ARTIGO ORIGINAL
RELIGIOSIDADE, QUALIDADE DE VIDA E A FELICIDADE SUBJETIVA DE PACIENTES INTERNADOS*
Yohann Rocha de Souza1, David Lopes Neto2, Luiz Francisco Rocha e Silva3, Mayra Fernanda Costa Rocha de Souza4
1 Universidade Federal do Amazonas, Faculdade de Medicina, Programa de Pós-graduação em Ciências da Saúde. Manaus, Amazonas, Brasil. ORCID: 0000-0001-5291-4582. E-mail: enf.yohannrocha@gmail.com
2 Universidade Federal do Amazonas, Faculdade de Medicina, Programa de Pós-graduação em Ciências da Saúde. Manaus, Amazonas, Brasil. ORCID: 0000-0002-0677-0853. E-mail: davidnetto@ufam.edu.br
3 Hospital Adventista Manaus, Núcleo de Ensino e Pesquisa em Saúde. Manaus, Amazonas, Brasil. ORCID: 0000-0002-9181-5787. E-mail: luiz.rocha@ham.org.br
4 Faculdade Adventista do Paraná, Curso de Bacharelado em Enfermagem. Ivatuba, Paraná, Brasil. ORCID: 0000-0002-2161-8761. E-mail: enf.mayrafernanda@gmail.com
RESUMO
Objetivo: Investigar se há correlação entre religiosidade, qualidade de vida (QV) e a felicidade subjetiva (FS) de pacientes internados. Método: Trata-se de uma pesquisa exploratória analítica de abordagem quantitativa, realizada com pacientes de uma unidade de internação clínica de um hospital privado na Região Norte do Brasil. Foram aplicados quatro formulários online: caracterização sociodemográfica, avaliação da QV - WHOQoL-Bref, Escala de religiosidade Duke Durel e Escala de felicidade subjetiva. Os dados foram analisados por meio de correlações e testes não-paramétricos usando o programa IBM SPSS Statistics versão 22. Resultados: Participaram do estudo 132 pacientes, com idade média de 37,24 ± 11,29 anos e hospitalizados por três dias em sua maioria (53%). Os escores da QV geral dos pacientes apresentaram média e mediana respectivamente iguais a 65,69 ± 13,01 e 67,02. A média do score total da FS dos pacientes foi de 19,8 ± 3,8, considerada boa. A Religiosidade Organizacional (RO) apresentou correlação positiva significativa com o domínio Meio Ambiente (17,5%; p=0,045) e com a QV geral (17,6%; p=0,043). O domínio Religiosidade Não Organizacional (RNO) apresentou correlação positiva significativa com as dimensões relações sociais (23,8%; p=0,006) e meio ambiente (21,1%; p=0,015), assim como com a QV geral (23,8%; p=0,006). Já o domínio Religiosidade Intrínseca (RI) apresentou correlação positiva significativa com todos os domínios da QV (p<0,05). No que se refere à FS, observou-se que esta apresentou correlação positiva significativa com os domínios RNO (22,0; p=0,011) e RI (28,3%; p<0,0001), isto significa que ambos os domínios estão associados à FS, e que quanto maior for o índice de religiosidade de ambos os domínios, maior será a magnitude da FS. Conclusão: Observou-se uma correlação significativa entre religiosidade, qualidade de vida e FS em pacientes hospitalizados, ressaltando a importância desses aspectos no enfrentamento do processo saúde-doença e seu impacto no bem-estar emocional e psicológico de indivíduos enfermos. Tais associações servem como um suporte para o cuidado integral.
Descritores: Pacientes Internados; Qualidade de Vida; Espiritualidade; Felicidade Subjetiva.
|
Como citar: Souza YR, Lopes Neto D, Silva LFR, Souza MFCR. Religiosity, quality of life, and subjective happiness in hospitalized patients. Online Braz J Nurs. 2025;24(Suppl 2):e20256893. https://doi.org/10.17665/1676-4285.20256893 |
O que já se sabe:
Estudos insuficientes que abordam a felicidade subjetiva no contexto da hospitalização.
Escassez de estudos amplos sobre o tema, já que a maioria foca apenas em grupos de pacientes com patologias específicas, como nefropatias e câncer.
Produção científica incipiente sobre a correlação das variáveis de qualidade de vida, religiosidade e felicidade subjetiva em pacientes hospitalizados.
O que este artigo acrescenta:
Um cuidado integral que considere aspectos como qualidade de vida, religiosidade e felicidade subjetiva pode contribuir de forma mais ampla para o enfrentamento do processo saúde-doença em comparação a modelos biomédicos tradicionais.
Compreender a correlação entre as variáveis subjetivas da vivência humana é crucial para a promoção do bem-estar emocional e psicológico de indivíduos hospitalizados.
A religiosidade tem impacto positivo sobre a qualidade de vida das pessoas e serve como suporte de enfrentamento diante de situações difíceis como o adoecimento.
Maiores índices de religiosidade influenciam positivamente nos índices de felicidade subjetiva. Quanto mais elevada uma for, a outra também será.
INTRODUÇÃO
O processo saúde-doença envolve múltiplos fatores relacionados à Qualidade de Vida (QV), religiosidade e felicidade. Ao se considerar a internação hospitalar, a experiência humana em saúde pode assumir diferentes rumos. O sistema de saúde se apropria da hospitalização como um importante recurso voltado à recuperação e ao restabelecimento do equilíbrio entre tais dimensões(1-2). Contudo, o tempo de internação, o ambiente, a doença, as dores, os medos, os procedimentos invasivos e a espera por diagnósticos representam fatores que frequentemente despertam sentimentos de incerteza e angústia nos pacientes(3).
Diante desse contexto, o conceito de qualidade de vida propõe uma quebra de paradigmas ao buscar abranger aspectos complexos e subjetivos da existência humana, muitas vezes difíceis de mensurar. Tais elementos contribuem de forma significativa para uma abordagem clínica mais ampla e humanizada, que contempla a saúde de maneira integral: biopsicossocial e cultural, indispensável aos processos de promoção, prevenção e reabilitação da saúde(1).
Pesquisadores da área apontam que investigar a qualidade de vida de pacientes hospitalizados é essencial para o planejamento e execução de um cuidado integral, capaz de favorecer o bem-estar e a satisfação com a vida. Assim, a avaliação da QV pode servir como importante subsídio para decisões clínicas mais assertivas e para o aprimoramento das práticas assistenciais em equipe(4). As evidências científicas reforçam a relevância de incluir dimensões como a religiosidade e espiritualidade na avaliação da saúde, reconhecendo-as como fatores que influenciam diretamente a qualidade de vida e a percepção de bem-estar dos indivíduos(5). Assim, a religiosidade torna-se um meio de que os pacientes se apropriam para enfrentar os estressores da internação hospitalar, que alivia seus sofrimentos e lhes enche a vida de esperança no que se refere à QV.
