ARTIGO ORIGINAL
FATORES ASSOCIADOS À EVOLUÇÃO CLÍNICA DE PESSOAS IDOSAS POR COVID-19 SEGUNDO DISPONIBILIDADE VACINAL: ESTUDO OBSERVACIONAL
Luiz Hiroshi Inoue1, Wanessa Cristina Baccon2, Francielle Renata Danielli Martins3, Guilherme Kenzo Acutu4, Márcia Lorena Alves dos Santos5, Giovana Alves Santos Rodrigues6, Maria Aparecida Salci7, Lígia Carreira8
1 Universidade Estadual de Maringá, Maringá, PR, Brasil. ORCID: 0000-0002-7226-9661. E-mail: lhinoue17@gmail.com.
2 Universidade Estadual de Maringá, Maringá, PR, Brasil. ORCID: 0000-0001-9750-3576. E-mail: wanessabaccon@hotmail.com.
3 Universidade Estadual de Maringá, Maringá, PR, Brasil. ORCID: 0000-0002-8578-9615. E-mail: franrenata.martins@gmail.com.
4 Universidade Estadual de Maringá, Maringá, PR, Brasil. ORCID: 0000-0002-5940-8110. E-mail: guilherme_kenzo_@hotmail.com.
5 Universidade Estadual de Maringá, Maringá, PR, Brasil. ORCID: 0000-0002-1098-1944. E-mail: alves.mlorena@gmail.com.
6 Universidade Estadual de Maringá, Maringá, PR, Brasil. ORCID: 0000-0002-5586-4688. E-mail: giovanaalvessantos@yahoo.com.
7 Universidade Estadual de Maringá, Maringá, PR, Brasil. ORCID: 0000-0002-6386-1962. E-mail: msalci@uem.br.
8 Universidade Estadual de Maringá, Maringá, PR, Brasil. ORCID: 0000-0003-3891-4222. E-mail: ligiacarreira.uem@gmail.com.
RESUMO
Objetivo: Identificar a associação de fatores sociodemográficos e clínicos com a evolução clínica de pessoas idosas hospitalizadas em UTI no estado do Paraná, segundo a disponibilidade vacinal contra Covid-19. Método: Estudo observacional analítico, de base populacional, com dados secundários de idosos hospitalizados por COVID-19 em UTI. As razões de chances condicionais foram estimadas, a homogeneidade entre estratos foi avaliada pelo teste de Breslow-Day (5%), e a independência condicional pelo teste de Mantel-Haenszel, com estimativa da razão de chances comum. Resultados: Associaram-se a maiores chances de alta hospitalar: faixa etária (OR = 1,97), sexo feminino (OR = 1,20) e cor/raça branca (OR = 1,22). Pessoas idosas com grau de escolaridade ≤ 9 anos de estudo (OR = 0,63), com fatores de risco (OR = 0,69), diabetes (OR = 0,82), imunodeficiência (OR = 0,57), doença hepática (OR = 0,50), doença hematológica (OR = 0,56), pneumopatia (OR = 0,61) e uso de suporte ventilatório (OR = 0,30) apresentaram menores chances de alta hospitalar. Conclusão: A vacinação associou-se a maiores chances de alta hospitalar segundo faixa etária, sexo, cor da pele branca e maior escolaridade. Comorbidades como diabetes mellitus, imunodeficiência, doença hepática, pneumopatias e uso de suporte ventilatório reduziram essa chance.
Descritores: Covid-19; Enfermagem em Saúde Pública; Esquemas de Imunização; Saúde do Idoso; Unidade de Terapia Intensiva.
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Como citar: Inoue LH, Baccon WC, Martins FRD, Acutu GK, Santos MLA, Rodrigues GAS, et al. Factors associated with the clinical outcomes of older adults with COVID-19 according to vaccine availability: an observational study. Online Braz J Nurs. 2026;25(1):e20266878. https://doi.org/10.17665/1676-4285.20266878 |
O que já se sabe:
A Covid-19 apresenta alta taxa de letalidade em pessoas idosas, agravada significativamente pela presença de comorbidades preexistentes.
A vacinação contra a Covid-19 é comprovadamente eficaz na redução de hospitalizações, complicações graves e óbitos na população idosa.
A evolução clínica em UTI por Covid-19 mudou ao longo da pandemia, acompanhando alterações epidemiológicas e do manejo assistencial.
O que este artigo acrescenta:
A disponibilidade da vacina reduziu a mortalidade geral, mas comorbidades como doença hepática e imunodeficiência continuaram associadas a menores chances de alta.
Fatores sociodemográficos, especificamente maior escolaridade e cor da pele branca, foram determinantes para o aumento das chances de sobrevivência em UTI.
A magnitude da associação entre comorbidades específicas (por exemplo, doença renal, cardiopatia e doença neurológica) e o desfecho na UTI (alta/óbito) variou entre os períodos, indicando heterogeneidade temporal das vulnerabilidades clínicas em pessoas idosas.
INTRODUÇÃO
A doença Covid-19, declarada como pandemia em 11 de março de 2020(1), segue como um problema de saúde pública. Apesar de o mundo ter retomado certa normalidade após o período crítico, a doença continuou a ser uma das principais causas de morte por infecções respiratórias, especialmente em pessoas idosas e crianças, acumulando mais de 7 milhões de óbitos(2). No Brasil, já foram contabilizadas mais de 716 mil mortes, com ressalva para os primeiros meses de 2025, nos quais foram registrados mais de 130 mil casos e centenas de óbitos(1).
A infecção pelo vírus causador da Covid-19 pode representar um alto risco à saúde de pessoas com idade avançada e comorbidades preexistentes, aumentando as chances de hospitalização, complicações e óbito nesta população(3). Nos Estados Unidos da América (EUA), um estudo apontou que pessoas idosas acima de 65 anos representaram 53% das admissões em Unidades de Terapia Intensiva (UTI) e 80% dos óbitos, com um aumento linear da mortalidade conforme o avanço da idade(4). No Brasil, em estudo semelhante, constatou-se um aumento no risco de morte superior a 70% em pessoas idosas admitidas em UTI e diagnosticadas com Covid-19(5).
O percentual de óbitos em pessoas idosas por Covid-19 no Brasil representou 76% no período entre fevereiro e setembro de 2020(6). O agravamento e a letalidade pela doença podem estar relacionados à presença de comorbidades, tais como hipertensão arterial, diabetes mellitus, doenças respiratórias, doenças cardiovasculares e obesidade, as quais se tornam fatores de risco para quem contrai a Covid-19(7).
Para além do risco individual, a hospitalização de pessoas idosas em UTI explicitou desafios assistenciais e organizacionais: quadros graves demandando suporte ventilatório e hemodinâmico, maior complexidade de cuidado e, em momentos de alta transmissão, pressão sobre leitos e equipes, com repercussões diretas na gestão de recursos e no processo decisório clínico(8).
