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ARTIGO ORIGINAL

 

ANÁLISE DAS GLOSAS HOSPITALARES E SUA RELAÇÃO COM O REGISTRO DE ENFERMAGEM: ESTUDO RETROSPECTIVO

 

Mônica Ferreira Bruzaferro1, Juliana de Melo Vellozo Pereira Tinoco2, Paula Vanessa Peclat Flores3, Ana Carolina Marques Fiore4, Paloma Alves de Souza5, Raquel Dias dos Santos Dantas6

 

1 Universidade Federal Fluminense, Programa Profissional em Enfermagem Assistencial (PPEA). Rio de Janeiro, RJ, Brasil. ORCID: 0009-0002-6134-6542. E-mail: mfbruzaferro@id.uff.br

2 Universidade Federal Fluminense, Programa Profissional em Enfermagem Assistencial (PPEA). Rio de Janeiro, RJ, Brasil. ORCID: 0000-0002-2418-6984. E-mail: melojuliana@id.uff.br

3 Universidade Federal Fluminense, Programa Profissional em Enfermagem Assistencial (PPEA). Rio de Janeiro, RJ, Brasil. ORCID: 0000-0002-9726-5229. E-mail: paulaflores@id.uff.br

4 Universidade Federal Fluminense. Acadêmica de Enfermagem. Niterói, RJ, Brasil. ORCID: 0009-0004-4389-3248. E-mail: anafiore@id.uff.br

5 Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Acadêmica de Enfermagem. Belo Horizonte, MG, Brasil. ORCID: 0009-0006-8924-9575. E-mail: palomaalves1804@gmail.com

6 Universidade Federal Fluminense, Programa Profissional em Enfermagem Assistencial (PPEA). Rio de Janeiro, RJ, Brasil. ORCID: 0000-0002-2965-7685. E-mail: raqueldantas@id.uff.br

 

RESUMO

Objetivo: Analisar a prevalência das glosas hospitalares relacionadas ao registro de enfermagem de uma Unidade Coronariana de um hospital privado. Método: Estudo retrospectivo, exploratório e descritivo, com coleta de dados de glosas junto às operadoras de planos de saúde entre março de 2023 e março de 2024. Resultados: Foram analisadas 1567 glosas, totalizando R$ 21.329,47 em prejuízos. Os itens mais glosados foram materiais para punção venosa (26%), curativos (23%) e medicamentos (20%). As principais causas foram ausência de cobertura e uso sem justificativa (71%), além da falta de registros, responsável por 70% do valor monetário glosado. Conclusão: O estudo evidencia desafios na gestão de materiais e cuidados de enfermagem, reforçando a necessidade de registros precisos para melhorar a segurança do atendimento e a sustentabilidade financeira dos serviços hospitalares. A falta e/ou incompletude de registros nos prontuários contribuiu significativamente para as glosas avaliadas na Unidade Coronariana.

 

Descritores: Instituições Privadas de Saúde; Planos de Saúde; Registros de Enfermagem; Glosas Hospitalares.

 

Como citar: Bruzaferro MF, Tinoco JMVP, Flores PVP, Fiore ACM, Souza PA, Dantas RDS. Analysis of hospital claim denials and their relationship with nursing documentation: a retrospective study. Online Braz J Nurs. 2026;25(1):e20266911. http://doi.org/10.17665/1676-4285.20266911  

 

INTRODUÇÃO

O direito à saúde no Brasil é garantido pela Constituição como um dever do Estado e um direito universal, sendo operacionalizado principalmente pelo SUS, que envolve as esferas federal, estadual e municipal para oferecer serviços de saúde a todos os cidadãos. No entanto, a efetivação desse direito enfrenta desafios, como a desigualdade econômica e o vasto território, o que leva à escassez de recursos e à maior incidência de pobreza, impactando principalmente a saúde primária e dificultando o acesso a serviços especializados(1-2).