Do mesmo modo, o estudo da felicidade, aprofundado pela psicologia positiva, amplia a compreensão sobre aspectos subjetivos relacionados ao bem-estar, valores, virtudes, emoções positivas, sentido da vida e realização pessoal. A felicidade também se relaciona à capacidade humana de enfrentar desafios, encontrando na religiosidade e na espiritualidade recursos para a transcendência e a superação das adversidades(6). Os escores de QV relacionam-se com o nível de felicidade, contudo, tal relação é complexa e sofre influências de questões culturais e sociais. A partir do conhecimento desta relação, compreende-se que os motivos que levam as pessoas à felicidade, ultrapassam os aspectos filosóficos e os valores ocidentais, incluindo o próprio conceito de saúde e doença, como um processo de internação hospitalar(7).
Considerando que a espiritualidade e a qualidade de vida têm grande potencial na geração da promoção da felicidade subjetiva e do bem-estar na vida do ser humano levando-o a zonas de lenitivo, bem-estar, melhor saúde física e mental e qualidade de vida, torna-se cada vez mais necessário estudar tais temas na prática de assistência à saúde, uma vez que esses aspectos causam inclusive repercussões clínicas em pacientes que os têm contemplados enquanto são assistidos(8).
Compreender a correlação entre a religiosidade, a qualidade de vida e a felicidade subjetiva gera grande impacto no cotidiano do cuidar do paciente internado, principalmente quando o foco da assistência é um cuidado integral, individualizado e personalizado, pois requer inúmeras ferramentas e estratégias que contemplem todas as dimensões humanas. Assim, este estudo tem por objetivo investigar as possíveis correlações entre essas variáveis, produzindo evidências que possam fortalecer práticas embasadas em fundamentos científicos e humanísticos.
MÉTODO
Tipo de estudo
Trata-se de um estudo exploratório analítico com abordagem quantitativa(9-10) realizado no período de junho a setembro de 2024. O Estudo levou em consideração a caracterização de seus participantes e suas respostas aos instrumentos específicos e validados sobre felicidade, qualidade de vida e religiosidade, visando analisar a possível correlação entre as variáveis obtidas destes instrumentos.
Local da pesquisa
O estudo foi realizado no Hospital Adventista de Manaus (HAM), instituição confessional cristã localizada em Manaus-AM. A instituição de 140 leitos atende a rede privada do sistema nacional de saúde tanto em baixa, média e alta complexidade; e tem uma taxa média de ocupação de 82% com um período médio de internação de 4 dias. A pesquisa foi desenvolvida na unidade de internação de clínica médica com 25 leitos. Dentre as principais afecções tratadas na unidade, tem-se: insuficiência cardíaca, doença pulmonar obstrutiva crônica, infecções do trato respiratório, urinário ou intestinal; insuficiência renal aguda e crônica; acidente vascular encefálico, infecções sexualmente transmissíveis e infarto agudo do miocárdio.
Algumas intervenções relacionadas à religiosidade já são padronizadas institucionalmente na unidade em questão, a saber: visitas beira-leito da capelania hospitalar, cultos com louvores, cânticos nos corredores, estudo da bíblia, distribuição de literatura religiosa e orações.
População de estudo
A população de estudo constituiu-se de pacientes clínicos com período de internação hospitalar de 01 a 04 dias.
Foram incluídos no estudo: pacientes com quadro clínico estável no dia da coleta de dados; idade igual ou acima de 18 anos e inferior a 60 anos (devido às comorbidades que podem existir na fase de idade mais avançadas, além dos condicionantes de saúde decorrentes da senescência e da senilidade); ter condições para responder aos instrumentos de autorrelato, sozinho ou com ajuda de pesquisador treinado; ter tempo de internação hospitalar entre 1 e 4 dias durante a coleta de dados; diagnósticos de doenças agudas ou graves compensadas clinicamente, como: insuficiência cardíaca, doença pulmonar obstrutiva crônica, infecções do trato respiratório, urinário ou intestinal; insuficiência renal.
Foram excluídos: pacientes analfabetos ou incapazes de compreender e responder aos instrumentos sozinhos ou com a ajuda do pesquisador; pacientes acometidos por transtornos de saúde mental; pacientes em cuidados paliativos ou de fim de vida.
O tamanho da amostra foi calculado a partir do total médio anual de pacientes internados na Clínica Médica do Hospital Adventista de Manaus, no ano de 2023 (N=285), e a frequência de felicidade subjetiva com relação à internação hospitalar encontrada por Vosgerau(11), a qual foi de 7,7%. Fixou um nível de 95% de confiança e uma precisão (margem de erro) de 3,5%, sendo o tamanho de amostra estimado igual a 125 pacientes. A extensão da amostragem foi estimada considerando os parâmetros estatísticos da fórmula de cálculo do tamanho da amostra para população finita, descrita por Bussab e Morettin(12).
Realizou-se uma amostragem não aleatória, por conveniência (ou demanda espontânea), considerada não probabilística, que considera uma abordagem informal ao paciente, sendo o mesmo convidado a participar do estudo, após esclarecimentos éticos e acerca dos objetivos da pesquisa.
Coleta de dados
Para a coleta dos dados, foram utilizados quatro instrumentos já validados para uso na população deste estudo, a saber:
I. Questionário com Variáveis Sociodemográficas e Médico-clínicas que continha perguntas acerca do perfil sociodemográfico e clínico do participante da pesquisa, como por exemplo: idade, estado civil, nível de instrução, profissão, número de filhos, motivo e quantidade de dias de internação, sendo este construído pela equipe de pesquisa;
II. Questionário de Avaliação da Qualidade de Vida (QV) WHOQoL-Bref, validado no Brasil por Fleck et al. em 2000. Trata-se de uma versão abreviada do WHOQOL-100, desenvolvido e recomendado pela OMS e abrange aspectos como: saúde física e psicológica, nível de independência, relações sociais e crenças pessoais.
A nível estrutural, o WHOQOL BREF é constituído de 26 perguntas (sendo as perguntas de números 1 e 2 sobre a qualidade de vida global) e as respostas seguem uma escala de Likert (de 1 a 5, quanto maior a pontuação melhor a qualidade de vida). Além das duas primeiras questões (1 e 2), o instrumento apresenta 24 facetas, as quais compõem 4 domínios que são: físico, psicológico, relações sociais e meio ambiente. Neste instrumento, o resultado deve contar apenas a média de pontos correta (1 a 5) por domínio e por faceta, visto que os resultados posteriormente serão convertidos para uma escala de 0 a 100 e em seguida, interpretados, onde uma pontuação mais alta indica uma melhor percepção de qualidade de vida. Pontuações mais baixas refletem uma pior percepção da qualidade de vida em um domínio específico. Logo, não é estabelecido um ponto de corte que determina se um escore está abaixo ou acima do qual se possa avaliar a qualidade de vida como “ruim” ou “boa”. O escore médio em cada domínio indica a percepção do indivíduo quanto à sua satisfação em cada aspecto em sua vida, relacionando-se com sua qualidade de vida. Quanto maior a pontuação, melhor essa percepção(13-14).
