciplina “Bases Teóricas e Filosóficas em Enfermagem”, ofertada pelo Programa de Pós-Graduação Acadêmico em Enfermagem (PPGEnf) da Universidade de Brasília (UnB), no período de outubro de 2024 a fevereiro de 2025. A disciplina possui carga horária total de 60 horas, organizada em encontros semanais de 4 horas, conduzidos por duas docentes permanentes do PPGEnf, enfermeiras e doutoras. Participaram da disciplina 11 discentes regularmente matriculados no programa, sendo oito de mestrado e três de doutorado.
As reflexões apresentadas neste ensaio emergiram da leitura aprofundada da obra original de Imogene King, articulada à análise e discussão de referenciais clássicos e contemporâneos sobre teorias de enfermagem, educação de adultos, EPS e educação interprofissional. Essas discussões foram conduzidas pelos autores, enfermeiros com experiência prática nas áreas de ensino, gestão e assistência em saúde. Para ampliar e fundamentar a discussão teórica, realizou-se uma busca exploratória na base de dados PubMed, complementada por obras de referência sobre teorias de enfermagem e por documentos de políticas públicas na área da saúde.
A estratégia de busca na PubMed foi construída a partir da combinação de descritores controlados (Medical Subject Headings e Descritores em Ciências da Saúde) e termos livres em inglês, incluindo: “King’s Theory of Goal Attainment”, “Imogene King”, “nursing theory”, “continuing education”, “continuing professional development”, “health personnel”, “adult learning”, “andragogy”, “health professionals”, “interprofessional education”, “collaborative practice” e “teamwork”. Os operadores booleanos AND e OR foram utilizados em diferentes combinações, com o objetivo de ampliar o escopo de recuperação e contemplar estudos empíricos, revisões e ensaios teóricos relacionados ao tema.
Foram adotados como critérios de inclusão artigos disponíveis em texto completo, publicados em inglês, português ou espanhol, que abordassem: (a) a teoria do alcance de metas ou o sistema conceitual de Imogene King aplicados à prática, à pesquisa ou à educação em saúde; (b) a EPS e/ou processos de educação permanente ou desenvolvimento profissional contínuo em saúde, com foco na aprendizagem de adultos; e/ou (c) a educação interprofissional e a prática colaborativa em saúde, especialmente em contextos de trabalho em equipe.
A busca contemplou, como horizonte temporal, tanto as publicações clássicas relacionadas à teoria de King, produzidas entre as décadas de 1970 e 1990, quanto produções contemporâneas relevantes sobre EPS, educação interprofissional e desenvolvimento profissional contínuo publicadas até o ano de 2025. Essa estratégia permitiu reunir um conjunto manejável de estudos conceituais e empíricos alinhados à temática deste ensaio.
Os materiais selecionados foram analisados de forma crítica e reflexiva, com o objetivo de identificar convergências conceituais entre a teoria do alcance de metas e os pressupostos da EPS, especialmente no que se refere aos processos de aprendizagem de adultos, à interação entre profissionais e ao desenvolvimento permanente em saúde. A partir dessa análise, emergiu o seguinte questionamento norteador: como a teoria do alcance de metas pode contribuir para a aplicação prática da EPS?
DESENVOLVIMENTO
Princípios e conceitos centrais da teoria de King
O relacionamento entre enfermeiro e cliente envolve a troca de informações, o estabelecimento de metas compartilhadas e a tomada de decisões conjuntas, processos que resultam em transações e no alcance dos objetivos propostos(3). Nesse contexto, King enfatiza a participação ativa do cliente no processo decisório, buscando aprimorar a eficácia do cuidado de enfermagem. Ao trabalharem conjuntamente na definição e no alcance das metas, profissionais e clientes fortalecem uma prática assistencial mais centrada no indivíduo, favorecendo melhores resultados em saúde.