O setor privado surge como uma alternativa ao SUS para uma parte da população. No Brasil, os serviços de saúde privados complementam e ampliam a oferta de serviços de saúde. Esse setor é bastante diversificado, englobando desde pequenas clínicas e consultórios até grandes hospitais e redes de saúde(3-4). Os desafios são significativos, como o aumento dos custos médicos e dos seguros de saúde, que frequentemente superam a inflação(5). Essa realidade destaca a importância de uma regulamentação eficaz para controlar preços e garantir o acesso aos serviços sem comprometer a qualidade do atendimento. Para enfrentar esses desafios, muitas instituições adotam uma abordagem empresarial, utilizando ferramentas como análise de custos e auditorias para equilibrar a redução de despesas e a manutenção de altos padrões de cuidado, garantindo sua competitividade no mercado(6-8).

As auditorias desempenham um papel essencial na análise dos serviços prestados pelas instituições de saúde. Durante esse processo, as operadoras de saúde podem identificar falhas de alinhamento e comunicação, sejam elas técnicas ou administrativas(9). A ausência de informações adequadas, o uso incorreto de equipamentos e cobranças excessivas podem levar à negativa de reembolsos pelos convênios de saúde. Um exemplo comum disso são as glosas, frequentemente causadas pela falta de registros, especialmente das atividades de enfermagem(8).

As glosas são definidas como faturamentos não recebidos ou recusados pelas organizações de saúde devido a problemas de comunicação entre os serviços de saúde e os convênios. Elas representam inconsistências identificadas pelo enfermeiro auditor nos registros do prontuário do paciente, que inviabilizam o pagamento por parte do plano de saúde(9). Grande parte dessas inconsistências ocorre pela ausência de anotações, especialmente pela equipe médica e de enfermagem(10). De acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), é fundamental registrar de forma completa todos os atendimentos realizados aos pacientes no prontuário(11).

O registro adequado do Processo de Enfermagem é essencial para assegurar a qualidade da assistência, transmitir informações relevantes e integrar o plano de cuidados. Reflete as condições e atividades do paciente, sendo também um dos principais instrumentos para validar a atuação da enfermagem, já que cerca de metade das informações relacionadas ao cuidado são provenientes desses registros. Quando realizados de forma incompleta ou incorreta, os registros podem levar a glosas, comprometendo tanto a remuneração quanto a continuidade do cuidado(9).

Nesse contexto, a auditoria de enfermagem desempenha um papel estratégico ao avaliar a assistência desde a admissão até a alta hospitalar, garantindo que as informações do prontuário estejam completas e consistentes. As falhas mais comuns nos registros de enfermagem podem ser categorizadas em aspectos legais, técnicos e relacionados à checagem de prescrições, todas com potencial de gerar glosas. Além disso, os enfermeiros auditores não apenas asseguram a remuneração correta dos procedimentos, como também orientam a equipe para reduzir inconsistências e melhorar os resultados financeiros(8,11).

É imprescindível que toda a equipe de enfermagem siga as diretrizes legais, como a Lei do Exercício Profissional de Enfermagem nº 7.498/1986(12), que exige registros claros, objetivos e detalhados de todas as atividades assistenciais, e a Resolução COFEN nº 736/2024(13), que regulamenta a implementação do Processo de Enfermagem em diferentes contextos. Esses instrumentos legais reforçam a importância de uma documentação bem estruturada para garantir qualidade e segurança no atendimento.

Apesar da relevância do tema, a literatura científica ainda é limitada. Uma busca na Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) com o termo “glosas hospitalares” revelou apenas 168 artigos publicados nos últimos cinco anos, sendo a maioria com abordagem de revisão de literatura integrativa ou sistemática e não abordando unidades fechadas, evidenciando a necessidade de mais estudos aprofundados e sistemáticos sobre o impacto das glosas no setor privado de saúde. Esse é um tema de grande relevância, com implicações tanto para a sustentabilidade financeira das instituições quanto para a qualidade do atendimento prestado.

Dessa forma, o objetivo deste estudo é analisar a prevalência de glosas hospitalares relacionadas aos registros de enfermagem em uma unidade coronariana de um hospital privado em Belo Horizonte, Minas Gerais.

 

MÉTODO

Tipo de estudo

Trata-se de um estudo transversal, retrospectivo e descritivo, estruturado de acordo com os critérios do checklist STrengthening the Reporting of OBservational studies in Epidemiology (STROBE)(14).

