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ARTIGO ORIGINAL

 

TENDÊNCIA EMPREENDEDORA DE ENFERMEIROS NA ASSISTÊNCIA A PESSOAS COM FERIDAS: ESTUDO TRANSVERSAL*

 

Ana Luiza Sardenberg Louzada1, Alcione Matos de Abreu2, Fernanda Soares Pessanha3

 

1 Escola de Enfermagem Alfredo Pinto (EEAP), da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Rio de Janeiro, RJ, Brasil. ORCID: 0009-0004-2624-3075. E-mail: analuiza.sardenberg@hotmail.com

2 Departamento de Enfermagem Médico-Cirúrgica, da Escola de Enfermagem Alfredo Pinto (EEAP), da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Rio de Janeiro, RJ, Brasil. ORCID: 0000-0001-6078-7149. E-mail: alcione.abreu@unirio.br

3 Departamento de Fundamentos de Enfermagem e Administração (MFE), da Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa (EEAAC), da Universidade Federal Fluminense (UFF). Niterói, RJ, Brasil. ORCID: 0000-0002-8082-5242. E-mail: fepessanha@id.uff.br

 

RESUMO

Objetivo: Avaliar a associação entre o perfil sociodemográfico e a tendência empreendedora de enfermeiros que prestam assistência a pessoas com feridas. Método: Estudo transversal realizado em 2023 com 115 enfermeiros que participaram de uma atividade educativa no Conselho Regional de Enfermagem do Rio de Janeiro, utilizando coleta de dados virtual e o Teste de Tendência Empreendedora. Resultados: Os enfermeiros empreendedores são, em sua maioria, mulheres (87,9%) com mais de 41 anos (62,6%), pós-graduadas (94,7%), formadas há mais de 10 anos (66,9%) e que empreendem para complementar a renda (87,8%), a qual varia entre 4 e 9 salários mínimos (64,5%). A maior parte das profissionais apresentou baixa ou muito baixa tendência empreendedora (40,1%). Maiores pontuações nas dimensões sucesso/realização e tendência criativa associaram-se a rendas mais elevadas. Conclusões: Apesar de apresentarem baixa ou muito baixa tendência empreendedora, as enfermeiras avaliadas são experientes, qualificadas e buscam avançar profissionalmente por meio do impulso e da determinação.

 

Descritores: Empreendedorismo; Ferimentos e Lesões; Administração de Serviços de Saúde; Pesquisa em Administração de Enfermagem; Enfermagem.

 

Como citar: Louzada ALS, Abreu AM, Pessanha FS. Entrepreneurial tendency of nurses in the care of people with wounds: a cross-sectional study. Online Braz J Nurs. 2025;24(Suppl 2):e20256887. https://doi.org/10.17665/1676-4285.20256887

 

O que já se sabe:

 

 

 

O que este artigo acrescenta:

 

 

 

INTRODUÇÃO

Empreendedorismo pode ser definido como o ato de alcançar o sucesso por meio da coordenação e realização de projetos, serviços e operações(1). Iniciativas inovadoras vêm sendo implementadas em diferentes realidades da enfermagem, nos contextos do cuidado, da educação, da gestão e dos negócios(1-2).

No cenário atual do mercado de trabalho em enfermagem, os profissionais têm construído suas carreiras por meio do empreendedorismo empresarial. Assim, as relações de trabalho na enfermagem vêm evoluindo com a criação de novos cenários assistenciais, como consultórios e clínicas integralmente fundados e dirigidos por enfermeiros(3), sempre com foco na melhoria da qualidade da assistência e no compromisso social da profissão com a população.

Apesar disso, cabe destacar que tendência empreendedora e empreendedorismo não são sinônimos. Neste estudo, a tendência empreendedora é compreendida como o conjunto de comportamentos, atitudes e características individuais que expressam a disposição de uma pessoa em iniciar e gerir novos projetos ou negócios, mesmo em condições de incerteza. Trata-se, portanto, de um constructo psicológico e comportamental que não corresponde à prática empreendedora em si, mas indica o potencial para empreender. A definição de empreendedorismo, por sua vez, está diretamente relacionada ao impacto que a criação de novos negócios ou projetos exerce sobre o desenvolvimento econômico, por meio da inovação, geração de empregos e crescimento financeiro(1-2).

Assim, em 1991 foi criado o Teste de Tendência Empreendedora, que visa mensurar características empreendedoras em diferentes grupos ocupacionais(4), por meio da autoavaliação dos respondentes a perguntas distribuídas em cinco dimensões: necessidade de sucesso/realização, necessidade de autonomia/independência, tendência criativa, propensão a riscos calculados e impulso e determinação(4-5). Desde o desenvolvimento do teste, ele já foi aplicado junto a enfermeiros em contexto internacional(4). No âmbito brasileiro, embora existam estudos sobre empreendedorismo na enfermagem(6–8), apenas um utilizou o Teste de Tendência Empreendedora(9), aplicado a estudantes de enfermagem e não a profissionais já graduados.

