ARTIGO ORIGINAL
ESTRATÉGIAS DE COPING EM ENFERMAGEM ONCOLÓGICA: ANÁLISE DAS PRÁTICAS DE CUIDADO E BEM-ESTAR
Isaías Vicente Santos1, Iramirton Figueredo Moreira2, Victor José Correia Lessa3, Luiza Santos Paz4, Rossana Teotonio de Farias Moreira5
1 Universidade Federal de Alagoas, Escola de Enfermagem, Programa de Pós-Graduação em Enfermagem. Maceió, Alagoas, Brasil. ORCID: 0000-0003-0724-7439. E-mail: isaiasvicentesantos1@gmail.com
2 Universidade Federal de Alagoas, Escola de Enfermagem, Programa de Pós-Graduação em Enfermagem. Maceió, Alagoas, Brasil. ORCID: 0000-0001-9182-7684. E-mail: iramirton.figueredo@famed.ufal.br
3 Universidade Federal de Alagoas, Hospital Universitário Professor Alberto Antunes. Maceió, Alagoas, Brasil. ORCID: 0000-0002-1821-6964. E-mail: vjcl.victor@gmail.com
4 Universidade Federal de Alagoas, Hospital Universitário Professor Alberto Antunes. Maceió, Alagoas, Brasil. ORCID: 0000-0002-8586-2448. E-mail: lu_nieta@yahoo.com.br
5 Universidade Federal de Alagoas, Escola de Enfermagem, Programa de Pós-Graduação em Enfermagem. Maceió, Alagoas, Brasil. ORCID: 0000-0002-0881-1997. E-mail: rossana.moreira@famed.ufal.br
RESUMO
Objetivo: Identificar estratégias de coping adotadas por enfermeiros frente aos desafios da assistência a pacientes oncológicos. Método: Este estudo qualitativo foi conduzido com 14 enfermeiros atuantes na assistência direta em um centro de alta complexidade em oncologia de um hospital universitário na cidade de Maceió, estado de Alagoas, Brasil. A coleta de dados ocorreu por entrevistas semiestruturadas e a interpretação seguiu a análise de conteúdo de Bardin. Resultados: Predominaram estratégias de autoproteção emocional, incluindo distanciamento de lembranças e responsabilidades do trabalho, atividades de lazer, espiritualidade, convívio familiar, prática de esportes e contato com a natureza. Citaram-se, ainda, ações de autocuidado, realização de terapia e busca por aperfeiçoamento profissional. Houve demanda por melhorias estruturais, apoio psicológico institucional e valorização do trabalho. Observou-se que muitas estratégias são iniciativas individuais, pouco incorporadas às políticas organizacionais. Conclusões: As estratégias de coping adotadas expressam o esforço dos enfermeiros para manejar as exigências emocionais do cuidado oncológico e evidenciam a necessidade de intervenções institucionais que fortaleçam essas práticas e promovam o bem-estar dos profissionais.
Descritores: Saúde do trabalhador; Saúde mental; Habilidades de enfrentamento.
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Como citar: Santos IV, Moreira IF, Lessa VJC, Paz LS, Moreira RTF. Coping strategies in oncology nursing: an analysis of care practices and well-being. Online Braz J Nurs. 2025;24(Suppl 2):e20256908. https://doi.org/10.17665/1676-4285.20256908 |
O que já se sabe:
Enfermeiros oncológicos vivenciam elevados níveis de estresse e risco de síndrome de burnout.
Estratégias individuais (p.ex., lazer e espiritualidade) são recorrentes.
O suporte institucional é crucial para reduzir adoecimento e qualificar a assistência.
O que este artigo acrescenta:
Mostra o predomínio de estratégias centradas na emoção entre enfermeiros oncológicos.
Identifica demanda por suporte institucional, infraestrutura e qualificação específica.
Reforça a urgência de políticas dirigidas à saúde mental desses profissionais.
INTRODUÇÃO
A enfermagem oncológica, sobretudo em instituições de alta complexidade, exige competências técnicas, emocionais e humanas para lidar com sofrimento intenso, finitude e necessidades clínicas complexas. Este estudo tem como objeto as estratégias de coping utilizadas por enfermeiros que atuam em um centro de alta complexidade em oncologia de um hospital universitário na cidade de Maceió, estado de Alagoas, Brasil. Nesse cenário especializado, os profissionais se deparam cotidianamente com demandas que requerem não apenas preparo técnico, mas também equilíbrio emocional e suporte institucional para assegurar a qualidade do cuidado e a preservação da saúde mental.
