
ARTIGO DE REFLEXÃO
USO E ATUALIZAÇÃO DOS PROCEDIMENTOS OPERACIONAIS PADRÃO NA ENFERMAGEM HOSPITALAR: UM ESTUDO REFLEXIVO*
Remo Rodrigues Carneiro1, Maria Cristina Soares Rodrigues2, Daniela Maria Nantes Boução3
1 Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, Faculdade de Ciências da Saúde, Universidade de Brasília. Brasília, DF, Brasil. ORCID: 0000-0001-5910-4400. E-mail: remo.carneiro@gmail.com.
2 Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, Faculdade de Ciências da Saúde, Universidade de Brasília. Brasília, DF, Brasil. ORCID: 0000-0003-0206-4238. E-mail: mcsoares@unb.br.
3 Programa de Programa de Pós-Graduação em Enfermagem na Saúde do Adulto, Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil. ORCID: 0000-0002-2888-232X. E-mail: daniboucao@gmail.com.
RESUMO
Objetivo: Apresentar uma reflexão sobre os processos de uso e atualização dos procedimentos operacionais padrão na assistência de Enfermagem no contexto hospitalar. Método: Estudo de reflexão crítico-analítico, fundamentado em revisão de literatura científica e nas experiências profissionais dos autores, articulando evidências disponíveis e vivências acadêmicas e assistenciais na área da Enfermagem hospitalar. Resultados: A análise evidenciou que, embora os procedimentos operacionais padrão sejam reconhecidos como instrumentos essenciais para padronizar práticas assistenciais e promover a segurança do paciente, qualificando o cuidado, sua utilização no cotidiano ainda enfrenta barreiras estruturais, operacionais e culturais. Observou-se, também, a inexistência de processos sistematizados de atualização, o que pode comprometer a adequação contínua às melhores evidências científicas e à realidade das instituições de saúde. Além disso, identificaram-se fatores limitantes, como dificuldades de acesso aos protocolos, insuficiência de treinamentos, sobrecarga de trabalho e desinteresse profissional. Conclusão: A efetividade dos procedimentos operacionais padrão depende da criação de estratégias de acesso facilitado, da implementação de ações de educação permanente e da sistematização de processos de atualização participativa. Esta reflexão contribui ao propor recomendações dirigidas a diferentes atores envolvidos nos processos de sua utilização e atualização e, assim, promover práticas seguras e de qualidade na assistência de Enfermagem.
Descritores: Enfermagem; Segurança do Paciente; Protocolos Clínicos; Qualidade da Assistência à Saúde; Educação Permanente em Enfermagem.
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Como citar: Carneiro RR, Rodrigues MCS, Boução DMN. Use and updating of standard operating procedures in Hospital Nursing: a reflective study. Online Braz J Nurs. 2026;25(1):e20266840. http://doi.org/10.17665/1676-4285.20266840 |
O que já se sabe:
Os Procedimentos Operacionais Padrão (POPs) são instrumentos fundamentais para a padronização de práticas, a melhoria da segurança no cuidado prestado e a qualidade da assistência de Enfermagem.
Apesar de institucionalizados, os POPs apresentam baixa adesão na prática cotidiana da Enfermagem.
O que este artigo acrescenta:
Evidencia barreiras estruturais, operacionais e culturais que limitam o uso efetivo dos POPs.
Identifica que não há modelos sistematizados de atualização contínua dos POPs descritos na literatura.
Propõe recomendações para um modelo participativo e contínuo de uso e atualização dos POPs, oferecendo subsídios práticos e reflexivos para os atores envolvidos nos processos.
INTRODUÇÃO
A padronização de práticas constitui um elemento central da gestão do cuidado em saúde, especialmente no contexto hospitalar, onde predominam a realização de procedimentos diagnósticos e terapêuticos, bem como tarefas repetitivas com elevada complexidade assistencial, executadas por múltiplas categorias profissionais(1). Nesse contexto, os Procedimentos Operacionais Padrão (POPs) emergem como instrumentos assistenciais e gerenciais, com interface educacional, destinados a orientar, sistematizar e qualificar a prática profissional, contribuindo para a qualidade e segurança do paciente, bem como para a redução da variabilidade indesejada do cuidado.
