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Social Representation of Nursing Care in Mental Health: qualitative study

Representação Social do Cuidado de Enfermagem em Saúde Mental: estudo qualitativo

 Jaqueline Queiroz de Macedo1, Maria de Fátima Araújo Silveira 2, Maria do Carmo Eulálio 3, Maria Nazaré O. Fraga4, Violante Augusta B. Braga5

1, 4, 5 - Universidade Federal do Ceará, Fortaleza-CE, Brasil; 2, 3 – Universidade Estadual da Paraíba 

Abstract. With the advances brought about by the process of the Psychiatric Reform, new challenges are being offered to professionals in the mental health network. To enable the practice proposed by the psychosocial model to become effective it is necessary for the educational institutions to be attentive to the professionals that they are shaping.  This research aimed to understand the social representations of Nursing Care in Mental Health developed by graduates of undergraduate courses in Nursing from Campina Grande, PB. The sample consisted of 12 students who participated in semi-directive interviews. The speeches were subjected to content analysis. With regard to ethical considerations the study followed the guidelines established by Resolution number 196/96 and the Declaration of Helsinki. The nursing care in mental health is represented in the humanization of mental health care. This representation facilitates the change in the perception of graduates from the theoretical and practical experiences and allow them to view a distinction between the professional practice of the nurse in the current context and the role assigned to him/her in accordance with the principles of the Psychiatric Reform.

Keywords Keywords: Nursing, Mental health, Nursing Care, Nursing Students 

Resumo. Com os avanços ocasionados pelo processo da Reforma Psiquiátrica, novos desafios são postos aos profissionais da rede de saúde mental. Para que a prática proposta pelo modelo psicossocial se efetive é necessário que as instituições formadoras estejam atentas para o profissional que estão formando. Esta pesquisa objetivou compreender as representações sociais do Cuidado de Enfermagem em Saúde Mental elaboradas pelos concluintes dos cursos de graduação em Enfermagem de Campina Grande, PB. A amostra foi composta por 12 alunos que participaram de entrevistas semi-diretivas. Os discursos foram submetidos à análise de conteúdo. Quanto às considerações éticas o estudo seguiu as diretrizes emanadas pela Resolução 196/96 e Declaração de Helsinki. O cuidado de enfermagem em saúde mental encontra-se representado na humanização da atenção em saúde mental. Essa representação propicia a mudança na percepção dos concluintes a partir das experiências teórico- práticas e permitem que visualizem uma distinção entre a prática profissional do enfermeiro no contexto atual e o papel atribuído a este de acordo com os preceitos da Reforma Psiquiátrica.

Descritores: Enfermagem, Saúde mental, Cuidados de Enfermagem, Estudantes de Enfermagem 

Introdução 

As instituições formadoras vêm reformulando seus currículos buscando contemplar a saúde mental numa perspectiva holística, com base nos pressupostos da Reforma Psiquiátrica e da Política Nacional de Saúde Mental, que englobam a reinserção social, o diálogo, a escuta, o acolhimento, a formação de vínculos, a interdisciplinaridade.

Na Enfermagem, a prática profissional e as rotinas envolvidas muitas vezes distanciam o ‘profissional do cuidado’, pela ênfase no tecnicismo, cumprimento de protocolos, normas, e a visão biomédica do indivíduo. Para a superação dessa realidade, o ensino, além de garantir uma habilidade técnica, deve voltar-se para formação de enfermeiros críticos preocupados com as necessidades da população1.

Para atuar na saúde mental é fundamental a aquisição de saberes e posicionamentos até então novos, uma vez que o trabalho é multidisciplinar, devendo competir a todos a atenção ao usuário. Todavia, para o enfermeiro, as dificuldades mais presentes em sua atuação estão relacionadas à formação e à necessidade de integração na equipe de profissionais 2.

Com os avanços ocasionados pelo processo da Reforma Psiquiátrica, novos desafios são postos aos profissionais da rede de saúde mental, em especial, a reflexão sobre suas práticas para se superar as armadilhas do cotidiano, que afastam o profissional de uma prática transformadora, por está envolto pela alienação da ação mecânica, burocrática e desinteressada do usuário3.

No contexto da saúde mental é preciso que a atenção esteja ancorada no princípio da humanização da assistência, para que não ocorra uma falsa desinstitucionalização. A humanização, assim como a saúde mental são temas transversais, que transpassam as diferentes instâncias do Sistema Único de Saúde (SUS). O significado de humanização utilizado nesse trabalho não remete à perspectiva assistencialista ou de cunho caritativo, mas ao “compromisso com a pluralidade de forças que compõem a vida” 4.