Estudos recentes documentam que a sobrecarga de capacidade em cenários de escassez se associa a mudanças nas decisões relacionadas à elegibilidade para UTI, levantando implicações éticas e assistenciais(9,10). Paralelamente, mesmo quando o desfecho agudo é favorável, permanecem repercussões relevantes após a internação crítica, com impactos funcionais e necessidade de acompanhamento pós-alta, incluindo componentes da “Covid Longa”, com efeitos físicos, cognitivos e psicossociais(11). Em pessoas idosas, a literatura reforça a importância de avaliar desfechos para além da alta hospitalar, incorporando funcionalidade e qualidade de vida como dimensões centrais do cuidado(12).
Como estratégia para diminuir o avanço da doença, pesquisadores desenvolveram imunizantes para o combate às complicações e ao óbito. Com o início da vacinação no Brasil em janeiro de 2021, as pessoas idosas foram inseridas nos grupos prioritários, considerando suas vulnerabilidades e maior suscetibilidade à infecção(13). Segundo as recomendações do Ministério da Saúde, o esquema vacinal priorizou idosos com 80 anos ou mais e residentes em Instituições de Longa Permanência (ILPI)(14). Após dois meses do início da vacinação, foram registrados os primeiros resultados positivos, com queda significativa no percentual de óbitos em pessoas idosas nestas instituições(15).
Estudos publicados em 2025 sustentam que a vacinação e os reforços reduzem hospitalizações e desfechos graves, embora com evidências de atenuação da proteção ao longo do tempo, o que reforça a necessidade de monitoramento por tempo desde a última dose e por perfil de risco(16,17). Complementarmente, estudos em pacientes hospitalizados indicam associação entre vacinação e menor risco de admissão em UTI, menor mortalidade e menor tempo de internação(18,19).
Apesar dos avanços na compreensão do impacto vacinal, o conhecimento sobre os desfechos clínicos e a morbimortalidade da população idosa hospitalizada em UTI, especificamente em relação ao esquema vacinal, permanece limitado. Embora estudos existentes incluam pessoas idosas, análises detalhadas e focadas exclusivamente neste grupo são escassas.
Diante desse cenário, torna-se essencial compreender como os fatores sociodemográficos e clínicos interagem com o status vacinal para influenciar a evolução clínica de pessoas idosas com Covid-19 hospitalizadas em UTI. A escolha por realizar um estudo de associação justifica-se pela necessidade de identificar quais fatores estão relacionados a desfechos mais graves, como o óbito, mesmo após a introdução da vacinação. Com isso, é possível contribuir para o direcionamento de políticas públicas e estratégias de cuidado mais efetivas, bem como para o monitoramento da efetividade da vacinação em populações vulneráveis.
Considerando a maior suscetibilidade a complicações, admissão em UTI e óbito por Covid-19 da população idosa, bem como a eficácia da vacina na redução de hospitalizações, o objetivo deste estudo foi identificar a associação de fatores sociodemográficos e clínicos com a evolução clínica de pessoas idosas hospitalizadas em UTI no estado do Paraná, segundo a disponibilidade vacinal contra a Covid-19.
MÉTODO
Estudo observacional analítico, retrospectivo, baseado em dados secundários, vinculado à coorte “Acompanhamento Longitudinal de Adultos e Pessoas Idosas que receberam alta da internação hospitalar por Covid-19”, desenvolvido em parceria entre a Universidade Estadual de Maringá (UEM) e a Secretaria de Saúde do Estado do Paraná (SESA/PR), com apoio financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O delineamento observacional foi adotado por ser adequado à investigação de associações entre características sociodemográficas e clínicas e a evolução da hospitalização em Unidades de Terapia Intensiva (UTI) entre pessoas idosas acometidas por Covid-19, sem intervenção direta sobre os indivíduos.
A utilização de dados secundários de abrangência estadual permitiu a inclusão de um amplo contingente populacional, conferindo maior poder estatístico às análises. A abordagem analítica baseou-se na estimativa de razões de chances (odds ratios), com estratificação segundo períodos de disponibilidade da vacina contra a Covid-19, de modo a incorporar variações temporais relevantes no contexto epidemiológico e assistencial. O estudo foi realizado no estado do Paraná, que possui 399 municípios e uma população estimada de 11.675.661 habitantes, dos quais 1.927.286 correspondem a pessoas idosas, segundo projeção do DataSUS para o ano de 2020(20). As análises seguiram as recomendações da diretriz Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE)(21).
A fonte de dados sociodemográficos e clínicos foi o banco de dados do Sistema de Informação de Vigilância Epidemiológica da Gripe (SIVEP-Gripe), mantido pela Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS) do Ministério da Saúde, com atualização em 07 de novembro de 2022. Foram utilizados dados de domínio público provenientes das fichas de notificação compulsória de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), as quais não permitem a identificação individual dos pacientes(22). O recorte temporal compreendeu o período de 16 de março de 2020 a 15 de março de 2022.
A população do estudo foi composta por pessoas com 60 anos ou mais, residentes no Paraná, com diagnóstico final de Covid-19, hospitalizadas e internadas em UTI no próprio estado. Foram excluídos registros com informações ausentes nas variáveis zona de residência, escolaridade e raça/cor, bem como os casos de óbitos por causas não relacionadas à Covid-19. Do total de 23.297 registros iniciais, a amostra final compreendeu 11.918 pessoas idosas após a aplicação sistemática dos critérios de exclusão, garantindo a robustez dos resultados.
As variáveis explicativas (independentes) incluíram: faixa etária (60–74 anos; ≥75 anos), sexo (masculino; feminino), raça/cor (branca; negra/amarela/indígena), escolaridade (≤9 anos; >9 anos), zona de residência (urbana/periurbana; rural), uso de antiviral para gripe, vacinação contra gripe, presença de fatores de risco/comorbidades e uso de suporte ventilatório. Comorbidades específicas (diabetes mellitus, imunodeficiências, doenças hepática, hematológica, cardiovascular, neurológica ou renal crônicas, asma e pneumopatias) também foram analisadas individualmente. O desfecho principal (variável resposta) foi a evolução da hospitalização em UTI, categorizada como alta hospitalar (cura) ou óbito.
A variável estratificadora foi a disponibilidade temporal da vacina, categorizada em três períodos: Indisponível: 16 de março de 2020 a 18 de janeiro de 2021 (pré-vacinação); Parcialmente disponível: 19 de janeiro de 2021 a 03 de junho de 2021 (fase inicial e oferta gradual); e Disponível: 04 de junho de 2021 a 15 de março de 2022 (esquema vacinal completo disponível para a faixa etária).