Os POPs são instrumentos amplamente utilizados na Enfermagem hospitalar, assumindo papel estratégico ao descrever, de forma estruturada, as etapas necessárias para a execução segura de procedimentos, alinhando-se às melhores evidências científicas disponíveis, às normativas institucionais e às exigências regulatórias(2,3). Enquanto tecnologia de saúde, observa-se que esses instrumentos são mais que documentos normativos, pois integram processos dentro da organização que envolvem etapas de criação, implementação, uso e atualização contínuos, sendo diretamente influenciados por condições estruturais, operacionais e culturais das instituições de saúde.
Embora amplamente institucionalizados nos serviços hospitalares, estudos apontam desafios significativos quanto à adesão dos profissionais de Enfermagem ao uso dos POPs em sua prática cotidiana(4-8). A literatura analisada evidencia a existência de barreiras que necessitam ser debatidas e superadas, como limitações no acesso aos documentos, inadequação entre o conteúdo dos protocolos e os recursos disponíveis, sobrecarga de trabalho, fragilidades nos processos de educação permanente e aspectos culturais relacionados à resistência à mudança. Entretanto, mais do que afirmar a “baixa utilização” dos POPs, observa-se uma escassez de estudos que avaliem de forma sistemática a implementação e o uso efetivo desses instrumentos no cotidiano assistencial, limitando a compreensão do seu real impacto na prática.
Outra lacuna identificada na produção científica sobre a temática refere-se à ausência de modelos sistematizados de revisão e atualização de POPs, sobretudo que incorporem abordagens participativas dos criadores e utilizadores dessa ferramenta e considerem, de forma integrada, evidências científicas emergentes, expertise profissional e a realidade operacional de cada instituição. Ressalta-se, também, que a atualização dos POPs, quando abordada nos estudos, é tratada de maneira pontual e pouco fundamentada, o que pode resultar em protocolos desatualizados e/ou distantes das reais necessidades do cuidado.
Diante desse cenário, torna-se relevante ampliar a reflexão sobre os processos de uso e atualização dos POPs na assistência de Enfermagem hospitalar, para além da sua concepção normativa, problematizando-os como tecnologias vivas inseridas em sistemas organizacionais complexos. Para esse fim, desenvolveu-se uma análise crítica e analítica da temática em tela, sustentada pela literatura científica e normativa disponível, articulada às vivências acadêmicas e à experiência profissional dos autores, buscando contribuir para o aprofundamento do debate e a construção de diretrizes reflexivas que possam dar subsídios a práticas assistenciais mais seguras.
MÉTODO
Trata-se de um estudo de reflexão crítico-analítico, de natureza qualitativa, fundamentado na pesquisa teórica desenvolvida na tese de doutorado do autor principal, conduzida entre 2021 e 2025(9). As publicações analisadas foram predominantemente aquelas utilizadas no percurso teórico da tese, complementadas, quando necessário, por referências adicionais relevantes para o aprofundamento conceitual e contextual da temática. Esse percurso investigativo de quatro anos possibilitou a identificação de lacunas e peculiaridades na literatura sobre os POPs, que serviram como base teórica e conceitual para as reflexões aqui apresentadas. A análise interpretativa da literatura científica e normativa, nacional e internacional, foi complementada pela expertise profissional dos autores nas áreas de segurança do paciente, assistência de Enfermagem hospitalar e gestão do cuidado, permitindo a articulação entre evidências científicas, normativas da prática e vivências acumuladas nos campos acadêmico e assistencial.
A construção da reflexão encontra base na seleção de estudos que seguiram critérios de relevância científica, atualidade e pertinência temática. Priorizou-se a inclusão de publicações dos últimos cinco anos; entretanto, algumas referências consideradas clássicas foram mantidas por sua relevância consagrada e pioneirismo na consolidação conceitual dos POPs e da padronização do trabalho em Enfermagem. As fontes consultadas incluem bases de dados nacionais e internacionais reconhecidas na área da saúde, bem como documentos normativos e institucionais relacionados à qualidade da assistência e à segurança do paciente.
A análise consistiu em: 1) leitura aprofundada e sistematizada dos materiais selecionados e 2) organização temática dos conteúdos. A partir desse processo, foi possível identificar convergências, lacunas e dificuldades relacionadas ao processo de criação, uso e atualização dos POPs, o que originou os eixos reflexivos que estruturam o desenvolvimento do artigo, permitindo a análise crítica das potencialidades, barreiras e desafios associados à utilização desses instrumentos na prática assistencial.
