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ARTIGO ORIGINAL

 

PERCEPÇÕES SOBRE ETARISMO ORGANIZACIONAL ENTRE DISCENTES DA GRADUAÇÃO DE ENFERMAGEM: ESTUDO TRANSVERSAL*

 

Allexa Martins Soares de Palma1, Gabrielle Silva Pereira2, Luana Cardoso Pestana3, Tallita Melo Delphino4, Laríssia Admá de Souza Pereira5, Cristiane Helena Gallasch6

 

1 Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Faculdade de Enfermagem. Rio de Janeiro, RJ, Brasil. ORCID: 0000-0002-5130-4448. E-mail: allexamartins123@gmail.com

2 Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Faculdade de Enfermagem. Rio de Janeiro, RJ, Brasil. ORCID: 0000-0002-4930-3390. E-mail: gabibi.pereira01@gmail.com

3 Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Faculdade de Enfermagem. Rio de Janeiro, RJ, Brasil. ORCID: 0000-0002-2629-8584. E-mail: lupestana2013@gmail.com

4 Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Faculdade de Enfermagem. Rio de Janeiro, RJ, Brasil. ORCID: 0000-0002-4489-1795. E-mail: tallitamell@gmail.com

5 Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Faculdade de Enfermagem. Rio de Janeiro, RJ, Brasil. ORCID: 0000-0002-4242-2354. E-mail: laripereira2006@yahoo.com.br

6 Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Faculdade de Enfermagem. Rio de Janeiro, RJ, Brasil. ORCID: 0000-0002-0823-0818. E-mail: cristiane.gallasch@gmail.com

 

RESUMO

Objetivo: analisar a percepção de discentes da graduação em enfermagem sobre o etarismo organizacional. Método: estudo descritivo, transversal, de abordagem quantitativa, realizado entre setembro e novembro de 2023, com 166 graduandos de enfermagem de uma universidade pública do Rio de Janeiro, a partir de um formulário de caracterização sociodemográfica e da Escala de Ageísmo no Contexto Organizacional (EACO), composta por 13 itens distribuídos nos domínios atitudes negativas e positivas. Os dados foram submetidos a análises descritivas e inferenciais utilizando o Coeficiente de Correlação por Postos de Spearman. Protocolo de pesquisa aprovado pelo Coitê de Ética em Pesquisa. Resultados: os participantes apresentaram idade média de 22,8 anos; 83,1% eram mulheres, 54,8% autodeclarados brancos e 94,6% solteiros. Pela EACO, 83,1% não apresentaram atitudes negativas em relação a profissionais mais velhos, enquanto 42,8% expressaram atitudes positivas. Identificou-se correlação inversa, embora fraca, entre o período cursado e as atitudes positivas e negativas (p<0,05), sugerindo diminuição das atitudes positivas ao longo da graduação. Conclusão: destacou-se a predominância da ausência de atitudes negativas, acompanhada de limitada presença de atitudes positivas em relação a profissionais mais velhos, evidenciando a necessidade de estratégias educativas que fortaleçam a valorização geracional no contexto da formação em enfermagem.

 

Descritores: Saúde do Trabalhador; Enfermagem; Educação em Enfermagem; Programas de Graduação de Enfermagem; Envelhecimento; Etarismo.

 

Como citar: Palma AMS, Pereira GS, Pestana LC, Delphino TM, Pereira LAS, Gallasch CH. Perceptions about organizational ageism among undergraduate nursing students: cross-sectional study. Online Braz J Nurs. 2025;24(Suppl 2):e20256910. https://doi.org/10.17665/1676-4285.20256910

 

INTRODUÇÃO

O envelhecimento é um processo natural que envolve fatores biológicos, sociais e culturais, conferindo singularidade à forma como cada indivíduo vivencia essa etapa da vida(1).

