The impact of noise for the nursing workers health and the work process 

As repercussões do ruído para a saúde do trabalhador de enfermagem e o processo de trabalho

 Elias Barbosa Oliveira 1, Marcia Tereza Luz Lisboa 2

1 UERJ; 2 UFRJ

 ABSTRACT. Descriptive study with qualitative approach designed to analyse the impact of environment noise on the nursing staff and on work process. Twenty-five members of nursing staff of an intensive therapy center at a university hospital in Niteroi (RJ). participated in the study. For data collection, semi-structured interview was used. Data were analyzed   by means of content analysis. As results the workers referred as main source of noise the lack of preventive maintenance of the machines and skills do deal with them. They reported that the noise disturbed, stressed them and led to mistakes and accidents. Therefore, preventive actions and changes need to be implemented by the organization so that it could improve the work environment. Nursing staff members have an important role in helping the organization managers to set a healthier work environment. 

Key words : nursing; noise; occupational health; mental health.

 RESUMO: Estudo descritivo com abordagem qualitativa que objetivou analisar as repercussões do ruído para a saúde dos trabalhadores de enfermagem e para o processo de trabalho. Utilizou-se a entrevista com roteiro, tendo participado 25 trabalhadores de enfermagem do CTI de um hospital universitário situado no município de Niterói (RJ). Resultados: os trabalhadores referiram como principais fatores que contribuem para o ruído no CTI a não manutenção preventiva dos aparelhos conectados aos pacientes e a ausência de treinamento do grupo para lidar com os mesmos. O ruído gera incômodo, irrita, desgasta e estressa os trabalhadores interferindo no processo de trabalho por acentuar o esforço mental e físico na realização das tarefas e expor o grupo a erros e acidentes. Cabe à organização investir em ações preventivas a partir dos problemas relatados pelos trabalhadores no intuito de promover a saúde física e mental do grupo e motivar a participação na tomada de decisões que revertam em melhoria das condições de trabalho.    

Palavras-chave: enfermagem; ruído; saúde do trabalhador; saúde mental.

 CONSIDERAÇÕES INICIAIS

Com o advento da Revolução Industrial, ocorrido inicialmente na Inglaterra na segunda metade do século XVIII, e mais tardiamente na Alemanha, na segunda metade do século XIX, pudemos constatar um desenvolvimento tecnológico sem precedentes na história da civilização. As mudanças que se operaram com a introdução da máquina marcaram de modo peculiar a relação do homem com o trabalho e significaram, sobretudo, uma revolução nos mais diversos campos, tendo como conseqüências significativas repercussões nas esferas social, política e econômica, bem como na relação do homem com o meio.

Deste modo, a presença da tecnologia imprime uma existência calcada em modelos de desenvolvimento díspares, que vão de centros urbanos, onde se concentram tecnologias de ponta e aqueles tipicamente rurais. O avanço da cibernética e, conseqüentemente, da informática, trouxe para este século contribuições inestimáveis para as áreas de comunicação, saúde e educação, expandindo as fronteiras do conhecimento e ao mesmo tempo estabelecendo uma nova ordem mundial.

A concentração de tecnologias como siderúrgicas, linhas de montagem, indústrias petroquímicas, construção civil e outras, ao mesmo tempo em que impulsionou o desenvolvimento das cidades, acarretou problemas como a poluição ambiental e dentre elas a poluição sonora que afeta de modo peculiar a saúde do homem.

Deste modo, tratar do tema ruído e as repercussões na saúde, não apenas auditiva e buscar formas de estabelecer controle, tem sido objeto de crescentes estudos e preocupações no campo da saúde pública, da fisiologia, da acústica e da engenharia1.

       Apesar de o ruído ser reconhecido há muito tempo como agente nocivo à saúde, com o avanço progressivo da industrialização, os problemas decorrentes deste agente foram mais conhecidos socialmente, tornando-se objeto de progressiva atenção da saúde pública. No entanto, a cronicidade dos efeitos (são necessários vários anos para manifestação da surdez) e a dificuldade de estabelecer correlações diretas com outras doenças (hipertensão, estresse, aumento do número de acidentes), fazem do ruído um agente reconhecível, porém, com repercussões pouco visíveis para a saúde da maioria dos trabalhadores2.