Para cada variável explicativa, foram estimadas razões de chances condicionais em cada estrato de disponibilidade vacinal. A homogeneidade das razões de chances entre os estratos foi avaliada pelo teste de Breslow–Day (nível de significância de 5%). Quando a homogeneidade foi confirmada, aplicou-se o teste de Mantel-Haenszel para verificar a associação comum aos períodos. Em caso de heterogeneidade (rejeição da hipótese de Breslow-Day), utilizou-se o teste de Breslow-Day Ajustado para comparações post-hoc.
Os dados foram processados no software R (versão 4.3.2), utilizando os pacotes magrittr, dplyr e tidyverse para manipulação, e DescTools, vcd e epiDisplay para as análises estratificadas 2x2.
O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisas com Seres Humanos (Parecer 4.214.589; CAAE: 34787020.0.3001.5225), respeitando as Resoluções 466/2012 e 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde. Por utilizar dados de domínio público sem identificação, foi dispensado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).
RESULTADOS
Os dados analisados compreendem registros de uma amostra de 11.918 pessoas idosas hospitalizadas e admitidas em UTI por Covid-19 no estado do Paraná, distribuídas em três períodos de disponibilidade vacinal: indisponível (n = 4.486), parcialmente disponível (n = 4.638) e disponível (n = 2.794).
Nos três períodos analisados, a maioria das pessoas idosas admitidas em UTI pertencia à faixa etária de 60 a 74 anos, era do sexo masculino, de cor de pele branca e residia em área urbana/periurbana no mesmo município da hospitalização. Em relação à escolaridade, predominou o grupo com mais de nove anos de estudo. A maior parte da população estudada não fez uso de antiviral, não havia sido vacinada contra a gripe e apresentava algum fator de risco.
Quanto à vacinação contra a Covid-19, observou-se que, no período parcialmente disponível, a minoria das pessoas idosas admitidas em UTI estava vacinada; em contrapartida, no período disponível, a maioria dos idosos admitidos em UTI já havia recebido o imunizante, conforme detalhado na Tabela 1.
Tabela 1 – Características sociodemográficas e clínicas de pessoas idosas hospitalizadas em UTI por Covid-19 no estado do Paraná segundo esquema vacinal contra Covid-19. Maringá, PR, Brasil, 2022 (n=11.918)
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Variáveis |
Indisponível |
Parcialmente disponível |
Disponível |
|||
|
n= 4486 (37,6%) |
n= 4638 (39,0%) |
n= 2794 (23,4%) |
||||
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|
Alta (n %) |
Óbito (n %) |
Alta (n %) |
Óbito (n %) |
Alta (n %) |
Óbito (n %) |
|
Faixa etária (em anos) |
|
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|
|
|
|
|
60 a 74 |
996 (22,5) |
1697 (37,8) |
788 (17,0) |
2456 (53%) |
510 (18,3) |
1025 (36,7) |
|
75 ou mais |
430 (9,6) |
1363 (30,4) |
195 (4,2) |
1199 (25,8) |
361 (12,9) |
898 (32,1) |
|
Sexo |
|
|
|
|
|
|
|
Feminino |
641 (14,3%) |
1234 (27,5) |
477 (10,3) |
1550 (33,4) |
404 (14,5) |
848 (30,4) |
|
Masculino |
785 (17,5) |
1826 (40,7) |
506 (10,9) |
2105 (45,4) |
467 (16,7) |
1075 (38,5) |
|
Cor da pele |
|
|
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|
|
|
|
Branca |
1203 (26,8) |
2470 (55,1) |
831 (17,9) |
2990 (64,5) |
739 (26,4) |
1596 (57,1) |
|
Negra/Amarela/Indígena |
223 (4,9) |
590 (13,2) |
152 (3,3) |
665 (14,3) |
132 (4,8) |
327 (11,7) |
|
Escolaridade |
|
|
|
|
|
|
|
≤ 9 anos |
422 (9,4) |
1164 (25,9) |
254 (5,5) |
1379 (29,7) |
253 (9,1) |
741 (26,5) |
|
> 9 anos |
1004 (22,4) |
1896 (42,3) |
729 (15,7) |
2276 (49,1) |
618 (22,1) |
1182 (42,3) |
|
Zona de residência |
|
|
|
|
|
|
|
Urbana/ Periurbana |
1382 (30,8) |
2953 (65,8) |
938 (20,2) |
3467 (74,8) |
830 (29,7) |
1821 (65,2) |
|
Rural |
44 (1,0) |
107 (2,4) |
45 (1,0) |
188 (4,0) |
41 (1,5) |
102 (3,6) |
|
Reside no município de hospitalização |
||||||
|
Sim |
910 (20,3) |
1858 (41,4) |
570 (12,3) |
2206 (47,6) |
499 (17,9) |
1108 (39,7) |
|
Não |
516 (11,5) |
1202 (26,8) |
413 (8,9) |
1449 (31,2) |
372 (13,2) |
815 (29,2) |
|
Usou antiviral para gripe |
|
|
|
|
|
|
|
Sim |
223 (5,0) |
473 (10,5) |
15 (0,3) |
62 (1,3) |
7 (0,2) |
16 (0,6) |
|
Não |
1203 (26,8) |
2587 (57,7) |
968 (20,9) |
3593 (77,5) |
864 (30,9) |
1907 (68,3) |
|
Recebeu Vacina contra gripe |
|
|
|
|
|
|
|
Sim |
266 (5,9) |
565 (12,6) |
138 (3,0) |
497 (10,7) |
114 (4,1) |
249 (8,9) |
|
Não |
1160 (25,9) |
2495 (55,6) |
845 (18,2) |
3158 (68,1) |
757 (27,1) |
1674 (59,9) |