 

Contexto

A pesquisa foi realizada na unidade coronariana de um hospital privado localizado em Belo Horizonte, Minas Gerais, credenciado por 73 operadoras de planos de saúde. O setor apresenta perfil epidemiológico com aproximadamente 2.500 internações mensais, predominantemente de pacientes idosos (média de idade de 71 anos), com prevalência de condições cardiovasculares, especialmente pacientes em pós-operatório de angioplastia coronariana.

 

Critérios de elegibilidade e participantes

Critérios de inclusão:

Todas as glosas hospitalares notificadas por operadoras de saúde entre março de 2023 e março de 2024, relacionadas exclusivamente à Unidade Coronariana do hospital estudado; glosas que envolvessem itens, procedimentos ou registros sob responsabilidade direta da equipe de enfermagem.

Critérios de exclusão:

Glosas com registros incompletos ou inconsistentes, incluindo ausência de justificativa formal da operadora de saúde; Dados clínicos incongruentes ou insuficientes para análise; falta de vínculo claro entre o registro e o procedimento realizado.

 

Fontes de dados e procedimentos de coleta

Os dados foram extraídos de planilhas de glosas setoriais fornecidas semestralmente pela gerência administrativa do hospital. As planilhas continham as seguintes informações: nome do paciente, especificação do item ou serviço glosado, justificativa da operadora para a recusa de pagamento, data da ocorrência, quantidade de itens e valor monetário da glosa (em reais).

A coleta foi realizada exclusivamente pelo pesquisador principal, utilizando um computador institucional localizado na sala da coordenação de enfermagem da unidade coronariana. As planilhas estavam em formato protegido e não editável, garantindo a integridade dos dados.

 

Tamanho do estudo

Foram incluídas todas as glosas identificadas no período delimitado (março de 2023 a março de 2024), relacionadas à unidade coronariana, totalizando 1.567 ocorrências.

 

Variáveis e medidas

As variáveis quantitativas analisadas foram os valores monetários glosados, expressos em reais (R$). As variáveis qualitativas foram descritas em duas categorias: especificidades dos itens glosados, que são: materiais para curativo; materiais para punção venosa (agulhas, seringas, torneiras, equipos, extensores, cateter venoso periférico); materiais de monitorização (eletrodos, cabos, sensores); medicamentos; exames; materiais ventilatórios (umidificadores, cateter nasal, tubo endotraqueal, filtros bacterianos); outros materiais (compressas, fraldas, fios de sutura, ataduras, lâminas de bisturi, coletores, lancetas, fita hipoalergênica, sondas); justificativas das glosas pelas operadoras: ausência de cobertura contratual; utilização sem justificativa plausível; falta de checagem; dispensação indevida; falta de carimbo ou assinatura; utilização acima do padrão do plano; falta de registro de uso; ausência de laudo, prescrição ou pedido médico; divergência entre quantidade cobrada e realizada; cobrança indevida.

A categorização foi realizada com base nos critérios definidos pelas operadoras de saúde, conforme detalhado na Figura 1.

 

Justificativa das glosas

Definição

Material ou serviço sem cobertura pelo convênio

O item ou serviço prestado não está contemplado pela operadora de saúde.

Utilização sem justificativa plausível

Ausência de registro de justificativa do uso de item ou serviço de saúde, preenchimento incorreto no sistema.

Falta de checagem

Material, cuidado ou procedimentos prescritos, porém na prescrição médica/enfermagem não se encontra a checagem (confirmando que foi executado).

Dispensação indevida

Não há documentação no prontuário que descreva o porquê da utilização deste item. O material foi utilizado sem justificativa.

Falta de laudo; Falta de prescrição; Falta de pedido médico

Material, exame e/ou cuidado utilizado/realizado porém sem prescrição, pedido médico, para comprovar sua execução.

Figura 1 - Definição das Justificativas de Glosas apontadas pelas operadoras de saúde. Belo Horizonte, MG, Brasil, 2025

 

Análise estatística

A organização dos dados foi realizada por meio da elaboração de uma planilha eletrônica no programa Microsoft Excel, com base nas planilhas de glosas obtidas. Foram aplicadas estatísticas descritivas, utilizando frequências absolutas e relativas (percentuais) para as variáveis categóricas, além do intervalo de confiança de 95%. Para as variáveis quantitativas, foi realizado o cálculo da média.