No Brasil, a transição demográfica é marcada pela redução da população jovem e pelo aumento expressivo de pessoas acima de 60 anos(2), o que reforça a necessidade de discutir os desafios do envelhecimento, entre eles a manutenção da saúde, a inserção social e a permanência no mercado de trabalho(3).

Verifica-se, ainda, a presença de um preconceito arraigado que associa o envelhecimento à doença. Esse estigma é agravado pela exclusão frequente de pessoas idosas do mercado de trabalho, o que acarreta repercussões econômicas significativas em suas vidas. Assim, a percepção de que a terceira idade não é funcional nem produtiva para o mundo laboral reforça o preconceito etário, conhecido como etarismo(4).

O Etarismo, também conhecido como ageísmo ou idadismo, foi um termo criado em 1969 por Robert Butler, caracterizado por um tipo de preconceito e discriminação que tem a idade como fator de julgamento, atualmente discutido em três dimensões: estereótipos (pensamentos), preconceitos (sentimentos) e discriminação (ações ou comportamentos); três níveis de manifestação - institucional, interpessoal e contra si próprio; e duas formas de expressão - explícita (consciente) e implícita (inconsciente)(1).

No nível de manifestação institucional, o etarismo organizacional se manifesta como um conjunto de atitudes negativas ou positivas, que valorizam ou desvalorizam a força de trabalho das pessoas mais velhas, favorecendo ou desfavorecendo a inclusão destes no ambiente de trabalho(5). As pessoas mais velhas são as que mais sofrem preconceito no trabalho, resultando em demissões e aposentadorias forçadas, além de evidenciar a desvalorização do idoso no meio laboral(6).

Como pode ser observado, o etarismo permeia instituições e setores da sociedade, incluindo as formadoras e que prestam assistência à saúde. Na enfermagem, a discussão sobre o etarismo tem sido tradicionalmente vinculada ao cuidado prestado a pessoas idosas, com evidências de que componentes curriculares voltados à gerontologia podem reduzir preconceitos(7-8). Entretanto, ainda são incipientes as investigações sobre o etarismo organizacional, sobretudo na formação em enfermagem, área em que se consolidam valores e atitudes que influenciarão o futuro exercício profissional.

Dessa forma, o presente estudo tem como objetivo compreender como discentes percebem o etarismo organizacional durante a graduação, o que representa uma oportunidade de identificar fragilidades na formação e de propor estratégias educativas que favoreçam a construção de práticas inclusivas e intergeracionais no campo da saúde.

 

MÉTODO

Trata-se de um estudo descritivo, transversal, de abordagem quantitativa, realizado entre setembro e novembro de 2023 em uma faculdade de enfermagem de uma universidade pública no município do Rio de Janeiro, seguindo as recomendações do checklist STROBE para estudos observacionais.

A população foi composta por 296 discentes regularmente matriculados do primeiro ao oitavo período do curso de graduação em enfermagem. O cálculo amostral considerou população finita, erro amostral de 5% e intervalo de confiança de 95%(9), resultando em mínimo de 123 participantes. A amostra final foi de 166 estudantes. Foram incluídos discentes matriculados nos períodos letivos referidos e excluídos aqueles afastados por licenças de qualquer natureza.

A coleta de dados ocorreu presencialmente, em sala de aula, mediante anuência docente, sem necessidade de deslocamentos adicionais para os participantes. Utilizaram-se dois instrumentos: (1) formulário de caracterização sociodemográfica e acadêmica (sexo, idade, cor/raça, escolaridade, período de matrícula) elaborado pelas pesquisadoras; e (2) a Escala de Ageísmo no Contexto Organizacional (EACO), composta por 13 itens distribuídos em dois domínios (atitudes negativas e atitudes positivas) avaliados em escala Likert de cinco pontos(9).