III. Índice de Religiosidade da Universidade de Duke (DUREL), validado na versão brasileira por Taunay et al. em 2012(15), é composto por uma escala de cinco itens, que mensura três das principais dimensões do envolvimento religioso que apresentam relações com os desfechos em saúde, sendo elas: item 1 - Religiosidade Organizacional (RO): frequência a encontros religiosos; item 2 - Religiosidade Não Organizacional (RNO): frequência de atividades religiosas privadas e individuais; itens 3 a 5 Religiosidade Intrínseca (RI): refere-se à busca de internalização e vivência plena da religiosidade como principal objetivo do indivíduo. As opções de resposta dos três últimos itens estão em escala do tipo Likert (1 a 5), já as anteriores os scores variam de 1 a 6 avaliando a frequência com que as atividades acontecem, ou seja, do menos frequente ao mais frequente.
Em relação ao cálculo do escore do instrumento, recomenda-se que os três domínios individuais não sejam somados em um escore total, mas que sejam analisados separadamente. Pontuações mais altas em cada item, indicam maior envolvimento em cada um dos domínios, assim, permitem entender como a religiosidade e a espiritualidade se manifestam na vida do indivíduo.
IV. Escala de Felicidade subjetiva, validada no Brasil por Pais-Ribeiro em 2012(16). A escala de resposta é do tipo Likert, e nas duas primeiras questões, varia entre 1 (item 1: “uma pessoa não muito feliz”; item 2: “menos feliz”) e 7 (item 1: “uma pessoa muito feliz”; item 2: “mais feliz”). Nos outros dois itens, é solicitado que os indivíduos indiquem a extensão com que se identificam com a caracterização de felicidade e de infelicidade. A escala de resposta, segue o padrão semelhante às duas primeiras (Likert), variando entre 1 (“de modo nenhum”) e 7 (“em grande parte”) para ambos os itens. É importante salientar que o item 4 da escala é invertido. A pontuação total é obtida através da média das respostas nos quatro itens. Pontuações mais altas correspondem a maiores níveis de felicidade subjetiva em uma variação possível de 4 a 28 pontos.
Os resultados obtidos por meio dos diferentes instrumentos devem ser interpretados de forma integrada, considerando a natureza específica de cada medida. As variáveis sociodemográficas e médico-clínicas permitem caracterizar o perfil da amostra e identificar possíveis fatores de conclusão que possam influenciar os desfechos. O WHOQoL-Bref possibilita avaliar a percepção global de qualidade de vida em seus diferentes domínios (físico, psicológico, social e ambiental), enquanto o Índice de Religiosidade de Duke (DUREL) fornece subsídios para compreender o papel da religiosidade organizacional, não organizacional e intrínseca na vivência do processo saúde-doença. Já o questionário de Felicidade Subjetiva, aplicado em dois momentos distintos, a saber: 1º dia de internamento e 4º dia de internamento, permite observar possíveis variações na autopercepção de felicidade, evidenciando o impacto das condições clínicas e emocionais sobre o bem-estar do paciente.
Todos os questionários foram aplicados no primeiro dia de internação do paciente e o questionário da felicidade subjetiva foi aplicado pela segunda vez no 4º dia de internação, para aqueles que permaneceram internados até esse período, visando analisar se houve diferenças significativas na autopercepção de felicidade com o passar dos dias de internações.
Assim, a análise conjunta desses instrumentos oferece uma visão abrangente e multidimensional do estado de saúde e das experiências subjetivas dos indivíduos hospitalizados. Os instrumentos são compostos por questões (variáveis), cujas respostas são escalares, ou seja, todas as questões são consideradas variáveis quantitativas, sendo seus escores analisados de acordo com as especificações de cálculo de cada um.
Análise estatística
Realizou-se uma análise descritiva e exploratória das variáveis quantitativas, e análise das frequências das variáveis nominais. As associações entre as variáveis foram verificadas por meio dos testes não-paramétricos Mann-Whitney, ANOVA de Kruskal-Wallis e Coeficiente de Correlação de Spearman. A análise estatística dos dados foi realizada por meio do programa estatístico IBM SPSS Statistics versão 22.
Aspectos éticos
O protocolo da pesquisa foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa, seguidas as exigências e os preceitos estabelecidos na Resolução nº 466, de 12 de dezembro de 2012(17), sendo aprovado por meio do Parecer Consubstanciado nº 78976024.9.0000.5020.
RESULTADOS
O estudo obteve a participação de 132 pacientes, internados no período de junho a setembro de 2024, cujas características predominantes foram: o sexo feminino (75 – 56,8%); a faixa etária de 19 a 30 anos (47 – 35,6%), sendo a idade média igual a 37,24 ± 11,29 anos; estado civil casado (69 – 52,3%); com filiação entre 1 e 2 filhos (64 – 48,5%) com grau de instrução médio completo (53 – 40,2%) e com vínculo empregatício (80 – 60,6%). A maioria da população do estudo seguia a religião católica (50 – 37,9%) ou se denominavam evangélicos (46 – 34,8%). A ausência de afiliação religiosa foi relatada por 10 (7,6%) participantes; além disso, 98 (74,2%) da amostra estudada considerava-se praticantes da religião, enquanto 34 (25,8%) referiram o contrário. O motivo da internação em 104 (78,8%) participantes se deu para tratamento clínico e em sua maioria 70 (53%) ficaram hospitalizados por três dias (Tabela 1).
Tabela 1 - Caracterização sociodemográfica dos participantes. Manaus, AM, Brasil, 2024 (n=132)
|
CARACTERÍSTICA |
n (132) |
% |
|
Sexo |
|
|
|
Feminino |
75 |
56,8 |
|
Masculino |
57 |
43,2 |
|
Faixa etária |
|
|
|
Idade média 37,24 ± 11,29 anos |
|
|
|
19 a 30 |
47 |
35,6 |
|
31 a 40 |
29 |
22,0 |
|
41 a 50 |
38 |
28,8 |
|
51 e mais |
18 |
13,6 |
|
Estado civil |
|
|
|
Solteiro(a) |
50 |
37,9 |
|
Casado(a) |
69 |
52,3 |
|
União estável |
13 |
9,8 |
|
Nº de filhos |
|
|
|
Nenhum |
46 |
34,8 |
|
1 a 2 |
64 |
48,5 |
|
3 a 4 |
15 |
11,4 |
|
5 ou mais |
7 |
5,3 |
|
Religião |
|
|
|
Católico(a) |
50 |
37,9 |
|
Evangélico(a) |
46 |
34,8 |
|
Cristão sem denominação |
19 |
14,4 |
|
Outras |
7 |
5,3 |
|
Não possui |
10 |
7,6 |
|
Praticante de religião |
|
|
|
Sim |
98 |
74,2 |
|
Não |
34 |
25,8 |
|
Grau de instrução |
|
|
|
Ensino Fundamental |
6 |
4,5 |
|
Ensino Médio |
53 |
40,2 |
|
Ensino Superior |
37 |
28,0 |
|
Pós-Graduação |
36 |
27,3 |
|
Vínculo empregatício |
|
|
|
Sim |
80 |
60,6 |
|
Não |
52 |
39,4 |
|
Motivo da internação |
|
|
|
Tratamento clínico |
104 |
78,8 |
|
Tratamento cirúrgico |
10 |
7,6 |
|
Realizar exames clínicos |
18 |
13,6 |
|
Dias internados |
|
|
|
2 |
18 |
13,6 |
|
3 |
70 |
53,0 |
|
4 |
44 |
33,3 |
Fonte: elaborada pelos autores, 2024.
