ARTIGO ORIGINAL
NECESSIDADES DE NAVEGAÇÃO EM PACIENTES COM CÂNCER AVANÇADO: ESTUDO TRANSVERSAL*
Érica Aparecida Martins Pio1, Rita Tracz1, Nen Nalú Alves das Mercês1
1 Universidade Federal do Paraná. Curitiba, Paraná, Brasil
RESUMO
Objetivo: Avaliar as necessidades de navegação em pacientes com câncer avançado. Método: Estudo transversal com 52 pacientes oncológicos em estadiamento avançado. Utilizou-se um formulário de dados sociodemográficos e clínicos e a Escala de Avaliação da Necessidade de Navegação, estratificada em seis categorias. As pontuações geradas foram analisadas por teste de Shapiro-wilk, Qui-quadrado e modelo de regressão linear. Resultados: A média de necessidade de navegação foi de 9,21 pontos, com desvio padrão de 2,25; 61,54% sem necessidade de navegação e 28,85% com nível 1. As categorias foram: entendimento parcial da trajetória do tratamento (73,08%), dificuldade de organização para o tratamento (51,92%, p=0,00001), e de apoio/suporte familiar parcial (50%, p=0,023). Os fatores que indicam maior nível de navegação foram: idade (gl=2; wald= 13,94; p=0,001), menor renda familiar (gl=2; wald=16,88; p=0,000), baixa escolaridade (gl=1; wald=7.84; p=0,005), ausência de prática de atividade física (gl=1; wald=13,01; p=0,000), tabagismo (gl=1; wald=5,24; p=0,022) e o uso do sistema público de saúde (gl=1; wald=0,87; p=0,0003). Conclusão: As necessidades de navegação avaliadas, relacionaram-se a fatores sociodemográficos e clínicos, como idade avançada, baixa escolaridade, menor renda familiar, ausência de prática de atividade física, tabagismo e uso do sistema público de saúde, reforçando a importância de estratégias direcionadas que promovam acesso precoce e continuidade do cuidado oncológico.
Descritores: Navegação de pacientes; Enfermagem oncológica; Neoplasias; Cuidado centrado no paciente.
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Como citar: Pio EAM, Tracz R, Mercês NNA. Navigation needs in patients with advanced cancer: a cross-sectional study. Online Braz J Nurs. 2025;24:e20256909. https://doi.org/10.17665/1676-4285.20256909 |
INTRODUÇÃO
A Navegação do Paciente (NP) em oncologia, refere-se a um modelo de prestação de cuidados, que possui a capacidade de apoiar o acesso de pacientes a cuidados oportunos e de qualidade, em todo o processo do tratamento do câncer, mediante a assistência individualizada aos pacientes, familiares e cuidadores. Deu-se início em 1990, no Harlem Hospital, em Nova York, em parceria com a American Câncer Society (ACS) com objetivo de assegurar a continuidade do tratamento para indivíduos com doenças crônicas. Tal conceito vem de um processo no qual um profissional, denominado navegador de pacientes, orienta indivíduos com diagnóstico confirmado ou suspeito de doenças crônicas, auxiliando-os na superação de desafios socioeconômicos, financeiros, culturais, burocráticos e emocionais(1-2).
Os princípios básicos e fundamentais da NP seguidos até os dias de hoje são: (1) a navegação deve ser centrada no paciente e garantir a continuidade do cuidado; (2) facilitar a integração de sistemas de saúde criando um fluxo contínuo de cuidado; (3) eliminar as barreiras que dificultam o acesso aos serviços de saúde; (4) definir o escopo e a atuação dos navegadores desta equipe multiprofissional (5) acessibilidade aos serviços de navegação; (6) navegadores com formação e habilidades apropriadas; (7) estabelecer critérios claros para início e término da navegação; (8) criar conexões entre sistemas de saúde e (9) garantir a eficácia do processo de navegação. Embora o modelo tenha sido inicialmente concebido para pacientes oncológicos, sua aplicabilidade pode inclusive ser ampliada para outras doenças crônicas(3).
