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What adolescents think of religious groups on sexuality: action research

O que pensam adolescentes de grupos religiosos sobre sexualidade: pesquisa-ação

Lo que piensan los adolescentes de grupos religiosos sobre sexualidad: investigación-acción

 Adriana Gomes Nogueira Ferreira 1,2; Neiva Francenely da Cunha Vieira3; Patrícia Neyva da Costa Pinheiro3

1 Universidade Estadual Vale do Acaraú, CE, Brasil; 2 Instituto Superior de Teologia Aplicada, CE, Brasil; 3 Universidade Federal do Ceará, CE, Brasil 

Abstract: Problem: Adolescence is a time of many changes and participation in religious activities may or may not provide greater empowerment related to the adoption of healthy sexual behaviors. Objective: to examine how adolescents placed in the church understand their sexuality, based on the thought of Paulo Freire. Method: This was an action research conducted in 2009. The subjects were ten adolescents members of group of Catholic Charismatic Renewal. As the method and technique for gathering information was used Culture Circle. The analysis and interpretation of the results favored the discussion according to the occurrence of the circle, considering the experience the group and dialogue with the literature. Results: In this sense, the adolescents reflected on sexuality, demonstrated ignorance and desire of spaces that address their information needs, to promote dialogue and allow the discussion of issues that are silenced for them among their pairs, including the church. Conclusion: It is up to nursing know the reality of the subjects and methodologies used to promote emancipatory dialogue guided by the trust and respect, strengthening a friendship relation for reflection, involving the adoption of safe sexual behaviors with adolescents placed in the church.

Keywords: nursing, adolescence, sexuality, religion 

Resumo: Problema: A adolescência é o momento de diversas mudanças e a participação em atividades religiosas poderá ou não proporcionar um maior empoderamento relacionado à adoção de comportamentos sexuais saudáveis. Objetivos: Analisar como adolescentes inseridos na igreja compreendem sua sexualidade, baseado no pensamento de Paulo Freire. Metodologia: Tratou-se de uma pesquisa-ação, realizada em 2009. Os sujeitos foram dez adolescentes integrantes de grupos da Renovação Carismática Católica. Como método e técnica para coleta de informações foi utilizado o Círculo de Cultura. A análise e interpretação dos resultados privilegiaram a discussão de acordo com a ocorrência do círculo, considerando a experiência vivida pelo grupo e o diálogo com a literatura. Resultados: Neste sentido, os adolescentes refletiram acerca da sexualidade, demonstraram desconhecimento e desejo de espaços que contemplem suas necessidades de informação, que promovam o diálogo e possibilitem a discussão sobre temas que para eles são silenciados entre seus pares, inclusive na igreja. Conclusões: À enfermagem cabe conhecer a realidade dos sujeitos e utilizar metodologias emancipatórias que favoreçam o diálogo pautado na confiança e respeito, fortalecendo uma relação de amizade para a reflexão, envolvendo a adoção de comportamentos sexuais seguros com adolescentes inseridos na Igreja.

Palavras-chaves: enfermagem, adolescência, sexualidade, religião 

Resumén: Problema: La adolescencia es el momento de diversos cambios y la participación en actividades religiosas podrá o no proporcionar una mayor sensación de poder en relación a la adopción de comportamientos sexuales saludables. Objetivo: analizar como los adolescentes inseridos en la iglesia comprenden su sexualidad, con base en el pensamiento de Paulo Freire. Metodología: Se trata de una investigación-acción, realizada en 2009. Los sujetos fueron diez adolescentes integrantes de grupos de la Renovación Carismática Católica. Como método y técnica para colecta de informaciones fue utilizado el Círculo de Cultura. El análisis e interpretación de los resultados privilegiaron la discusión de acuerdo con la ocurrencia del círculo, considerando la experiencia vivida por el grupo y el diálogo con la literatura. Resultados: En este sentido, los adolescentes reflexionaron sobre la sexualidad, demostraron desconocer el deseo de espacios que contemplen sus necesidades de información, que promuevan el diálogo y posibiliten la discusión sobre temas que para ellos son silenciados entre sus pares, incluso en la iglesia. Conclusión: La enfermería debe conocer la realidad de los sujetos y utilizar metodologías emancipadoras que favorezcan el diálogo basado en la confianza y el respeto, fortaleciendo una relación de amistad para la reflexión, implicando la adopción de comportamientos sexuales seguros con adolescentes inseridos en la Iglesia.

Palabras-clave: enfermería, adolescencia, sexualidad, religión 

Introdução 

A adolescência é o momento onde a sedimentação de valores é influenciada pelos seguintes aspectos: mídia, etnia, papéis de gênero difundidos na sociedade, religião, grupos e família(1).  Neste contexto é importante que este encontre um espaço de diálogo sobre suas dúvidas e que possam ser esclarecidas de forma clara e adequada.

 O cuidado ao adolescente requer atenção especial, já que esta é uma fase marcada por mudanças intensas e multidimensionais, ultrapassando a dimensão física (biológica) para a psicológica e sociocultural, pelo fato do adolescente vivenciar mudanças e enfrentar processos conflituosos, por não receber uma escuta sensível por parte da família, dos profissionais, haja vista haver pouca orientação na área da saúde, em especial na formação adequada para atender a essa faixa etária específica(2).