O trabalho em unidades oncológicas impõe desafios singulares: manejo da dor, acompanhamento de pacientes em estágios avançados e apoio às famílias em luto e terminalidade. A sobrecarga laboral, a escassez de recursos, a cobrança por resolutividade e a convivência contínua com o sofrimento tornam o ambiente estressante e emocionalmente desgastante(1). A ausência de políticas institucionais voltadas à saúde do trabalhador agrava esse quadro, levando muitos profissionais a enfrentar tais pressões de forma isolada, com impacto direto na qualidade assistencial e no bem-estar da equipe(2). Como consequência, aumentam os riscos de estresse crônico, ansiedade, depressão, síndrome de burnout e sofrimento moral(1).
Evidências nacionais e internacionais indicam que a exposição prolongada a contextos de alta exigência emocional, sem suporte adequado, favorece o adoecimento físico e psíquico de trabalhadores da saúde(2-4). Tais condições comprometem a segurança do paciente e fragilizam a permanência e a motivação de enfermeiros em serviços especializados, reforçando a urgência de discutir estratégias institucionais de cuidado aos cuidadores.
Nesse contexto, as estratégias de coping — mecanismos cognitivos e comportamentais para enfrentar estressores — podem focalizar o problema, a emoção ou o suporte social(5-6). Identificar como tais estratégias são mobilizadas por enfermeiros em ambientes de alta complexidade contribui para o desenho de políticas de cuidado ao trabalhador, para ações de promoção do bem-estar e prevenção de adoecimentos, além de qualificar a assistência oncológica(2). Mapear essas práticas e os desejos dos profissionais frente aos processos de trabalho permite reconhecer fragilidades e apontar meios de promover a saúde do trabalhador, com repercussões positivas na qualidade do cuidado.
Diante disso, este estudo foi guiado pelas questões “quais estratégias de coping são utilizadas por enfermeiros no cuidado ao paciente oncológico?” e “quais superações e/ou desejos esses profissionais expressam em relação aos seus processos de trabalho?” Assim, objetivou-se identificar as estratégias adotadas por enfermeiros no processo de coping dos desafios vivenciados no cotidiano do cuidado a usuários oncológicos em um centro de alta complexidade em oncologia de um hospital universitário em Alagoas, Brasil.
MÉTODOS
Desenho do estudo
Esta é uma pesquisa qualitativa cujo objeto é o universo da produção humana, entendido como o campo das relações, da intencionalidade e da representatividade do sujeito. Essa abordagem permite investigar em profundidade significados, motivos, valores, inspirações e atitudes dos participantes em sua realidade social, favorecendo a compreensão dos sentidos que atribuem às próprias ações e relações(7).
Cenário
O estudo foi conduzido no centro de alta complexidade em oncologia de um hospital universitário no estado de Alagoas, Brasil.
Participantes e amostragem
Foram elegíveis enfermeiros com idade ≥ 18 anos, com pelo menos 3 meses de atuação em oncologia no centro de alta complexidade em oncologia e que atendessem aos critérios de inclusão e exclusão. Foram excluídos profissionais em férias ou em licença de qualquer natureza. O recrutamento ocorreu por amostragem não probabilística, por conveniência, a partir da manifestação de interesse em participar.
Coleta de dados
A coleta foi realizada em setembro de 2022, de forma individual, por meio de formulário semiestruturado. O instrumento continha duas partes: i) caracterização dos participantes e ii) questões abertas (Quadro 1). Após cada pergunta, o participante podia optar por responder “não desejo responder”. As entrevistas ocorreram em sala reservada disponível no centro de alta complexidade em oncologia.
Quadro 1 – Perguntas norteadora para a coleta de dados. Maceió, AL, Brasil, 2022
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1. Quais estratégias você utiliza para enfrentar situações difíceis no cuidado ao usuário oncológico? |
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2. Quais superações e/ou desejos estão relacionados à sua prática profissional no cuidado ao usuário oncológico? |
Fonte: adaptado de Louise de Oliveira do Carmo, Guerra Siman, Almeida de Matos e Toledo de Mendonça, 2019(8).