Historicamente, no Brasil, a existência de programas de NP ainda é recente, pois apenas em 2018 foi divulgada a primeira publicação sobre o tema em língua portuguesa. O primeiro artigo que evidenciou o desenvolvimento de um programa de NP para pacientes com câncer de cabeça e de pescoço em um centro de oncologia foi publicado em 2020, estruturado para a realidade brasileira, juntamente com a Escala de Avaliação de Necessidade de Navegação (EANN)(3).
Em relação ao tratamento do câncer, os melhores prognósticos estão associados a diagnósticos em estágios iniciais. Assim, à medida que a doença progride e atinge outros órgãos, a complexidade terapêutica aumenta, resultando em redução da sobrevida e mudanças nos objetivos do tratamento. Em estágios avançados (estágio IV), o foco terapêutico passa da cura para controle do tumor, alívio dos sintomas e melhora da qualidade de vida(4).
A jornada do paciente oncológico é frequentemente marcada por desafios, como dificuldades de acesso à rede de saúde, desinformação sobre o processo terapêutico e ausência de suporte familiar, necessários para o acompanhamento contínuo ao longo da trajetória do paciente. Por isso o Enfermeiro Navegador Oncológico (ENO) assume importante papel na gestão da trajetória do paciente, atuando como facilitador do cuidado e assegurando acesso ágil aos serviços de saúde. Suas funções incluem não apenas a coordenação da assistência oncológica, mas também, habilidades de comunicação interpessoal e capacidade de articulação com equipes multidisciplinares(5-6).
A NP é uma estratégia personalizada para atender necessidades dos pacientes oncológicos, em todas as fases da doença, desde o seu rastreamento, diagnóstico, redução do tempo de início do tratamento, durante o tratamento, diminuindo os efeitos colaterais, complicações, internações hospitalares e direcionando os atendimentos com cuidados oportunos, a fim de melhorar a jornada dos pacientes oncológicos(7). Seu impacto promove o acesso facilitado aos serviços de saúde, melhora a adesão ao plano terapêutico, avaliação e monitoramento, educação do paciente e familiares, através do esclarecimento de dúvidas e de suporte, otimizando o acesso ao cuidado oncológico e reduzindo as desigualdades na assistência à saúde(6,8-9).
Nesse contexto, o questionamento condutor deste estudo foi demonstrar quais as necessidades de navegação do paciente com câncer avançado? Dessa forma, considera-se o estudo relevante, pois buscou avaliar as necessidades de navegação em pacientes com câncer avançado. Os dados da avaliação permitem que os profissionais e os serviços de saúde possam planejar ações específicas através da navegação, com foco na redução das barreiras de acesso, melhoria da organização de acompanhamento e fortalecimento do apoio ao paciente em todas as fases da doença.
MÉTODO
Este estudo foi descrito seguindo as recomendações do instrumento STROBE (Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology), sendo o checklist utilizado para assegurar a completude e qualidade da apresentação dos métodos, resultados e discussões do estudo, promovendo a reprodutibilidade e a confiabilidade dos achados(10).
Estudo transversal(11) realizado em um centro de tratamento oncológico em nível ambulatorial no estado do Paraná. Foram selecionados 52 participantes diagnosticados com neoplasia maligna em estágio IV, conforme a classificação Tumor, Nódulo, Metástase (TNM), adotada para definição do estágio clínico da doença(12).