Destarte, propõe-se refletir, neste artigo, sobre o uso e a atualização dessa tecnologia em saúde como estratégia para compreender e potencializar sua contribuição para as práticas cotidianas, promovendo, assim, seu aperfeiçoamento contínuo.
Promovendo a qualidade do cuidado e a segurança do paciente
A qualidade do cuidado em saúde e a segurança do paciente consolidaram-se, nas últimas décadas, como preocupações permanentes nas instituições de saúde, assumindo relevância significativa tanto para os usuários quanto para os profissionais. Esses temas, cada vez mais presentes nas discussões relacionadas à saúde pública e à gestão hospitalar, demandam transformações importantes na formação(8,11) e na atuação dos trabalhadores de saúde, de modo a alinhar competências, práticas e recursos disponíveis às necessidades contemporâneas(10-12).
Nesse sentido, a qualidade do cuidado em saúde pode ser entendida como o resultado da integração entre conhecimentos científicos atualizados, o uso adequado das tecnologias e condições organizacionais favoráveis à prática profissional. A segurança do paciente, por sua vez, refere-se a um conjunto de ações que ultrapassam a dimensão técnica do cuidado, englobando culturas (de segurança e qualidade), processos de trabalho, procedimentos, comportamentos, tecnologias, educação permanente e ambientes assistenciais seguros. Trata-se, portanto, de um constructo coletivo e sistêmico que, quando implementado de forma consistente e sustentável, reduz riscos e previne danos evitáveis. Essas ações tornam os erros em saúde menos prováveis ou, ainda, mitigam seus impactos quando um evento adverso ocorre(12-13).
Para alcançar padrões elevados de excelência e segurança, torna-se imprescindível o uso de ferramentas que orientem e uniformizem a prática profissional hospitalar. Nesse contexto, os programas de certificação (amplamente almejados pelas instituições) reconhecem como requisito essencial a elaboração de manuais de trabalho. A nomenclatura desses instrumentos pode variar de acordo com a fonte consultada: manuais de rotinas, normas, procedimentos, técnicas, processos ou, ainda, procedimentos operacionais padrão. Independentemente do nome adotado, sua função central é padronizar e orientar as ações para minimizar os riscos de eventos adversos, promovendo a qualidade, otimizando recursos e contribuindo para a segurança e a satisfação do paciente.
Dessa forma, os POPs se destacam como um instrumento fundamental para a prestação de uma assistência de Enfermagem sistematizada. Quando articulados ao Processo de Enfermagem, permitem organizar o trabalho profissional quanto ao método, à distribuição de responsabilidades e ao uso de recursos disponíveis institucionalmente.
Em síntese, a padronização de processos, procedimentos e práticas, embasada em evidências científicas e operacionalizada por meio de protocolos, checklists, diretrizes e regulamentações, é amplamente reconhecida na literatura como um componente essencial para a gestão de riscos, a prevenção de eventos adversos e a melhoria da segurança do paciente(13). Entretanto, a literatura também aponta que a existência formal dos POPs, por si só, não garante melhorias na assistência; sua efetividade está condicionada a fatores institucionais, organizacionais e culturais, como a disponibilidade de recursos compatíveis com o descrito nessas ferramentas, o acesso facilitado aos documentos, a integração com processos de educação permanente e o engajamento das equipes.
Produção científica sobre o uso de procedimentos operacionais padrão
A produção científica sobre os POPs na área da Enfermagem revela um campo em consolidação. Embora, na contemporaneidade, sejam amplamente utilizados nos serviços de saúde, sua origem remonta à ciência da Administração, tendo sido desenvolvidos na década de 1940 como ferramentas de padronização de processos industriais. Assim, consolidaram-se como instrumentos centrais da Total Quality Management (TQM), voltada à excelência de produtos, serviços e procedimentos(3).
No âmbito da Enfermagem, entretanto, não há registros precisos sobre quando esses recursos foram incorporados ao campo assistencial. Autores clássicos da área da Administração e da Gestão em Enfermagem, como Idalberto Chiavenato e Paulina Kurcgant, já descreviam, entre as décadas de 1980 e 1990, a utilização de manuais e rotinas como estratégias de organização do trabalho, mas também os associavam à burocratização da prática. Essa trajetória contribuiu para que os POPs fossem, por vezes, percebidos mais como exigências administrativas do que como ferramentas de apoio à prática assistencial, o que repercute ainda hoje na sua apropriação crítica pelas equipes de Enfermagem.