Os princípios da Política Nacional de Humanização (PNH) aliada à Política de Promoção da Saúde, que norteiam os serviços de saúde, voltam-se para o empowerment do usuário, trabalho em equipe e educação permanente.

Para alcançar esses objetivos as políticas abrangem algumas estratégias fundamentais, em que se destacam as instituições formadoras, por serem meios que propiciam a transmissão de uma ideologia e permite uma visão ampliada do processo de atenção, produzindo cidadãos ativos, responsáveis, e sensíveis à escuta ao usuário. Portanto, para que a prática proposta pelo modelo psicossocial se efetive é necessário que as instituições formadoras estejam atentas para o tipo de profissional que estão formando.

A pesquisa se justificou pela necessidade de entender a concepção dos futuros enfermeiros sobre o cuidado em saúde mental, tendo em vista que pesquisas divulgadas 3,5 tendem a estimular reflexões sobre a aprendizagem no campo da saúde mental, tendo por base os pressupostos das políticas públicas de saúde e de saúde mental. Este estudo teve como objetivo analisar como os alunos concluintes da graduação em enfermagem representam o cuidado de enfermagem em saúde mental.

A representação social envolve um processo criativo, cognitivo e simbólico, que funciona como eixo direcionador do comportamento social6 e são “representações de alguma coisa ou de alguém”, apresentam as funções de organizar e controlar o mundo material, e fornecer um código que propicie a classificação e a nomeação de algo para a sua comunicação.  Classificar, nesse âmbito, significa limitar algo a regras comuns a todos os pertencentes à certa classe, e, a partir disso, possibilita-se representá-lo 6.

O estudo das representações sociais refere-se ao que os seres humanos pensam não como meros receptores, mas como sujeitos que raciocinam de modo autônomo, interagem na sociedade, influenciando nas relações sociais. Tais fundamentos são instrumentos para aproximação e entendimento das relações vivenciadas pelos alunos de Enfermagem, fornecendo elementos teóricos e metodológicos capazes de favorecer uma compreensão do cuidado em saúde mental.

 Metodologia

            O estudo foi realizado na cidade de Campina Grande-PB, município este que abrange cinco Instituições de Ensino Superior (IES) de Enfermagem, sendo três do sistema privado, uma pública estadual e uma pública federal.

            Foram pesquisadas três IES, duas do sistema privado e uma pública, cujo critério de inclusão foi existirem alunos no último período do curso de Enfermagem na época da coleta de dados.

Os participantes da pesquisa foram 12 acadêmicos do último período do curso de Enfermagem, de três instituições de Ensino Superior. Este número de participantes deveu-se a saturação dos discursos resultantes das entrevistas realizadas.

Esta pesquisa é uma parte da monografia que teve como objetivo analisar a representação social do Cuidado de Enfermagem em Saúde Mental pelos concluintes, na qual foram utilizadas diversas técnicas de coleta de dados. Este artigo limita-se a expor os resultados advindos das entrevistas semi-diretivas. As entrevistas foram orientadas por um roteiro semi-estruturado de questões e realizadas de setembro a outubro de 2009, gravadas mediante o consentimento dos participantes e posteriormente transcritas para análise.

            A análise dos dados foi efetuada com base na análise categorial temática7, seguindo as etapas: pré-análise; exploração do material; tratamento dos resultados obtidos e interpretação. Após a consolidação das categorias encontradas, os trechos dos discursos foram utilizados ipsis litteris. Para manter o anonimato dos sujeitos, foi atribuído um código (Concluinte) seguido de letra do alfabeto que representa a ordem de realização de cada entrevista.

Foram atendidas as exigências da Resolução 196/96 e da Declaração de Helsinki. O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em pesquisa da Universidade Estadual da Paraíba por meio do Parecer CAAE 0338.0.133.000-09.  

Resultados 

Dentre os entrevistados, quatro eram de instituição pública estadual e oito das instituições privadas, apenas um é do sexo masculino. Após as leituras foi observado que muitos discursos eram compartilhados, portanto, algumas temáticas se sobressaíram, foram agrupados por semelhanças léxicas e semânticas, e, em seguida foram constituídas três categorias: Humanização da atenção em saúde mental; Mudança na percepção do concluinte; e Papel do enfermeiro na equipe de saúde mental. 