A seleção dos participantes foi realizada por amostragem intencional, com base na disponibilidade dos indivíduos para participarem do estudo. Utilizou-se um método de amostragem não probabilístico, no qual os elementos da população não possuem a mesma chance de serem incluídos na amostra (11), a partir dos registros de prontuários eletrônicos, entre dezembro de 2023 e junho de 2024. Dos 55 pacientes elegíveis, selecionados a partir dos dados clínicos do prontuário eletrônico, um se recusou por residir em outro município e possuir horário definido de transporte, e dois, quando abordados, estavam com alteração no nível de consciência, e apresentavam a pontuação de 50% na Palliative Performance Scale (PPS) versão 2(13). Foi organizado, previamente, com a equipe e com o paciente, o local e o horário para a coleta de dados, de maneira reservada e individual. A proposta de estudo foi apresentada ao participante selecionado, e o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) lido e assinado em conjunto.
Foram considerados elegíveis usuários com diagnóstico de câncer de qualquer tipo histocitopatológico em estágio IV. No entanto, na amostra obtida não houve pacientes com tumores hematológicos. Os critérios de exclusão foram usuários com rebaixamento do nível de consciência ou desorganização emocional, avaliados com a PPS(13).
Para a coleta de dados, utilizou-se o formulário de dados sociodemográficos e clínicos e a EANN(3). A EANN é composta por seis categorias de avaliação, que são: entendimento do paciente em relação ao diagnóstico, capacidade de comunicação, entendimento da trajetória de tratamento, capacidade de organização para a realização do tratamento, acesso aos serviços/sistema de saúde, apoio/suporte familiar. Possui os questionamentos chave direcionados aos pacientes e critérios de avaliação, que geram uma pontuação, e que somados ao final, indicam a necessidade de navegação. A pontuação mínima é de 6 e máxima de 17 pontos, sendo que a pontuação de 6 a 9, o paciente não necessita de navegação; para pontuações de 10 a 12 apresenta necessidade de navegação nível 1, de 13 a 17 possui necessidade de navegação nível 2. A navegação nível 1 deve ser realizada por um navegador acadêmico e um navegador profissional, com suporte do enfermeiro navegador. A navegação nível 2, necessita ser navegado pelo enfermeiro. A escala utilizada identifica as necessidades de navegação individuais direcionadas a estratégias personalizadas(3).
Os dados coletados foram analisados no programa Statistical Package for the Social Science (SPSS) versão 21. A descrição e resumo dos dados coletados foi realizada a partir da construção de tabelas de frequência (variáveis categóricas) e cálculo de medidas descritivas (variáveis quantitativas). Para verificar a suposição de normalidade dos dados, foi aplicado o Teste de Shapiro Wilk. Para avaliar a relação entre os níveis EANN e variáveis sociodemográficas e clínicas foi aplicado o Teste Qui-quadrado ou Teste de Fisher, quando amostra pequena.
Para traçar o perfil dos pacientes que necessitam de navegação, foi ajustado o Modelo de Regressão Linear Generalizado (GLZ). Na aplicação dos Modelos Lineares/Não Lineares Generalizados visto que podem ser analisados efeitos lineares e não lineares para qualquer número e tipo de variáveis preditoras em uma variável dependente discreta ou contínua. A GLZ utiliza os métodos de máxima verossimilhança (ML) para construir modelos e para estimar e testar hipóteses sobre os efeitos do modelo. Como critério para seleção do melhor modelo será usado o critério Akaike Information Criterion (AIC).
O estudo atendeu as normas da Resolução n° 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde (CNS), e a Resolução nº 738/2024 que regula o uso de banco de dados com finalidade de pesquisa envolvendo seres humanos, sendo aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade Federal do Paraná, com CAAE nº 74758923.1.0000.0102, e Parecer nº 7.118.615.
RESULTADOS
A amostra do estudo foi composta por 52 participantes, destes 35 (67,31%) são do sexo feminino. A idade variou entre 29 e 84 anos, com média de 54,25 anos. A maioria 33 (67,30%) residem em Ponta Grossa, PR, com 48 (92,31%) em área urbana, 34 (65,38%) eram casados, 45 (86,53%) estavam afastados do trabalho para o tratamento da doença. Entre os que possuíam renda individual, 24 (46,15%) recebiam entre 1 e 2 salários-mínimos, enquanto 12 (23,07%) de 2 e 4 salários. Na assistência à saúde, 40 (76,92%) possuíam convênio médico, enquanto 12 (23,08%) dependiam exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS). Sobre o nível de escolaridade, com 16 (30,77%) possuem ensino médio e 12 (23,07%) com nível superior (Tabela 1).