A tabela 2 apresenta a análise estatística descritiva dos escores e o coeficiente de confiabilidade dos domínios da QV dos pacientes internados, analisados neste estudo. O domínio das relações sociais foi o que apresentou escore médio mais alto (70,33 ± 18,60) e o físico foi o que apresentou o pior escore médio (59,79 ± 1,89). Os escores da QV geral dos pacientes variou entre 28,76 (muito baixa) a 92,0 (alta), sendo os escores médio e mediano respectivamente iguais a 65,69 ± 13,01 e 67,02 (Tabela 2). A QV geral dos pacientes apresentou alta consistência interna (Alpha = 0,805).
Tabela 2 - Escores dos domínios da Qualidade de Vida dos pacientes internados, por meio do instrumento WHOQOL-BREF e Coeficiente de confiabilidade Alpha de Cronbach. Manaus, AM, Brasil, 2024 (n=132)
|
DOMÍNIOS |
MEDIDAS DESCRITIVAS (n = 132) |
ALPHA |
||||
|
Média |
Desvio Padrão |
Mínimo |
Mediana |
Máximo |
||
|
Físico |
59,79 |
16,89 |
7,14 |
60,71 |
89,29 |
0,262 |
|
Psicológico |
66,16 |
15,87 |
20,83 |
66,67 |
95,83 |
0,475 |
|
Relações sociais |
70,33 |
18,60 |
8,33 |
75,00 |
100,00 |
0,726 |
|
Meio ambiente |
66,48 |
13,48 |
25,00 |
65,63 |
96,88 |
0,776 |
|
Qualidade de Vida Geral |
65,69 |
13,01 |
28,76 |
67,82 |
92,00 |
0,805 |
Fonte: elaborada pelos autores, 2024.
A Tabela 3 apresenta as frequências por domínios e questões das respostas dos pacientes internados à Escala de Religiosidade da Universidade de Duke. O primeiro domínio diz respeito à Religiosidade Organizacional (RO), que se refere à questão 1. Quando questionados sobre a frequência com que vão a uma igreja, as respostas mais frequentes foram “algumas vezes” (36 – 27,3%) e “mais de uma vez por semana” (32 – 24,2%), que juntas representam 51,5% da amostra.
Em relação ao domínio Religiosidade Não Organizacional (RNO), ainda na tabela 3, representada pela questão 2 da escala, observou-se que, no que tange à frequência que o paciente dedica seu tempo a atividades religiosas ou encontros religiosos, as respostas mais frequentes foram “poucas vezes por mês” (21 – 15,9%), “diariamente” (45 – 34,1%) e “mais de uma vez ao dia” (21 – 15,9%).
Quanto ao domínio Religiosidade Intrínseca (RI) da tabela 3, representado pelas três questões seguintes da escala supracitada, observou-se que para a questão “Em minha vida, eu sinto a presença de Deus (ou do Espírito Santo)” a resposta mais frequente foi “totalmente verdade para mim” (92 – 69,7%). Já para a questão “As minhas crenças religiosas estão realmente por trás de toda a minha maneira de viver.”, a maioria respondeu “totalmente verdade para mim” (63 – 47,7%). E no que se refere à questão “Eu me esforço muito para viver a minha religião em todos os aspectos da vida”, a resposta mais frequente foi “totalmente verdade para mim” (50 – 37,9%).
Para o domínio RO, observou-se que a maior frequência dos pacientes vai “algumas vezes por ano” a uma igreja, templo ou outro encontro religioso (27,3%). A RNO apresentou maior frequência (34,1%) da resposta “diariamente” à questão “com que frequência você dedica o seu tempo a atividades religiosas individuais, como preces, rezas, meditações, leitura da bíblia ou de outros textos religiosos?”.
Tabela 3 - Frequência por domínio das respostas às questões que compõem o Índice de Religiosidade da Universidade de Duke, dos pacientes. Manaus, AM, Brasil, 2024 (n=132)
|
DOMÍNIO / QUESTÃO |
RESPOSTA |
n (132) |
% |
|
|
Religiosidade Organizacional (RO) |
|
|
|
|
|
1 |
Com que frequência você vai a uma igreja, templo ou outro encontro religioso? |
1. Nunca |
11 |
8,3 |
|
2. Uma vez por ano ou menos |
11 |
8,3 |
||
|
3. Algumas vezes por ano |
36 |
27,3 |
||
|
4. Duas a três vezes por mês |
14 |
10,6 |
||
|
5. Uma vez por semana |
28 |
21,2 |
||
|
6. Mais de uma vez por semana |
32 |
24,2 |
||
|
Religiosidade Não Organizacional (RNO) |
|
|
|
|
|
2 |
Com que frequência você dedica o seu tempo a atividades religiosas individuais, como preces, rezas, meditações, leitura da bíblia ou de outros textos religiosos? |
1. Raramente ou nunca |
17 |
12,9 |
|
2. Poucas vezes por mês |
21 |
15,9 |
||
|
3. Uma vez por semana |
13 |
9,8 |
||
|
4. Duas ou mais vezes por semana |
15 |
11,4 |
||
|
5. Diariamente |
45 |
34,1 |
||
|
6. Mais de uma vez ao dia |
21 |
15,9 |
||
|
Religiosidade Intrínseca (RI) |
|
|
|
|
|
3 |
Em minha vida, eu sinto a presença de Deus (ou do Espírito Santo). |
1. Não é verdade |
5 |
3,8 |
|
2. Em geral não é verdade |
0 |
0,0 |
||
|
3. Não estou certo |
4 |
3,0 |
||
|
4. Em geral é verdade |
31 |
23,5 |
||
|
5. Totalmente verdade para mim |
92 |
69,7 |
||
|
4 |
As minhas crenças religiosas estão realmente por trás de toda a minha maneira de viver. |
1. Não é verdade |
7 |
5,3 |
|
2. Em geral não é verdade |
3 |
2,3 |
||
|
3. Não estou certo |
13 |
9,8 |
||
|
4. Em geral é verdade |
46 |
34,8 |
||
|
5. Totalmente verdade para mim |
63 |
47,7 |
||
|
5 |
Eu me esforço muito para viver a minha religião em todos os aspectos da vida. |
1. Não é verdade |
13 |
9,8 |
|
2. Em geral não é verdade |
11 |
8,3 |
||
|
3. Não estou certo |
15 |
11,4 |
||
|
4. Em geral é verdade |
43 |
32,6 |
||
|
5. Totalmente verdade para mim |
50 |
37,9 |
||
Fonte: elaborada pelos autores, 2024.