 

Aspectos éticos

Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da instituição participante. A organização foi devidamente informada sobre todos os objetivos e procedimentos da pesquisa, sendo firmado o Termo de Compromisso para Utilização de Dados e obtida a autorização institucional para a realização do estudo.

 

RESULTADOS

Dos 73 planos de saúde credenciados no contexto do estudo, um foi excluído devido a falhas de integração de dados ao sistema operacional da instituição, comprometendo a confiabilidade das informações. Conforme apresentado na Tabela 1, foram aplicadas um total de 1.567 glosas entre março de 2023 e março de 2024, com uma média mensal de 120 glosas. O valor total glosado foi de R$ 21.329,47, com média mensal de R$ 1.064,73.

As categorias com maior prevalência foram: materiais para punção venosa, representando 26% (IC 95%: 23,8–28,2); curativos, com 23% (IC 95%: 20,8–25,2); medicamentos, 20% (IC 95%: 17,9–22,2); eletrodos e acessórios de monitorização, 18% (IC 95%: 15,9– 20,1); e outros materiais, 11% (IC 95%: 9,4–12,7).

 

Tabela 1 - Prevalência das especificidades das glosas hospitalares entre os meses de março de 2023 a março de 2024. Belo Horizonte, MG, Brasil 2025

Material

 

 

N (%) das Glosas hospitalares, por mês/ano, e ocorrências por tipo no período

 

 

 

 

 

 

2023

 

 

 

 

 

 

2024

 

 

Mar (68)

Abr (31)

Mai (197)

Jun (82)

Jul
(126)

Ago (225)

Set (212)

Ou. (101)

Nov.
(8)

Dez (71)

Jan (246)

Fev (116)

Mar (84)

Curativos

31(46)

12(39)

32(16)

23(28)

21(17)

51(23)

52(25)

24(24)

3(38)

21(30)

36(15)

31(27)

23(27)

Materiais para punção venosa

12(18)

-

36(18)

17 (21)

14(11)

76(34)

46 (22)

13(13)

5 (63)

18(26)

110(45)

44(38)

14(16)

Eletrodos e acessórios de monitorização

8(12)

10(32)

33(17)

26 (32)

20(16)

32(14)

46 (22)

26(26)

-

23(32)

30(12)

30(26)

-

Outros materiais

3 (4)

3 (10)

27(14)

5(6)

21(17)

39(17)

19(9)

8(8)

-

3(4)

17(7)

10(9)

12(14)

Medicamentos

12(18)

6(19)

46(23)

11 (13)

47(37)

22(10)

48 (23)

30(30)

-

6(8)

50(20)

-

33(39)

Exames

 

 

32(16)

 

3(2)

 

 

 

 

 

1(1)

 

 

Material

Ventilatório

2(3)

-

1(1)

-

-

5(2)

1(0)

-

-

-

2(1)

1(1)

2(2)

Valor monetário

R$
463,43

R$ 142,70

R$ 3024,41

R$ 1042,33

R$ 1975,92

R$ 2376,16

R$ 2312,41

R$ 3048,49

R$ 166,99

R$ 793,76

R$ 2994,36

R$ 841,81

R$ 1817,18

 

A Tabela 2 mostra que, ao longo do período, foram registradas 836 justificativas de glosas. Destas, 612 (71%) referem-se à ausência de cobertura contratual e ao uso de itens sem justificativa plausível, sendo essas as únicas causas presentes em todos os meses analisados. As justificativas relacionadas à utilização acima do padrão da operadora e à falta de checagem também se destacaram, totalizando 161 ocorrências (19%).

Dentre as justificativas, aquelas associadas à ausência ou incompletude dos registros — como utilização sem justificativa plausível, falta de checagem, ausência de registro de uso e falta de assinatura — somaram 415 ocorrências (48,4%; IC 95%: 45,1–51,7).

 

Tabela 2 - Prevalência das justificativas para ocorrências de glosas hospitalares entre os meses de março de 2023 a março de 2024. Belo Horizonte, MG, Brasil, 2025

Justificativa para glosa de material/ serviço

N (%) das Glosas hospitalares, por mês/ano, e ocorrências por período

 

2023

2024

Total

Mar.

Abr.

Maio

Jun.

Jul.

Ago.

Set.