Os conceitos atribuem significado às percepções captadas pelos sentidos, possibilitando a formulação de generalizações sobre pessoas, objetos e eventos(4). A percepção refere-se à forma como profissionais e clientes interpretam a realidade. A comunicação constitui um processo essencial para o entendimento mútuo, a tomada de decisões e o alcance de metas. A interação corresponde à troca de informações entre as partes. As relações interpessoais envolvem as interações estabelecidas entre indivíduos com o objetivo de atingir metas comuns. A transação representa o processo pelo qual profissional e cliente definem e estabelecem metas conjuntamente. O estresse é um fator que pode influenciar essas interações, enquanto a tomada de decisão caracteriza-se como um processo compartilhado orientado ao alcance dos objetivos definidos(3).
O modelo de interação entre enfermeiro/profissional e cliente constitui a principal representação esquemática da teoria (Figura 1). Esse modelo descreve o comportamento humano como uma sequência de ações interpretadas a partir de percepções e julgamentos, que não são diretamente observáveis, mas inferidos. As interações envolvem comunicação verbal e não verbal orientada a objetivos e são influenciadas por fatores como conhecimentos, expectativas, necessidades e experiências prévias de cada indivíduo. Tanto o enfermeiro quanto o cliente avaliam a situação, formulam julgamentos e tomam decisões que orientam suas ações ao longo do processo de cuidado(3).
Figura 1 - Representação esquemática do processo de interações humanas. Brasília, DF, Brasil, 2025

Fonte: traduzido e adaptado de King, 1981.
As interações podem evoluir para transações, que representam a concretização dos objetivos estabelecidos em conjunto. Para que isso ocorra, é necessário que enfermeiro e cliente compartilhem percepções, negociem metas e alcancem consenso quanto aos métodos para atingi-las. A participação ativa em eventos concretos e o movimento conjunto em direção à meta promovem mudanças nos envolvidos, dinâmica sustentada pelos conceitos centrais de percepção, comunicação, julgamento e tomada de decisão(3).
A teoria de King tem sido amplamente utilizada na prática em saúde, uma vez que a enfermagem se fundamenta em interações entre indivíduos e grupos(5-7). Profissionais que compreendem os conceitos da teoria tendem a interpretar de forma mais abrangente as experiências dos clientes e de suas famílias, podendo propor abordagens assistenciais mais eficazes. A teoria e seu modelo de interação têm sido aplicados em diversos serviços de saúde, tanto no cenário nacional quanto internacional, além de constituírem base teórica para múltiplas pesquisas na área(4-7).
A relação entre a teoria do alcance de metas de Imogene King e a educação permanente em saúde
A articulação entre os conceitos definidos por King e a aplicação prática da EPS pode ser estabelecida com o apoio da teoria da andragogia e dos princípios da interprofissionalidade. Com base nesses referenciais, propõe-se uma adaptação do modelo esquemático de King, alinhando-o ao contexto da EPS, com o objetivo de ampliar sua aplicabilidade no desenvolvimento profissional em saúde.
A andragogia fundamenta-se na compreensão de como ocorre o processo de ensino-aprendizagem de adultos, considerando suas particularidades e experiências prévias(11). Nesse contexto, a interação entre profissionais favorece oportunidades de aprendizagem baseadas nas experiências clínicas acumuladas pelos membros da equipe(12).
Assim, reconhece-se a experiência prévia do profissional, sua autonomia e sua prontidão para aprender, reforçando os princípios andragógicos e a concepção de que a aprendizagem deve partir das necessidades e dos saberes dos sujeitos, conforme preconiza a PNEPS(10). A articulação com a andragogia evidencia a convergência entre esses referenciais, sustentando processos educativos orientados à resolução de problemas reais e ao alcance de metas compartilhadas(11).
Além disso, o processo de ensino-aprendizagem envolve interações contínuas e responsabilidades compartilhadas entre diferentes profissionais da equipe. Nesse sentido, a educação no ambiente de trabalho favorece a prática colaborativa e a educação interprofissional em saúde(13), possibilitando uma visão mais integral do cuidado e contribuindo para maior efetividade na assistência ao cliente(14).
A Figura 2 apresenta um modelo esquemático da teoria do alcance de metas de King adaptado pelos autores, sintetizando a aplicabilidade da teoria no contexto da EPS. No modelo proposto, o educador, sendo o profissional da saúde responsável pelo processo formativo, assume o papel de mediador do ensino-aprendizagem, alinhando sua prática aos princípios da andragogia. Dessa forma, busca-se garantir uma aprendizagem ativa, baseada em ambientes participativos que favoreçam o desenvolvimento profissional. Simultaneamente, a interprofissionalidade é compreendida como oportunidade de troca de conhecimentos entre profissionais de diferentes áreas, reconhecendo que tanto o cuidado quanto a aprendizagem constituem construções coletivas.