Tabela 1 – Caracterização sociodemográfica dos participantes. Curitiba, PR, Brasil, 2024
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Variáveis sociodemográficas |
f |
% |
Desvio padrão |
|
|
Sexo |
|
|
|
|
|
|
Feminino |
35 |
67,31 |
|
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|
Masculino |
17 |
32,69 |
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Idade |
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Média |
54,25 |
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n |
52 |
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Desvio Padrão |
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14,08 |
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Mínimo |
29 |
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Máximo |
84 |
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Estado Civil |
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Solteiro |
6 |
11,54 |
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Casado |
34 |
65,38 |
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Divorciado |
4 |
7,69 |
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Viúvo |
2 |
3,85 |
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União Estável/Consensual |
6 |
11,54 |
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Escolaridade |
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|
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|
Ensino Fund. Completo |
8 |
15,38 |
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Ensino Fund. Incompleto |
3 |
5,77 |
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Ensino Médio Completo |
16 |
30,77 |
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Ensino Superior Incompleto |
4 |
7,69 |
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|
Pós-graduação: Especialização |
8 |
15,38 |
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Pós-graduação: Mestrado |
2 |
3,85 |
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Ensino Técnico |
3 |
5,77 |
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Ocupação |
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Ativo |
7 |
13,46 |
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Inativo |
8 |
15,38 |
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Aposentado |
14 |
26,92 |
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Afastado para Tratamento |
23 |
44,23 |
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Cuidador Principal |
|
|
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Esposa |
30 |
57,69 |
|
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Filho |
11 |
21,15 |
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Pais |
1 |
1,92 |
|
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Familiar (outros) |
9 |
17,31 |
|
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Outros |
1 |
1,92 |
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Convênio de Saúde |
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SUS |
12 |
23,08 |
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Demais Convênios |
40 |
76,92 |
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Procedência |
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|
Município onde foi realizada a pesquisa |
35 |
67,30 |
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|
outros |
17 |
32,70 |
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Espaço de Residência |
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Urbano |
48 |
92,31 |
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Rural |
4 |
7,69 |
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Valor da Renda Individual |
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Um a dois salários-mínimos |
24 |
46,15 |
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Dois a quatro salários-mínimos |
12 |
23,07 |
|
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|
Cinco ou mais salários-mínimos |
9 |
17,31 |
|
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|
Sem resposta (quando não possuía renda) |
7 |
13,46 |
|
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Renda Média Familiar |
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Um a dois salários-mínimos |
5 |
9,62 |
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|
Dois a quatro salários-mínimos |
22 |
42,31 |
|
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|
Cinco ou mais salários-mínimos |
17 |
32,69 |
|
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|
Sem resposta (não possui) |
8 |
15,38 |
|
Fonte: elaborado pelos autores, 2025.
Quanto aos dados clínicos, os diagnósticos iniciais mais prevalentes variaram entre os sexos, sendo maior entre as mulheres, o câncer de mama 13 (25,0%), seguido do colo de útero 05 (9,62%) e colorretal 04 (7,69%). Entre os homens, os maiores índices foram: câncer colorretal com 04 (7,69%), seguido pelo câncer de língua, 02 (3,85%); pâncreas, 02 (3,85%); encéfalo, 02 (3,85%); e neoplasias secundárias em ossos e medula, 02 (3,85%). Outros diagnósticos menos frequentes não foram descritos individualmente descrevendo-se apenas os diagnósticos mais prevalentes por sexo, não correspondendo à totalidade dos casos incluídos.