As pessoas com feridas constituem um público-alvo comumente atendido por enfermeiros empreendedores, uma vez que as alterações na integridade da pele representam um problema crescente em todo o mundo(10). Essas alterações podem ser definidas como rompimentos na superfície da pele, com possibilidade de comprometimento dos tecidos subjacentes, e incluem desde feridas traumáticas agudas até lesões crônicas. Individualmente, as feridas podem gerar dor e desconforto, interrupção das atividades rotineiras da vida diária e comprometimento da qualidade de vida(11). De igual modo, para os sistemas de saúde e para a sociedade, a prevalência de indivíduos com feridas acarreta altos custos de tratamento e prejuízos no contexto laboral.

Nos Estados Unidos da América, entre usuários do programa federal de seguro saúde para pessoas com 65 anos ou mais, estima-se que as feridas crônicas não cicatrizantes impactem cerca de 8,2 milhões de pessoas(12). No Brasil, os dados epidemiológicos sobre a incidência e prevalência de lesões ainda são escassos. Apesar disso, sabe-se que essas afecções impactam a população em geral, independentemente do sexo, idade ou etnia, e representam custos expressivos para os indivíduos e para o sistema de saúde(12).

A enfermagem possui papel significativo no cuidado às pessoas com feridas nos diferentes níveis de atenção à saúde. Essa prática é, em sua essência, orientada pelo processo de enfermagem e suas etapas (avaliação, diagnóstico de enfermagem, planejamento, implementação e evolução)(13), bem como pela prática baseada em evidências e pelo respaldo legal(14-15). Com isso, os horizontes de carreira na enfermagem vêm se expandindo na direção do empreendedorismo empresarial(3).

Uma lacuna de conhecimento ainda existente nesse contexto diz respeito à forma como as características sociodemográficas dos enfermeiros (idade, sexo, formação acadêmica, entre outras) se relacionam com sua tendência empreendedora. Esse aspecto é particularmente relevante, uma vez que tais características podem influenciar diretamente a maneira como esses profissionais identificam oportunidades, estruturam serviços inovadores e contribuem para a sustentabilidade do cuidado. A ausência de estudos que abordem criticamente essa relação dificulta uma compreensão mais assertiva sobre a temática e, por isso, limita a formulação de estratégias de incentivo, capacitação e apoio à prática empreendedora na enfermagem.

Dessa forma, este estudo se propõe a responder à seguinte questão de pesquisa: Qual é o perfil sociodemográfico e o nível de tendência empreendedora dos enfermeiros que prestam assistência a pessoas com feridas?

O objetivo do estudo foi avaliar a associação entre o perfil sociodemográfico e a tendência empreendedora de enfermeiros que promovem assistência a pessoas com feridas.

 

MÉTODO

Desenho do estudo

Trata-se de um estudo transversal, cuja redação foi conduzida com base na ferramenta Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE)(16).

 

Contexto

O recrutamento dos participantes foi realizado a partir de um evento científico presencial e gratuito promovido pelo Conselho Regional de Enfermagem do Rio de Janeiro (COREN-RJ) em 28 de setembro de 2023, intitulado “Mesa Redonda: Vertentes do mercado de trabalho para o enfermeiro empreendedor”. Esse encontro foi escolhido como oportunidade de recrutamento por ter como público-alvo profissionais que atuavam em frentes de trabalho empreendedoras, tais como perfuração de orelha, educação em saúde, consultórios de estética e atendimento a pessoas com feridas.

Cabe destacar que, no momento da inscrição no evento, os profissionais consentiram que seus dados de contato telefônico fossem utilizados para o envio do convite de participação na pesquisa. Assim, além de proporcionar trocas de experiências entre enfermeiros empreendedores, o evento também funcionou como uma ferramenta para o contato com profissionais atuantes no contexto do empreendedorismo empresarial. Contudo, a coleta de dados foi realizada virtualmente apenas após o evento, entre outubro e novembro de 2023.

 

Participantes e Critérios de Inclusão

A seleção dos participantes ocorreu por amostragem de conveniência. Com base nos dados dos inscritos no evento — que declararam atuar junto a pessoas com feridas —, o envio do link de convite para participação na pesquisa e do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), por meio do aplicativo Google Forms, foi feito individualmente via WhatsApp, após o evento. Foram realizadas três tentativas de contato com cada enfermeiro, em dias alternados. Aqueles que consentiram em participar o fizeram por meio do formulário eletrônico e, em seguida, foram direcionados ao instrumento de coleta de dados do estudo.