Entre todos os fatores ou agentes que se constituem em risco ocupacional, certamente o ruído aparece como o mais freqüente, o mais universalmente distribuído e, portanto, expondo o mais elevado número de trabalhadores3.

O ruído além de levar a perdas da audição, também conduz a perturbação na capacidade de concentração, dificuldade na compreensão da fala, perturbação do sono e incômodo. Outros efeitos podem se constatados como: taquicardia, contração dos vasos da pele, aumento das trocas gasosas, redução das atividades dos órgãos digestivos e aumento da tensão da musculatura. Em situações de trabalho, em que é necessário um maior nível de atenção, ocorrem perdas no rendimento nas tarefas mentais complexas ou em outras que exigem habilidade, ou onde há necessidade de tratamento de muitas informações4.

Na área hospitalar, e em especial em unidades como os Centros de Terapia Intensiva (CTI), os trabalhadores de enfermagem encontram-se mais susceptíveis aos efeitos nocivos do ruído, pois executam um trabalho que exige concentração, compreensão da fala, e interpretação de sons provenientes de aparelhos conectados aos pacientes que demandam esforço mental e físico. Como agravante desta situação há de se considerar os ruídos provenientes da manipulação de objetos, das conversas e do andar das pessoas5.

A partir desta problemática, os objetivos que nos propomos com o estudo foram analisar as repercussões do ruído para a saúde dos trabalhadores de enfermagem e para o processo de trabalho em um CTI. 

DESENVOLVIMENTO

Os termos som e ruído são freqüentemente utilizados indiferenciadamente, mas som é referido para as sensações prazerosas como música ou fala, ao passo que ruído é usado para descrever um som indesejável como: buzina, explosão, barulho de trânsito e máquinas. No entanto, dependendo da freqüência e da intensidade, os sons em algumas situações podem se transformar em ruídos, ou seja, perturbadores e indesejáveis como o choro de uma criança, a fala das pessoas e até mesmo uma música, quando tocada repetidamente e em altos decibéis3.

Trata-se do incômodo, outra forma de doença pouco conhecida ou valorizada, até por sua forte matriz subjetiva; um efeito não comprovado cientificamente, subjetivo e altamente dependente do comportamento Assim, o incômodo percebido pode ser identificado e avaliado tão objetivamente quanto os sintomas e sinais somáticos, pelo menos em nível de grupo, sendo relevante ratificar que os incômodos percebidos diminuem a qualidade de vida dos trabalhadores. Na origem do incômodo, estão estímulos físicos desagradáveis como o ruído excessivo. Assim, o incômodo é um efeito adverso à saúde capaz de provocar, promover, facilitar ou exacerbar uma anormalidade estrutural e ou funcional, com implicação de que a anormalidade tem potencial de abaixar a qualidade de vida, causar doença incapacitante, ou levar a morte prematura6.

Portanto, o ruído segundo as Normas Regulamentadoras7 (NR) é prejudicial a saúde a partir de 85 dBA (decibéis medidos na escala A do aparelho medidor da pressão sonora) para uma exposição máxima de 8 horas por dia de trabalho. Dentre as NR aprovadas, o Ministério do Trabalho dispõe de quatro Normas que, de alguma forma, tratam de ruído e vibrações: NR6 – Equipamento de Proteção Individual (EPI); NR7 – Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional (PCMSO); NR15 – Atividades e Operações Insalubres e NR17 – Ergonomia (item 17.5.2).  

O ato mais recente sobre ruído é a Resolução n° 001de 08 de março de 1990, do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA)8. Esta Resolução adota os padrões estabelecidos pela Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT e pela Norma Brasileira de Registro9 – NBR 10151 de junho de 2000 que, dispõe sobre os níveis aceitáveis de ruídos para fins de avaliação em áreas habitadas, visando o conforto da comunidade.