De maneira sintética e interpretativa, estudos(1,2,4-13) apontam que os POPs devem apresentar cinco características essenciais: serem acessíveis, claros, explicativos, atualizados e coerentes com a realidade institucional no que se refere à disponibilidade de recursos e insumos.
Avançando para a análise conceitual, observa-se que a literatura científica apresenta diferentes classificações para os POPs, compreendendo-os como tecnologias assistenciais, gerenciais, educacionais ou cuidativo-educacionais, com o intuito de adequar os procedimentos padronizados aos diversos contextos de aplicação(14). Independentemente da nomenclatura, há consenso de que compreender seus processos de criação, implementação e, principalmente, atualização é essencial para aprimorar a prática e o ensino em Enfermagem. Assim, os POPs devem ser entendidos não como uma finalidade em si, mas como recurso de apoio ao trabalho e ao ensino, capazes de ampliar a segurança sem substituir a efetividade da interação humana(8,9,14,15).
Nessa perspectiva, estudos(4-8,13,16,17) com diferentes abordagens metodológicas evidenciam que o uso de POPs na Enfermagem ainda enfrenta obstáculos significativos, que comprometem sua efetividade e adoção cotidiana. Essas barreiras podem ser organizadas em três dimensões: estruturais, operacionais e culturais, conforme sintetizado no Quadro 1, o que favorece uma visão mais clara e sistematizada dos principais entraves identificados.
Quadro 1 – Principais barreiras para utilização de procedimentos operacionais padrão. Brasília, DF, Brasil, 2026
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Dimensões |
Principais Barreiras |
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Estruturais |
Acesso limitado aos documentos (formato físico ou digital); indisponibilidade de insumos descritos nos POPs; falta de equipamentos adequados ou tecnologias de suporte. |
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Operacionais |
Escassez de tempo para consulta; dimensionamento inadequado de pessoal; sobrecarga de trabalho; defasagem de conteúdos; insuficiência ou ausência de ações de educação permanente e treinamentos específicos. |
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Culturais |
Baixo engajamento profissional; persistência de práticas baseadas na tradição em detrimento da evidência; baixa conscientização sobre a importância da padronização; falta de incentivo da gestão; busca por facilitação de processos em prejuízo da segurança. |
Fonte: elaborado pelos autores, 2026.
Dessa forma, como sintetizado no Quadro 1, compreende-se que, embora os POPs sejam reconhecidos como instrumentos fundamentais para a padronização e a segurança da assistência de Enfermagem, sua implementação e utilização efetiva ainda enfrentam barreiras diversas. Superar esses desafios requer não apenas a atualização constante do conteúdo e a adequação à realidade institucional, mas também o desenvolvimento de estratégias de sensibilização, ações efetivas de educação permanente e a integração dos profissionais, de modo que os procedimentos deixem de ser apenas documentos formais — exigidos por órgãos fiscalizadores e empresas de acreditação — e passem a ser ferramentas vivas no cotidiano assistencial, construídas de maneira colaborativa.
Processos de revisão e atualização dos procedimentos operacionais padrão
A análise de diferentes estudos e metodologias de produção de conhecimento sobre POPs(1-11,14,17) permite identificar que esses instrumentos geralmente percorrem um ciclo composto por três grandes etapas: criação, implementação e revisão/atualização. Embora essa divisão não seja amplamente teorizada na literatura, ela se mostra útil para refletir sobre o tema e compreender os aspectos relevantes existentes em cada fase.
Na etapa de criação, observa-se que a maioria das pesquisas publicadas descreve um percurso composto por duas fases centrais: (a) identificação de uma necessidade específica que justifique a criação de um POP; e (b) construção e avaliação metodológica do instrumento. Essa etapa é, em geral, a mais detalhada na literatura, o que evidencia a preocupação com o rigor acadêmico de criação, mas também revela um desequilíbrio na atenção dispensada às etapas subsequentes do ciclo de vida dos POPs.