Os critérios de inclusão foram: ser enfermeiro que preste assistência a pessoas com feridas; ter, no mínimo, um ano de experiência na área; ter participado do evento científico promovido pelo COREN-RJ; e responder ao convite encaminhado no processo de recrutamento após até três tentativas de contato via WhatsApp.

O preenchimento incompleto do formulário de coleta de dados não foi estabelecido como critério de exclusão, pois, ao considerar os riscos potenciais da pesquisa, compreendeu-se que poderia haver constrangimento em informar algumas variáveis (como renda, presença de segundo vínculo e características do negócio). Assim, no TCLE, assinado digitalmente, constava explicitamente que o participante poderia optar por não responder a questões que lhe causassem desconforto. Na análise estatística, esses casos foram tratados como missing.

O convite para participação na pesquisa foi enviado a 150 profissionais, dos quais 115 responderam e aceitaram participar após as três tentativas de contato, compondo a amostra do estudo. Desses, todos responderam integralmente às perguntas sobre sexo, faixa etária, escolaridade e tempo de formação. Em relação ao atendimento em consultório, 114 enfermeiros responderam, e quanto à renda mensal, regime de trabalho e tendência empreendedora, 107 profissionais forneceram respostas.

Ressalta-se que o Conselho Federal de Enfermagem (COFEN) e os Conselhos Regionais de Enfermagem (COREN), instituídos pela Lei nº 5.905/1973, compõem uma estrutura regulatória destinada a supervisionar e apoiar a profissão de enfermagem no Brasil(17). Essas autarquias têm desempenhado papel de destaque ao viabilizar a educação permanente dos profissionais por meio de diversas iniciativas. Entre elas, no contexto do COREN-RJ, destaca-se o Projeto Capacita COREN, que realiza periodicamente cursos e palestras sobre temáticas variadas, incluindo o empreendedorismo, contribuindo para o aprimoramento profissional no Estado do Rio de Janeiro.

 

Variáveis e fontes de dados

O formulário de coleta de dados foi organizado em duas partes: (1) variáveis sociodemográficas, acadêmicas e relacionadas ao empreendimento; e (2) o Teste de Tendência Empreendedora Geral.

As variáveis sociodemográficas coletadas foram: sexo, idade (faixa etária) e renda mensal. As variáveis acadêmicas incluíram escolaridade e tempo de formação. As características do empreendimento abrangeram: atendimento em consultório e regime de trabalho (apenas como autônomo ou atuação autônoma associada a vínculo com estabelecimento de saúde). A renda mensal foi calculada com base no salário mínimo vigente no Brasil em 2023(18).

O Teste de Tendência Empreendedora Geral tem como objetivo medir a tendência empreendedora por meio da avaliação de cinco características empresariais principais: necessidade de sucesso/realização; necessidade de autonomia/independência; tendência criativa; propensão a riscos calculados; e impulso e determinação(4-5). O instrumento apresenta metodologia própria para identificar traços empreendedores e características psicológicas dos participantes(19-20), e já foi validado para uso no Brasil, com Kappa de Cohen = 0,65, considerado forte(9). Desde sua elaboração, em 1991, o teste tem sido aplicado entre enfermeiros(4).

O participante era orientado a assinalar “Concordo” ou “Discordo” para cada uma das 54 afirmações, distribuídas nas cinco dimensões. A regra para atribuição das pontuações era a seguinte: nas questões ímpares, somava-se um ponto para cada resposta “Discordo”; nas pares, um ponto para “Concordo”. Em seguida, as pontuações de cada questão eram somadas, obtendo-se a pontuação final de cada dimensão.

A dimensão necessidade de sucesso/realização descreve a busca por objetivos desafiadores e sustentados por altos padrões pessoais de excelência, tendo média de 9 pontos e pontuação máxima de 12(4). A dimensão necessidade de autonomia/independência refere-se à expectativa de agir e se expressar livremente, apesar das convenções. Sua média é 4 pontos, com máximo de 6(4).

A tendência criativa está relacionada ao potencial de ser imaginativo, inovador, curioso e versátil; a propensão a riscos calculados, à capacidade de lidar com informações incompletas e agir em contextos arriscados(4); e a dimensão impulso e determinação busca identificar indivíduos que assumem responsabilidade por sucessos e fracassos, atribuindo resultados à habilidade e ao esforço. Nessas três dimensões, a média é 8 e a pontuação máxima, 12(4).

Por fim, analisa-se o número de dimensões em que o respondente atingiu pontuação máxima: cinco dimensões — tendência empreendedora muito alta; quatro — alta; três — média; duas — baixa; uma ou nenhuma — muito baixa, conforme proposto em estudos anteriores(4,19-20).