Nos hospitais, os decibéis permitidos segundo a NBR 10151 são: apartamentos, enfermarias, berçários e centros cirúrgicos (de 35 a 45 dB); laboratórios, áreas para uso público (40 a 50 dB) e Serviços (45 a 55 dB).

O nível de intensidade sonora se expressa habitualmente em decibéis (dB) e é apurado com a utilização de um aparelho chamado decibelímetro. Deve-se atentar para a fonte, sua intensidade e sua freqüência, que pode ser do tipo contínuo, descontínuo ou intermitente, de baixa ou alta intensidade. A sua importância como risco deve-se ao fato de que quanto maior a intensidade do ruído e o tempo de exposição, maiores serão os danos para a saúde do indivíduo, sendo imprescindível o intervalo (pausa) entre as exposições de modo a minimizar seus efeitos deletérios1.

Assim, a participação dos trabalhadores na discussão das medidas de controle do ruído é relevante, não apenas por razões de natureza democrática, mas porque eles podem desempenhar papel determinante no monitoramento ambiental, na identificação de problemas e soluções10.  

MATERIAIS E MÉTODOS

Trata-se de um estudo que resultou de um recorte de tese5 de caráter descritivo com abordagem qualitativa, que permite desvelar processos sociais ainda pouco conhecidos, grupos particulares e expectativas sociais em alto grau de complexidade11.

O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Universitário Antônio Pedro da Universidade Federal Fluminense e protocolado no Comitê Nacional de Ética em Pesquisa com o  numero 27/03. Em atendimento a Resolução 196/96, após a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, participaram do estudo 25 sujeitos, sendo sete enfermeiros, quatorze técnicos de enfermagem e quatro auxiliares de enfermagem de um CTI de um hospital público do município de Niterói. Os critérios de inclusão dos sujeitos na amostra foram: ser do quadro efetivo da Universidade e atuar no CTI pelo menos por um ano.

Informado aos sujeitos que a sua participação seria voluntária e o direito de desistirem da pesquisa em qualquer fase. Mantido o sigilo dos dados fornecidos e ratificado que os resultados do estudo seriam apresentados em eventos e publicados em revistas científicas. A identificação dos participantes foi feita a partir das iniciais da categoria profissional (E: Enfermeiro; T: Técnico de Enfermagem e A: Auxiliar de Enfermagem), do sexo (F ou M) e o número de ordem de entrada no texto (EM1, TF2...AM25).

        A coleta de dados ocorreu no primeiro semestre de 2004, mediante a técnica de entrevista semi-estruturada que permite a interação entre pesquisador e sujeito, favorecendo a contextualização de experiências, vivências, sentidos que ajudam a problemática da investigação12. Como instrumento, foi utilizado um roteiro contendo em sua primeira parte, o perfil sócio-cultural do grupo e, na segunda 13 questões abertas, cujas respostas foram gravadas em fita cassete.

 Realizada a transcrição das entrevistas, a linguagem foi analisada mediante a técnica de análise temática13, que se baseia na decodificação de um texto em diversos elementos, os quais são classificados e formam agrupamentos analógicos. Em um último momento, utilizando os critérios de representatividade, homogeneidade, reclassificação e agregação dos elementos do conjunto, chegamos às seguintes categorias: ruído e condições de trabalho; ruído e tecnologia; qualificação e intervenção e o limite subjetivo do trabalhador frente ao ruído.

Dos 25 sujeitos que participaram do estudo, 14 (56%) são do sexo feminino e 11 (44%) do sexo masculino, cuja faixa etária variou entre os 30 e 50 anos (92%), sendo que 14 (56%) eram casados, 5 (20%) divorciados, 4 (16%) solteiros e 2 (8%) viúvos.