A EACO apresenta evidências de validade de conteúdo e estrutura interna, confirmada por análise fatorial confirmatória em amostras de trabalhadores brasileiros, com índices de ajuste adequados (CFI=0,93; TLI=0,91; RMSEA=0,05) e consistência interna satisfatória (alfa de Cronbach variando de 0,70 a 0,82). Considerando que as evidências psicométricas não sustentam a interpretação de escore global robusto, optou-se pela análise das respostas em frequência, o que permite melhor representação do padrão de atitudes positivas e negativas(10).

Os dados foram organizados em planilha eletrônica (Excel 365) e analisados no software SPSS (IBM, versão 22). Realizou-se estatística descritiva (frequências, médias e medidas de dispersão) e estatística inferencial. Para verificar a associação entre o período da graduação e os escores de atitudes positivas e negativas, aplicou-se exclusivamente o coeficiente de correlação de Spearman, por tratar-se de variáveis ordinais derivadas de escala Likert e de distribuição não normal, o que torna esse teste mais apropriado para identificar relações entre os construtos. Adotaram-se os seguintes parâmetros para interpretação da magnitude do efeito: fraco (0,10<ρ<0,30), moderado (0,30<ρ<0,50) e forte (ρ>0,50)(11).

O estudo atendeu às normas éticas de pesquisa envolvendo seres humanos (Resolução CNS nº 466/2012), tendo sido aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da instituição e autorizado pela direção local. Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

 

RESULTADOS

Participaram do estudo 166 discentes de enfermagem, com idade média de 22,8 anos (mínimo 18; máximo 43), majoritariamente do sexo feminino (83,1%), solteiros (94,6%) e autodeclarados brancos (54,8%). O número médio de filhos foi de 0,4 (variando de 0 a 4) e 94% estavam na primeira graduação. A distribuição por período acadêmico foi equilibrada entre os oito períodos, variando de 9% (5º período) a 15,1% (2º período), como demostrado na Tabela 1.

 

Tabela 1 - Características sociodemográficas e acadêmicas dos estudantes de graduação em enfermagem participantes do estudo (n=166). Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2023

Variáveis sociodemográficas e acadêmicas

n

f(%)

Sexo

Feminino

138

83,1

 

Masculino

27

16,3

 

Outro

1

0,6

Cor/raça

Branca

91

54,8

 

Preta ou parda

75

45,2

Escolaridade

Graduação

156

94

 

Segunda graduação

9

5,4

 

Não declarado

1

0,6

Idade (anos)

µ=±22,86

Min = 18

Max = 43

Período matriculado

Primeiro período

22

13,3

 

Segundo período

25

15,1

 

Terceiro período

16

9,6

 

Quarto período

20

12

 

Quinto período

15

9

 

Sexto período

22

13,3

 

Sétimo período

24

14,5

 

Oitavo período

22

13,3

Legenda: µ - média; Min - mínimo; Max - máximo.

 

Como pode ser observado na Tabela 2, na EACO, 83,1% dos estudantes não apresentaram atitudes negativas em relação a profissionais mais velhos, enquanto 42,8% expressaram atitudes positivas.

 

Tabela 2 - Atitudes positivas e negativas de estudantes de graduação em enfermagem (n=166). Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2023

 Variáveis

Sim

n (%)

Não

n (%)

p-valor (ρ)

período da graduação

Atitudes positivas

71 (42,8%)

95 (57,2%)

0,0003 (-0,261)

Atitudes negativas

28 (16,9%)

138 (83,1%)

0,0024 (-0,217)

Legenda: ρ - Correlação de Spearman.

 

Na análise inferencial, o único fator associado às atitudes etaristas foi o período acadêmico. Identificou-se correlação inversa, embora fraca, entre o período cursado e tanto as atitudes negativas (ρ = –0,217; p = 0,002) quanto as positivas (ρ = –0,261; p < 0,001). Esse achado sugere que, à medida que avançam na graduação, os estudantes tendem a reduzir suas atitudes negativas, mas também demonstram declínio nas atitudes positivas em relação a profissionais mais velhos.