Com relação ao estadiamento, realizado conforme classificação de TNM, 26 (50%) apresentavam estadiamento IV, desde o diagnóstico inicial, que evoluíram para estágios avançados, com metástases relacionadas ao sítio primário da doença. Nas mulheres com câncer de mama, as metástases foram ósseas, pulmonar e no encéfalo; no câncer colorretal as metástases em retroperitônio e fígado e as participantes com câncer de colo de útero e ovário com linfonodomegalias pélvicas.
Todos os participantes realizavam tratamento para o câncer 32 (61,54%) com quimioterapia, combinada ou não com outras terapias, como radioterapia 15 (28,85%), anticorpos monoclonais 14 (26,92%) e imunoterapia 9 (17,31%), protocolos esses associados ao tratamento câncer de mama e colorretal.
Os participantes referiram sintomas relacionados à doença avançada, e aos efeitos causados pelos tratamentos antineoplásicos, sendo a fadiga 43 (82,69%), dor 41 (78,85%), náuseas 35 (67,31%), neuropatia periférica 32 (61,54%), diarreia 23 (44,23%), constipação 16 (30,77%), ansiedade 34 (65,38%), depressão 18 (34,62%) e o medo 16 (30,77%). Em relação a manutenção de atividades diárias, 12 (23,08%) interromperam atividades físicas e 31 (59,62%) as atividades de lazer, devido a sintomas como dor 41 (78,85%) e fadiga 43 (82,69%) associadas ao tratamento.
O uso contínuo de medicamentos, foi comum para 50 (96,15%) participantes, destacando-se analgésicos não opióides 27 (54,0%), opióides 19 (38,0%), anti-hipertensivos 15 (30,0%) e antidepressivos 15 (30,0%).
Em relação à avaliação das necessidades de navegação, a maioria dos participantes 38 (73,08%) compreendia o diagnóstico de sua doença. Quanto à compreensão da trajetória do tratamento 38 (73,08%) relataram entendimento parcial. A capacidade de organização para comparecer a consultas multiprofissionais e tratamentos mostrou-se um desafio para 27 (51,92%) dos participantes, que relataram necessidade de apoio na gestão de horários e acessos aos serviços de saúde. A categoria de apoio/suporte familiar também foi referida, pois a metade possuía apoio e acompanhamento parcial 26 (50,0%).
Quanto ao nível de navegação classificado na pontuação da EANN, dos 52 pacientes, obteve-se média de 9,21, e desvio padrão de 2,25, variando entre 6 e 15 pontos, nesse sentido 32 (61,54%) não apresentaram necessidade de navegação. As categorias mais pontuadas incluíram entendimento parcial da trajetória do tratamento 38 (73,08%), dificuldade de organização para o tratamento 27 (51,92%) e suporte familiar parcial 26 (50%), como demonstrado na tabela 2.
Tabela 2 – Avaliação de Necessidades de Navegação pela EANN. Curitiba, PR, Brasil, 2025
Fonte: elaborado pelos autores, 2025.
Na associação entre variáveis sociodemográficas e clínicas com os níveis de necessidade de navegação, realizaram-se análises estatísticas, conforme tabela 3.
Tabela 3 - Modelo de regressão linear generalizado (GLM) para os níveis de navegação. Curitiba, PR, Brasil, 2025
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Variável |
Gl |
wald |
p |
|
Intercepto |
1 |
9299,66 |
0,0 |
|
Sexo |
1 |
2,01 |
0,156 |
|
Idade |
2 |
13,94 |
0,001 |
|
Dependentes |
1 |
1,41 |
0,235 |
|
Renda familiar |
2 |
16,88 |
0,0 |
|
Cuidados principal |
1 |
0,06 |
0,809 |
|
Convênio saúde |
1 |
0,87 |
0,35 |
|
Escolaridade |
1 |
7,84 |
0,005 |
|
Tabagismo |
1 |
5,24 |
0,022 |
|
Atividade física |
1 |
3,65 |
0,0 |
|
Capacidade de organização |
1 |
34,24 |
0,0 |
|
Apoio familiar |
1 |
45,55 |
0,0 |
Fonte: elaborado pelos autores, 2025.