Figura 2 - Processo de interações humanas aplicado no contexto da educação permanente em saúde. Brasília, DF, Brasil, 2025

Fonte: adaptado de King, 1981.
No modelo adaptado, o conceito de percepção amplia-se para além da relação com o ambiente, passando a incluir também as formas de aprendizagem e assimilação do conhecimento. Esse conceito relaciona-se diretamente ao princípio andragógico da experiência prévia, reconhecendo que as experiências acumuladas pelos profissionais constituem recursos valiosos no processo de aprendizagem de adultos. Essas vivências influenciam significativamente a forma como novos conceitos são compreendidos e desenvolvidos, impactando a construção do conhecimento(11).
A comunicação assume papel central nesse processo. Cabe ao educador promover um diálogo aberto e ativo, favorecendo a troca de experiências e ampliando a compreensão da linha de cuidado(14-16). Para isso, a comunicação deve ser conduzida de forma flexível, com o uso de metodologias ativas adequadas ao nível de consolidação do conhecimento dos participantes(11). A interação entre os envolvidos torna-se, portanto, essencial para o estabelecimento de objetivos e para a progressão das etapas do processo de transação.
O julgamento ocorre quase automaticamente após as interações iniciais entre educador e profissionais da saúde e o processamento das informações essenciais. Ele resulta da interação entre a mensagem recebida, as experiências e as percepções individuais, seguida de uma ação em resposta(3).
A reação gerada nesse processo pode influenciar diretamente o ensino-aprendizagem, tornando fundamental sua consideração no planejamento educacional. Existem instrumentos capazes de avaliar o nível de reação dos participantes após intervenções educacionais, fornecendo dados relevantes para aprimorar o processo formativo. Nesse contexto, destaca-se a importância de avaliar o princípio da prontidão para aprender, o que favorece maior engajamento e contribui para a retenção e consolidação do conhecimento(11).
A etapa de transação ocorre quando se estabelece uma situação de ensino capaz de promover trocas contínuas de conhecimentos, viabilizando o alcance das metas definidas. Esse processo relaciona-se aos conceitos de relações interpessoais propostos por King(3). Além disso, está alinhado aos princípios da PNEPS, que incluem: a problematização das práticas de trabalho como eixo formativo; a aprendizagem significativa baseada nas necessidades reais dos serviços; a integração entre ensino, serviço, gestão e controle social; o protagonismo dos trabalhadores na identificação e resolução de problemas; e a construção coletiva do conhecimento como estratégia de transformação das práticas assistenciais(17).
As transações entre os participantes devem ocorrer de forma contínua para garantir a sustentabilidade das interações. Esse processo deve permanecer aberto a feedbacks constantes, favorecendo melhorias contínuas e contribuindo para a motivação dos participantes, em consonância com os princípios andragógicos que buscam tornar o aprendizado mais significativo(11).
Assim, a Figura 2 pode ser reinterpretada como um processo que gera transações coletivas entre o educador e os demais profissionais da saúde, mediadas pela troca de experiências, pela escuta ativa, pela reflexão crítica, pela tomada de decisões compartilhadas orientadas às necessidades do cuidado e pela construção de vínculos de confiança.
Nesse sentido, a EPS, orientada ao desenvolvimento profissional contínuo, sustenta-se na interação entre profissionais que, a partir de suas experiências e vivências, constroem um processo de aprendizagem coletiva. Esse movimento favorece a colaboração, a interprofissionalidade e a qualificação do cuidado, promovendo a construção de metas compartilhadas e decisões conjuntas no processo assistencial(18,19-20).
Barath e Ross (2024)(12) destacam que o desenvolvimento profissional contínuo interprofissional amplia o conhecimento sobre o papel dos diferentes profissionais, fortalece redes de contato e favorece a construção de relações colaborativas. Esse processo contribui para o estabelecimento de práticas de mentoria, colaboração e novas oportunidades de aprendizagem.