Out.

Nov.

Dez.

Jan.

Fev.

Mar.

Sem cobertura pelo convênio

27(60)

9(60)

23(21)

20 (40)

19(11)

42(31)

41(37)

21(41)

2(33)

21(47)

33(27)

26(43)

21(48)

305 (36,4)

Utilização sem justificativa plausível

11(28)

1(7)

35(32)

16(32)

17(12)

58(42)

31(28)

12(23)

4(67)

9(20)

60(50)

26(43)

7(16)

287(34,33)

Falta de checagem

3(8)

1(7)

6(6)

0

2(4)

16(12)

18(16)

7(14)

0

8(18)

7(6)

0

5(11)

73 (8,73)

Dispensação indevida

0

0

20(19)

0

0

0

0

0

0

0

0

0

0

20(2,39)

Sem carimbo ou assinatura

0

0

10(9)

11(22)

0

1(1)

1(1)

0

0

0

0

0

1(2)

24(2,87)

Utilização acima do padrão da operadora

1(3)

4(27)

9(8)

3(6)

4(24)

19(14)

13(12)

9(18)

0

6(13)

10(8)

9(15)

4(9)

91(10,88)

Sem registro de uso

0

0

3(3)

0

0

1(1)

2(2)

1(4)

0

1(2)

10(8)

0

3(7)

21(2,51)

Falta de laudo, prescrição

0

0

2(2)

0

9(18)

0

3(3)

0

0

0

0

0

0

14(2,0)

Quantidade cobrada diferente da realizada

0

0

0

0

0

0

1(1)

0

0

0

0

0

0

1(0,11)

Cobrança indevida

0

0

0

0

0

0

0

0

0

1(2)

0

0

3(7)

4(0,47)

Total
(por mês)

40

15

108

50

49

137

110

50

6

46

120

61

44

836

 

A Tabela 3 destaca o custo monetário das glosas relacionadas às justificativas por ausência de registro em prontuário, que incluem: utilização sem justificativa plausível; falta de checagem; ausência de registro de uso; e falta de carimbo ou assinatura. No período de um ano, R$ 14.698,72 estiveram associados à ausência desses registros, correspondendo a 70% do valor total das glosas. O mês de janeiro de 2024 apresentou o maior valor glosado na unidade estudada.

 

Tabela 3 - Valor financeiro das glosas na Unidade Coronariana entre os meses de março de 2023 a março de 2024. Belo Horizonte, MG, Brasil 2025

Valor das Glosas na Unidade Coronariana

Mes / Ano

Valor total associado à ausência de registro em prontuário

Valor total de glosas por mês(R$%)

Porcentagem financeira da glosa associada à ausência de registro em prontuário (%)

Mar-23

R$ 70,13

R$ 489,85

14

Abr-23

R$ 15,59

R$ 142,70

11

Mai-23

R$ 2.308,96

R$ 3.024,41

76

Jun-23

R$ 852,48

R$1.042,33

82

Jul-23

R$ 1.185,50

R$ 1.975,92

60

Ago-23

R$ 1.502,44

R$ 2.376,16

63

Set-23

R$ 1.863,53

R$ 2.312,41

81

Out-23

R$ 1.676,23

R$ 3.048,49

55

Nov-23

R$ 139,36

R$ 166,99

83

Dez-23

R$ 594,88

R$ 793,76

75

Jan-24

R$ 2.557,21

R$ 2.994,36

85

Fev-24

R$ 487,27

R$ 841,81

58

Mar-24

R$ 1.445,14

R$ 1.817,18

80

Total (R$)

R$ 14.698,72

R$ 21.026,37

70

 

DISCUSSÃO

Este estudo analisou, de maneira retrospectiva, a prevalência de glosas hospitalares em uma unidade coronariana de um hospital privado. Registrou-se um total de 1.567 itens glosados nos prontuários de pacientes. Quanto aos motivos referentes à falta de registro nos prontuários, estes corresponderam a 48,4% do total de glosas. As justificativas mais frequentes citadas pelas operadoras dos planos de saúde foram a falta de cobertura pelo plano e o uso de material/serviço sem justificativa plausível (71%). Além disso, verificou-se que a ausência ou incompletude dos registros da assistência à saúde foi responsável por 70% do valor monetário total das glosas. Esses resultados refletem uma limitação significativa nos registros de enfermagem, passível de prevenção por parte da equipe assistencial e da gestão hospitalar. Entretanto, evidenciam oportunidades de melhoria nas práticas, como a realização de auditorias internas dos prontuários e a capacitação das equipes para um registro eficaz de enfermagem.