A Tabela 4 apresenta a análise descritiva das pontuações acerca da FS obtida pelos pacientes internados. Neste contexto, observou-se que a pontuação média mais alta ocorreu à questão 1 (em geral considero-me), sendo a mesma de 5,6 ± 1,3 pontos, determinando-se que os pacientes analisados possuem FS um pouco acima de 20,0 pontos. Seu coeficiente de variação foi de 18,9% (média). De um modo geral, a pontuação geral da FS variou entre 9,0 e 28,0 pontos, sendo seus valores médio e mediano respectivamente iguais a 19,8 ± 3,8 (baixo), o que indica que as pontuações dos pacientes foram similares. Os resultados da Tabela 4 demonstram ainda que os pacientes analisados possuem nível alto de FS.
Considerando ainda a Tabela 4, verificou-se a pontuação da FS no primeiro e no último dia de internação. Foram incluídos 44 pacientes que receberam alta no 4º dia de internação, para responderem novamente o Questionário de FS. A pontuação dos mesmos variou entre 24,0 e 32,0 pontos, sendo as pontuações média e mediana respectivamente iguais a 24,8 ± 3,4 e 26,0 pontos. O coeficiente de variação foi de 14,0% (baixo), o que indica que as pontuações dos pacientes foram similares. Ao comparar as pontuações médias da FS do primeiro dia da internação com a FS do quarto dia de internação, observou-se que houve diferença significativa entre as mesmas (p<0.0001), sendo a pontuação média da FS no quarto dia de internação significativamente maior do que a pontuação média da FS no primeiro dia de internação (p<0,0001).
A análise dos scores inicial e final da FS, nos permite inferir que apesar de mais tempo hospitalizados, os pacientes apresentaram maior percepção de felicidade no 4º dia de internação do que no primeiro. Possivelmente este resultado esteja relacionado ao suprimento/atendimento das necessidades desses pacientes como: descanso, controle de sintomas, alívio da dor, avaliação médica, realização de procedimentos e resolução de seus problemas de saúde, além das intervenções realizadas pela capelania hospitalar na unidade.
Tabela 4 - Análise descritiva das respostas às questões que compõem a Escala de Felicidade Subjetiva, dos pacientes internados. Manaus, AM, Brasil, 2024 (n=132)
|
QUESTÃO |
n |
Média* |
DP |
CV |
Mínimo |
Mediana |
Máximo |
||
|
1 |
Em geral, considero-me: |
132 |
5,6 |
1,3 |
23,7 |
1,0 |
6,0 |
7,0 |
|
|
2 |
Comparativamente com as outras pessoas como eu, considero-me: |
132 |
5,5 |
1,5 |
27,6 |
1,0 |
6,0 |
7,0 |
|
|
3 |
Algumas pessoas são geralmente muito felizes. Elas gozam a vida apesar do que se passa à volta delas, conseguindo o melhor do que está disponível. Em que medida esta caracterização o/a descreve a si? |
132 |
5,2 |
1,6 |
29,6 |
1,0 |
5,0 |
7,0 |
|
|
4 |
Algumas pessoas geralmente não são muito felizes. Embora não estejam deprimidas, elas nunca parecem tão felizes quanto poderiam ser. Em que medida esta caracterização o/a descreve a si? |
132 |
3,5 |
1,9 |
54,6 |
1,0 |
4,0 |
7,0 |
|
|
- |
Pontuação total FS (inicial)* |
132 |
19,8 |
3,8 |
18,9 |
9,0 |
20,0 |
28,0 |
|
|
- |
Pontuação total FS (final)** |
44 |
23,8 |
3,4 |
14,0 |
24,0 |
26,0 |
32,0 |
|
|
Alpha de Cronbach: 0,377 |
p significativo em p< 0,05 (5%) |
Teste de Mann-Whitney |
|||||||
*- Pontuação da escala de avaliação da felicidade subjetiva no primeiro dia de internação hospitalar.
**- Pontuação da escala de avaliação da felicidade subjetiva no 4º dia de internação hospitalar.
Fonte: elaborada pelos autores, 2024.
O escore global de FS é obtido através da média das respostas nos quatro itens. Pontuações mais altas correspondem a maiores níveis de felicidade subjetiva em uma variação possível de 4 a 28 pontos. Na tabela, no lugar de pontuação se coloca escore global ou total.
A Tabela 5 descreve a correlação entre religiosidade, qualidade de vida e a felicidade subjetiva dos pacientes internados. No contexto da QV, os resultados evidenciaram que o domínio RO apresentou correlação positiva significativa com o domínio Meio Ambiente (17,5%; p=0,045) e com a QV geral (17,6%; p=0,043). Quanto ao domínio RNO, o mesmo apresentou correlação positiva significativa com as dimensões relações sociais (23,8%; p=0,006) e meio ambiente (21,1%; p=0,015), assim como com a QV geral (23,8%; p=0,006). E para o domínio RI, observou-se que este apresentou correlação positiva significativa com todos os domínios da QV (p<0,05).
No que se refere à FS, observou-se que esta apresentou correlação positiva significativa com os domínios RNO (22,0; p=0,011) e RI (28,3%; p<0,0001), isto significa que ambos os domínios estão associados à FS, e que quanto maior for o índice de religiosidade de ambos os domínios, maior será a magnitude da FS (Tabela 5).
Tabela 5 - Correlação entre religiosidade, qualidade de vida e a felicidade subjetiva de pacientes internados. Manaus, AM, Brasil, 2024 (n=132)
|
DIMENSÃO / INSTRUMENTO |
DIMENSÃO DO ÍNDICE DE DUKE |
|||
|
RO |
RNO |
RI |
||
|
QV - Físico |
Correlação |
11,4% |
13,4% |
20,6% |
|
p |
0,195 |
0,124 |
0,018* |
|
|
QV - Psicológico |
Correlação |
12,4% |
16,4% |
35,2% |
|
p |
0,156 |
0,060 |
p<0,0001* |
|
|
QV - Relações Sociais |
Correlação |
16,2% |
23,8% |
31,1% |
|
p |
0,063 |
0,006* |
p<0,0001* |
|
|
QV - Meio Ambiente |
Correlação |
17,5% |
21,1% |
27,2% |
|
p |
0,045* |
0,015* |
0,002* |
|
|
QV - Geral |
Correlação |
17,6% |
23,8% |
36,1% |
|
p |
0,043* |
0,006* |
p<0,0001* |
|
|
FS |
Correlação |
12,1% |
22,0% |
28,3% |
|
p |
0,167 |
0,011* |
p<0,0001* |
|
|
|
|
|
*Significativo em p <0,05 (5%) Correlação de Spearman |
|
Fonte: elaborada pelos autores, 2024.