Humanização da Atenção em Saúde Mental

Os acadêmicos relacionam a humanização à saúde mental, com vistas a uma atenção integral e reinserção social do sujeito em sofrimento psíquico.

“Com mais humanidade, menos desumano, com mais responsabilidade, que hoje em dia eles são integrados a voltar para sociedade, mais rápido. ” (Concluinte B)

“Oferecer uma assistência humanizada (...) vê-lo de uma forma holística, não só o transtorno que ele tem, mas analisar o indivíduo em todos os seus aspectos”. (Concluinte D)

 “A saúde mental requer da gente essa visão holística do tratamento dos nossos usuários (...) eu acredito que o sofredor psíquico precisa de uma palavra, um apoio, de essa troca, essa relação de cuidar, eu preciso me dedicar muito. Atividades voltadas tanto na humanização como também de inserir aquele individuo na sociedade” (Concluinte L) 

Mudança na Percepção do Concluinte

Como essa categoria remete a um processo, abriga três subcategorias: mudança teórica através da disciplina Saúde Mental; mudança prática através de estágio ‘in loco’; e mudança de valores.

Na subcategoria Mudança teórica através da disciplina saúde mental, apresentam-se os seguintes discursos:

 “Meu pensamento modificou muito [depois da disciplina]. Antes, eu tinha certa aversão à área da Saúde Mental, porque tinha aquela visão, assim mais restrita, do ... do pejorativamente falando, do doido, do louco, que a gente sempre teme, discrimina, eu acho que era mais preconceito, então depois que eu paguei a disciplina de Saúde Mental, eu acredito que eu fiquei com uma visão mais abrangente da doença mental, do tratamento da doença mental. (...)É muito difícil conviver com essas pessoas, muito difícil, principalmente, quando você não tem conhecimento. E, através da disciplina, eu acho que aprendi muito mais, muito mais mesmo nesse sentido, de como olhar para esse individuo, se relacionar e conviver com ele.” ( Concluinte F)

            E, quanto à subcategoria Mudança prática através do estágio ‘in loco’:

“Eu não acharia que mudou pelo componente curricular, mas pela convivência no meio, pelos estágios não curriculares” (Concluinte H).

“Antes eu tinha medo, receio, falava em estágio de saúde mental, eu dizia, eu não quero ir, não quero ir para esse estágio. Primeiro dia que cheguei lá no CAPS e no hospital X eu não queria entrar, mas depois a gente vai aprendendo a como lidar com eles (...)depois a gente vai aprendendo a conversar, como lidar” (Concluinte J)

            Os discursos acima sugerem que, além da influência do conteúdo teórico dos componentes curriculares, as experiências práticas atuam diretamente sobre as atitudes dos acadêmicos, ampliando as experiências e oportunidades de aprendizagem.

            A subcategoria ‘Mudança de valores’ foi associada ao descortinamento da visão de mundo propiciado pela vivência teórica e prática da Saúde Mental:

“Ela [a disciplina] me fez perder o medo. E a saúde mental me fez abrir os olhos.” (Concluinte A)

 “Foi uma maneira de ver com outros olhos a saúde mental” (Concluinte E)

“Questão de medo, questão de rotulação, assim... eu tinha muitos conceitos que foram renovados, que foram colocados de uma forma mais ampla. Aceitação, porque eu tenho casos na família de portadores de distúrbios mentais, até com os componentes da família eu tinha medo e preconceito, então eu passei a ver de uma forma mais ampla isso, eu passei a ver, a aceitar melhor a doença, a entender e conviver com essas pessoas.”(Concluinte H) 

Papel do Enfermeiro na Saúde Mental

Essa categoria foi associada à vivência acadêmica e às relações interpessoais dos estudantes e como pode ser observado, o papel do enfermeiro na saúde mental é entendido de modo ampliado, como se pode observar a seguir em alguns fragmentos de discursos:

“Educativo, terapias, levar aqueles pacientes para pintar, desenhar. (...) É mais a parte educativa. Através de palestra, terapias, pintura também, da arte.” (Concluinte C)

“Administrar medicamentos, realizar palestras, participar de oficinas, conversar com os usuários, com o parente, pai, irmão do usuário (...) O papel principal do enfermeiro é ele passar essas orientações para a família.” (Concluinte D)

“Desenvolver dinâmicas, desenvolver tarefas que vá compreender as necessidades dos indivíduos.”(Concluinte G) 

Em sua atuação prática, em geral, o enfermeiro não consegue exercer a função de profissional de referência na atenção direta ao paciente, focando suas ações na coordenação da equipe de enfermagem e atividades administrativas. É o que revelaram os acadêmicos entrevistados.