 

Métodos estatísticos

As respostas ao formulário foram extraídas de uma planilha do Excel for Windows, exportada a partir do Google Forms, e analisadas no software estatístico RStudio (versão R4.2.2)(21).

Inicialmente, aplicou-se estatística descritiva por meio de frequências absolutas e relativas. Em seguida, utilizou-se o teste de Shapiro-Wilk, que indicou distribuição não normal dos dados. Com base nisso, adotaram-se medidas de tendência central correspondentes (mediana, intervalo interquartil, valores máximo e mínimo).

Na análise bivariada, aplicaram-se métodos estatísticos não paramétricos(22): Teste de Mann-Whitney, para amostras independentes, a fim de avaliar diferenças significativas entre variáveis categóricas dicotômicas e variáveis quantitativas; Teste de Kruskal-Wallis, empregado para verificar diferenças entre variáveis categóricas com três ou mais categorias; Teste de comparações múltiplas de Dunn, aplicado quando o teste de Kruskal-Wallis indicou diferenças significativas em pelo menos uma categoria. Adotou-se intervalo de confiança de 95% (p < 0,05). Os resultados foram apresentados em texto, tabelas e figuras.

 

Aspectos éticos

Todas as exigências éticas referentes à pesquisa em saúde foram atendidas, conforme as Resoluções nº 466/2012 e nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde. A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Parecer nº 6.087.901). O TCLE foi aplicado de forma eletrônica, assim como o preenchimento do formulário de coleta de dados. Os participantes foram informados sobre a possibilidade de desistir da pesquisa a qualquer momento, sem qualquer prejuízo moral ou legal.

 

RESULTADOS

Um total de 115 enfermeiros compuseram a amostra do estudo. Os profissionais que empreendem na assistência a pessoas com feridas no Estado do Rio de Janeiro são majoritariamente mulheres (87,9%; 101/115), com idade superior a 41 anos (62,6%; 72/115), pós-graduadas lato sensu (85,2%; 98/115) e com tempo de formação superior a dez anos (66,9%; 77/115). A maioria possui emprego fixo e exerce atividades empreendedoras como forma de complementação de renda (87,8%; 94/115), que, em geral, situa-se entre quatro e nove salários mínimos (64,5%; 69/107).

Globalmente, 40,1% dos enfermeiros apresentaram tendência empreendedora baixa (23,3%; 25/107) ou muito baixa (16,8%; 18/107). Maiores detalhes são apresentados na Tabela 1.

 

Tabela 1 – Perfil profissional e tendência empreendedora dos enfermeiros participantes da pesquisa. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2023

 

n

%

Sexo

 

 

Masculino

14

12,1

Feminino

101

87,9

Total

115

100

Faixa etária

 

 

Até 40 anos

43

37,4

41 anos ou mais

72

62,6

Total

115

100

Escolaridade

 

 

Graduado(a)

6

5,2

Pós-graduação lato sensu

98

85,2

Pós-graduação strictu sensu

11

9,6

Total

115

100

Tempo de formação

 

 

Entre 1 e 3 anos

7

6,2

Entre 4 e 9 anos

31

26,9

Mais de 10 anos

77

66,9

Total

115

100

Renda mensal

 

 

1 – 3 salários mínimos

27

25,2

4 – 9 salários mínimos

69

64,5

10 ou mais salários mínimos

11

10,3

Total

107

100

Regime de trabalho

 

 

Apenas como autônomo

13

12,2

Atuação autônoma associada a trabalho com vínculo a um estabelecimento de saúde

94

87,8

Total

107

100

Atendimento em consultório

 

 

Não

85

74,6

Sim

29

25,4

Total

114

100

Tendência empreendedora

 

 

Muito alta

16

14,9

Alta

15

14,2

Média

33

30,8

Baixa

25

23,3

Muito baixa

18

16,8

Total

107

100

Nota: n = número de participantes. Os totais de cada variável diferem porque os participantes puderam optar por não responder questões que lhes causassem desconforto ou constrangimento. Fonte: elaborada pelos autores, 2023.

 

Não foram encontradas associações estatisticamente significativas entre os resultados globais do Teste de Tendência Empreendedora e as variáveis sociodemográficas. As medidas de tendência central, conforme o desempenho nas dimensões do Teste de Tendência Empreendedora, estão apresentadas na Figura 1. Observa-se que a dimensão autonomia/independência foi a que apresentou menores pontuações em comparação às demais.

 

Figura2

Figura 1 – Boxplot das pontuações obtidas pelos enfermeiros no Teste de Tendência Empreendedora. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2023

Fonte: elaborada pelos autores, 2023.