Através do modelo multivariado aplicado, os fatores considerados significativamente relacionados com a pontuação na EANN foram: idade, sendo quanto maior a idade, maior a pontuação, renda familiar em que quanto menor a renda familiar, maior a pontuação, escolaridade em que quanto menor a escolaridade, maior a pontuação, tabagismo encontrado que em tabagistas e ex-tabagistas há maior pontuação, atividade física quanto menor a prática de atividade maior a pontuação, capacidade de organização em que quanto menor a capacidade de organização, maior a pontuação, apoio familiar, de modo que quanto menor o apoio maior a pontuação. Destaca- se que os fatores que influenciaram nos níveis de navegação, foram considerados significativos quando com p < 0,05.
Foram consistentes os fatores: idade, renda familiar, escolaridade, tabagismo, atividade física, capacidade de organização e apoio familiar. A análise multivariada indicou que a idade do participante tem impacto relevante nos níveis de navegação, incluindo faixas etárias específicas, diferentes níveis de suporte. O grau de instrução apresentou-se como fator determinante associado à maior capacidade de navegação no sistema de saúde.
DISCUSSÃO
A amostra predominantemente feminina, com mais de 50 anos referenciadas ao serviço analisado diverge de estudos nacionais que apontam maior prevalência entre 60 e 80 anos, com predominância do sexo masculino em neoplasias metastáticas(14-15). Os participantes relataram tabagismo, álcool e baixa frequência de atividade física, fatores estes que corroboram com estudos em nível nacional e mundial sobre os principais fatores de risco para o desenvolvimento do câncer, sendo o tabagismo o principal potencializador da atividade carcinogênica(16).
Ainda relacionado ao perfil sociodemográfico, os achados referentes à grau de instrução estão alinhados com estudos prévios, desenvolvidos no Brasil(9,17-18) ao evidenciar que pacientes com menor escolaridade e renda apresentam maior necessidade de navegação devido às dificuldades na compreensão do tratamento e nas barreiras logísticas enfrentadas o que pode ainda refletir na tomada de decisão compartilhada, fundamental para a qualidade do tratamento(19-20). Observa-se que, pacientes mais informados apresentam melhor adesão ao tratamento e maior qualidade de vida(21).
Referente à adesão ao tratamento, encontrou-se que os usuários do SUS relataram maior dificuldade na marcação de consultas, obtenção de medicamentos e suporte interdisciplinar, corroborando com trabalhos(18) que evidenciam a vulnerabilidade de pacientes sem plano de saúde privado, sendo assistidos em um serviço de saúde de radioterapia que atende 50% pelo SUS. Além disso, o acesso aos serviços de saúde e a qualidade do tratamento estão diretamente relacionados a fatores sociodemográficos, como renda e nível educacional(22). A navegação de pacientes, coordenada por enfermeiros, tem o potencial de minimizar essas desigualdades, garantindo um atendimento mais oportuno e eficaz(23).
As necessidades de navegação, neste estudo, foram relacionadas à compreensão da trajetória do tratamento, capacidade organizacional e apoio/suporte familiar. A importância da família como um elo consiste em um dos fatores fundamentais na jornada do paciente, portanto o envolvimento da família é um determinante essencial para a adesão ao tratamento(19-20). O suporte familiar auxilia na organização das demandas do dia a dia, e impacta positivamente na estabilidade emocional do paciente, aumentando a sensação de acolhimento e segurança(24-25). No entanto, a abordagem sobre prognóstico e cuidados paliativos enfrenta desafios culturais e emocionais, tanto no Brasil, como no exterior, conforme demonstrado em um estudo asiático(26), onde os profissionais evitam essa discussão por receio de causar sofrimento emocional, comprometendo a autonomia do paciente e seu direito à informação.