|
Recebeu Vacina contra Covid-19 |
|
|
|
|
|
|
|
Sim |
0 (0,0) |
0 (0,0) |
166 (3,6) |
704 (15,2) |
614 (22) |
1286 (46) |
|
Não |
1426 (31,8) |
3060 (68,2) |
817 (17,6) |
2951 (63,6) |
257 (9,2) |
637 (22,8) |
|
Possui fatores de risco/comorbidades |
||||||
|
Sim |
1206 (26,9) |
2701 (60,2) |
743 (16,0) |
3013 (65,0) |
711 (25,4) |
1653 (59,2) |
|
Não |
220 (4,9) |
359 (8,0) |
240 (5,2) |
642 (13,8) |
160 (5,7) |
270 (9,7) |
|
Diabetes mellitus |
|
|
|
|
|
|
|
Sim |
484 (10,8) |
1186 (26,4) |
293 (6,3) |
1234 (26,6) |
281 (10,1) |
691 (24,7) |
|
Não |
942 (21,0) |
1874 (41,8) |
690 (14,9) |
2421 (52,2) |
590 (21,1) |
1232 (44,1) |
|
Imunodeficiência/imunodepressão |
|
|
|
|
|
|
|
Sim |
26 (0,6) |
119 (2,6) |
17 (0,4) |
78 (1,7) |
21 (0,7) |
77 (2,8) |
|
Não |
1400 (31,2) |
2941 (65,6) |
966 (20,8) |
3577 (77,1) |
850 (30,4) |
1846 (66,1) |
|
Doença Hepática Crônica |
|
|
|
|
|
|
|
Sim |
14 (0,3) |
66 (1,5) |
8 (0,2) |
46 (1,0) |
8 (0,3) |
37 (1,3) |
|
Não |
1412 (31,5) |
2994 (66,7) |
975 (21,0) |
3609 (77,8) |
863 (30,9) |
1886 (67,5) |
|
Doença Hematológica Crônica |
|
|
|
|
|
|
|
Sim |
6 (0,1) |
28 (0,6) |
6 (0,1) |
41 (0,9) |
9 (0,3) |
28 (1,0) |
|
Não |
1420 (31,7) |
3032 (67,6) |
977 (21,1) |
3614 (77,9) |
862 (30,9) |
1895 (67,8) |
|
Asma |
|
|
|
|
|
|
|
Sim |
43 (1,0) |
87 (1,9) |
23 (0,5) |
86 (1,8) |
19 (0,7) |
55 (1,9) |
|
Não |
1383 (30,8) |
2973 (66,3) |
960 (20,7) |
3569 (77,0) |
852 (30,5) |
1868 (66,9) |
|
Pneumopatia Crônica |
|
|
|
|
|
|
|
Sim |
89 (2,0) |
299 (6,7) |
41 (0,9) |
229 (4,9) |
53 (1,9) |
190 (6,8) |
|
Não |
1337 (29,8) |
2761 (61,5) |
942 (20,3) |
3426 (73,9) |
818 (29,3) |
1733 (62,0) |
|
Doença Cardiovascular Crônica |
|
|
|
|
|
|
|
Sim |
803 (17,9) |
1777 (39,6) |
483 (10,4) |
1929 (41,6) |
415 (14,9) |
1084 (38,8) |
|
Não |
623 (13,9) |
1283 (28,6) |
500 (10,8) |
1726 (37,2) |
456 (16,3) |
839 (30,0) |
|
Doença Neurológica Crônica |
|
|
|
|
|
|
|
Sim |
88 (2,0) |
289 (6,4) |
54 (1,7) |
204 (4,4) |
45 (1,6) |
203 (7,3) |
|
Não |
1338 (29,8) |
2771 (61,8) |
929 (20,0) |
3451 (74,4) |
826 (29,6) |
1720 (61,6) |
|
Doença Renal Crônica |
|
|
|
|
|
|
|
Sim |
77 (1,7) |
276 (6,2) |
31 (0,7) |
216 (4,7) |
71 (2,5) |
180 (6,4) |
|
Não |
1349 (30,1) |
2784 (62,1) |
952 (20,5) |
3439 (74,1) |
800 (28,6) |
1743 (62,4) |
|
Uso Suporte ventilatório |
|
|
|
|
|
|
|
Sim |
1224 (27,3) |
2923 (65,2) |
899 (19,4) |
3552 (76,6) |
762 (27,3) |
1830 (65,5) |
|
Não |
202 (4,5) |
137 (3,0) |
84 (1,8) |
103 (2,2) |
109 (3,9) |
93 (3,3) |
Fonte: elaborado pelos autores, 2025.
A Tabela 2 apresenta a análise de associação entre variáveis sociodemográficas e clínicas e a evolução de pessoas idosas hospitalizadas em UTI por Covid-19, estratificada pelos períodos de vacinação, com base no teste de Breslow-Day.
O teste de Breslow-Day avaliou a homogeneidade das razões de chances (OR) entre os períodos. Foram observadas diferenças significativas (p<0,05) para faixa etária, cardiopatia, doença neurológica e doença renal, indicando que a magnitude da associação dessas variáveis com o desfecho variou conforme o período da vacinação.
No período de indisponibilidade da vacina, pessoas idosas de 60 a 74 anos tiveram 86% mais chances de alta hospitalar do que aquelas com 75 anos ou mais. Essa chance aumentou para 97% no período parcialmente disponível e reduziu para 24% no período com vacina disponível (p<0,05).
No que diz respeito às pessoas idosas com cardiopatias, observou-se que, enquanto a vacina não estava disponível, não houve associação significativa entre a condição e a chance de alta hospitalar (p>0,05). Durante o período parcialmente disponível, idosos com cardiopatia apresentaram 14% menos chances de alta em comparação àqueles sem essa comorbidade (p<0,05). No período em que a vacina estava disponível, essa redução na chance de alta subiu para 30% (p<0,05).
Pessoas idosas com doenças neurológicas apresentaram 37% menos chances de alta hospitalar em relação às sem essa condição no período de indisponibilidade vacinal. No período parcialmente disponível, essa redução foi de 27% (p<0,05). Já com a vacina disponível, a redução na chance de alta foi de 54% (p<0,05).
Entre idosos com doença renal, observou-se uma redução de 37% na chance de alta hospitalar quando a vacina ainda não estava disponível. Essa redução foi de 28% na fase parcialmente disponível (p<0,05). Contudo, na etapa em que a vacina já estava acessível, a associação deixou de apresentar significância estatística (p>0,05).