 

Ao avaliar a relação entre as dimensões do Teste de Tendência Empreendedora e a renda dos participantes (Tabela 2), observou-se diferença estatisticamente significativa nas dimensões sucesso/realização e tendência criativa. Ressalta-se que o total de respondentes nessa tabela difere do total geral de participantes (n = 115), pois estes puderam optar por não responder a determinadas questões.

 

Tabela 2 – Relação das dimensões do Teste de Tendência Empreendedora com a renda. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2023

 

Renda mensal

 

Variáveis

Total,

n = 107

1 – 3 salários mínimos,

n = 27

4 – 9 salários mínimos,

n = 69

10 ou mais salários mínimos,

n = 11

p- valor*

Sucesso/Realização

 

 

 

0,031

Mediana

(1º - 3º quartil)

9,0

(8,0 - 10,0)

9,0

(7,5 - 9,0)

9,0

(8,0 - 10,0)

10,0

(9,0 - 10,5)

 

Autonomia/Independência

 

 

 

0,188

Mediana

(1º - 3º quartil)

3,0

(2,0 - 4,0)

3,0

(1,5 - 4,0)

3,0

(2,0 - 4,0)

4,0

(2,5 - 4,0)

 

Tendência criativa

 

 

 

0,019

Mediana

(1º - 3º quartil)

7,0

(5,0 - 8,0)

5,0

(5,0 - 7,0)

7,0

(6,0 - 9,0)

6,0

(5,0 - 7,5)

 

Propensão a riscos calculados

 

 

 

0,501

Mediana

(1º - 3º quartil)

7,0

(6,0 - 9,0)

8,0

(6,0 - 8,5)

7,0

(6,0 - 9,0)

7,0

(6,0 - 7,5)

 

Impulso e determinação

 

 

 

0,458

Mediana

(1º - 3º quartil)

9,0

(8,0 - 10,0)

8,0

(8,0 - 9,5)

9,0

(8,0 - 10,0)

9,0

(9,0 - 9,5)

 

Nota: *Teste estatístico de Kruskal-Wallis.

Fonte: elaborada pelos autores, 2023.

 

Para identificar quais grupos de renda mensal apresentavam diferenças, aplicou-se o teste de comparações múltiplas de Dunn. Na dimensão sucesso/realização, observou-se diferença estatisticamente significativa (p = 0,033) entre o grupo com renda de 1 a 3 salários mínimos e o grupo com 10 ou mais salários mínimos. As demais comparações não apresentaram significância estatística.

Na dimensão tendência criativa, o mesmo teste indicou diferença significativa (p = 0,021) entre os grupos de 1 a 3 e de 4 a 9 salários mínimos, sem diferenças estatisticamente significativas nas demais comparações.

A Tabela 3 apresenta a relação entre as dimensões do Teste de Tendência Empreendedora e o tempo de formação dos participantes, na qual não foram identificadas diferenças estatisticamente significativas.

 

Tabela 3 – Relação das dimensões do Teste de Tendência Empreendedora com o tempo de formação. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2023

 

 

Tempo de formação

 

Variáveis

Amostra,

n = 115

1 – 3 anos,

n = 7

4 - 9 anos,

n = 31

10 anos ou mais,

n = 77

p- valor*

Sucesso/Realização

 

 

 

0,274

Mediana

(1º - 3º quartil)

9,0

(8,0 - 10,0)

9,0

(8,0 - 10,5)

9,0

(9,0 - 10,0)

9,0

(7,0 - 10,0)

 

Autonomia/Independência

 

 

 

0,212

Mediana

(1º - 3º quartil)

3,0

(2,0 - 4,0)

3,0

(3,0 - 3,5)

4,0

(2,5 - 4,0)

3,0

(2,0 - 4,0)

 

Tendência criativa

 

 

 

0,879

Mediana

(1º - 3º quartil)

7,0

(5,0 - 8,0)

7,0

(5,5 - 7,5)

6,0

(5,0 - 8,0)

7,0

(5,0 - 8,0)

 

Propensão a riscos calculados

 

 

 

0,063

Mediana

(1º - 3º quartil)

7,0

(6,0 - 9,0)

6,0

(4,5 - 6,5)

8,0

(6,5 - 9,0)

7,0

(6,0 - 9,0)

 

Impulso e determinação

 

 

 

0,241

Mediana

(1º - 3º quartil)

9,0

(8,0 - 10,0)

8,0

(7,0 - 8,5)

9,0

(8,0 - 10,0)

9,0

(8,0 - 10,0)

 

Nota: *Teste estatístico de Kruskal-Wallis.

Fonte: elaborada pelos autores, 2023.