Procedimentos de análise, rigor metodológico e aspectos éticos
As entrevistas foram gravadas, transcritas integralmente e submetidas à análise de conteúdo, entendida como um conjunto de procedimentos sistemáticos para identificar, agrupar e interpretar temas que revelam valores, concepções e modelos presentes nos discursos(9).
Inicialmente, todas as transcrições passaram por leituras sucessivas para apreensão do sentido global. Em seguida, destacaram-se unidades de registro — trechos que expressavam ideias centrais — às quais foram atribuídos códigos representativos. Os códigos foram agrupados por similaridade semântica, originando núcleos temáticos provisórios que, após refinamento, constituíram subcategorias como: atividades físicas e lazer; espiritualidade; uso do bom humor; estratégias de distanciamento afetivo; comunicação entre colegas; terapia psicológica; ressignificação do trabalho. A partir da análise comparativa desses núcleos e de discussões entre os pesquisadores, emergiram duas categorias centrais: estratégias utilizadas para enfrentar situações difíceis em oncologia e desejos relacionados ao processo de trabalho em oncologia. O processo incluiu validação por pares, verificação de saturação e confronto com a literatura, o que conferiu rigor metodológico e sustentou a validade externa do estudo.
A coleta de dados foi interrompida quando se verificou a suficiência teórica: novas entrevistas deixaram de acrescentar informações relevantes ao objetivo do estudo, considerando também os recursos disponíveis e a incorporação dos achados ao desenho analítico.
Os dados foram armazenados no Google Drive® pessoal, com acesso restrito aos pesquisadores, assegurando sigilo, privacidade e confidencialidade. Permanecerão guardados por cinco anos após o encerramento do estudo. Para garantir originalidade, confiabilidade, transparência e rigor, o relato seguiu os COnsolidated criteria for REporting Qualitative research, indexados na EQUATOR Network(10).
Todos os participantes assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido e um termo de autorização para gravação de voz, recebendo a segunda via de cada documento. O anonimato foi preservado em todas as etapas, identificando-se os depoentes pela sigla ENF seguida do número sequencial da entrevista (p.ex., ENF1, ENF2).
O estudo foi conduzido em conformidade com diretrizes éticas nacionais e internacionais e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos do Hospital Universitário Professor Alberto Antunes, Universidade Federal de Alagoas, sob parecer nº 5.628.707 (CAAE: 61122422.0.0000.0155).
RESULTADOS
A amostra (Tabela 1) incluiu 14 profissionais — 12 enfermeiras e dois enfermeiros (85,7% e 14,3%, respectivamente) — com idades entre 29 e 55 anos. Quanto ao tempo de atuação, 12 trabalhavam em serviços oncológicos há mais de 3 anos (85,7%) e dois tinham menos de 7 meses de experiência (14,3%).
No que se refere à formação, 11 participantes relataram não possuir especialização em oncologia (78,6%). Oito informaram não ter tido contato com conteúdos técnicos e/ou práticos de oncologia durante a graduação (57,1%).
Tabela 1 – Caracterização dos participantes segundo gênero, idade, tempo de atuação em serviço oncológica, especialização na área oncológica e contato com saberes técnicos e/ou práticos em oncologia durante a graduação. Maceió, AL, Brasil, 2022
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Participante |
Gênero |
Idade (anos) |
Tempo de atuação em serviço oncológico |
Especialização em oncologia |
Contato com conteúdos/práticas de oncologia na graduação |
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ENF1 |
Feminino |
38 |
15 anos |
Sim |
Não |
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ENF2 |
Feminino |
35 |
3 anos |
Não |
Sim |
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ENF3 |
Feminino |
46 |
19 anos |
Não |
Não |
|
ENF4 |
Feminino |
30 |
6 meses |
Não |
Não |
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ENF5 |
Feminino |
46 |
18 anos |
Sim |
Sim |
|
ENF6 |
Feminino |
38 |
3 anos |
Não |
Sim |
|
ENF7 |
Feminino |
33 |
7 meses |
Não |
Sim |
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ENF8 |
Feminino |
29 |
4 anos |
Não |
Não |
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ENF9 |
Feminino |
48 |
4 anos |
Não |
Não |
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ENF10 |
Masculino |
36 |
6 anos |
Não |
Não |
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ENF11 |
Feminino |
32 |
7 anos |
Não |
Sim |
|
ENF12 |
Feminino |
45 |
7 anos |
Sim |
Não |
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ENF13 |
Masculino |
44 |
6 anos |
Não |
Sim |
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ENF14 |
Feminino |
55 |
6 anos |
Não |
Não |
Fonte: elaboração própria, 2025.