“Administrar medicamentos, fazer a evolução e a gente vê que quem faz isso mais são os técnicos, o enfermeiro fica mais com a parte burocrática.” (Concluinte D)

“O papel do enfermeiro está deixando a desejar, pelo menos no estágio do CAPS assim, a gente não viu o papel diretamente do enfermeiro, a gente ficou mais nas oficinas, e as oficinas estavam mais ou com o psicólogo ou com o educador físico.” (Concluinte J) 

Análise e discussão dos resultados 

Partindo da compreensão dos discursos como elementos de um pensamento social, eles não foram percebidos como verdades absolutas, mas expressão, no dado momento histórico estudado, de uma parte da trama complexa de produção de sentido verbalizada pelos concluintes em enfermagem.

Diretamente relacionada com o panorama da desinstitucionalização, a humanização se compromete com a criação de diferentes modos de viver e com a ruptura de uma sociedade baseada no medo, na exclusão social e na discriminação. Nessa perspectiva, os concluintes relacionam o modo de cuidar em saúde mental com a proposta de humanização.

A humanização como colocada pela Política Nacional de Humanização compreende a produção de saúde e o protagonismo dos sujeitos com vistas à alteridade e cidadania. No campo da saúde mental tal meta constitui um verdadeiro desafio e é necessário trabalhá-la a partir da formação dos profissionais de saúde8.

Pode-se verificar uma movimentação latente nos concluintes, que, desde já, parecem envolvidos pela perspectiva da humanização ao se posicionarem como co-participantes do processo. Uma prática humanizada considera o contexto social em que vive o usuário e é orientada pela ética, pois, o cuidado em saúde perpassa a intervenção sobre alguém, envolve a construção de objetivos e uma articulação entre corpo e mente.

            A humanização, como programa e, em seguida, como política sofreu diversas influências dentre as quais se destaca a da área de Saúde Mental, devido a ter evidenciado a necessidade de reflexão sobre as relações profissionais nos serviços de saúde para a atenção quanto à subjetividade dos sujeitos. O movimento da antipsiquiatria, antecessora da Reforma Psiquiátrica, as denúncias sobre as instituições, a ênfase nos direitos do paciente e a defesa de novas relações entre os profissionais e desses com os usuários plantou a semente para que a saúde se envolvesse em um processo libertador, iniciado nos depósitos da loucura 9.

            Na Enfermagem, os profissionais são estimulados a desenvolverem um cuidado com respeito e dignidade para com o outro. Em saúde mental, essa atenção deve ocorrer fundamentada no relacionamento terapêutico, em que o profissional é o próprio instrumento de trabalho que possibilita a abordagem holística do usuário 10.

Os discursos dos estudantes são imbuídos dos princípios da Reforma Psiquiátrica, com inclusão social, compromisso profissional, responsabilidade, diálogo, escuta, portanto a humanização é representada como cuidado de enfermagem em saúde mental. Essa representação permitiu que ocorresse uma mudança na percepção do concluinte, de seus valores por meio das possibilidades teóricas e práticas vivenciadas.

Os programas de disciplinas de saúde mental, quando bem organizados e estruturados, fornecerão base para a formação de um profissional que poderá atuar na assistência terapêutica de modo mais efetivo 11. Todavia, enquanto concluintes, precisam perceber-se como protagonistas na sua formação, para que possam articular conhecimentos de enfermagem e de saúde mental ao assistirem os sujeitos com transtornos mentais.

            Estudo realizado em Ribeirão Preto - SP com alunos ingressantes e do último período de Enfermagem mostrou que as atitudes em relação à doença mental e o seu portador são passíveis de mudança, em especial quando cursam componentes curriculares específicos da saúde mental e psiquiatria e interagem com esses sujeitos e os docentes no ensino prático e teórico 11. Para alguns autores, o professor esforça-se para oferecer fundamentos a uma modificação interior e exterior, a partir de uma visão do outro como ser humano, sofredor mental, e não apenas como um diagnóstico 12.