Por outro lado, não foram observadas associações significativas entre sexo, idade, estado civil, cor/raça, número de filhos ou tipo de graduação e as atitudes positivas ou negativas mensuradas pela escala, demonstrando que o perfil sociodemográfico não exerceu influência relevante nos resultados da EACO, sendo o período acadêmico a variável que melhor explicou as diferenças identificadas.

 

DISCUSSÃO

A partir dos achados, observa-se que os dados sociodemográficos estão em consonância com estudo realizado em 2021 sobre a representatividade feminina nas universidades, que revelou que, embora as mulheres sejam maioria no ensino superior, os cursos com maior concentração de alunas são aqueles voltados para a licenciatura, ciências humanas e ciências biológicas aplicadas à saúde. Isso, em tese, perpetua a tradicional divisão sexual do trabalho, na qual a mulher é frequentemente responsável pela educação e pelo cuidado. A proporção de homens na profissão é de 16,3%(12). Tal realidade, de forma implícita, perpetua um paradigma que dificulta a conquista da equidade de gênero no ambiente acadêmico(13). Quanto à idade, o meio acadêmico é majoritariamente composto por jovens. Também se explica o resultado do estudo que analisou o perfil sociodemográfico dos graduandos de enfermagem, destacando o rejuvenescimento na categoria de enfermagem no qual 25,3% eram profissionais com idade até 30 anos e 61,7% até 40 anos(14).

Apesar dos avanços no campo da diversidade e inclusão, o fator etário ainda ocupa uma posição marginal nos debates organizacionais. Frequentemente, a valorização exacerbada de discursos que enaltecem a inovação, a flexibilidade e a agilidade operacional, acabando por reforçar estigmas contra profissionais mais velhos, ao associar tais características exclusivamente à juventude. Esse viés implícito se manifesta em práticas de recrutamento seletivo, na limitação de oportunidades de promoção, na exclusão de processos formativos e em desligamentos precoces, consolidando, assim, barreiras estruturais à plena inserção e permanência da força de trabalho envelhecida no mercado laboral(15).

No contexto da enfermagem, de maneira organizacional, profissionais mais velhos frequentemente enfrentam estigmas relacionados à suposta perda de vigor físico, lentidão na execução de tarefas, resistência à inovação tecnológica ou menor adaptabilidade a mudanças institucionais. Essas percepções, muitas vezes implícitas nas decisões de gestores, resultam na exclusão desses profissionais de atividades mais complexas, em limitações ao acesso a cargos de liderança e em sua dispensa precoce ou não justificada(16-17).

Tais práticas reproduzem uma lógica produtivista que valoriza a juventude como sinônimo de eficiência, em detrimento da experiência, do conhecimento clínico acumulado e da capacidade de julgamento desenvolvida ao longo dos anos. Esse processo compromete não apenas a dignidade do trabalhador idoso, mas também o potencial coletivo das equipes intergeracionais, que poderiam se beneficiar do intercâmbio de saberes e da complementaridade de competências(18).

Apesar da maioria dos discentes se considerarem brancos, os achados se aproximam da quantidade de pessoas que se autodeclaram pretas e pardas (45,2%), um achado significativo ao considerar os anos pregressos das políticas de cota dentro das universidades públicas, a qual se constata como um fator extremamente importante para a busca da igualdade social(19).

Entretanto, embora esses números sejam encorajadores, ainda não refletem plenamente o perfil social do Brasil. De acordo com estudo do IBGE, realizado em 2022, cerca de 92,1 milhões pessoas (ou 45,3% da população do país) se declararam pardas. Outros 88,2 milhões (43,5%) se declararam brancos, 20,6 milhões (10,2%), pretos, 1,7 milhões (0,8%), indígenas e 850,1 mil (0,4%), amarelas. Assim, mais da metade da população (55,5%) se autodeclara negra(20). Portanto, a disparidade entre a representação nas universidades e a composição demográfica do país, evidencia necessidade contínua de políticas afirmativas e de inclusão. Além disso, é crucial analisar não apenas o acesso, mas também a permanência e o sucesso acadêmico desses estudantes, garantindo que tenham as mesmas oportunidades de conclusão e inserção no mercado de trabalho.