DISCUSSÃO
O presente estudo revelou uma correlação entre religiosidade, níveis mais elevados de felicidade e melhor qualidade de vida entre pacientes internados. Trata-se do primeiro estudo a investigar simultaneamente felicidade subjetiva, qualidade de vida e religiosidade nesse público. Para fins comparativos em amostras semelhantes, como pacientes hospitalizados ou portadores de doenças crônicas.
A maioria dos participantes era do sexo feminino (56,8%), dado semelhante ao encontrado em outros estudos com pacientes internados em clínica médica, que apontaram frequências entre 52% e 54%(18-19). Essa predominância pode estar relacionada a fatores socioculturais, uma vez que as mulheres tendem a buscar mais os serviços de saúde, historicamente associados ao cuidado e à fragilidade. Quanto à idade, observou-se média inferior à relatada em outras investigações, nas quais predominavam pacientes idosos(18).
Em relação ao estado civil, 62,1% dos participantes eram casados ou viviam em união estável, percentual superior ao observado em pesquisas semelhantes(1,18). O suporte familiar mostrou-se relevante, visto que 65,2% dos pacientes possuíam filhos, embora essa variável raramente seja descrita em estudos sobre internação.
A religião católica foi a mais frequente (37,9%), resultado inferior ao de outro estudo com hospitalizados, que registrou 72%(1). A religiosidade tem sido apontada como fator de proteção emocional e espiritual, associada a menores níveis de depressão, menos dor e melhor qualidade de vida(19).Os resultados referentes à qualidade de vida corroboraram achados prévios, nos quais o domínio físico foi o mais comprometido e o domínio das relações sociais apresentou melhores escores(1,20-21). A limitação física pode estar relacionada à dor, fadiga e redução da mobilidade, condições que interferem no sono e no autocuidado durante a hospitalização. Em contrapartida, o apoio social parece exercer papel protetor, favorecendo o enfrentamento e a satisfação com a vida.
A qualidade de vida, enquanto construto subjetivo e multidimensional, reflete a percepção do indivíduo sobre sua própria existência, considerando aspectos sociais, culturais e espirituais(22-23). Neste estudo, os domínios “relações sociais” e “meio ambiente” apresentaram melhor avaliação, sugerindo que o contexto hospitalar e o suporte interpessoal são determinantes positivos para a percepção de bem-estar.
Quanto à religiosidade, a maioria relatou participar de atividades religiosas organizacionais apenas algumas vezes por ano (27,3%), comportamento semelhante ao observado em pacientes no pré-operatório(24). Por outro lado, a prática individual, como orações e leituras religiosas, foi mais frequente, com destaque para a resposta “diariamente”. Isso indica que, embora a participação comunitária seja limitada, a dimensão pessoal da fé permanece ativa(25-26). No domínio da religiosidade intrínseca, os pacientes demonstraram alto envolvimento, relatando viver sua religião em todas as dimensões da vida.
Esses achados reforçam a literatura que aponta a espiritualidade e o envolvimento religioso como importantes recursos de enfrentamento diante do adoecimento, associados à maior resiliência e menor estresse(27). As necessidades espirituais e religiosas contribuem para o bem-estar psicológico e devem ser reconhecidas como componentes relevantes do cuidado em saúde(28-31).
A felicidade subjetiva também se mostrou associada à religiosidade e à qualidade de vida. Estudos indicam que níveis elevados de otimismo e felicidade estão relacionados a melhor saúde física e mental, maior esperança de vida e melhor adaptação psicológica(31-32). Assim, a promoção da espiritualidade e qualidade de vida pode favorecer estados emocionais positivos e maior satisfação pessoal durante a hospitalização.
Considerando ainda a discussão dos escores médios dos domínios da QV dos pacientes internados, em estudo realizado em pacientes internados em três unidades hospitalares de uma cidade de Portugal, observou-se de um modo geral que o melhor e pior domínio da QV dos pacientes, incluindo-se as três unidades de saúde, foram as relações sociais e o domínio meio ambiente, confirmando assim os resultados de nosso estudo(23).
Corroborando os dados acima, um estudo longitudinal que investigou a qualidade de vida de pacientes internados no período entre 2011 e 2021, infere em seus estudos que a espiritualidade e o envolvimento religioso com grupos institucionalizados servem como fonte de interpretação e enfrentamento diante dos condicionantes e acontecimentos da vida, além de potencializarem às pessoas que vivenciam situações críticas a redução do senso de perda de controle e falta de amparo, visto que estes sentimentos se associam a maior resiliência e resistência ao estresse relacionado às enfermidades(27).
As necessidades espirituais e religiosas representam influências significativas na promoção da felicidade e do bem-estar individual, além de desempenharem um papel crucial no cuidado de saúde, principalmente em relação às respostas psicológicas ao sofrimento. Há décadas, tem-se estudado a influência da religiosidade/espiritualidade (R/E) sobre as condições de saúde da sociedade, e estudos científicos têm demonstrado que a incorporação da religiosidade/espiritualidade (R/E) nos cuidados de saúde, pode prevenir doenças ou recuperar o indivíduo de suas enfermidades(28-31).
Acerca da felicidade, abordada no presente estudo, uma metanálise que investiogu se intervenções psicológicas poderiam aumentar o otimismo, estando aqui, atrelado à felicidade, associou esta ao risco do desenvolvimento de doenças e os comportamentos de saúde e concluiu que um maior nível de otimismo, está relacionado com um maior nível de saúde física e mental(32-33).
Diante do exposto, infere-se a relevância do desenvolvimento de mais estudos abrangentes sobre este tema e com a utilização do instrumento em questão em público heterogêneos, permitindo contemplar as diversas populações às quais ele pode ser aplicado, como por exemplo, em paciente hospitalizados. Caso contrário, os resultados podem ficar restritos e limitados em sua aplicabilidade.
O presente estudo apresenta limitações. Diante da novidade de nossos achados, é relevante que outros pesquisadores da temática abordada tentem replicá-los em estudos longitudinais. É necessário ter cuidado na generalização desses resultados para outros contextos, pois o estudo em questão foi realizado no Brasil, onde a população é altamente religiosa e em uma instituição de saúde particular. Vale ressaltar a dificuldade em encontrar referências de estudos atuais com perfil de pacientes semelhantes para a discussão dos resultados do presente estudo, bem como de referências atualizadas sobre a felicidade subjetiva.