Em relação ao rastreamento até o início do tratamento, o enfermeiro navegador atua como um elo central na coordenação do cuidado, reduzindo atrasos no início do tratamento e proporcionando um acompanhamento mais efetivo e humanizado em todas as fases(27-28). Quanto à fase diagnóstica, por sua vez, ela é frequentemente apontada como um dos momentos críticos da jornada oncológica, marcada por estresse e incertezas. Estudos(29-30) demonstram que uma navegação eficiente nessa etapa reduz o tempo entre diagnóstico e início do tratamento, minimizando a progressão da doença e garantindo suporte individualizado ao paciente. Outro achado relevante foi a correlação entre menor escolaridade e maior necessidade de navegação. As desigualdades socioeconômicas impactam diretamente no acesso e qualidade do atendimento(18), reforçando a importância de um modelo estruturado de navegação para pacientes oncológicos avançados(3).
Evidencia-se, portanto, a necessidade de políticas públicas que incentivem a ampliação dos Programas de Navegação de Pacientes no Brasil, garantindo um acesso mais equitativo, estruturado e digno ao tratamento oncológico(31). O ENO se consolida, assim, como um elemento essencial na jornada do paciente oncológico, desde o diagnóstico, tratamento, sobrevivência, incluindo os cuidados paliativos, proporcionando um percurso mais digno, compassivo e centrado na pessoa(32-33).
Um dos desafios e limites deste estudo foi a ausência de um Programa de Navegação de Pacientes na instituição local do estudo, bem como a falta de atuação integrada da equipe multiprofissional de cuidados paliativos, devido a restrições institucionais. Outro limite foram grupos com acessos diversos, conveniados e pelo SUS, com as desigualdades decorrentes observadas neste estudo.
CONCLUSÃO
Conclui-se que embora a maioria dos participantes não apresentassem indicação para navegação formal segundo a EANN, observou-se necessidades parciais, relacionadas à compreensão da trajetória de tratamento, à capacidade organizacional e ao suporte familiar. A idade avançada, baixa escolaridade, menor renda familiar, ausência de prática de atividade física, tabagismo e a utilização exclusiva do sistema público de saúde se destacaram como preditores significativos para maior necessidade de navegação. Os achados reforçam a importância da implementação de programas estruturados de Navegação de Pacientes em oncologia, visando à identificação precoce de barreiras e à formulação de estratégias individualizadas que promovam o acesso, a continuidade e a integralidade do cuidado. Adicionalmente, os resultados oferecem subsídios relevantes para o planejamento de intervenções em saúde, além de incentivar novas pesquisas sobre a efetividade de programas de navegação no contexto oncológico brasileiro.
*Artigo extraído da Dissertação de Mestrado intitulada “Necessidade de navegação: a trajetória do paciente com câncer avançado”, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, Setor de Ciências da Saúde, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, Paraná, Brasil, no ano de 2025.
CONFLITO DE INTERESSES
Os autores declaram não haver conflito de interesses.
FINANCIAMENTO
O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001. Processo nº 88887.831926/2023-00.
REFERÊNCIAS
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3. Pautasso FF, Lobo TC, Flores CD, Caregnato RCA. Nurse Navigator: development of a program for Brazil. Rev Lat Am Enfermagem. 2020;28:e3275. https://doi.org/10.1590/1518-8345.3258.3275
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Submissão: 03-Jun-2025
Editores:
Rosimere Ferreira Santana (ORCID: 0000-0002-4593-3715)
Geilsa Soraia Cavalcanti Valente (ORCID: 0000-0003-4488-4912)
Patricia dos Santos Claro Fuly (ORCID: 0000-0002-0644-6447)
Autor correspondente: Érica Aparecida Martins Pio (ericapio8@gmail.com)
Editora:
Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa – UFF
Rua Dr. Celestino, 74 – Centro, CEP: 24020-091 – Niterói, RJ, Brasil
E-mail da revista: objn.cme@id.uff.br