A etapa de implementação, por sua vez, é frequentemente abordada de forma superficial nas pesquisas consultadas. Muitos estudos limitam-se a afirmar que o POP foi implementado e disponibilizado à equipe assistencial, sem esclarecer como foi realizado esse processo e sem indicar se houve acompanhamento para avaliar, por meio de indicadores, a adesão ou a compreensão do conteúdo. Poucos estudos descrevem o desenvolvimento de ações educativas ou análises experimentais para verificar a efetividade do POP frente às práticas baseadas em evidências. Essa ausência de detalhamento levanta questões sobre o real impacto da implementação e sobre possíveis lacunas entre o protocolo institucionalizado e a aplicação no cotidiano assistencial.
Por fim, a revisão e atualização dos POPs surge como a etapa menos explorada nos estudos. Apenas duas pesquisas(5,11) mencionam um período temporal para atualização desses instrumentos, variando de seis meses a um ano, “quando necessário” ou “quando houver mudança na técnica”, com um limite máximo de dois anos. Além disso, não apresentam justificativas para a escolha desses intervalos, tampouco propõem um modelo sistematizado para operacionalizar esse processo. Essa ausência de sistematização pode resultar na permanência de protocolos defasados, incoerentes com as melhores evidências ou desatualizados frente às mudanças tecnológicas e organizacionais.
Refletir sobre esse cenário nos leva à compreensão de que, para uma prática segura e de qualidade, deve-se utilizar a melhor e mais atual informação científica disponível, aliando-a à expertise profissional e à realidade de cada instituição. Assim, a atualização dos POPs não deve ser tratada como uma tarefa pontual ou burocrática, mas como um ciclo contínuo e dinâmico, no qual o que foi implementado inicialmente — mesmo que metodologicamente rigoroso — acompanhe os constantes avanços das ciências da saúde. Esse ciclo de atualização deve ser sistematizado, dinâmico e participativo, com fases bem definidas, não devendo apresentar um intervalo excessivo para sua conclusão, ainda que o POP tenha sido criado e avaliado originalmente por uma metodologia confiável.
Recomendações à prática
A partir da reflexão crítica apresentada ao longo deste estudo e considerando a necessidade de superar as barreiras estruturais, operacionais e culturais identificadas, visando qualificar a elaboração, atualização e aplicação dos POPs na assistência de Enfermagem hospitalar, propõe-se um conjunto de recomendações dirigidas aos distintos atores envolvidos nas diferentes fases do ciclo de vida desses instrumentos. As recomendações foram elaboradas com o propósito de fortalecer a efetividade dos POPs como tecnologias de apoio à prática assistencial, à gestão do cuidado e à educação permanente, superando a lógica de responsabilização individual e reconhecendo a centralidade das condições organizacionais para a utilização cotidiana.
As recomendações foram organizadas em dois eixos complementares: uso e atualização. Cada eixo contempla gestores e lideranças institucionais, equipes de Enfermagem e atores vinculados à formação e à educação permanente, conforme sintetizado no Quadro 2.
Quadro 2 – Recomendações para a melhoria do uso e atualização de procedimentos operacionais padrão na assistência de Enfermagem. Brasília, DF, Brasil, 2026
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Atores |
Recomendações |
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Uso |
Atualização |
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Gestores e Líderes |
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Equipe de Enfermagem |
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Educadores e Preceptores |
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Legenda: POPs (Procedimentos Operacionais Padrão); NQSP (Núcleo de Qualidade e Segurança do Paciente).
Fonte: elaborado pelos autores, 2026.
Quanto ao uso dos POPs, ressalta-se o papel e a responsabilidade estratégica dos gestores e líderes na viabilização de recursos estruturais favoráveis à incorporação desses instrumentos no cotidiano assistencial. As recomendações à equipe de Enfermagem, por sua vez, são direcionadas à participação ativa nos processos relacionados aos protocolos, como forma de reconhecer sua experiência prática no aperfeiçoamento das diretrizes. No âmbito da formação e da educação permanente, educadores e preceptores desempenham papel fundamental na consolidação do uso efetivo dos POPs, promovendo sinergia entre o ensino e a prática assistencial.
Em relação à atualização, enfatiza-se a necessidade de institucionalizar processos sistematizados, periódicos e participativos. Recomenda-se a criação de grupos interdisciplinares de revisão, integrando gestores, enfermeiros assistenciais, técnicos de Enfermagem, educadores, preceptores e representantes dos Núcleos de Qualidade e Segurança do Paciente (NQSP). Esses grupos devem dispor de tempo e recursos para realizar as atividades de revisão, evitando que as atualizações sejam conduzidas de maneira pontual, desarticulada da rotina ou sem os devidos incentivos.