Os pontos fortes e positivos do presente estudo devem-se à sua originalidade, à amostra significativa, ao uso de instrumentos bem estabelecidos e validados, além de suas amplas repercussões clínicas, as quais servem de suporte para o cuidado integral e fomentam evidências científicas para um cuidado centrado na pessoa. Cada vez mais, faz-se necessário que esta perspectiva de atenção ao paciente seja ampliada para os serviços de saúde públicos e privados como objetivo de transformar modelos assistenciais restritos e limitados à demandas físicas do ser humano.
A partir do presente estudo, a comunidade acadêmico-científica terá a possiblidade de conhecer e compreender de forma mais ampliada a correlação entre a qualidade de vida, a religiosidade e felicidade subjetiva de pacientes internados; e tal conhecimento possibilitará maior humanização nos atendimentos em saúde e um olhar mais crítico à condição pessoa enferma que necessita de hospitalização.
CONCLUSÃO
O presente estudo alcançou seu objetivo ao investigar a correlação entre religiosidade, qualidade de vida e felicidade subjetiva em pacientes hospitalizados. Os resultados indicaram correlação positiva e significativa entre e FS e o Índice de Religiosidade de Duke, especialmente nos domínios de Religiosidade Não Organizacional e Religiosidade Intrínseca. Isso sugere que níveis mais elevados de religiosidade pessoal e de envolvimento espiritual estão associados a maiores percepções de felicidade. Além disso, a FS apresentou associação positiva com diferentes domínios da QV, reforçando a independência entre bem-estar subjetivo, espiritualidade e percepção de qualidade de vida durante a hospitalização.
Esses achados evidenciam que a religiosidade e a felicidade subjetiva podem atuar como fatores relevantes para a promoção da QV de pacientes internados, contribuindo para abordagens de cuidado mais integrais e humanizadas. Recomenda-se que pesquisas futuras, preferencialmente longitudinais, aprofundem a análise dessas relações, a fim de compreender a evolução da felicidade ao longo da internação e subsidiar intervenções psicossociais e políticas públicas voltadas à melhoria da experiência e do bem-estar do paciente hospitalizado.
*Artigo extraído da Dissertação de Mestrado intitulada “Associação entre religiosidade, qualidade de vida e a felicidade subjetiva de pacientes internados”, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciência da Saúde da Universidade Federal do Amazonas, Manaus, AM, Brasil, no ano de 2025.
AGRADECIMENTOS
À Deus, pelo dom da vida, pela capacidade de aprender, desenvolver este trabalho e poder testemunhar de Seu amor e Suas obras; aos docentes Dr.ª Roberta Lins Gonçalves, Dr.ª Narjara Boechat, Dra. Gina Andrade Abdala e Dr. Mateus Rossato pela colaboração e apontamentos que aprimoraram a qualidade deste trabalho; à administração do Hospital Adventista de Manaus pela contribuição e acolhida enriquecedora durante a realização deste estudo, bem como a todos os colaboradores assistenciais envolvidos nas atividades de pesquisa; às Enfermeiras Dalila e Anatércia pelo indispensável auxílio durante a coleta de dados e pela confiança no trabalho de excelência que realizaram; aos prezados participantes deste estudo, que mesmo em seus leitos de enfermidade, deram-nos um voto de confiança e contribuíram para o avanço do conhecimento que transforma; aos docentes e mestrandos do Programa de Pós-graduação em Ciências da Saúde da Universidade Federal do Amazonas, pelas oportunidades e parcerias enriquecedoras.
CONFLITO DE INTERESSES
Os autores declaram não haver conflito de interesses.
REFERÊNCIAS
1. Martins LK, Carvalho AR da S, Oliveira JLC de, Santos RP dos, Lordani TVA. Quality of life and perception of health status among hospitalized individuals. Esc. Anna Nery (Online). 2020;24(4):e20200065. https://doi.org/10.1590/2177-9465-EAN-2020-0065
2. Franco VS, Passos CM. Religião e Espiritualidade e suas relações no doente crônico. Rev. NUFEN. 2023;15(03):33-41. https://doi.org/10.26823/rnufen.v15i03.25064
3. Silva PN da, Ferreira LA. Perception of patients about hospitalization in different clinics: an integrative review. Rev. Fam., Ciclos Vida Saúde Contexto Soc. 2021;9(Supl.1):312-322. https://doi.org/10.18554/refacs.v9i0.4315
4. Melita AB, Concha PJ, Moreno-Mansivais MG. Perception of hospitalized patients in medical surgical units on humanized nursing care. Enfermería (Montevideo. En línea). 2021;10(1):89-105. https://doi.org/10.22235/ech.v10i1.2481
5. Aderne UFPR, Sanches G de JC, Goya S, Yarid SD. Evidências científicas sobre a influência da espiritualidade na manutenção da saúde, enfrentamento do adoecimento e recuperação. In: Yarid SD, Anjos MMS, organizadores. Espiritualidade e bioética. Maringá (PR): Uniedusul; 2022. p. 37-47. https://doi.org/10.51324/54180139.5
6. Omais S. Felicidade e bem-estar: uma reflexão sobre os percursos e trajetórias da psicologia positiva e os entrecruzamentos com a religiosidade e a espiritualidade. In: Klauss J, Almeida FA de, organizadores. Diálogos sobre Interseccionalidade e Saúde Mental. Guarujá (SP): Editora Científica Digital; 2024. p. 128-136. https://doi.org/10.37885/240717031
7. Linley A. The How of Happiness: A Scientific Approach To Getting The Life You Want. Coaching: An International Journal of Theory, Research and Practice. 2008;1(1):99-101. https://doi.org/10.1080/17521880701878182
8. Lima Junior J de RM, Mendes C de JL, Santos KCB dos, Medeiros THR e S, Santos DLN dos, Gouveia AJG, et al. Percepção da espiritualidade e religiosidade de pacientes hospitalizados em Unidade de Terapia Intensiva. Contrib. cienc. soc. 2024;17(9):e10779. https://doi.org/10.55905/revconv.17n.9-261
9. Gil AC. Métodos e técnicas de pesquisa social. 7. ed. São Paulo: GEN Atlas; 2019.
10. Siqueira J, Fernandes NM, Moreira-Almeida A. Association between religiosity and happiness in patients with chronic kidney disease on hemodialysis. J Bras Nefrol. 2019;41(1):22-28. https://doi.org/10.1590/2175-8239-JBN-2018-0096
11. Vosgerau MZ da S. Indicadores de bem-estar emocional e doenças crônicas: associação da autopercepção da felicidade, amor e bom humor à condição de saúde de adultos e idosos de Matinhos, Paraná [tese]. Londrina (PR): Universidade Estadual de Londrina; 2012.