Tabela 2 – Fatores associados à evolução de pessoas idosas hospitalizadas em UTI por Covid-19 no estado do Paraná segundo esquema vacinal, teste de Breslow-Day (n=11.918). Maringá, PR, Brasil, 2022
|
Variáveis (n; %) |
Alta |
Óbito |
Teste Breslow-Day |
|
|
n(%) |
n(%) |
OR (IC95%) |
p-valor |
|
|
|
|
|
|
|
|
Vacina contra Covid-19: indisponível |
||||
|
Faixa etária (4486; 37.6%) |
|
|
|
|
|
60 a 74 anos |
996 (22,2) |
1697 (37,8) |
1,86 (1,62-2,13) |
<0,001 |
|
75 anos ou mais |
430 (9,6) |
1363 (30,4) |
||
|
|
|
|
|
|
|
Doença cardiovascular crônica (4486; 37.6%) |
|
|
||
|
Sim |
803 (17,9) |
1777 (39,6) |
0,93(0,81-1,05) |
0,02 |
|
Não |
623 (13,9) |
1283 (28,6) |
||
|
|
|
|
|
|
|
Doença neurológica crônica (4486; 37.6%) |
|
|
||
|
Sim |
88 (2,0) |
289 (6,4) |
0,63 (0,40-0,81) |
0,003 |
|
Não |
1338 (29,8) |
2771 (61,8) |
||
|
|
|
|
|
|
|
Doença renal crônica (4486; 37.6%) |
|
|
|
|
|
Sim |
77 (1,7) |
276 (6,2) |
0,57 (0,43-0,75) |
0,05 |
|
Não |
1349 (30,1) |
2784 (62,1) |
||
|
|
|
|
|
|
|
Vacina contra Covid-19: parcialmente disponível |
||||
|
Faixa etária (4638; 39.0%) |
|
|
|
|
|
60 a 74 anos |
788 (17,0) |
2456 (53,0) |
1,97 (1,66-2,35) |
<0.001 |
|
75 anos ou mais |
195 (4,2) |
1199 (25,8) |
||
|
|
|
|
|
|
|
Doença cardiovascular crônica (4638; 39.0%) |
|
|
||
|
Sim |
483 (10,4) |
1929 (41,6) |
0,86 (0,74-0,99) |
0.02 |
|
Não |
500 (10,8) |
1726 (37,2) |
||
|
|
|
|
|
|
|
Doenças neurológica crônica (4638; 39.0%) |
|
|
||
|
Sim |
54 (1,7) |
204 (4,4) |
0,98 (0,70-1,34) |
0.003 |
|
Não |
929 (20,0) |
3451 (74,4) |
||
|
|
|
|
|
|
|
Doença renal crônica (4638; 39.0%) |
|
|
|
|
|
Sim |
31 (0,7) |
216 (4,7) |
0,51 (0,34-0,76) |
0.05 |
|
Não |
952 (20,5) |
3439 (74,1) |
||
|
|
|
|
|
|
|
Vacina contra Covid-19: disponível |
||||
|
Faixa etária (2794; 23.4%) |
|
|
|
|
|
60 a 74 anos |
510 (18,3) |
1025 (36,7) |
1,24 (1,05-1,46) |
<0,0001 |
|
75 anos ou mais |
361 (12,9) |
898 (32,1) |
||
|
|
|
|
|
|
|
Doença cardiovascular crônica (2794; 23.4%) |
|
|
||
|
Sim |
415 (14,9) |
1084 (38,8) |
0,70 (0,59-0,83) |
0,02 |
|
Não |
456 (16,3) |
839 (30,0) |
||
|
|
|
|
|
|
|
Doenças neurológica crônica (2794; 23.4%) |
|
|
||
|
Sim |
45 (1,6) |
203 (7,3) |
0,46 (0,33-0,64) |
0,003 |
|
Não |
826 (29,6) |
1720 (61,6) |
||
|
|
|
|
|
|
|
Doença renal crônica (2794; 23.4%) |
|
|
|
|
|
Sim |
71 (2,5) |
180 (6,4) |
0,64 (0,54-1,15) |
0,05 |
|
Não |
800 (28,6) |
1743 (62,4) |
||
Fonte: elaborado pelos autores, 2025.
A Tabela 3 apresenta as variáveis para as quais o teste de Breslow-Day indicou homogeneidade nas razões de chances ao longo dos períodos de análise da vacina, permitindo o cálculo da razão de chances de Mantel-Haenszel. Esta razão foi estatisticamente significativa para sexo, cor/raça, escolaridade, fator de risco, diabetes, imunodeficiência, doença hepática, pneumopatias e uso de suporte ventilatório.
As mulheres idosas e as pessoas idosas de cor/raça branca apresentaram 20% e 22% mais chances de alta hospitalar, respectivamente, em comparação aos homens idosos e àquelas de cor/raça negra, amarela ou indígena. É importante ressaltar que sexo e cor/raça foram analisados separadamente em relação ao desfecho.
Quanto à escolaridade, pessoas idosas com menos de 9 anos de estudo tiveram 27% menos chances de alta em comparação àquelas com mais de 9 anos. Não houve significância estatística nas chances de alta para as variáveis: zona de residência (p=0,24), residência no mesmo município de hospitalização (p=0,68), uso de antivirais para gripe (p=0,99), vacinação contra gripe (p=0,73) e diagnóstico de asma (p=0,79).
Pessoas idosas com fatores de risco preexistentes tiveram 31% menos chances de alta em comparação àquelas sem nenhum risco. No entanto, o número de óbitos entre idosos com algum fator de risco no período em que a vacina não estava disponível foi cerca de 60% maior do que no período em que a vacina estava disponível.
Para pessoas idosas admitidas em UTI com comorbidades preexistentes como diabetes, imunodeficiência, doença hepática, doença hematológica e pneumopatias, as chances de alta foram menores em comparação às pessoas sem essas condições. Destacam-se, com resultados mais expressivos, os idosos com doença hepática, hematológica e imunodeficiência, que apresentaram 50%, 44% e 43% menos chances de alta, respectivamente. Pessoas idosas com diabetes e pneumopatias revelaram associação com 18% e 39% menos chances de alta, respectivamente. Por fim, pessoas idosas que fizeram uso de suporte ventilatório apresentaram 70% menos chances de alta em comparação às que não utilizaram o dispositivo.