Todavia, ao analisar o perfil da enfermagem brasileira sob a perspectiva de classe, gênero e raça/cor da pele, constata-se que 85% dos profissionais de enfermagem são do sexo feminino e 53% se identificam como negros (11,5% pretos e 41,5% pardos). A maioria dessas profissionais são mulheres negras, que ocupam predominantemente funções de auxiliares e técnicas de enfermagem(21).

Tais dados refletem o racismo estrutural, o sexismo e a desigualdade social na sociedade brasileira, uma vez que, quanto mais alta a posição hierárquica profissional, menor é a representatividade negra. Essas questões estão interligadas com desigualdades socioeconômicas, destacando a necessidade de promover igualdade de oportunidades e combater o racismo e o sexismo por meio de políticas públicas e conscientização(22).

Compreender o envelhecimento como um processo multifacetado, que envolve dimensões biológicas, psicológicas e sociais, é fundamental para desconstruir as representações negativas historicamente associadas à velhice. A discriminação por idade, ou etarismo, revela-se não apenas nas relações interpessoais, mas também nos sistemas organizacionais e institucionais que reproduzem normas excludentes(18). Trata-se de um fenômeno que, ao naturalizar a inferiorização das pessoas idosas, compromete a equidade intergeracional e fragiliza o tecido social diante do inegável aumento da longevidade populacional.

Tem-se maior quantitativo de respostas de discentes do segundo período (15,1%) e o menor do quinto período (9%). Destaca-se que o quantitativo mediano do número de pessoas presentes em cada turma é de cerca de 36 discentes, porém, no quinto período, havia 27 alunos matriculados.

Quanto à realização de estudos incluindo estudantes de graduação como sujeitos de pesquisa e como agentes da coleta de dados, artigo publicado em 2020 analisou a visão dos alunos acerca da produção cientifica e como esse processo é muitas vezes tardio dentro da graduação. Verificou-se que a maioria dos acadêmicos iniciam o contato com a pesquisa científica no desenvolvimento do trabalho de conclusão de curso. Assim, muitas vezes, não conseguem se ver e colaborar como objetos de pesquisas, o que pode reduzir do interesse dos mesmos pela área(23).

Ademais, outro fator relevante é abordagem de temáticas referentes à saúde do idoso durante a graduação. No cenário de pesquisa escolhido, o estudo que aborda a saúde do idoso se inicia no quarto período e são mais focadas no processo de promoção da saúde e prevenção de doenças crônicas não-transmissíveis, porém sem foco direto em questões sobre preconceito ao qual a pessoa idosa pode ser submetida.

Acerca do etarismo organizacional no contexto de formação dos discentes, existe uma lacuna científica do tema. Para combater tais preconceitos e ampliar as atitudes positivas em relação aos idosos é essencial adotar uma abordagem multifacetada que envolva educação, políticas inclusivas e mudança cultural. Criar programas educacionais e campanhas de sensibilização são cruciais para desconstruir mitos sobre a idade avançada, destacando as capacidades e contribuições dos indivíduos mais velhos(24).

Os resultados revelam uma disparidade interessante entre a ausência de atitudes negativas e a presença limitada de atitudes positivas em relação aos idoso.

Isto posto, de acordo com a EACO os itens do espectro negativo mais frequentemente respondidos com tendência à atitude de preconceito foram: “Trabalhadores mais velhos costumam adoecer com mais facilidade”, “Trabalhadores mais velhos levam mais tempo para realizar tarefas no ambiente de trabalho” e “Trabalhadores mais jovens são mais produtivos do que os mais velhos”(21). Enfatiza-se que é importante refletir como estereótipos negativos associados à idade avançada estão relacionados a doença, incapacidade, baixa produtividade e a dependência de forma geral.