Corroborando os achados do presente estudo, uma pesquisa retrospectiva anterior, que avaliou glosas hospitalares em 194 demonstrativos financeiros de prontuários, identificou maior prevalência de glosas relacionadas a curativos, com justificativa associada à falha no registro de enfermagem(15). A literatura reconhece que os efeitos das glosas hospitalares resultam em perdas financeiras para as instituições de saúde e afetam a qualidade da assistência prestada, uma vez que, para fins de auditoria, a ausência ou incompletude dos registros implica no entendimento de que o cuidado não foi realizado(15-18). Embora este estudo tenha avaliado as glosas hospitalares apenas de modo retrospectivo, e não longitudinalmente, infere-se que a falta de completude e/ou de registros adequados impacta diretamente os valores faturados pela instituição. Esse cenário pode comprometer a qualidade dos serviços prestados, já que reduz os recursos financeiros disponíveis para a incorporação de novas tecnologias e de recursos humanos.

As deficiências nos registros de prontuários comprometem significativamente a qualidade assistencial, a continuidade dos cuidados e a gestão financeira das instituições de saúde, prejudicando tanto os processos de auditoria quanto a validação dos serviços prestados(19). Complementando achados anteriores(20), estudos prévios corroboram o impacto negativo das falhas documentais sobre as glosas hospitalares. Em estudo que analisou glosas em contas hospitalares de operadora de saúde, verificou-se que os itens mais frequentemente recusados estavam relacionados aos materiais médico-hospitalares, sendo associados, sobretudo, a inconsistências nos registros e à ausência de justificativas adequadas para sua utilização. Esses achados evidenciam que falhas na documentação comprometem o processo de auditoria e dificultam a validação dos serviços prestados, com impacto direto no faturamento das instituições de saúde(21).

Corroborando com os achados deste estudo, investigações recentes apontam que falhas nos processos de faturamento e na organização das informações assistenciais comprometem a validação dos serviços prestados, dificultam a cobrança adequada e favorecem a ocorrência de glosas hospitalares, com impacto direto sobre as receitas institucionais. Esses achados reforçam a necessidade de fortalecimento de uma cultura organizacional voltada à qualidade dos registros e dos processos, com ênfase na capacitação profissional, auditoria contínua e padronização documental(22).

Os dados sobre as glosas hospitalares apontam desafios importantes na gestão de materiais e na execução dos cuidados de enfermagem. Itens como curativos, exames, medicamentos, eletrodos, agulhas e seringas, frequentemente glosados, indicam problemas que vão desde a escolha adequada do material até a documentação precisa do seu uso. Assim, a auditoria hospitalar se mostra fundamental para identificar as incidências e justificativas das glosas, conforme demonstrado neste estudo e em pesquisas anteriores(16,18-19,23).

Considerando que grande parte das despesas hospitalares está associada ao uso de materiais, procedimentos e medicamentos, registros subjetivos, ilegíveis ou incompletos contribuem para o aumento das glosas, acarretando déficits financeiros relevantes. Portanto, é crucial compreender os efeitos financeiros das glosas em conjunto com suas causas, reforçando que o preenchimento do prontuário deve ser preciso e completo para permitir avaliações e decisões adequadas(24).

Para reduzir a incidência de glosas e aprimorar a eficiência operacional e financeira, é fundamental fortalecer o treinamento das equipes de enfermagem e revisar continuamente os processos relacionados ao registro de informações clínicas. O Conselho Federal de Enfermagem (COFEN) recomenda a implementação de protocolos padronizados, educação continuada e auditorias internas para assegurar a qualidade e a integridade dos registros, além da utilização de ferramentas tecnológicas que facilitem a documentação precisa e completa(25).