A integração entre EPS e interprofissionalidade potencializa processos de aprendizagem contínuos e reflexivos no ambiente de trabalho, fundamentados na colaboração e na problematização das práticas reais de cuidado(19,21). Nesse contexto, a teoria do alcance de metas pode sustentar o alcance de metas profissionais e interprofissionais ao fortalecer processos de comunicação, tomada de decisão compartilhada e transação. Dessa forma, o alcance de metas deixa de representar um resultado individual e passa a expressar um compromisso coletivo orientado às necessidades do usuário, à integralidade do cuidado e à qualificação das práticas assistenciais.
Em síntese, a EPS corresponde a um processo de aprendizagem que ocorre no cotidiano dos serviços de saúde, a partir do encontro entre profissionais e da troca de saberes e experiências. Assim, “quanto mais o corpo está exposto aos encontros com outros trabalhadores, maior será a capacidade de perceber e compreender a realidade do trabalho, e mais a mente será capaz de expressar suas ideias e propor ações”(20).
Entre as limitações deste estudo destaca-se seu caráter teórico-reflexivo, bem como a escassez de estudos que relacionem diretamente a teoria do alcance de metas de Imogene King a cenários de EPS. Essa lacuna pode restringir tanto a profundidade das reflexões quanto a amplitude da fundamentação empírica disponível para o diálogo com a teoria.
CONCLUSÃO
Este ensaio teórico possibilitou refletir sobre a articulação entre a teoria do alcance de metas de Imogene King e a EPS, evidenciando conceitos fundamentais da teoria que potencializam, do ponto de vista prático, os princípios da EPS. A integração dos sistemas propostos por King fortalece processos de tomada de decisão compartilhada, colaboração e interprofissionalidade, contribuindo para reduzir a fragmentação das práticas educativas e assistenciais e favorecer um cuidado integral e resolutivo. Além disso, o estudo oferece uma perspectiva inovadora ao integrar teorias clássicas da enfermagem com modelos educacionais contemporâneos.
As reflexões apresentadas indicam que a teoria do alcance de metas de Imogene King constitui uma ferramenta relevante para orientar práticas de EPS, uma vez que sua aplicabilidade se fundamenta na interação, na comunicação e no estabelecimento de metas compartilhadas. Essa relação reforça a importância da participação ativa dos profissionais da saúde em seus próprios processos de aprendizagem e no desenvolvimento profissional contínuo, promovendo práticas educativas significativas e alinhadas às necessidades do cuidado.
CONFLITO DE INTERESSES
Os autores declaram não haver conflito de interesses.
USO DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
Houve uso de ferramenta de inteligência artificial baseada em modelo de linguagem (ChatGPT, OpenAI) para apoio à revisão gramatical, aprimoramento da fluidez e coerência textual, organização da escrita acadêmica e auxílio na interpretação de alguns dados.
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Submissão: 19-Dez-2025
Aprovado: 13-Fev-2026
Editores:
Rosimere Ferreira Santana (ORCID: 0000-0002-4593-3715)
Geilsa Soraia Cavalcanti Valente (ORCID: 0000-0003-4488-4912)
Autor correspondente: Milena Mendes Jorge (milenamendes.jorge@gmail.com)
Editora:
Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa - UFF
Rua Dr. Celestino, 74 - Centro, CEP 24020-091- Niterói - RJ, Brasil.
E mail da revista: objn.cme@id.uff.br
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CONTRIBUIÇÃO DE AUTORIA |
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Concepção do estudo: Jorge MM, Gabriel HD, Gonzaga PPA. Obtenção de dados: Jorge MM, Gabriel HD, Gonzaga PPA. Análise de dados: Jorge MM, Gabriel HD, Gonzaga PPA, Jesus CAC, Pinho DLM. Interpretação dos dados: Jorge MM, Gabriel HD, Gonzaga PPA, Jesus CAC, Pinho DLM. Todos os autores se responsabilizam pela redação textual e revisão crítica do conteúdo intelectual, pela versão final publicada e por todos os aspectos éticos, legais e científicos relacionados à exatidão e à integridade do estudo. |