Quanto às atitudes positivas foram mais frequentes os itens: “Trabalhadores mais velhos são mais comprometidos com o trabalho do que os mais jovens”, “Trabalhadores mais velhos têm mais habilidade para resolver problemas do que os mais jovens” e “Trabalhadores mais velhos são mais persistentes do que os mais jovens(10,22). Verifica-se que, é possível interpretar que a descrição positiva dos idosos caracteriza-os como sábios, responsáveis, gentis e comunicativos.

Na análise das correlações, infere-se que, quanto menor o tempo de estudo de graduação, maior as médias dos escores para atitudes negativas (rô de spearman=-0,217; p=0,00217) e atitudes positivas (rô de spearman=-0,261; p=0,0003), compreendendo-se que pode haver uma transformação na visão dos estudantes sobre o fenômeno avaliado, porém ainda com aspectos a serem esclarecidos.

Apesar de aparente melhoria nas atitudes etaristas negativas no contexto organizacional durante a graduação, com redução da média dos escores com o avanço dos períodos cursados, a média de escores relacionados às atitudes positivas também tendem a diminuir, com maior média de escore no início da graduação. Como é um tema pouco explorado na literatura nesse contexto de formação, estudos adicionais são necessários para melhor compreensão desse achado.

Para combater tais preconceitos e ampliar as atitudes positivas em relação aos idosos é essencial adotar uma abordagem multifacetada que envolva educação, políticas inclusivas e mudança cultural. Criar programas educacionais e campanhas de sensibilização são cruciais para desconstruir mitos sobre a idade avançada, destacando as capacidades e contribuições dos indivíduos mais velhos(24).

É necessário reconhecer que a abordagem do etarismo não pode se restringir à denúncia de seus efeitos deletérios. Uma resposta estratégica exige, antes de tudo, a superação de uma postura negativista e passiva diante do envelhecimento. Aceitar a velhice como parte indissociável do ciclo vital humano implica reconhecer suas singularidades, inclusive suas limitações físicas, sem reduzir o sujeito idoso à sua funcionalidade orgânica. A longevidade, longe de ser um entrave, carrega consigo potenciais que devem ser valorizados: experiência acumulada, maturidade emocional e conhecimento tácito, muitas vezes essenciais para a tomada de decisões complexas e para a mediação de conflitos nas organizações(18).

Em algumas culturas o envelhecimento é compreendido sob uma lógica ancestral, na qual a pessoa idosa ocupa lugar de prestígio como guardiã da memória coletiva, da tradição e da sabedoria prática. Esse contraste evidencia a construção social da velhice e demonstra que os estigmas etários são produtos de uma lógica cultural ocidental, centrada na produtividade e na estética da juventude.

Além disso, políticas inclusivas devem promover a participação dos idosos em todos os aspectos da sociedade, incluindo o mercado de trabalho, por meio de incentivos à contratação, formação contínua e adaptação dos locais de trabalho. Promover um envelhecimento ativo e saudável, investir em programas de saúde e bem-estar, e valorizar a experiência dos idosos são medidas fundamentais que devem ser priorizadas em políticas públicas e estratégias sociais. Essas ações combinadas podem construir para uma sociedade mais inclusiva e justa, na qual a idade avançada possa ser vista de forma mais positiva e respeitosa(18).

 

Limitações do estudo

O estudo tem como limitações a realização em um único cenário, com currículo formativo particular, podendo os achados não serem similares a outras propostas formativas e localidades. Além disso, o poder inferencial é limitado pelas características do instrumento utilizado para avaliação da variável desfecho. As testagens utilizadas não estabelecem relações de causalidade.

 

CONCLUSÃO

Os resultados desse estudo destacam a redução de atitudes negativas e a presença limitada de atitudes positivas em relação aos profissionais mais velhos no contexto organizacional entre discentes durante o avanço do desenvolvimento da graduação em uma faculdade de enfermagem. Não foram observadas associações significativas entre outras variáveis sociodemográfias e as atitudes relacionadas.