Após a análise de conteúdo, duas categorias foam identificadas e são apresentadas a seguir, com trechos ilustrativos das entrevistas.
Estratégias utilizadas para enfrentar situações difíceis em oncologia
Evidenciaram-se múltiplas estratégias de coping voltadas à autoproteção mental e emocional. Entre as práticas citadas, destacaram-se: distanciamento de lembranças e responsabilidades do trabalho no período extralaboral; atividades físicas; leitura; filmes e lazer; contato com a natureza; e convivência familiar — reconhecidas pelos participantes como estratégias de alta relevância.
Eu vejo como aliado a prática de atividades físicas; geralmente eu faço antes de vir para o trabalho, de manhã cedinho. (ENF1)
Final de semana me desligo completamente […] eu também dou uma parada, eu tenho saído, eu tenho dado voltas na praia, pelo menos para olhar alguma coisa, para espairecer, tomar meu vinhozinho também, né? Para relaxar mesmo. (ENF5)
Todo final de semana, principalmente com a minha família, eu vou à praia. Preciso voltar a fazer esportes, porque é muito importante. Quando estava fazendo atividade física eu me sentia até melhor também e eu procuro no final de semana, e nas minhas horas livres, fazer o máximo de coisas que eu gosto, de estudar outros assuntos, eu gosto muito de ler, procuro muito ler quando estou com tempo. Meu filho também é minha válvula de escape, eu busco fazer cuidados e programas com ele […] vou muito à praia, amo muito ir à praia, até mesmo se você estiver muito estressado, só em olhar para o mar, para natureza, a gente dá uma relaxada. A pessoa tenta desenvolver mecanismos de defesa, né? de tentar afastar, deixar um pouco mais afastado os sentimentos da pessoa. (ENF6)
Eu procuro equilíbrio, nem sempre se envolver com paciente, no sentido de não deixar de fato que o emocional me prejudique na assistência. (ENF8)
[…] eu aprendi, de um tempo para cá, fazer crochê e para mim é um alívio. (ENF9)
Leio muito sobre o próprio contexto do paciente, sobre as dificuldades, para não absorver de forma muito pessoal. Já teve momentos que absorvi isso e me prejudicou muito. (ENF11)
Procuro descansar bastante nas minhas folgas, procuro me desfazer, assistir filmes e me desligar fazendo atividades que não tem nada a ver com o serviço, como por exemplo, gosto muito de mexer com computadores, eu gosto de assistir filmes, de informática. (ENF13)
O bom humor foi referido como recurso facilitador do cotidiano e da resolução de problemas no cuidado oncológico.
Utilizo o bom humor e faço meu trabalho da melhor forma possível; tento dar soluções. (ENF7)
A espiritualidade também foi apontada como apoio relevante para o coping de adversidades.
Eu tenho muita fé; eu sou cristã e muitas vezes me apego na minha religião para entender o que está acontecendo. Não é fácil, mas a gente precisa. (ENF2)
A comunicação no ambiente de trabalho e a harmonia entre pares emergiram como táticas para manejar situações difíceis, incluindo a busca de apoio de outros profissionais e a necessidade de interlocução com a gestão.
Para lidar com essas situações […] buscamos ajuda de outros profissionais. (ENF3)
Acredito muito no diálogo, para você dialogar com os atores envolvidos, para tentar ter maior resolutividade, ter novas ideias e você deslocar esse processo de trabalho para algo que seja mais eficiente. Então, precisa dessas interlocuções na gestão para tentar resolver, porque não tem como o enfermeiro, que está na assistência, conseguir fazer essa interlocução com várias áreas do hospital e implantar uma rotina. (ENF10)
O acesso à psicoterapia foi citado como estratégia de cuidado em saúde mental.