            Para um processo de aprendizagem efetivo, as aulas anteriores aos campos de estágio devem ser permeadas pela construção de saberes conjunta entre acadêmicos e docentes. A enfermagem, enquanto profissão tem como base o trabalho em equipe e a saúde mental fundamenta seu trabalho no conjunto de saberes das áreas profissionais. Por isso, o docente deve desenvolver um ensino baseado em metodologias ativas, no qual o acadêmico é também ator e ele um mediador do processo de aprendizagem.

Estudo realizado com estudantes em enfermagem que estavam cursando a disciplina do campo da saúde mental mostrou que a quantidade de tempo dispensado na disciplina à parte teórica, influencia diretamente as atitudes e o senso de aptidão para a prática em saúde mental13, o que confirma os resultados encontrados nesta pesquisa. Assim, o processo ensino-aprendizagem deve superar a aquisição e reprodução de conhecimentos e investir em estratégias interativas voltadas para as necessidades sociais, com metodologias ativas, questionadoras que impliquem na participação emancipadora dos acadêmicos14.

A prática em enfermagem e saúde mental propicia descobertas de potencialidades e sensibilidades nos acadêmicos, que pela vivência, conhecem o outro e a si, valorizando-se no trabalho terapêutico, refletindo sobre suas atitudes, criando habilidades e desenvolvendo conhecimentos e competências para oferecer, no futuro, um cuidado multidimensional à sociedade 12, o que está evidenciado nos discursos dos estudantes quando apontam a influência dos estágios na mudança de percepção da saúde mental.

            Outro estudo aponta que o comportamento dos acadêmicos na prática profissional é influenciado diretamente pelo comportamento do profissional que atua no campo de prática, especialmente quando liderados por alguém com amplos conhecimentos clínicos, mostrando a necessidade de capacitar professores para a prática clínica15.

            Os estudantes também consideram importante um maior contato com os serviços de saúde mental. Todavia, o processo ensino-aprendizagem desenvolvido nas aulas teóricas é que propicia aos acadêmicos chegarem aos serviços com uma visão ampliada sobre a atenção à saúde.

A mudança de atitudes pode estar relacionada com a carga horária empregada na prática. Este dado corrobora o resultado de uma pesquisa que verificou a necessidade dos alunos de ter maior carga horária com as disciplinas de Enfermagem psiquiátrica visando à interação e mudança de atitudes mais significativas11.

A mudança de valores advém da aquisição de conhecimento e experiências práticas na saúde mental, aliados a formas de tratamento humanizadas. Ficou evidente nos discursos dos entrevistados do presente estudo a nítida transição dos padrões sociais aceitos. A ampliação do olhar do estudante remete a novas concepções, que possibilitam a superação dos paradigmas, práticas hegemônicas e permitirão que a reabilitação psicossocial se efetive, pois o modelo teórico da reabilitação psicossocial tem como objetivo facultar ao sujeito com certas limitações, o restabelecimento de autonomia social, pela ênfase às potencialidades de cada pessoa5.

            Frente à perspectiva ampliada da saúde mental e a atual conjuntura da desinstitucionalização, o desafio se encontra na capacidade das instituições de formarem profissionais aptos ao cuidado dos sujeitos em sofrimento mental, munindo-os com artifícios que os capacitem a colaborar com a saúde mental em qualquer ponto da rede de saúde16.

Os fundamentos do papel e funções do enfermeiro em saúde mental foram lançados pela Teoria de Peplau, baseada nas relações interpessoais entre usuário, família e profissionais, sem menosprezar as demais atribuições como educador, gerente, técnico 10.

A representação social do papel do enfermeiro na saúde mental dos graduandos em enfermagem foi apresentada como uma função burocrática e administrativa. Entretanto, a percepção acerca desse papel se alarga vislumbrando a prática desejada, que se imiscui no discurso.

O papel que o enfermeiro deve ter na saúde mental é permeado pela função educativa e terapêutica, reflexo da representação do cuidado de enfermagem em saúde mental como humanização da atenção. Como o processo de reabilitação remete à reconstrução da cidadania e da contratualidade, o desenvolvimento dessas técnicas deve ter por base a discussão da cidadania e não a realização da atividade por si.

No contexto das atividades desenvolvidas em saúde mental, um estudo aponta que as atividades desenvolvidas pela enfermagem são, predominantemente, burocráticas e de gerenciamento do trabalho da equipe, distante da assistência ao sofredor psíquico, o que pode estar associado às deficiências na formação profissional. Por isso, os enfermeiros, em sua maioria, não se reconhecem com a competência necessária para trabalhar nessa área 17. Tal realidade é também representada pelos participantes desta pesquisa.