Quanto à formação, 15 (60%) dos sujeitos possuíam o terceiro grau completo, 1 (4%) incompleto e 9 (36%) o segundo grau completo. A renda familiar situou-se na faixa de 11 a 20 salários mínimos, sendo adotado como referência o salário mínimo de 240 reais vigente na época em que os dados  foram colhidos. No que se referiu a religião 18 (72%) eram católicos, 5 (20%) protestantes e 2 (08%) kardecistas. 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Ruído e condições de trabalho: a pressão para trabalhar mal

Os trabalhadores de enfermagem que atuam no CTI, por conta da experiência e do conhecimento advindo da prática, possuem uma familiaridade com os ruídos dos aparelhos e alarmes que, possibilita ao grupo intervir prontamente diante das alterações clínicas nos pacientes e na ocorrência de falhas nos aparelhos. Assim, cabe à organização do trabalho a manutenção preventiva do maquinário ou a sua substituição, como uma maneira de eliminar as fontes de ruídos e manter a confiabilidade dos trabalhadores no que se refere aos alarmes.

Portanto, a confiança depositada nos alarmes pelos trabalhadores é uma ferramenta de trabalho essencial por propiciar informações visuais ou sonoras, sobre o estado clínico do paciente e manter o controle sobre o processo de trabalho. Trata-se de um recurso tecnológico que ao ser incorporado, além de exigir qualificação diferenciada imprime uma mudança significativa ao trabalho, indicando que sua escolha pode redundar em resultados positivos e desejados, ou resultados negativos e indesejados14.

Os trabalhadores, ao instalarem os aparelhos nos pacientes, estabelecem parâmetros a partir dos quais, qualquer alteração que ocorra com o paciente ou com o próprio aparelho irá disparar os alarmes, sendo a equipe imediatamente comunicada de possíveis intercorrências. No entanto, ao recorrerem a este recurso, como afirmam, se defrontam com aparelhos que, por se encontrarem desgastados e com problemas técnicos, não obedecem aos parâmetros estabelecidos, alarmam a toda hora, obrigando-os aos reajustes de tempo em tempo, o que leva ao desgaste psicofísico evidenciado nos relatos:

Você não pode confiar no monitor porque ele alarma fora do horário e isto estressa a gente porque alarma toda hora. É tão estressante, que parece que está dentro da sua cabeça. Vai dando uma dor de cabeça em você, que você fica louco! Você não pode confiar. Você não sabe se o aparelho está legal ou não. Aquilo te estressa, porque você quer que o aparelho funcione direitinho (TM2).

 

Tem que se ligar qual o respirador que está fora do paciente! O que está apitando! Às vezes, está errado, não era para estar apitando. Esses tipos de ruído me incomodam! Apita, pára um tempo e volta! Fica aquela coisa! Algumas pessoas se incomodam. Eu vejo algumas pessoas que querem resolver, por exemplo, o barulho de uma bomba que não pára de apitar. Vai lá, mexe nela e daqui a pouco esta apitando de novo (AF7).

 

Nestas condições de trabalho, o ruído provocado pelos aparelhos por interferir na acústica ambiental e no processo de trabalho, gera um incômodo, um desgaste psicofísico no trabalhador devido ao permanente estado de alerta, a necessidade de checagens periódicas do sistema e as intervenções. A ansiedade é exacerbada, o trabalhador passa a conviver com a imprevisibilidade devido à perda do controle das condições do paciente e do aparelho.

Como o alarme é um sinal de alerta, a sua identificação em meio a tantos ruídos exige do trabalhador a perícia, para que possa intervir a favor do paciente e do próprio bem-estar. Visto as intervenções nem sempre resultarem na eliminação do ruído, a exigência em termos de atividades psicomotoras, de deslocamentos, de efeitos da vigilância aumentam, tendo como conseqüência o desgaste.

Por terem que realizar um trabalho repetitivo, monótono, cujas intervenções nem sempre resultam na eliminação do problema sobrevém o sofrimento. Deste modo, outra causa freqüente de sofrimento no trabalho surge em circunstâncias onde não estão em questão a competência e a habilidade, porém a pressão para trabalhar mal, quando o trabalhador sabe o que deve fazer, não pode fazê-lo porque o impedem as pressões sociais do trabalho. Há uma defasagem entre a organização prescrita do trabalho e a organização real do trabalho15.