Tabela 3 – Fatores associados à evolução de pessoas idosas hospitalizadas em UTI por Covid-19 no estado do Paraná segundo esquema vacinal contra Covid-19, teste de Breslow-Day e Mantel-Haenszel (n=11.918). Maringá, PR, Brasil, 2022
|
Variáveis |
Vacina contra Covid-19 |
Testes |
|||||||
|
Indisponível |
Parcialmente disponível |
Disponível |
Breslow-Day |
Mante-Haenszel |
|||||
|
4486 (37,6%) |
4638 (39,0%) |
2794 (23,4%) |
|||||||
|
Alta |
Óbito |
Alta |
Óbito |
Alta |
Óbito |
||||
|
n (%) |
n (%) |
n (%) |
n (%) |
n (%) |
n (%) |
p-valor |
OR (IC95%) |
p-valor |
|
|
Sexo |
|
|
|
|
|
|
|||
|
Feminino |
641 (14,3) |
1234 (27,5) |
477 (10,3) |
1550 (33,4) |
404 (14,5) |
848 (30,4) |
0,36 |
1,2 |
<0,001 |
|
Masculino |
785 (17,5) |
1826 (40,7) |
506 (10,9) |
2105 (45,4) |
467 (16,7) |
1075 (38,5) |
(1,10-1,30) |
||
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Raça/cor |
|
|
|
|
|
|
|||
|
Brancos |
1203 (26,8) |
2470 (55,1) |
831 (17,9) |
2990 (64,5) |
739 (26,4) |
1596 (57,1) |
0,7 |
1,22 |
<0,001 |
|
Negros/Amarelos/Indígenas |
223 (4,9) |
590 (13,2) |
152 (3,3) |
665 (14,3) |
132 (4,8) |
327 (11,7) |
(1,09-1,37) |
||
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Escolaridade |
|
|
|
|
|
|
|||
|
≤ 9 anos |
422 (9,4) |
1164 (25,9) |
254 (5,5) |
1379 (29,7) |
253 (9,1) |
741 (26,5) |
0,24 |
0,63 |
<0,001 |
|
> 9 anos |
1004 (22,4) |
1896 (42,3) |
729 (15,7) |
2276 (49,1) |
618 (22,1) |
1182 (42,3) |
(0,58-0,69) |
||
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Zona de residência |
|
|
|
|
|
||||
|
Urbana/ Periurbana |
1382 (30,8) |
2953 (65,8) |
938 (20,2) |
3467 (74,8) |
830 (29,7) |
1821 (65,2) |
0,99 |
1,13 |
0,24 |
|
Rural |
44 (1,0) |
107 (2,4) |
45 (1,0) |
188 (4,0) |
41 (1,5) |
102 (3,6) |
(0,92-1,39) |
||
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Reside no município de Hospitalização |
|
|
|
|
|||||
|
Sim |
910 (20,3) |
1858 (41,4) |
570 (12,3) |
2206 (47,6) |
499 (17,9) |
1108 (39,7) |
0,06 |
1,01 |
0,68 |
|
Não |
516 (11,5) |
1202 (26,8) |
413 (8,9) |
1449 (31,2) |
372 (13,2) |
815 (29,2) |
(0,93-1,10) |
||
|
|
|
|
|
|
|
|
|
||
|
Uso de antiviral para gripe |
|
|
|
|
|
|
|
||
|
Sim |
223 (5,0) |
473 (10,5) |
15 (0,3) |
62 (1,3) |
7 (0,2) |
16 (0,6) |
0,91 |
1,00 |
0,99 |
|
Não |
1203 (26,8) |
2587 (57,7) |
968 (20,9) |
3593 (77,5) |
864 (30,9) |
1907 (68,3) |
(0,84-1,18) |
||
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Vacina contra gripe |
|
|
|
|
|
||||
|
Sim |
266 (5,9) |
565 (12,6) |
138 (3,0) |
497 (10,7) |
114 (4,1) |
249 (8,9) |
0,98 |
1,02 |
0,73 |
|
Não |
1160 (25,9) |
2495 (55,6) |
845 (18,2) |
3158 (68,1) |
757 (27,1) |
1674 (59,9) |
(0,91-1,14) |
||
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Possui fatores de risco/comorbidades |
|
|
|
|
|||||
|
Sim |
1206 (26,9) |
2701 (60,2) |
743 (16,0) |
3013 (65,0) |
711 (25,4) |
1653 (59,2) |
0,67 |
0,69 |
<0,001 |
|
Não |
220 (4,9) |
359 (8,0) |
240 (5,2) |
642 (13,8) |
160 (5,7) |
270 (9,7) |
(0,62-0,78) |
||
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Diabetes Mellitus |
|
|
|
|
|
||||
|
Sim |
484 (10,8) |
1186 (26,4) |
293 (6,3) |
1234 (26,6) |
281 (10,1) |
691 (24,7) |
0,91 |
0,82 |
<0,001 |
|
Não |
942 (21,0) |
1874 (41,8) |
690 (14,9) |
2421 (52,2) |
590 (21,1) |
1232 (44,1) |
(0,75-0,90) |
||
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Imunodeficiência/imunodepressão |
|
|
|
|
|
||||
|
Sim |
26 (0,6) |
119 (2,6) |
17 (0,4) |
78 (1,7) |
21 (0,7) |
77 (2,8) |
0,26 |
0,57 |
<0,001 |
|
Não |
1400 (31,2) |
2941 (65,6) |
966 (20,8) |
3577 (77,1) |
850 (30,4) |
1846 (66,1) |
(0,43-0,75) |
||
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Doença hepática crônica |
|
|
|
|
|
||||
|
Sim |
14 (0,3) |
66 (1,5) |
8 (0,2) |
46 (1,0) |
8 (0,3) |
37 (1,3) |
0,74 |
0,5 |
<0,001 |
|
Não |
1412 (31,5) |
2994 (66,7) |
975 (21,0) |
3609 (77,8) |
863 (30,9) |
1886 (67,5) |
(0,33-0,74) |
||
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Doença hematológica crônica |
|
|
|
|
|
||||
|
Sim |
6 (0,1) |
28 (0,6) |
6 (0,1) |
41 (0,9) |
9 (0,3) |
28 (1,0) |
0,75 |
0,56 |
0,01 |
|
Não |
1420 (31,7) |
3032 (67,6) |
977 (21,1) |
3614 (77,9) |
862 (30,9) |
1895 (67,8) |
(0,35-0,91) |
||
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Asma |
|
|
|
|
|
|
|||
|
Sim |
43 (1,0) |
87 (1,9) |
23 (0,5) |
86 (1,8) |
19 (0,7) |
55 (1,9) |
0.58 |
0,95 |
0,79 |
|
Não |
1383 (30,8) |
2973 (66,3) |
960 (20,7) |
3569 (77,0) |
852 (30,5) |
1868 (66,9) |
(0,74-1,23) |
||
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Pneumopatia crônica |
|
|
|
|
|
||||
|
Sim |
89 (2,0) |
299 (6,7) |
41 (0,9) |
229 (4,9) |
53 (1,9) |
190 (6,8) |
0,91 |
0,61 |
<0,001 |
|
Não |
1337 (29,8) |
2761 (61,5) |
942 (20,3) |
3426 (73,9) |
818 (29,3) |
1733 (62,0) |
(0,52-0,72) |
||
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Suporte ventilatório |
|
|
|
|
|
||||
|
Sim |
1224 (27,3) |
2923 (65,2) |
899 (19,4) |
3552 (76,6) |
762 (27,3) |
1830 (65,5) |
0,49 |
0,3 |
<0,001 |
|
Não |
202 (4,5) |
137 (3,0) |
84 (1,8) |
103 (2,2) |
109 (3,9) |
93 (3,3) |
(0,26-0,36) |
||
Fonte: elaborado pelos autores, 2025.
DISCUSSÃO
Os resultados evidenciam a complexa interação entre a disponibilidade da vacina contra a Covid-19, os desfechos hospitalares de pessoas idosas, os fatores demográficos e as comorbidades preexistentes. A variação observada entre os períodos pré-vacinação, de implementação e de disponibilidade da vacina dialoga com evidências da literatura científica que apontam os benefícios da imunização na redução da morbimortalidade, particularmente em populações vulneráveis(15,23-24).
O rápido desenvolvimento de vacinas contra o SARS-CoV-2 e sua aplicação por meio de campanhas de vacinação em massa provaram ser estratégias altamente bem-sucedidas para mitigar os efeitos da pandemia(23). Achados de um estudo realizado em Washington (EUA) apontaram para uma diminuição significativa de hospitalizações em pessoas com 65 anos ou mais após a administração do imunizante; seis semanas após o início da vacinação, constatou-se uma queda importante nas chances de óbito neste grupo(24).