Oliveira, Souza e Costa realizaram um estudo transversal em hospital público, analisando 720 registros antes e após capacitações e auditorias, com redução significativa de glosas técnicas e melhoria na qualidade dos registros(26). Desta forma, o presente estudo ao descrever e analisar as falhas de registro que ocasionaram as glosas hospitalares, contribui para o desenvolvimento de melhorias no registro e documentação em saúde.

As atividades das equipes de enfermagem e médica envolvem custos significativos, e a principal forma de garantir o pagamento pelos serviços prestados é por meio de registros cuidadosos, objetivos e abrangentes. Glosas geralmente ocorrem por incertezas relativas aos materiais utilizados ou à qualidade da assistência(23,25). Por isso, o papel dos enfermeiros auditores, coordenadores e plantonistas é fundamental para assegurar a precisão dos registros. Discrepâncias entre os registros da equipe e os valores faturados impactam negativamente o faturamento da instituição(17-18,20,23,25-29).

O mapeamento setorial das glosas, com suas justificativas e perdas financeiras, é uma estratégia importante para diagnosticar problemas e elaborar planos de ação que promovam a padronização de produtos e processos conforme a realidade local. Muitos itens glosados estão ligados diretamente à assistência de enfermagem, destacando a necessidade de aprimorar os registros e realizar ações de capacitação e sensibilização. Além disso, práticas como a educação contínua sobre diretrizes de uso e documentação, a implementação de sistemas rigorosos de checagem e validação, e a realização de auditorias internas regulares ajudam a identificar falhas nos registros antes do envio das contas às operadoras, diminuindo as glosas e promovendo práticas mais consistentes.

 

Limitações do estudo

Uma das principais limitações deste estudo é a restrição da amostra, uma vez que a pesquisa foi conduzida em um setor específico de uma unidade hospitalar. Tal fato pode comprometer a generalização dos resultados. Além disso, a falta de diversidade na amostra pode influenciar a análise e a compreensão das causas e frequências das glosas hospitalares em contextos distintos. Futuros estudos longitudinais são recomendados para acompanhar a evolução da ocorrência de glosas ao longo do tempo, permitindo ações precoces para a melhoria contínua da qualidade dos registros em prontuários e contribuindo para a sustentabilidade financeira dos hospitais.

 

CONCLUSÃO

A falta e/ou incompletude de registros nos prontuários contribuíram significantemente nas glosas avaliadas na Unidade Coronariana. Foram evidenciados desafios na gestão de materiais e na prestação dos cuidados de enfermagem, os quais destacam a importância de registros precisos como elemento essencial para reduzir essas falhas, bem como para a promoção da segurança assistencial e sustentabilidade financeira das instituições. Os achados reforçam a necessidade de capacitação periódica para a equipe de enfermagem e a implementação de auditorias internas regulares como medida para implementação de melhorias.

 

CONFLITO DE INTERESSES

Os autores declaram não haver conflito de interesses.

 

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Submissão: 20-Mar-2025

Aprovado: 12-Ago-2025

 

Editores:

Rosimere Ferreira Santana (ORCID: 0000-0002-4593-3715)

Geilsa Soraia Cavalcanti Valente (ORCID: 0000-0003-4488-4912)

Barbara Pompeu Christovam (ORCID: 0000-0002-9135-8379)

 

Autor correspondente: Mônica Ferreira Bruzaferro (mfbruzaferro@id.uff.br)

 

Editora:

Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa – UFF

Rua Dr. Celestino, 74 – Centro, CEP: 24020-091 – Niterói, RJ, Brasil

E-mail da revista: objn.cme@id.uff.br

 

CONTRIBUIÇÃO DE AUTORIA 

Concepção do projeto: Bruzaferro MF, Tinoco JMVP, Flores PVP.

Obtenção de dados: Bruzaferro MF.

Análise e interpretação dos dados: Bruzaferro MF, Tinoco JMVP, Fiore ACM.

Redação textual e/ou revisão crítica do conteúdo intelectual: Bruzaferro MF, Tinoco JMVP, Flores PVP, Fiore ACM, Souza PA, Dantas RDS.

Aprovação final do texto a ser publicada: Bruzaferro MF, Tinoco JMVP, Flores PVP.

Responsabilidade pelo texto na garantia da exatidão e integridade de qualquer parte da obra: Bruzaferro MF, Tinoco JMVP, Flores PVP, Dantas RDS.

 

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