Imagem 1

 

EDITORIAL

 

Figura1

Maria Júlia Paes da Silva1

1 Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo, SP, Brasil

 

 

O QUE HÁ “DE NOVO” NO CUIDAR?

 

Poderia uma máquina, desprovida de um corpo biológico, compreender o sofrimento humano? Diante dos avanços quase diários da Inteligência Artificial (IA), a questão sobre sermos substituíveis torna-se premente. Essa dúvida, contudo, baseia-se na premissa de que a tecnologia possa, um dia, desenvolver emoções como medo ou amor(1).

Enquanto esse dia não chega, e enquanto nos reconhecemos como seres multidimensionais — com corpo, coração e mente, que se preocupam e se assustam, que se esforçam para encontrar seu caminho e sua “assinatura” existencial, assim como aqueles de quem cuidamos — talvez Florence Nightingale ainda tenha razão. É fundamental que existam pessoas para acompanhar quem está infirme, até que possam seguir adiante com suas experiências, desafios e aprendizados. É preciso que existam para auxiliar no resgate da autonomia, de escolhas mais conscientes e da independência na satisfação das necessidades básicas. Em suma: é preciso que exista a Enfermagem!

Quando nos sentimos fragilizados ou em risco — condição inerente à finitude do nosso corpo —, que solidão pode ser maior do que a desconfiança naqueles que estão ao nosso lado? O que podemos esperar de outra pessoa, um ser humano como nós(2)? É aqui que o cuidar nos desafia, exigindo que saiamos da nossa zona de conforto para entrar em contato com sentimentos e crenças difíceis de reconhecer e acolher em nós mesmos. Exige que usemos palavras e gestos com consciência e responsabilidade, nos tornando “remédio” por meio de nossa presença, clareza de intenção e ações deliberadas.

Desde o início da nossa profissão, todas as Teorias de Enfermagem têm o cuidar como eixo central de nossas decisões e ações. Em todas, encontramos o cuidado qualificando a vida, prevenindo danos futuros e regenerando os passados. O cuidar promove a saúde e o bem-estar, até o último instante, a partir da presença consciente do profissional, do alinhamento entre sua fala e suas ações e do seu exemplo. Cuidar envolve atenção, intenção, interesse, abertura, respeito, confiança, humildade, alegria, bom humor, responsabilidade e compaixão.

O cuidar, essência de nossa profissão, estimula uma cultura de paz e harmonia, apesar de nossas inúmeras diferenças e unicidades(3).

Sabemos que a violência contra os profissionais de saúde, incluindo a Enfermagem, é uma preocupação global. Manifestada por palavras e comportamentos, essa violência gera danos físicos, emocionais e psicológicos a todos os envolvidos(4). Cuidar de nossos pares e de nós mesmos é parte intrínseca do desafio e do aprendizado do profissional de Enfermagem.

Refletir sobre as perspectivas da nossa profissão à luz das ferramentas digitais não nos ensina apenas sobre Inteligência Artificial; ensina-nos sobre nós mesmos: como pensamos, o que valorizamos e como nos relacionamos com humanos, não humanos e com a própria Terra. O filósofo Edgar Morin nos recorda que, ao sacrificar o essencial pelo urgente, acabamos por esquecer a urgência do essencial(5).

Talvez o que “há de novo” no cuidar seja exatamente isto: aliar o velho desafio de demonstrar efetividade e afetividade a novos ambientes, contextos e ferramentas. É recordar quem realmente somos: criaturas com o poder de criar e de ancorar a sapiência em uma estrutura social que vive a fantasia da separatividade.

Um estudo citado por Aronson e Aronson em “O animal social”(3) ressalta o poder da intenção. Em um experimento, pintinhos recém-nascidos foram condicionados a seguir um robô programado para se mover de forma aleatória por uma arena. Após o apego, os pintinhos foram colocados em uma gaiola de onde podiam ver o robô, mas não alcançá-lo. O resultado foi surpreendente: o movimento do robô deixou de ser aleatório e concentrou-se na metade da arena mais próxima aos pintinhos. A hipótese é que a intenção focada dos pintinhos influenciou a máquina. Fica a reflexão: se a intenção de pintinhos pode alterar o percurso de um robô, o que a clara intenção de um profissional de Enfermagem pode fazer por um ser humano enfermo?

Toda ação, pensamento e sentimento são motivados por uma intenção (mais ou menos consciente), e essa intenção é uma causa inseparável de seu efeito. Ao não reduzir o cuidar a uma doença ou diagnóstico, vislumbramos sua grandeza: um ser humano com sentimentos e crenças próprias, onde há espaço para todas as Práticas Integrativas e Complementares de Saúde (PICS). O profissional que verdadeiramente busca, o pesquisador genuíno, permite-se expandir para compreender a beleza e o desafio de auxiliar no reequilíbrio de cada indivíduo. A busca é constante para desvelar o “melhor jeito” de ancorar respeito, compaixão, amorosidade, dignidade. Qualquer ferramenta, instrumento ou metodologia utilizada deve auxiliar na reconstrução ou harmonia das diversas dimensões do homo sapiens: das Tecnologias de Informação (TIs) às PICS.

Cuidamos porque também somos humanos: um grupo que se especializa na preservação da vida de sua espécie. Não duvidemos que um pequeno grupo de pessoas conscientes, comprometidas e organizadas possa mudar o mundo: foi a única coisa que já conseguiu fazê-lo até hoje!

 

REFERÊNCIAS

1. Coeckelbergh M. Ética na Inteligência Artificial. Rio de Janeiro: Editora PUC-Rio; 2023.

 

2. Silva MJP. Comunicação e counselling. In: Caldeira S, Esperandio MRG, organizadoras. Espiritualidade e saúde: fundamentos e práticas em perspectiva Luso-brasileira. Curitiba: PUCPRESS; 2022. v. 2. p. 163-174.

 

3. Aronson E, Aronson J. O animal social. São Paulo: Goya; 2023.

 

4. D’Ettorre G, Pellicani V, Mazzotta M, Vullo A. Preventing and managing workplace violence against healthcare workers in Emergency Departments. Acta Biomed. 2018;89(4-S):28-36. https://doi.org/10.23750/abm.v89i4-s.7113

 

5. Morin E. Os sete saberes necessários à Educação do Futuro. 2. ed. São Paulo: Cortez; 2018.

 

Como citar: Silva MJP. What is 'new' in care? Online Braz J Nurs. 2025;24(Suppl 2):e20256881. https://doi.org/10.17665/1676-4285.20256881

 

Autor correspondente: Maria Júlia Paes da Silva (juliaps@usp.br)

 

Editora:

Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa – UFF

Rua Dr. Celestino, 74 – Centro, CEP: 24020-091 – Niterói, RJ, Brasil

E-mail da revista: objn.cme@id.uff.br

 

image3.png