Tem que trabalhar a mente, né? Tem que trabalhar. Quando eu vejo que o negócio tá ruim eu volto para as sessões com meu psicólogo. Fazer terapia também ajuda para gente se cuidar, porque senão a gente só fica vendo perdas, perdas e perdas o tempo inteiro. (ENF5)
Eu fiz terapia a um tempo atrás […] acho que a gente, principalmente todos os enfermeiros, deveriam fazer, mas principalmente os enfermeiros oncológicos, para a gente saber lidar melhor com essa questão da dor, da morte. (ENF6)
Os relatos também enfatizaram a busca por aperfeiçoamento pessoal e profissional e por ressignificação do trabalho como formas de coping.
A partir do momento que eu venho buscando conhecimento, não só técnico, mas sim do contexto do paciente, do contexto da finitude, sobre os meus limites, sobre até onde eu posso ir para ajudar […] acho que isso ajuda muito a você lidar com as dificuldades, passamos a ver que os colegas vão se cansar e iremos passar por momentos difíceis, porém não podemos personalizar esses conflitos, não trazer para si, tratar isso como um elemento do ambiente profissional que precisa ser trabalhado, que esse profissional precisa de uma acolhimento, que ele também é um ser humano. (ENF11)
Desejos relacionados ao processo de trabalho na oncologia
Nesta categoria, surgiram verbalizações sobre superações e desejos frente ao cuidado no centro de alta complexidade em oncologia, com ênfase em melhorias estruturais, organizacionais e de qualificação.
Foram mencionadas necessidades de ampliação de leitos, redefinição de fluxos e melhor estrutura física para qualificar e integrar a assistência.
Desejo que ocorra aumento nos números de leitos. (ENF3)
Eu desejo que aqui amplie mais, porque a gente aqui tá ficando muito sufocada, a demanda está muito grande e o espaço não está comportando […] até para a gente dar uma qualidade na assistência. (ENF12)
Eu acho que se tivesse bem definido o trabalho e a função de cada um dentro do seu setor tudo fluía melhor […] mas eu acho que isso é uma questão geral que o hospital enquanto chefia precisa ver o fluxo, organizar os organogramas, os fluxos, para o trabalho fluir melhor. (ENF9)
Meu desejo é que o serviço abarque mais assistência ao paciente, que ele tenha mais estrutura física e que as coisas realmente funcionem 100% de uma forma integral. (ENF13)
A qualificação profissional foi apontada como caminho para aprimorar o cuidado e participar mais ativamente da estruturação do serviço.
Meu desejo é fazer a especialização em oncologia, porque eu gostei da área, apesar de ser muito sofrida eu me identifiquei. Acho que aqui a pessoa ama ou a pessoa odeia, mas eu gostei, tenho muita vontade de fazer especialização, de fazer mais cursos e estudar. (ENF6)
Meu desejo é poder prestar uma assistência que ofereça dignidade aos pacientes […] espero que chegue o momento que eu possa consolidar os meus estudos sobre oncologia e realmente conseguir ter a participação mais ativa, no sentido contribuir para a estruturação do serviço como um todo, para que este serviço venha agregando qualidades e mais recursos para assistência do paciente. (ENF11)
Houve preocupação em garantir cuidado holístico e empático, com destaque para o tempo destinado à sistematização da assistência de enfermagem.
O paciente oncológico precisa muito de atenção […] às vezes o atendimento fica mais mecânico. O meu desejo era que a gente tivesse um tempo mais dedicado para a consulta de enfermagem, acho que isso seria importante. (ENF1)
Tratar o paciente, quando chega pra ti, como um todo é o mínimo que a gente pode fazer. (ENF9)
Meu desejo de fato é continuar sendo uma profissional humanizada, empática, forte para enfrentar situações de maneira tranquila, da melhor maneira possível. (ENF8)
Por fim, os depoimentos revelaram o reconhecimento de que o cuidado oncológico é complexo e exaustivo em múltiplas dimensões (p.ex., física, mental, espiritual, econômica e social), com impacto sobre a saúde mental dos trabalhadores, o que sustenta o desejo por apoio psicológico institucional contínuo.