Adicionalmente, uma metanálise evidenciou que, entre pessoas idosas, receber um maior número de doses foi associado a um menor risco de infecção, hospitalização e morte em comparação com aqueles que receberam menos doses(25). Esses achados reforçam a importância da continuidade dos esquemas de reforço nessa população. Outra revisão sistemática constatou que o esquema vacinal completo ofereceu proteção de até 75% na redução da infecção sintomática, entre 63% e 80% contra hospitalização, e de 65% a 81% contra o agravamento da doença, independentemente de sexo e idade(26). Conforme observado na literatura, embora pessoas idosas apresentem uma resposta imune naturalmente diminuída, a vacinação de reforço está associada ao aumento na produção de anticorpos e à melhoria da capacidade imune geral(25,27).
Um dado relevante deste estudo é que, quando a vacina estava disponível, a chance de alta ainda era maior para idosos entre 60 e 74 anos em comparação aos de 75 anos ou mais, porém a disparidade entre essas faixas etárias reduziu para 24%. Essa atenuação da diferença pode estar associada ao plano de imunização brasileiro, que priorizou as primeiras doses para indivíduos com 80 anos ou mais(14). De acordo com a literatura, as evidências apoiam a ideia de que a vacinação continua sendo uma ferramenta vital na proteção desta população, superando as preocupações iniciais sobre a magnitude da resposta imune(28-29).
Devido à elevada taxa de letalidade entre idosos residentes em Instituições de Longa Permanência (ILPI), a imunização desse grupo foi prioridade em diversos países(14). A Covid-19 mostrou-se particularmente prejudicial para pessoas institucionalizadas devido a uma combinação de vulnerabilidades biológicas e características estruturais das instituições, como o compartilhamento de dormitórios e áreas comuns, o que dificulta o distanciamento social e o controle de transmissão(30). Nesse sentido, é imperativo implementar medidas complementares à vacinação para reduzir desfechos graves nesses ambientes(14,30,31).
Quanto aos fatores sociodemográficos, as maiores chances de alta hospitalar foram associadas à cor da pele branca, à maior escolaridade, à menor idade (dentro do grupo idoso) e ao sexo feminino. No que tange aos domínios raça/cor e escolaridade, estudos nos EUA corroboram que pessoas idosas com baixo grau de instrução e autodeclaradas negras apresentam maiores chances de desfechos negativos, refletindo desigualdades estruturais no acesso à saúde(31).
Por fim, o envelhecimento associa-se ao declínio de diferentes grupos celulares, resultando em respostas imunes mais frágeis em comparação a grupos mais jovens(23). A capacidade de resposta imunológica das pessoas idosas enfrenta os desafios impostos pela imunossenescência. Embora os imunizantes possam apresentar menor eficácia biológica nesse grupo, a literatura indica que mesmo uma única dose da vacina esteve associada a uma redução de 85% no risco de óbito nessa população, confirmando o impacto clínico positivo da intervenção(28).
Em relação ao sexo, um estudo conduzido na Turquia sobre a eficácia dos imunizantes identificou diferenças entre pessoas idosas do sexo masculino e feminino, de forma semelhante ao observado neste estudo. A administração da segunda dose da vacina Sinovac evidenciou uma redução importante nas admissões em UTI de mulheres idosas. O referido estudo também destacou que idosos com mais de uma comorbidade preexistente apresentaram menor probabilidade de desfechos favoráveis(32).
Com relação aos fatores clínicos, esta pesquisa apresentou piores desfechos para a alta hospitalar em idosos portadores de doenças crônicas, os quais possuem maior risco intrínseco de hospitalização e mortalidade(13,33). Estudo realizado na Itália mostrou que a incidência de Covid-19 entre pessoas com doenças crônicas subiu de 4,1% em 2020 para 7,3% em 2021; nesse contexto, observou-se que a probabilidade de hospitalização e óbito aumentava progressivamente em indivíduos com duas ou mais comorbidades, em comparação àqueles com apenas uma(34).
Ademais, evidências apontam que pessoas com doenças graves e debilitantes, como neoplasias, tiveram menor aceitação vacinal quando comparadas àquelas com condições menos graves, como hipertensão arterial isolada. As taxas de vacinação também foram proporcionalmente mais baixas entre pessoas com condições crônicas em comparação à população geral(34-35).
Os resultados deste estudo indicaram desfechos desfavoráveis especialmente em idosos com doenças hepáticas, hematológicas, imunodeficiência e diabetes mellitus. Estudos prospectivos demonstram que o dano hepático causado pelo SARS-CoV-2 ocorre por meio dos receptores ACE2 presentes nos hepatócitos e colangiócitos. Além de reduzir a capacidade de síntese proteica, a infecção compromete os fatores de coagulação e a reserva metabólica, fatores que interagem sinergicamente com o estado pró-trombótico característico da Covid-19(36).
Pacientes idosos com distúrbios hematológicos também constituem um grupo de alto risco. Isso decorre da imunossupressão inerente à própria doença e aos tratamentos citotóxicos, que resultam em depleção linfocitária e incapacidade de eliminação viral eficaz(15,23,25). Além disso, o vírus infecta monócitos e células endoteliais, desencadeando a “tempestade de citocinas”, linfopenia e ativação da cascata de coagulação, o que leva a tromboses e coagulação intravascular disseminada em casos graves — complicações particularmente deletérias para uma população já comprometida imunologicamente(37).
A literatura reforça que idosos com doenças hematológicas apresentam um curso clínico mais grave. Uma análise multicêntrica com 569 pacientes revelou uma taxa de mortalidade global de 29,3%, sendo que indivíduos acima de 70 anos e com comorbidades associadas apresentaram maior probabilidade de óbito(38). Tal vulnerabilidade exige estratégias de manejo clínico rigoroso, incluindo a monitorização constante de parâmetros hematológicos e planos de suporte intensivo(39,40).
Quanto ao diabetes mellitus, o aumento do risco de óbito é significativo. Os mecanismos fisiopatológicos incluem a hiperglicemia crônica, que compromete a função imune e favorece a inflamação sistêmica. Somado a isso, o SARS-CoV-2 pode afetar diretamente as células beta pancreáticas, agravando o controle glicêmico e contribuindo para a lesão orgânica(41). No entanto, análises conduzidas no Brasil demonstraram que indivíduos com diabetes totalmente vacinados apresentaram taxas significativamente menores de mortalidade hospitalar e admissões em UTI em comparação aos não vacinados, corroborando nossos achados(42).