 

No que se refere ao atendimento em consultório (Tabela 4), verificou-se associação estatisticamente significativa com a dimensão sucesso/realização do Teste de Tendência Empreendedora. Assim como nas análises anteriores, destaca-se que o total de respondentes difere do total de participantes incluídos na pesquisa, em razão da possibilidade de recusa em responder determinadas perguntas.

 

Tabela 4 – Relação das dimensões do Teste de Tendência Empreendedora com o atendimento em consultório. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2023

 

Atendimento em consultório

 

Variáveis

Total,

n = 114

Não,

n = 85

Sim,

n = 29

p-valor*

Sucesso/Realização

 

 

 

0,002

Mediana (1º - 3º quartil)

9,0 (8,0 - 10,0)

9,0 (7,0 - 10,0)

10,0 (9,0 - 11,0)

 

Autonomia/Independência

 

 

0,460

Mediana (1º - 3º quartil)

3,0 (2,0 - 4,0)

3,0 (2,0 - 4,0)

3,0 (2,0 - 4,0)

 

Tendência criativa

 

 

 

0,098

Mediana (1º - 3º quartil)

7,0 (5,0 - 8,0)

6,0 (5,0 - 8,0)

7,0 (6,0 - 8,0)

 

Propensão a riscos calculados

 

 

0,122

Mediana (1º - 3º quartil)

7,0 (6,0 - 9,0)

7,0 (6,0 - 9,0)

8,0 (7,0 - 9,0)

 

Impulso e determinação

 

 

 

0,141

Mediana (1º - 3º quartil)

9,0 (8,0 - 10,0)

8,0 (8,0 - 10,0)

9,0 (9,0 - 10,0)

 

Nota: *Teste estatístico de Mann-Whitney.

Fonte: elaborada pelos autores, 2023.

 

DISCUSSÃO

A enfermagem representa aproximadamente metade da força de trabalho em saúde, embora existam diferentes níveis de formação e variações regionais em todo o mundo(23). Na era da prática avançada(24), o mercado de trabalho da enfermagem tem se reorganizado para atender às novas demandas, tanto dos indivíduos assistidos quanto dos próprios profissionais. Essa realidade foi corroborada pelos achados da presente pesquisa, uma vez que a análise da associação entre o perfil sociodemográfico e a tendência empreendedora revelou que, apesar de apresentarem tendência empreendedora baixa ou muito baixa, as profissionais participantes são experientes, qualificadas e buscam avançar por meio do impulso, da determinação e do gerenciamento do cuidado.

Embora a maioria dos enfermeiros trabalhe de forma assalariada em instituições de saúde, em alguns países esses profissionais têm atuado de modo mais independente(2), tendência que também se observa no Brasil. O empreendedorismo depende da interação entre variáveis de personalidade e oportunidades ambientais(4). Pesquisa prévia identificou que os principais motivos que levam os enfermeiros a empreender incluem a insatisfação com a remuneração recebida em empregos formais, a busca por maior autonomia na organização da agenda de atendimentos e a percepção de falta de visibilidade e reconhecimento social nos vínculos tradicionais de trabalho(25).

Apesar disso, verificou-se que a maior parte dos participantes apresentou tendência empreendedora baixa ou muito baixa, o que pode estar associado à existência de barreiras significativas à atuação empreendedora da enfermagem no Brasil — como a carência de conhecimentos e habilidades gerenciais (por exemplo, nas áreas contábil e jurídica), desafios relacionados ao financiamento, e limitações quanto ao reembolso por serviços prestados na saúde suplementar(1,25).

Por outro lado, a parcela de profissionais que apresentou tendência empreendedora alta ou muito alta suscita reflexões sobre a importância do desenvolvimento de competências voltadas à geração de ideias, elaboração de projetos e utilização de recursos(1), características comuns entre enfermeiros empreendedores. Com os respaldos legais atualmente disponíveis no país(15), essas competências podem ser direcionadas à melhoria da assistência e do acesso à saúde, ampliando a resolutividade do cuidado e a satisfação profissional.

Em relação à dimensão sucesso/realização, os resultados indicam que enfermeiros com maior pontuação nessa dimensão relataram rendas mais elevadas e atuação em consultórios. Esses achados corroboram estudos anteriores(19–20), ao evidenciar que o alcance do sucesso é simultaneamente uma motivação e uma condição para a sustentabilidade da jornada empreendedora(1). Profissionais que percebem retorno financeiro positivo tendem a reconhecer o empreendedorismo como via legítima de valorização e expansão de sua atuação, de modo que os ganhos econômicos atuam como reforçadores da tendência empreendedora e da motivação para manter ou ampliar as iniciativas próprias(1,25). Assim, o sucesso na enfermagem empreendedora não se restringe à satisfação subjetiva, mas também se ancora em condições objetivas, como estabilidade financeira e reconhecimento no mercado.