Para os trabalhadores, o ruído decorrente das falhas técnicas traz implicações para o processo de trabalho e para o bem-estar do grupo por não haver uma manutenção periódica dos aparelhos. Além de terem que lidar com a instabilidade clínica dos pacientes, que é uma exigência da tarefa, os trabalhadores se vêem ás voltas com uma série de intervenções que consomem o tempo que poderia ser direcionado para outras atividades. Há um grande esforço em identificar a origem dos ruídos decorrente dos disparos desnecessários dos alarmes e da tentativa de suprimi-los.

Como os trabalhadores possuem conhecimentos relacionados à montagem, à testagem, à instalação e à checagem periódica dos aparelhos, eles utilizam-se desses conhecimentos no dia-a-dia, na tentativa de contornar os problemas resultantes das falhas técnicas, esbarrando nas próprias limitações, visto as intervenções realizadas nem sempre solucionarem o problema.

Porque tem vezes que fica tudo alarmando, você fica doido, procura, fica doido. Não sabe. Mexe aqui, mexe ali, aí, conforme você vai, você volta, alarma. Alarma, a gente sai correndo, vai ver, fica naquela dúvida. Então o que você vai fazer? Vou ver o paciente. (TEM15)

 

A gente adapta um circuito de um aparelho no outro. Pode acontecer do aparelho não ficar bem ajustado e, aí, ele alarma, alarma, alarma, alarma. (TEF20)

 

Cria-se uma situação de trabalho conflituosa, envolvendo questões éticas que os trabalhadores têm de administrar no dia-a-dia institucional, podendo gerar insatisfação, desmotivação e sofrimento no trabalho.

Assim, o desenvolvimento de novas tecnologias atingiu tal ponto, que já não se pode melhorar sua aplicação sem melhor compreender os mecanismos do erro humano. Muito ou quase tudo precisa ser feito para que o desempenho do trabalhador de saúde seja correto e o mais isento possível de erros e acidentes. Para tanto, treinamento e atualização, assim como boas condições de trabalho, são tão ou mais importantes do que a própria tecnologia16.

A partir do conflito vivido pelo trabalhador e por entender que os sentimentos remetem às dimensões cognitivas e afetivas que reportam à intra-subjetividade e ao contexto de trabalho, identificamos nas unidades codificadas as seguintes subcategorias ou expressões emocionais: o ruído que estressa, o que incomoda, o que irrita e o que desgasta.

O ruído é tipo aquela tortura de pingar uma gota d’gua na cabeça por 12 horas. Eu acho que todo mundo fica mais estressado, porque realmente quando está alguma coisa incomodando, as pessoas ficam mais irritadas, ficam mais frenéticas. (TEF 9)

 

Tem o próprio paciente que, às vezes, faz barulho, mais as bombas de infusão e todos os aparelhos que apitam sem parar. Aquilo é muito desgastante. (TM4)

 

Porque fica com aquele ruído o tempo todo e quando você sai do plantão, além do cansaço físico, você está extremamente irritado, porque aquele barulho fica na sua cabeça o tempo todo. (TEF18)

 

As expressões utilizadas pelos trabalhadores ao se referirem ao ruído que estressa, gera incômodo, irrita, desgasta, vão ao encontro de palavras-índice de “penosidade”. O trabalho é penoso quando o seu contexto gera incômodo, esforço e sofrimento demasiado, sobre o qual (contexto) o trabalhador não tem controle e a capacidade de intervir nas situações que imprimem sofrimento psíquico17.  