Eu acho que a gente precisaria de um acompanhamento psicológico para as enfermeiras que estão trabalhando aqui, eu acho que a gente precisava de terapias, de um apoio que a gente não tem, dizem que a gente tem, mas eu gostaria que fosse algo focado para a gente aqui […] que essas intervenções fossem coisas naturais em uma tarde no mês, uma roda de conversa, acho que isso seria muito importante para a gente que trabalha na área porque é muito pesado. (ENF12)
DISCUSSÃO
Este estudo evidenciou que enfermeiros de uma unidade oncológica mobilizam estratégias diversificadas para manejar o sofrimento psíquico e as exigências emocionais do cuidado. As formas de coping mais frequentes foram: distanciamento mental do ambiente de trabalho por meio de atividades de lazer, espiritualidade, apoio familiar, uso do bom humor, acesso à psicoterapia e busca contínua por qualificação técnica e humana. Também emergiram desejos por melhores condições estruturais, reorganização de fluxos assistenciais, humanização do cuidado e suporte psicológico institucionalizado. Tais achados convergem com a literatura recente sobre saúde do trabalhador em contextos de alta complexidade.
Coping refere-se a esforços cognitivos e comportamentais utilizados para lidar com situações estressoras, especialmente quando superam os recursos habituais de resolução de problemas(4-6,11). No presente estudo, predominaram estratégias focadas na emoção — distanciamento psicológico, práticas de lazer, espiritualidade e suporte social — para aliviar o impacto emocional do cuidado oncológico. Pesquisas indicam que, em profissões de cuidado intensivo, essas estratégias tendem a ser mais recorrentes do que aquelas centradas no problema, dada a natureza frequentemente incontrolável de situações como a finitude e o sofrimento prolongado(2-4). Ainda assim, observaram-se estratégias mais ativas, como terapia e capacitação profissional, sinalizando mobilização adaptativa diante das adversidades. Cabe às instituições reconhecer, fortalecer e incentivar tais recursos.
O uso de atividades extracurriculares e de lazer como válvula de escape é amplamente descrito. Exercícios físicos, contato com a natureza, leitura e convivência familiar favorecem a desconexão temporária do ambiente hospitalar e contribuem para a manutenção da saúde mental(12-13). Os relatos dos participantes reforçam a importância de promover hábitos saudáveis entre os profissionais.
A espiritualidade emergiu como recurso subjetivo relevante, compreendida como suporte emocional diante do sofrimento associado à finitude. Em contextos de intenso sofrimento humano, como a oncologia, pode conferir sentido à prática profissional e favorecer resiliência e bem-estar(14-15). O vínculo com a fé relatado pelos participantes é consistente com a literatura que reconhece a espiritualidade como promotora desses desfechos.
Entendida como a busca pessoal por significado, pela transitoriedade da vida e pela relação com o transcendente — com ou sem componente religioso —, a espiritualidade atua sobre o propósito de vida, oferecendo conforto e bem-estar e auxiliando no coping de situações difíceis. Por isso, destaca-se sua potência como estratégia de promoção da saúde(16).
O uso de bom humor e leveza nas relações foi mencionado como forma de tornar o cotidiano menos penoso. O humor pode fortalecer vínculos na equipe, facilitar a comunicação com pacientes e funcionar como fator protetivo ao estresse ocupacional, desde que empregado com consciência e empatia, evitando a negação do sofrimento ou a invalidação de emoções legítimas(17-18). No âmbito do cuidado, a felicidade é entendida como sensação de satisfação com a vida; quando presente, amplia a capacidade de manejo dos acontecimentos diários e das dificuldades associadas ao adoecimento(16).
O distanciamento emocional como autoproteção psíquica também foi identificado. Embora possa reduzir, momentaneamente, a sobrecarga do profissional, o uso indiscriminado tende a fragilizar o vínculo terapêutico. O desafio é equilibrar empatia e autocuidado, preservando uma relação terapêutica saudável sem absorver integralmente o sofrimento do outro(16).
A importância da comunicação e da cooperação intrainstitucional foi reiterada. Apoio interpessoal e diálogo aberto favorecem coesão, senso de pertencimento e atenuam impactos do sofrimento moral e emocional, especialmente em serviços de alta demanda e com limitações estruturais, como é comum na oncologia(19-21). A busca por suporte psicológico externo, via psicoterapia, apareceu como estratégia eficaz para elaborar perdas recorrentes e desgaste emocional, contribuindo para a prevenção de ansiedade, depressão e síndrome de burnout(22-23); ainda assim, nota-se resistência institucional à oferta sistematizada desse apoio.