Nessa ótica, a periodicidade de atualização deve ser flexível e considerar as especificidades institucionais, a natureza do procedimento e a necessidade de incorporação de novas evidências científicas e tecnológicas. Deve-se, ainda, assegurar que o processo seja contínuo, responsivo às mudanças da prática e apoiado em fluxos institucionais claros, com responsabilidades compartilhadas entre os atores envolvidos e os grupos interdisciplinares constituídos.
Dessa forma, a implementação dessas recomendações de maneira colaborativa entre gestores, equipe assistencial e educadores pode revelar o potencial transformador dos POPs, elevando-os de meros documentos formais a ferramentas dinâmicas e incorporadas ao cotidiano do cuidado. Essa transformação constitui um passo fundamental para consolidar a cultura de segurança do paciente, além de promover a qualificação contínua da equipe a partir do fortalecimento da educação permanente.
CONCLUSÃO
Diante das recomendações apresentadas, reconhece-se que o POP tem se consolidado nos diferentes espaços de atuação da Enfermagem, apresentando etapas de concepção e criação bem delineadas. Entretanto, sua implementação ainda enfrenta barreiras operacionais, e inexiste um método sistematizado de atualização que assegure, de fato, uma prática alinhada às melhores evidências disponíveis.
A escassez de estudos sobre a implementação e o uso efetivo dos POPs no cotidiano assistencial, evidenciada na literatura, aponta para a necessidade de ampliar o acesso aos documentos e promover a participação ativa dos profissionais em cada etapa de seu ciclo de vida. Propõe-se, portanto, o desenvolvimento de um modelo de revisão que contemple enfermeiros, técnicos, preceptores e acadêmicos, garantindo que o protocolo reflita tanto o conhecimento científico quanto a realidade operacional das instituições.
Além disso, reforça-se a importância de as organizações fortalecerem as ações de educação permanente e investirem em tecnologias acessíveis e interativas, capazes de aproximar os profissionais dos núcleos de qualidade. Tais estratégias podem favorecer o engajamento das equipes e consolidar práticas assistenciais mais seguras e sustentáveis.
Entretanto, por se tratar de uma reflexão crítico-analítica, este estudo não apresenta resultados empíricos nem permite generalizações. Sua construção pautou-se na literatura disponível e na experiência dos autores, o que pode implicar vieses interpretativos. A ausência de modelos prévios de atualização limita a comparação entre diferentes propostas, o que reforça a necessidade de futuras investigações empíricas em cenários reais.
Este estudo contribui ao evidenciar lacunas práticas e conceituais, propondo diretrizes que articulam evidências e experiências. As reflexões oferecem subsídios para que gestores criem fluxos institucionais, educadores incluam o tema nos currículos e profissionais de Enfermagem fortaleçam a prática baseada em evidências, ampliando o debate sobre a segurança do paciente.
*Artigo extraído da tese de Doutorado intitulada “Aplicativo Mobile e Diagrama de Atualização para Procedimentos Operacionais Padrão em Enfermagem: soluções tecnológicas fundamentadas em usabilidade heurística e design participativo”, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade de Brasília, Brasília, DF, Brasil, no ano de 2025.
CONFLITO DE INTERESSES
Os autores declaram não haver conflito de interesses.
FINANCIAMENTO
O presente trabalho foi realizado com apoio do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade de Brasília – Brasil – Edital Interno nº 001/2024 [PROCESSO SEI nº 23106.067023/2024-05].
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Submissão: 25-Nov-2025
Aprovado: 09-Fev-2026
Editores:
Rosimere Ferreira Santana (ORCID: 0000-0002-4593-3715)
Geilsa Soraia Cavalcanti Valente (ORCID: 0000-0003-4488-4912)
Maithê de Carvalho e Lemos Goulart (ORCID: 0000-0003-2764-5290)
Autor correspondente: Remo Rodrigues Carneiro (remo.carneiro@gmail.com)
Editora:
Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa – UFF
Rua Dr. Celestino, 74 – Centro, CEP: 24020-091 – Niterói, RJ, Brasil
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