Ruído e tecnologia: qualificação e intervenção

Apesar de os trabalhadores desenvolverem aos poucos a familiaridade em relação às tecnologias existentes no CTI, constatou-se que o trabalho nesta área constitui um campo de intervenção técnica que exige atualização constante de conhecimentos. Fato observado sempre que uma nova tecnologia é incorporada ao processo de trabalho, demandando do trabalhador constante readaptação às exigências que se estabelecem. A formação e o saber prático tornam-se obsoletos; a tecnologia introduzida desqualifica o trabalhador e gera desgaste como nos relatos a seguir:

Então esse treinamento... Saber manejar, montar o circuito do respirador; até mesmo saber como funciona mais ou menos tipo assim: quando desliga, saber que tem bateria pra fazer funcionar determinados tempos. Qual que pode funcionar sem eletricidade (TF5).

 

Também as pessoas não foram treinadas para mexer com aquele tipo de aparelho. E também eu acho que nós mesmos danificamos o material que nós usamos ali dentro, por falta de treinamento. Se eu não sei manusear bem um aparelho, eu corro o risco de danificar aquilo, eu estou contribuindo com o ruído (EM12).

 

A inexistência de treinamento para o manuseio dos aparelhos é referida pelos trabalhadores por se sentirem desqualificados para o trabalho. Por lidarem com a imprevisibilidade, dada a gravidade dos pacientes, estabelece-se uma relação na qual o desejo do trabalhador vai de encontro à organização e mesmo quando utilizam conhecimentos prévios, há uma defasagem desses conhecimentos frente às novas tecnologias. Desse modo, cada vez que o trabalhador entra em contato com as novas tecnologias sofre um sentimento de desqualificação profissional, cujo saber não mais atende às novas exigências.

Na vivência dos trabalhadores face às novas tecnologias, se faz necessário pensar a sua dimensão ética, pois da mesma forma que a inovação tecnológica amplia a qualidade de vida no trabalho, também é capaz de alienar e oprimir o trabalhador. Isto se deve ao processo de desqualificação que diminui a nitidez da identidade profissional visto o grupo já não ter tanta convicção sobre o que realmente deve saber, dominar e fazer18.  

A imposição do ritmo de trabalho pelo ruído

Com o excesso de ruídos no CTI, há um esforço maior para a execução da tarefa, pois, como referido pelo grupo, o ruído tira a concentração, dispersa e produz descontinuidade das ações. Acentua-se o desgaste psicofísico, exacerba-se a irritação e há uma maior exposição do trabalhador a outros riscos como acidentes e possibilidade de erros na realização das atividades.

Como o trabalho no CTI possui uma dinâmica própria, sendo uma das características a imprevisibilidade, há uma exigência maior em termos de agilidade, destreza e resolutividade por parte dos trabalhadores. Com o excesso de ruídos e considerando as exigências, o trabalhador assume um comportamento estereotipado com um maior desgaste psicofísico. Ao acompanhar o ritmo imposto pelo ruído, instala-se uma tensão permanente, um ir e vir, um sofrimento onde o corpo do trabalhador é domesticado em função das exigências da organização.

Você acaba sendo levado, se engajando nisso. Você acaba extrapolando, falando alto, batendo com as coisas ou ficando um pouco mais ágil no ambiente e vai ficando mais displicente com relação ao barulho (TM6).

 

Você está tão irritado com a situação, você está tão estressado, que você quer fazer aquilo da forma o mais rápido possível pra você ficar livre um pouco do barulho e com isso nem sempre a pressa está ligada à perfeição. Quer dizer, às vezes, você esta querendo fazer um determinado procedimento correndo e você acaba não fazendo de uma forma correta (AF20).

 

O excesso de ruído no ambiente de trabalho pode conduzir o trabalhador a um estado de tensão que, às vezes, extrapola a capacidade de adaptação. Assim, o trabalhador, ao canalizar de forma inconsciente a descarga da tensão acumulada pela via motora, assume um comportamento estereotipado, agressivo, que pode interferir nas relações com os pares e a clientela.