Observou-se lacuna formativa: muitos profissionais não possuem especialização em oncologia nem vivenciaram conteúdos/práticas na graduação, o que incide sobre a segurança assistencial e o preparo emocional. A qualificação específica é determinante para a qualidade do cuidado e para o manejo das complexidades da área, indicando a urgência de revisão curricular e ampliação de especializações e capacitações continuadas(24).
Os desejos por melhorias estruturais, reorganização de fluxos e ampliação de leitos convergem com estudos que descrevem precariedades nos serviços oncológicos no Brasil, com insuficiências de infraestrutura e de recursos humanos diante da demanda crescente, gerando sobrecarga e comprometendo a integralidade do cuidado(2). Tais achados reforçam a necessidade de investimentos e planejamento organizacional.
Por fim, destacou-se o anseio por reconhecimento profissional, humanização e valorização da empatia no cotidiano. Criar condições institucionais que sustentem uma prática ética e segura é fundamental. Nesse sentido, diversas estratégias individuais podem favorecer saúde e bem-estar: assistir a programas/filmes preferidos ou de humor; leituras; contato com animais e natureza; alimentação com significado afetivo; estímulo ao prazer e ao riso; atividades atrativas (música, canto, costura, tricô, dança, pintura); ampliação das interações sociais; conversas com linguagem positiva; prática de atos de bondade; uso de práticas integrativas e complementares (auriculoterapia, aromaterapia, meditação); e higiene do sono, entre outras(16,25).
Limitações do estudo
Por se tratar de investigação realizada em uma única instituição, os achados não são generalizáveis para outras realidades e contextos. Pela natureza qualitativa, baseada em entrevistas, as informações refletem percepções subjetivas suscetíveis a influências individuais e momentâneas, o que dificulta a identificação de tendências mais amplas. A ausência de recorte longitudinal também impede avaliar mudanças nas estratégias de coping ao longo do tempo.
Contribuições para a prática
O estudo traz contribuições à enfermagem ao evidenciar estratégias psicossociais mobilizadas por profissionais no cuidado oncológico e seus desejos de transformação do ambiente de trabalho. Ao dar visibilidade às formas de coping e às necessidades de suporte emocional, reforça o debate sobre saúde mental no trabalho e aponta a urgência de políticas institucionais de cuidado aos enfermeiros. Ademais, suscita reflexão sobre a formação profissional, indicando a necessidade de maior inserção de conteúdos de oncologia nos currículos de graduação e nas especializações em enfermagem.
CONCLUSÕES
Os resultados mostram que enfermeiras e enfermeiros de unidades oncológicas desenvolvem estratégias individuais diversas para lidar com as exigências emocionais e físicas do cuidado. Mecanismos como distanciamento mental, práticas de lazer, espiritualidade, psicoterapia e bom humor foram referidos como fundamentais para mitigar o sofrimento e preservar a saúde mental. Apoio interpessoal e ressignificação das experiências de trabalho também se destacam como pilares para sustentar a permanência no setor diante dos desafios cotidianos.
Constatou-se, ainda, a expressão de desejos de transformação nas condições de trabalho, com ênfase em melhorias de infraestrutura física, organização dos fluxos assistenciais e valorização do cuidado holístico. A busca por qualificação e pela humanização da assistência evidencia o compromisso desses profissionais com a excelência do cuidado, apesar das dificuldades.
Além das estratégias subjetivas, evidencia-se a necessidade de construir espaços institucionais de escuta, acolhimento e suporte emocional, especialmente em contextos de alta complexidade como a oncologia. Estudos futuros devem ampliar a amostra e incluir múltiplos centros oncológicos, com diversidade regional e estrutural, bem como adotar abordagens longitudinais para acompanhar a trajetória emocional dos profissionais. Investigações sobre a efetividade de intervenções institucionais — como grupos de apoio, oficinas terapêuticas e programas de educação permanente em oncologia — podem oferecer subsídios robustos para a formulação de políticas de saúde ocupacional na enfermagem.
CONFLITO DE INTERESSES
Os autores declaram não haver conflito de interesses.
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Editores:
Rosimere Ferreira Santana (ORCID: 0000-0002-4593-3715)
Geilsa Soraia Cavalcanti Valente (ORCID: 0000-0003-4488-4912)
Patricia dos Santos Claro Fuly (ORCID: 0000-0002-0644-6447)
Autor correspondente: Isaías Vicente Santos (isaiasvicentesantos1@gmail.com)
Editora:
Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa – UFF
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