Nesse contexto, é oportuno refletir sobre as condições de trabalho frequentemente enfrentadas por enfermeiros em unidades de saúde. Estudo prévio(26) apontou queixas relacionadas a dificuldades nas relações com chefias, episódios de violência e discriminação no ambiente laboral, desgaste profissional — refletido em altas taxas de licenças médicas e absenteísmo — e remuneração insatisfatória. Do mesmo modo, marginalização social e desemprego também foram identificados como fatores que impulsionam iniciativas empreendedoras(4). Assim, muitos enfermeiros passam a empreender buscando maior satisfação e autonomia após experiências de descontentamento com empregos tradicionais(1,25).

No que se refere à dimensão autonomia/independência, observou-se pontuação inferior às demais dimensões. Embora autonomia e independência sejam conceitos distintos em alguns contextos, no Teste de Tendência Empreendedora são tratados como sinônimos. A autonomia na enfermagem possibilita que o profissional preste assistência com base em seu mais alto nível de formação, contribuindo para melhores resultados em saúde. Para o exercício pleno da prática autônoma, o enfermeiro deve possuir responsabilidade profissional, sólida formação técnico-científica e capacitação contínua, que sustentem a tomada de decisões embasadas nas melhores evidências disponíveis(27).

Desse modo, um enfermeiro autônomo exerce sua prática com base em julgamento clínico próprio, sustentado por conhecimento científico, legislação e ética. Essa competência é especialmente relevante em áreas como a estomaterapia e a enfermagem dermatológica, que exigem tomada de decisões clínicas complexas — como a prescrição de coberturas e a interpretação de exames complementares. Em síntese, quanto maior o grau de autonomia profissional, maior a probabilidade de o enfermeiro desenvolver projetos empreendedores, seja em consultórios, clínicas especializadas ou na oferta de serviços inovadores em domicílio.

Contudo, em muitos contextos e, sobretudo, no imaginário social, a enfermagem ainda é associada a uma posição de dependência e submissão(28). No Brasil, isso se relaciona, em parte, à consolidação de um modelo de atenção centrado em grandes complexos hospitalares, a partir da segunda metade do século XX, nos quais as relações de trabalho foram — e em muitos casos ainda são — marcadas por disputas de território entre profissões, saberes e práticas(28–29). Esse contexto contribui para o desejo de autonomia e legitima a busca por novos espaços de atuação empreendedora.

A autonomia deve ser compreendida, portanto, como um motor essencial para o fortalecimento do empreendedorismo em enfermagem e para a consolidação de espaços legítimos de atuação no sistema de saúde(24), configurando-se como elemento central da tendência empreendedora ao possibilitar que o enfermeiro estruture serviços próprios, amplie sua presença no mercado e reposicione estrategicamente a profissão como área inovadora e resolutiva.

Os enfermeiros com maiores pontuações na dimensão tendência criativa relataram rendas mais altas. Apesar disso, o desempenho geral nessa dimensão foi limitado. O empreendedor é, por natureza, um gerente-inovador(4); a criatividade, portanto, favorece a proposição de soluções inovadoras, como a adaptação de materiais, o desenvolvimento de novas técnicas ou a criação de fluxos assistenciais mais resolutivos e acessíveis. A criatividade em enfermagem envolve fluidez mental, aceitação e produção de novas ideias aplicáveis ao cuidado, de modo que os métodos resultantes sejam úteis, eficientes, acessíveis e seguros(30). A variabilidade observada nas pontuações dessa dimensão indica que a criatividade constitui um traço individual, que diferencia enfermeiros com maior capacidade de adaptação e inovação em novos contextos e mercados.

De forma semelhante, na dimensão propensão a riscos calculados, os participantes apresentaram resultados restritos(4) em comparação à média do teste. Enfrentar incertezas é parte inerente ao empreendedorismo, e profissionais com esse perfil tendem a demonstrar maior autoconfiança em suas habilidades de gestão de risco(1). Essa característica permite que o enfermeiro avance em decisões clínicas complexas e empreenda serviços especializados mesmo diante de incertezas, aspecto essencial em cenários que exigem personalização do cuidado.

A dimensão impulso/determinação foi a única em que o resultado global foi superior às demais(4), representando achado relevante para a discussão sobre empoderamento na enfermagem. Esse construto pode ser definido como a capacidade dos enfermeiros de mobilizar eficazmente recursos pessoais e materiais para alcançar resultados positivos(31–32). Assim, o impulso e a determinação fortalecem a legitimidade da atuação empreendedora em um mercado altamente competitivo.