Como constado a carga de trabalho se acentua tanto em relação aos aspectos físicos, visto os trabalhadores realizarem esforços acentuados e com consumo de energia, quanto nos aspectos psíquicos em que utilizam a atenção dirigida, a memória e interpretação dos sons e sinais provenientes dos aparelhos e pacientes.

O trabalhador, tendo que aumentar a atenção e a agilização no trabalho, sabe que diminui ainda mais sua possibilidade de atentar para os riscos. Há a ansiedade agravada pelas intensificações de ritmo, uma fadiga predominantemente mental, por sobreexigência de esforço psíquico (exigência de raciocínios rápidos, atenção concentrada prolongadamente, atenção forçadamente dissociada etc)19.  

O limite subjetivo do trabalhador

Os trabalhadores em suas falas perpassaram a responsabilidade da organização frente à problemática do ruído, por não investir na manutenção preventiva dos aparelhos e na qualificação. O não investimento em ações preventivas pela organização resulta em desgaste, estresse e agride a integridade física e psíquica do trabalhador, instala-se o sofrimento e testa os limites do suportável pelo grupo.

Para se manter no trabalho, considerando que o mesmo também gera prazer pelo sentimento de pertença e identidade, o grupo recorre às ações adaptativas através da solidariedade grupal, a troca de experiências e de informações. São dispositivos utilizados no intuito de preservar a saúde, para não adoecer, para evitar a ruptura. Trata-se de um espaço de liberdade que permite ao trabalhador dar vazão ao trabalho criativo e utilizar estratégias que façam frente às situações adversas, e dentre elas a problemática do ruído. No entanto, quando essa margem é ameaçada, visto o grupo nem sempre conseguir intervir nas situações que ocasionam o sofrimento, e neste caso, minimizar o excesso de ruído no ambiente de trabalho, surge um sentimento de impotência de perda do controle sobre o processo de trabalho e poder onde os trabalhadores esbarram no limite subjetivo, como nos relatos:

O barulho daquelas máquinas, o monitor, o respirador ventilando o paciente. Nesses vinte anos, já estava mesmo no fim, já não estava mais suportando, precisava descansar. Eu nunca fiquei assim, vontade de ir lá e jogar a bomba no chão e ela estava lá e você apertava, apertava e daqui a pouco alarmava de novo. Mas eu realmente cheguei ao meu limite. (TM2).

 

Com relação ao ruído, uma grande parte reage com irritação. Você vê que o ruído acaba causando uma certa insatisfação nas pessoas, no ambiente de trabalho, um certo grau de estresse, que as pessoas acabam ficando um pouco mais agressivas (TM6).

 

Mas a terapia intensiva mostra isso mais evidente e ai você vê que a monitorização, o barulho do alarme que muitas vezes te irrita e você não pode chegar lá e bater, sacudir o aparelho, não pode sacudir o paciente, mas aquilo esta tirando a sua paciência (TF9).

 

O conhecimento prático mostra como a ausência de poder para intervir efetivamente nos contextos que geram esforço, incômodo e sofrimento demasiado levam os trabalhadores a se defrontarem com a repetição dos mesmos problemas diariamente e de algum modo testar os seus limites. A ruptura é a expressão de uma exigência de trabalho maior do que o trabalhador suporta. É a transgressão do limite subjetivo. A ruptura se expressa diretamente na saúde. É quando as coisas saem dos lugares, quando forçam demais. Esses estados emocionais vão sendo forjados no decorrer do trabalho em determinados contextos, tendo também um caráter cumulativo que se expressa diretamente na saúde. Não havendo mecanismos adequados para lidar com esses sentimentos, dá-se um processo de transformação da subjetividade e a pessoa fica nervosa, fica irritante, fica doente16. 

CONSIDERAÇÕES FINAIS 

O trabalhador de enfermagem do CTI, ao enfrentar a problemática do ruído no ambiente laboral, se depara com questões que dizem respeito às atuais transformações do mundo do trabalho nas esferas tecnológica e organizacional. Tais transformações, por serem impregnadas de novas tendências, exigem conhecimentos que, por se tornarem obsoletos em pouco tempo, obrigam o grupo a elaborar novos e incessantes saberes como forma de enfrentamento da desqualificação frente às novas tecnologias.