Por fim, no que tange à imunodeficiência, dados da OMS revelam que pacientes imunocomprometidos (incluindo aqueles com câncer, transplantados e portadores de HIV) continuam com risco elevado de morte, apesar dos avanços terapêuticos(43). Embora a vacinação apresente resultados benéficos, a imunossupressão pode atenuar a resposta imunológica esperada, tornando crucial a manutenção de medidas de proteção adicionais para esses pacientes.
Com relação à necessidade de ventilação mecânica durante as internações em UTI, um estudo comparativo entre pacientes completamente vacinados, parcialmente vacinados e não vacinados, realizado com 3.293 indivíduos, apontou que os não vacinados tiveram maior probabilidade de necessitar de suporte ventilatório invasivo, uso de vasopressores e tempo de permanência em UTI mais prolongado(44). Tais dados corroboram os achados deste estudo, que evidenciou uma queda expressiva no número de admissões em UTI durante o período de disponibilidade vacinal plena, em comparação aos períodos de indisponibilidade ou implementação inicial.
De maneira geral, a vacinação contra a Covid-19 teve impacto significativo na redução da mortalidade entre pessoas com doenças crônicas cardíacas, renais, respiratórias e diabetes, ressaltando o papel da imunização na proteção desses grupos vulneráveis(34). Evidências indicam que pacientes vacinados, mesmo portadores de comorbidades, apresentaram menor risco de óbito em comparação aos não vacinados, o que posiciona a vacina como um fator protetor crucial contra a progressão da doença para estados críticos(45,46).
Os resultados enfatizam o valor do reforço vacinal contínuo em pessoas idosas. Dado o risco aumentado de quadros graves, manter altos níveis de imunidade por meio de doses regulares de reforço é essencial para proteger essa população(46). Além disso, embora condições socioeconômicas desfavoráveis atuem como indicadores de risco, estudos sugerem que o impacto direto das doenças crônicas na mortalidade por Covid-19 é mais preditivo do que o efeito indireto da pobreza(47). Isso reitera que as comorbidades permanecem como os principais determinantes para o desfecho clínico negativo.
Esta pesquisa fornece subsídios para que gestores de saúde formulem políticas públicas baseadas em evidências, permitindo que a assistência seja direcionada às características reais observadas nos dados. Destaca-se a análise estratificada organizada conforme o calendário de disponibilidade vacinal, abordagem que permitiu evidenciar a associação entre o acesso ao imunizante e a mitigação de casos graves.
As limitações deste estudo decorrem, primordialmente, de seu delineamento observacional retrospectivo e do uso de dados secundários. Tais fatores restringem inferências causais e podem introduzir vieses de informação devido à potencial incompletude ou inconsistência no preenchimento dos registros. Adicionalmente, a análise baseou-se em associações estratificadas não ajustadas simultaneamente para múltiplos fatores de confusão, o que pode resultar em confundimento residual.
É importante considerar, ainda, que a análise restrita a pacientes em UTI pode ter concentrado a amostra em indivíduos com quadros naturalmente mais críticos e maior carga de comorbidades. Por fim, o caráter regional do estudo limita a generalização dos resultados para outros contextos geográficos.
Apesar de tais limitações, os achados oferecem subsídios relevantes para a compreensão da evolução clínica de pessoas idosas em terapia intensiva. Para o avanço desta linha de pesquisa, é fundamental que investigações futuras priorizem a incorporação de dados vacinais individualizados e o uso de abordagens analíticas multivariadas. Sugere-se, ainda, a realização de estudos prospectivos que incluam variáveis de fragilidade clínica (frailty), biomarcadores de gravidade e identificação de variantes virais, permitindo uma análise mais ampla da interação entre a vacinação e a reserva fisiológica da pessoa idosa.
CONCLUSÃO
Os achados deste estudo demonstram que, entre pessoas idosas internadas em UTI por Covid-19 no estado do Paraná, fatores sociodemográficos como faixa etária entre 60 e 74 anos, sexo feminino, cor/raça branca e maior escolaridade estiveram associados a maiores chances de alta hospitalar. Em contrapartida, condições crônicas — como diabetes mellitus, imunodeficiência, doenças hepáticas e pneumopatias — e, especialmente, a necessidade de suporte ventilatório configuraram marcadores de maior risco de óbito.
A imunização mostrou-se determinante para a redução da mortalidade, ainda que idosos com múltiplas comorbidades permanecessem em maior vulnerabilidade. Esses resultados reforçam a importância de políticas públicas de vacinação voltadas a grupos prioritários e a necessidade de estratégias assistenciais complementares para aqueles com maior fragilidade clínica.
Entretanto, a interpretação desses dados deve considerar limitações inerentes ao delineamento retrospectivo e à fonte de dados secundários, que podem apresentar incompletude ou subnotificação. Além disso, a inclusão exclusiva de pacientes em terapia intensiva restringe a generalização dos resultados para idosos em unidades de enfermaria ou acompanhamento ambulatorial.
Investigações futuras devem avançar na integração de bases de dados para incorporar o histórico vacinal individual detalhado, além de variáveis clínicas específicas, como marcadores laboratoriais e indicadores de fragilidade (frailty). Tais avanços permitirão modelos analíticos multivariados mais robustos e a avaliação de interações complexas entre comorbidades e suporte ventilatório. Adicionalmente, estudos multicêntricos com seguimento pós-alta são essenciais para mensurar desfechos de longo prazo, como funcionalidade e mortalidade tardia.
O estudo destaca, por fim, o papel estratégico da Atenção Primária à Saúde e da Enfermagem na promoção da imunização e no enfrentamento da hesitação vacinal. Os achados oferecem subsídios para o aprimoramento de políticas públicas, reiterando a vacinação como medida essencial para a proteção e a evolução clínica favorável da população idosa hospitalizada por Covid-19.
CONFLITO DE INTERESSES
Os autores declaram não haver conflito de interesses.
FINANCIAMENTO
O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001; Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) por meio do Ofício Circular no 14/2020-GAB/PR/CAPES de 30 de março de 2020; Edital N. 07/2020- Chamada Universal do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC). Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico Tecnológico (CNPq). Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT). Ministério da Saúde (MS)/Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde (SCTIE)/Departamento de Ciência e Tecnologia (Decit). Processo: 402882/2020-2.
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Submissão: 08-Dez-2025
Editores:
Rosimere Ferreira Santana (ORCID: 0000-0002-4593-3715)
Geilsa Soraia Cavalcanti Valente (ORCID: 0000-0003-4488-4912)
Alessandra Conceição Leite Funchal Camacho (ORCID: 0000-0001-6600-6630)
Autor correspondente: Luiz Hiroshi Inoue (lhinoue17@gmail.com)
Editora:
Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa – UFF
Rua Dr. Celestino, 74 – Centro, CEP: 24020-091 – Niterói, RJ, Brasil
E-mail da revista: objn.cme@id.uff.br