De modo geral, as dimensões da tendência empreendedora refletem e se relacionam diretamente com a prática clínica. Profissionais que desenvolvem essas competências são capazes de atuar de maneira inovadora, fundamentada em decisões embasadas e sustentada por um posicionamento diferenciado no mercado atual.

 

Limitações

A versão traduzida do Teste de Tendência Empreendedora Geral utilizada neste estudo foi originalmente validada em contexto presencial — diferente da coleta digital aqui empregada — e não apresentou o alfa de Cronbach referente à aplicação entre enfermeiros do Estado do Rio de Janeiro(5). A natureza autoavaliativa do instrumento pode ter introduzido viés, embora a maioria dos respondentes tenha apresentado tendência empreendedora baixa ou muito baixa. Além disso, a amostragem por conveniência limita a generalização dos achados, uma vez que não é possível assegurar a representatividade da amostra. Outros aspectos, como condições socioambientais para o desenvolvimento de iniciativas empreendedoras e o tempo de atuação autônoma, poderiam agregar dados relevantes para aprofundar a discussão.

 

Implicações

Os resultados deste estudo contribuem para a compreensão do perfil empreendedor de enfermeiros que atuam no cuidado a pessoas com feridas, reduzindo lacunas no conhecimento sobre o tema. A constatação de que dimensões como sucesso/realização e autonomia se associam à renda e à atuação em consultório sugere que o fortalecimento de competências empreendedoras pode promover maior valorização social e sustentabilidade econômica na profissão.

Investir no desenvolvimento de habilidades gerenciais, de criatividade, de tomada de decisão em contextos de incerteza e de impulso/determinação constitui estratégia essencial para ampliar a atuação do enfermeiro em áreas especializadas, como a estomaterapia e a enfermagem dermatológica. Além disso, abre-se espaço para novas investigações voltadas à efetividade de intervenções educacionais sobre habilidades gerenciais, criatividade e inovação, desde a graduação até a pós-graduação, bem como para estudos que avaliem o impacto de legislações recentes sobre a prática empreendedora da enfermagem no Brasil, tanto na ascensão profissional quanto na ampliação do acesso ao cuidado especializado.

 

CONCLUSÃO

Os achados deste estudo elucidam o perfil sociodemográfico e sua associação com a tendência empreendedora de enfermeiros atuantes no cuidado a pessoas com feridas. Evidenciou-se a predominância de mulheres experientes e qualificadas, que buscam avanços profissionais e sociais, apesar de apresentarem, em sua maioria, baixa ou muito baixa tendência empreendedora. A dimensão impulso/determinação destacou-se como particularmente relevante.

O vínculo entre maior tendência criativa e rendas mais elevadas reforça a importância de habilidades inovadoras — como autonomia, flexibilidade e proatividade — para o crescimento profissional.

Os resultados indicam que, como categoria e ciência em expansão, a enfermagem deve direcionar esforços para compreender os diferentes contextos do mercado de trabalho contemporâneo no Brasil e implementar melhorias que impactem positivamente as realidades sociais e de saúde tanto dos enfermeiros quanto da população.

 

*Artigo extraído do Trabalho de Conclusão intitulado “Perfil dos enfermeiros que tratam feridas no Estado do Rio de Janeiro e suas ações empreendedoras”, apresentado ao Curso de Graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), Rio de Janeiro, RJ, Brasil, no ano de 2023.

 

CONFLITO DE INTERESSES

Os autores declaram não haver conflito de interesses.

 

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Submissão: 02-Ago-2025

Aprovado: 10-Set-2025

 

Editores:

Rosimere Ferreira Santana (ORCID: 0000-0002-4593-3715)

Geilsa Soraia Cavalcanti Valente (ORCID: 0000-0003-4488-4912)

Renan Alves Silva (ORCID: 0000-0002-6354-2785)

 

Autor correspondente: Fernanda Soares Pessanha (fepessanha@id.uff.br)

 

Editora:

Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa – UFF

Rua Dr. Celestino, 74 – Centro, CEP: 24020-091 – Niterói, RJ, Brasil

E-mail da revista: objn.cme@id.uff.br

 

CONTRIBUIÇÃO DE AUTORIA 

Concepção do estudo: Louzada ALS, Abreu AM.

Obtenção de dados: Louzada ALS.

Análise de dados: Abreu AM, Pessanha FS.

Interpretação dos dados: Abreu AM, Pessanha FS.

Todos os autores se responsabilizam pela redação textual e revisão crítica do conteúdo intelectual, pela versão final publicada e por todos os aspectos éticos, legais e científicos relacionados à exatidão e à integridade do estudo.

 

Figura3