     Para os trabalhadores do CTI que lidam com a imprevisibilidade do quadro clínico dos pacientes e que, por sua complexidade, exige raciocínio rápido na tomada de decisão, o ruído decorrente principalmente da não manutenção preventiva dos aparelhos, acentua o desgaste psicofísico repercutindo na saúde do grupo e no processo de trabalho devido ao risco de erros e acidentes.

Há um aumento da tensão dos trabalhadores na realização da tarefa devido ao esforço visual, auditivo e postural acarretado pelo ruído que estressa, irrita, desgasta e impõe um ritmo não desejado. Em algumas situações, como referido pelo grupo, os trabalhadores contribuem ainda mais com o ruído ao assumirem um comportamento estereotipado no falar, no gesticular e no ter que fazer tudo mais rápido para dar conta da tarefa.

No enfrentamento da problemática do ruído, foram identificadas ações coletivas como a solidariedade grupal, a troca de informações e de experiências; o saber prático. Trata-se de um processo informal de aquisição de conhecimentos e de competências construídas no dia-a-dia institucional. No entanto, as ações adaptativas elaboradas pelos trabalhadores na busca de serem sujeitos na situação de trabalho, podem ocultar as exigências físicas e psicológicas da atividade profissional, naturalizando dessa forma o sofrimento e os riscos aos quais se encontram expostos.

Vivemos uma crise sem precedentes na área da saúde e, no setor hospitalar, ela é sentida muito de perto pelos trabalhadores de enfermagem em decorrência da natureza do trabalho, das intervenções, dos conhecimentos e dos recursos tecnológicos. A indisponibilidade de recursos imprescindíveis a uma assistência livre de riscos, além de gerar desgaste devido à falta de poder dos trabalhadores para intervir neste processo, coloca o grupo de frente às pressões no ambiente de trabalho.

Quanto à ação preventiva decorrente da exposição dos trabalhadores de enfermagem ao ruído, ela foi apontada como sendo o controle do fluxo de pessoas no setor, a manutenção preventiva dos aparelhos e a qualificação profissional para lidar com as novas tecnologias. Como as intervenções envolvem vontade organizacional e política, as mudanças no contexto de trabalho com vistas ao bem-estar e a saúde do trabalhador devem ser pautadas na participação de todos.

Finalizando, o estudo trouxe evidências da importância de atentarmos para os efeitos nocivos do ruído para a saúde do trabalhador de enfermagem, que extrapolam a diminuição da acuidade auditiva, podendo afetar outros órgãos e sistemas e a saúde mental do grupo devido ao aumento da tensão, a irritabilidade, o estresse e ao desgaste psicofísico.  

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18. Faria ME. O diálogo entre as intersubjetividade na saúde. In: Leopardi MT, organizador. Processo de trabalho em saúde: organização e subjetividade. Florianópolis (SC): Ed. Papa-Livros; 1999. 

19. Seligmann-Silva E. Saúde mental e trabalho. In: Tundis AS, Costa NS, organizadores. Cidadania e loucura: políticas de saúde mental no Brasil. Petrópolis (RJ): Ed. Vozes, 1987.

 

Notas: Estudo extraído da tese intitulada As representações sociais do ruído pelos trabalhadores de enfermagem de um Centro de Terapia Intensiva: a organização do trabalho. Rio de Janeiro: EEAN -Universidade Federal do Rio de Janeiro; 2004.

 Contribuição dos autores: Os autores participaram da concepção e desenho da pesquisa, análise e interpretação, escrita do artigo, revisão crítica do artigo, aprovação final do artigo, pesquisa bibliográfica.

Endereço para correspondência: Rua João Áreas, 460, casa 24, Manoel Sátiro, CEP: 60713-410, Fortaleza, Ceará.

Received Oct 2, 2007
 Accepted Oct 3, 2007