O relacionamento terapêutico faculta à enfermagem mecanismos para a atuação com o usuário da saúde mental, pois, o profissional é o principal instrumento de trabalho. São interações planejadas com objetivos construídos com o usuário, a partir das necessidades e singularidades individuais. A comunicação terapêutica, por sua vez, fornece ao enfermeiro habilidades necessárias para a sua atuação nesse processo10.

O trabalho com grupos, evidenciado na fala dos estudantes é uma estratégia terapêutica praticada com diferentes abordagens, principalmente entre profissionais da saúde mental. Com esse recurso o enfermeiro adquire autonomia, por conhecer os benefícios e limites teórico-práticos de sua ação 18.

A prática de enfermagem nos serviços de saúde mental, muitas vezes, é desestruturada em virtude de uma formação limitada, que caminha entre o modelo biomédico e a formação humanista19. Os dados encontrados nesta pesquisa encontram apoio em resultados de um estudo que enfoca a necessidade dos profissionais capacitarem-se em saúde mental para atuar em qualquer ponto da rede de atenção 16.

            Os discursos dos acadêmicos destacam uma preocupação com a falta de rede de apoio, representada pela família, para uma atenção integral. Ao mudar a percepção, os acadêmicos reconhecem a inclusão da família como um dos preceitos fundamentais da Reforma Psiquiátrica.

Na perspectiva da reabilitação social a família é reconhecida como co-participante do processo. No momento em que a família passa a fazer parte do tratamento e o serviço lhe fornece suporte, estereótipos são diluídos, favorecendo a autonomia do sujeito em sofrimento psíquico. Isso possibilita, também, o aumento da interação com a pessoa com transtorno mental, pois o suporte fornecido pelo serviço auxilia no enfrentamento das dificuldades e reduz a carga emocional 20.

Assim, a representação dos estudantes acerca do cuidado de enfermagem em saúde mental aponta para uma visão que contrapõe a ordem dominante evidenciado pela transformação dos saberes e práticas vigentes, operacionalização do ensino nos campos de prática e apreensão pessoal e socialmente compartilhada do saber. 

Considerações finais 

As considerações apresentadas têm caráter temporal e se originam das interpretações sobre a realidade específica do ensino de enfermagem em saúde mental e psiquiatria nos cursos de graduação em Enfermagem de Instituições de Ensino Superior de Campina Grande-PB, e sua relação com o contexto da Reforma Psiquiátrica.

Os discursos dos concluintes demonstram a predominância do discurso científico, proveniente, principalmente, da teoria sobre saúde mental privilegiada pela disciplina de igual nome ou de enfermagem psiquiátrica. É apontado de forma crítica o papel e a ausência do profissional da enfermagem no processo de reabilitação e inclusão social do sofredor mental, restringindo-se ao trabalho puramente técnico e burocrático.

Percebe-se que o cuidado da enfermagem na saúde mental está sendo contemplado pelas Instituições de Ensino Superior, mas ao mesmo tempo é representado pela existência de um descompasso entre a teoria e a prática, evidenciado durante os estágios curriculares, os quais propiciam maior aprofundamento na área quando acrescidos de estágios extracurriculares.

Frente à atenção aos usuários portadores de transtorno mental, é nítida a mudança de percepção dos concluintes quanto ao cuidado a ser prestado. Este estudo mostra-se relevante para a Enfermagem por apresentar a posição crucial das instituições formadoras para a formação de profissionais imbuídos do ideal das práticas defendidas pela Reforma Psiquiátrica, pautadas na reabilitação psicossocial.

Assim, pode-se afirmar que o cuidado de enfermagem em saúde mental, para os participantes, encontra-se representado na humanização da atenção em saúde mental. Essa representação propicia a mudança na percepção em relação à atenção à saúde mental, por meio da mudança de valores das experiências teórico– práticas, e permite que seja visualizado uma distinção entre a prática profissional no contexto atual e o papel requerido ao enfermeiro, de acordo com os preceitos da Reforma Psiquiátrica. 

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Contribuição dos autores:

Concepção e desenho: 1, 2, 3; Análise e interpretação: 1, 2, 3; Redação do artigo: 1, 2, 3, 4, 5; Revisão crítica do artigo: 1, 2, 3, 4, 5; Aprovação final do artigo: 1, 2, 3.