12. Bussab WO, Morettin PA. Estatística Básica. 9. ed. São Paulo: Saraiva Uni; 2017.
13. Fleck MPA, Louzada S, Xavier M, Chachamovich E, Vieira G, Santos L, et al. Aplicação da versão em português do instrumento abreviado de avaliação da qualidade de vida “WHOQOL-bref”. Rev Saude Publica. 2000;34(2):178-183. https://doi.org/10.1590/S0034-89102000000200012
14. Pedroso B, Pilatti LA, Gutierrez GL, Picinin CT. Cálculo dos escores e estatística descritiva do WHOQOL-bref através do Microsoft Excel. Rev. bras. qual. vida. 2010;2(1):31-36. https://doi.org/10.3895/S2175-08582010000100004
15. Taunay TCD, Gondim F de AA, Macêdo DS, Moreira-Almeida A, Gurgel L de A, Andrade LMS, et al. Validação da versão brasileira da escala de religiosidade de Duke (DUREL). Rev Psiquiatr Clín. 2012;39(4):130-135. https://doi.org/10.1590/S0101-60832012000400003
16. Ribeiro JLP. Validação transcultural da Escala de Felicidade Subjectiva de Lyubomirsky e Lepper. Psicologia, Saúde & Doenças. 2012;13(2):157-168. https://hdl.handle.net/10216/70630
17. Brasil. Ministério da Saúde. Resolução nº 466, de 12 de dezembro de 2012. Aprova as seguintes diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos. Diário Oficial da União. 2013; Jun. 13.
18. Maniva SJC de F, Silva KO da, Morais HCC, Campos RKGG. Bacterial infections of the skin and soft tissues in patients hospitalized in the medical clinic unit. Rev. Enferm. Contemp. 2024;13:e5771. https://doi.org/10.17267/2317-3378rec.2024.e5771
19. Levorato CD, Mello LM de, Silva AS da, Nunes AA. Fatores associados à procura por serviços de saúde numa perspectiva relacional de gênero. Cien Saude Colet. 2014;19(4):1263-1274. https://doi.org/10.1590/1413-81232014194.01242013
20. Lima Júnior IA, Lisboa A das V, Ferreira MGG, Paula Júnior AM de, Gomes CJ, Souza JA de, et al. Câncer de pele: uma revisão de literatura. Braz. J. Implantol. Health Sci. 2024;6(4):2493-2501. https://doi.org/10.36557/2674-8169.2024v6n4p2493-2501
21. Santos EMB dos, Costa KN de FM, Fernandes M das GM, Viana LR de C, Silva CRR da, Frazão MCLO, et al. Spirituality and health-related quality of life in patients with lung cancer. Rev Bras Enferm. 2025;78(3):e20240457. https://doi.org/10.1590/0034-7167-2024-0457
22. Silva JAC da, Souza LEA de, Ganassoli C. Qualidade de vida na terceira idade: prevalência de fatores intervenientes. Rev. Soc. Bras. Clín. Méd. (Impr.) [Internet]. 2017 [citado 2025 Jul 10];15(3):146-149. Disponível em: https://www.sbcm.org.br/ojs3/index.php/rsbcm/article/view/283
23. Duarte A, Joaquim N, Nunes C. Dimensões da Qualidade de Vida e Apoio Social dos Pacientes Hospitalizados nas Unidades de Assistência à Saúde do Algarve. Psic., Teor. Pesq. (Online). 2016;32(2):e322219. https://doi.org/10.1590/0102-3772e322219
24. Freire MEM, Costa SFG da, Lima RAG de, Sawada NO. Health-related quality of life of patients with cancer in palliative care. Texto contexto enferm. (Online). 2018;27(2):e5420016. https://doi.org/10.1590/0104-070720180005420016
25. Bastos NL de MV, Santos M da CQ dos, Yarid SD. Fatores associados à religiosidade/espiritualidade em pacientes no pré-operatório. Rev. Pró-UniverSUS. 2022;13(Especial):24-28. https://doi.org/10.21727/rpu.v13iEspecial.3435
26. Santiago MB, Nascimento TO, Amaral FC, Campos SB, Conceição M da S, Souza CW da S, et al. Religiosidade de indivíduos hospitalizados com síndrome coronariana aguda em um hospital de urgência e emergência do Acre. Res Soc Dev. 2023;12(4):e0912440942. https://doi.org/10.33448/rsd-v12i4.40942
27. Torres MA, Silva VA da. Qualidade de vida de pacientes internados no período entre 2011 e 2021: Revisão de literatura. Rev. Saúde Din. 2021;3(3):25-43. https://doi.org/10.4322/2675-133X.2022.041
28. Alexandre CM de A, Júnior HMPL, Mendonça FC. Espiritualidade e qualidade de vida: uma revisão dos efeitos positivos na saúde mental. Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação. 2024;10(11):4805-4816. https://doi.org/10.51891/rease.v10i11.16798
29. Aydogdu ALF. Importância da espiritualidade na assistência à saúde. Rev. angolana ciênc. saúde (Online). 2022;3(2):10-16. https://doi.org/10.54283/RACSaude.v3i2.2023.p10-16
30. Koenig HG. Maintaining Health and Well-Being by Putting Faith into Action During the COVID-19 Pandemic. J Relig Health. 2020;59(5):2205-2214. https://doi.org/10.1007/s10943-020-01035-2
31. Kent BV, Stroope S, Kanaya AM, Zhang Y, Kandula NR, Shields AE. Private religion/spirituality, self-rated health, and mental health among US South Asians. Qual Life Res. 2020;29(2):495-504. https://doi.org/10.1007/s11136-019-02321-7
32. Malouff JM, Schutte NS. Can psychological interventions increase optimism? A meta-analysis. J Posit Psychol. 2017;12(6):594-604. https://doi.org/10.1080/17439760.2016.1221122
33. Portella MR, Scortegagna H de M, Pichler NA, Graeff DB. Felicidade e satisfação com a vida: voz de mulheres adultas e idosas. Revista Brasileira de Ciências do Envelhecimento Humano. 2017;14(1):93-101. https://doi.org/10.5335/rbceh.v14i1.5960
Submissão: 31-Jul-2025
Editores:
Rosimere Ferreira Santana (ORCID: 0000-0002-4593-3715)
Geilsa Soraia Cavalcanti Valente (ORCID: 0000-0003-4488-4912)
Ramon Oliveira (ORCID: 0000-0001-9668-7051)
Autor correspondente: Yohann Rocha de Souza (enf.yohannrocha@gmail.com)
Editora:
Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa – UFF
Rua Dr. Celestino, 74 – Centro, CEP: 24020-091 – Niterói, RJ, Brasil
E-mail da revista: objn.cme@id.uff.br