Indica-se a necessidade urgente de intervenções educacionais e culturais mais abrangentes e enfáticas sobre essa temática durante toda a formação acadêmica, com foco na redução o etarismo organizacional, além da promoção de um ambiente de trabalho, local onde o estudante de enfermagem passa significativa parte de sua formação, mais inclusivo e respeitoso para todos os membros da equipe de enfermagem, independentemente da idade.

Dentro da universidade, nos ambientes de ensino teórico e de simulação, tais medidas são igualmente indispensáveis, considerando que o etarismo é uma questão pouco abordada tanto na academia quanto na sociedade em geral. Este preconceito silencioso afeta indivíduos em diversos contextos, incluindo o mercado de trabalho. Portanto, uma sociedade que se pretende justa e inclusiva deve garantir que cada fase da vida, desde a infância até a velhice, disponha de espaço legítimo para o desenvolvimento pessoal, profissional e social.

Para tanto, é imperativo que se adotem estratégias integradas e intersetoriais que abarquem dimensões políticas, econômicas, culturais e institucionais. O enfrentamento do etarismo passa pela identificação de seus determinantes estruturais e simbólicos, o que inclui práticas normativas, valores organizacionais e políticas públicas ineficazes ou ausentes. Mais do que combater a exclusão, trata-se de construir uma cultura que reconheça no envelhecer um processo natural, legítimo e carregado de possibilidades, e não uma etapa de redução de vida social ou profissional.

Ao criar uma cultura que valorize a diversidade geracional é possível, ainda, aprimorar a qualidade do cuidado prestado, bem como fomentar um ambiente de estudo e trabalho mais saudável e produtivo para todos os envolvidos.

Verifica-se, portanto, que é essencial promover pesquisas e implementar mudanças no ambiente acadêmico, especialmente nos componentes curriculares, com foco na redução das atitudes negativas e na promoção das atitudes positivas em relação à idade. Isso poderá contribuir para uma melhor preparação dos alunos para a futura vida profissional e sua inserção no mercado de trabalho.

 

*Artigo extraído da monografia de conclusão de graduação em enfermagem intitulada “Percepções sobre etarismo organizacional entre discentes da graduação de enfermagem”, apresentada ao Curso de Graduação em Enfermagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil, no ano de 2023.

 

CONFLITO DE INTERESSES

Os autores declaram não haver conflito de interesses.

 

REFERÊNCIAS

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Submissão: 31-Jul-2025

Aprovado: 15-Set-2025

 

Editores:

Rosimere Ferreira Santana (ORCID: 0000-0002-4593-3715)

Geilsa Soraia Cavalcanti Valente (ORCID: 0000-0003-4488-4912)

Carla Argenta (ORCID: 0000-0002-9729-410X)

 

Autor correspondente: Cristiane Helena Gallasch (cristiane.gallasch@gmail.com)

 

Editora:

Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa – UFF

Rua Dr. Celestino, 74 – Centro, CEP: 24020-091 – Niterói, RJ, Brasil

E-mail da revista: objn.cme@id.uff.br

 

CONTRIBUIÇÃO DE AUTORIA 

Concepção do estudo: Palma AMS, Pereira GS, Gallasch CH.

Obtenção de dados: Palma AMS, Pereira GS.

Análise de dados: Palma AMS, Pereira GS, Pestana LC, Delphino TM, Pereira LAS, Gallasch CH.

Interpretação dos dados: Palma AMS, Pereira GS, Pestana LC, Delphino TM, Pereira LAS, Gallasch CH.

Todos os autores se responsabilizam pela redação textual e revisão crítica do conteúdo intelectual, pela versão final publicada e por todos os aspectos éticos, legais e científicos relacionados à exatidão e à integridade do estudo.

 

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