Para trabalhar com adolescente é necessário considerar a complexidade e aceitar as limitações presentes no conhecimento técnico, para além do setor saúde. Com esta visão, os profissionais serão capazes de identificar quais setores serão adequados para contribuir com o fortalecimento da autonomia do indivíduo, desenvolvendo ações que estejam direcionadas não somente ao adolescente, mas ao contexto em que ele está inserido, considerando sua família e comunidade.

Frente a esse cenário, surgem duas questões norteadoras: como adolescentes envolvidos na igreja recebem informações sobre sexualidade e se estas interferem no processo de viver saudável. Neste contexto, é imperativo conhecer a realidade na qual estão inseridos os adolescentes, como elemento para identificar os conflitos e os valores, o que possibilitará orientá-los na adoção de comportamentos saudáveis com autonomia e consciência. 

Trajetória Metodológica 

Trata-se de um estudo descritivo exploratório, com abordagem qualitativa, que utilizou a pesquisa-ação. Esta é definida como pesquisa social com base empírica, realizada a partir da estreita relação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo, em que pesquisadores e participantes estão comprometidos com a mudança(3).

O estudo foi desenvolvido num município do interior do estado, localizado há 290km da capital do Ceará. Num grupo da Renovação Carismática Católica (RCC).

Os sujeitos do estudo foram dez adolescentes, cinco meninos e cinco meninas, sendo considerado adolescente, conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente, o indivíduo entre 12 e 18 anos de idade(4). Eram jovens que participavam de atividades religiosas enquanto integrantes da Renovação Carismática Católica (RCC). Utilizou-se amostra não probabilística, pelo critério da intencionalidade. Esse tipo de seleção ocorre quando o pesquisador faz sua escolha por juízo particular. No caso do estudo, julgou-se dez participantes a quantidade ideal para alcançar os objetivos propostos, uma vez que o animador das discussões teve maior possibilidade para conduzir o grupo pelo número reduzido de participantes. Obedeceu-se aos seguintes critérios de inclusão: participarem assiduamente de atividades relacionadas à igreja, aceitar participar da pesquisa e ter o consentimento dos pais.

O período da investigação aconteceu nos meses de julho a setembro de 2009. Os instrumentos e procedimentos utilizados foram observação, diário de campo, gravador e abordagem grupal.

A abordagem grupal foi constituída por meio do diálogo com os estudantes participantes da pesquisa. Adotou-se uma ação educativa de duas horas, tendo como fundamento a pedagogia de Paulo Freire. Esta que se utiliza de um animador organizando e coordenando o grupo, de modo a proporcionar a abertura de espaço para a participação dos educandos durante os diálogos(5).

A inserção no cenário da pesquisa aconteceu através da interação com os adolescentes que participaram do estudo. Esta aproximação se deu através da participação em reuniões do grupo de jovens em que todos os sujeitos participavam.

Para os círculos de cultura seguiram as fases de acordo com os aspectos teóricos da Pedagogia de Paulo Freire, os quais foram adaptados ao alcance dos objetivos propostos: descoberta do conhecimento prévio; seleção das palavras dentro do contexto dos adolescentes; criação de situações existenciais típicas do grupo; elaboração de casos para auxiliar nas discussões e diálogo.

As contribuições de Paulo Freire, como metodologia de pesquisa-ação e de atuação profissional na enfermagem, têm importante significado quando possibilitam a construção de uma educação reflexiva, incorporando características críticas e problematizadoras, tendo como principal alavanca o diálogo. Favorecendo na profissão uma atitude ética, de amor, compromisso e, principalmente, exercitando o princípio da autonomia, do educando/educador, ensinando/aprendendo, tornando as escolhas de suas vidas melhores e mais responsáveis(6).

Nessa perspectiva, os adolescentes dividiram-se por sexo, formando duas equipes, cada uma com cinco, com a atividade de identificar as características relacionadas à sexualidade próprias de cada indivíduo. Nesse momento, o animador tinha o papel de manter-se na observação e estimulando a participação de todos.

A análise dos dados deu-se nas práticas discursivas apoiada nas narrativas realizadas pelos participantes. Essas têm como elemento construtivo a dinâmica, ou seja, descrevem um processo de conversação. O momento interpretativo desse processo nos serve de referência acerca dos aspectos culturalmente constituídos, trabalhando no nível de produção de sentidos para facilitar o entendimento da elaboração social dos conceitos que as pessoas possuem do mundo(7). Concomitante realizou-se discussão com a literatura, com fundamentação teórica relevante ao estudo. Estas atividades aconteceram refletindo vivência, crenças e valores dos envolvidos, correlacionando a vivência da sexualidade no contexto religioso.

Respeitando a Resolução 196/96, o estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade Federal do Ceará (UFC), com protocolo de n° 256/08, aprovado em 18 de dezembro de 2008. O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) foi assinado pelos adolescentes e seus respectivos responsáveis, preservando-se a garantia do anonimato. Nesse sentido, os adolescentes foram identificados com a letra “A” seguida de um número pela ordem das falas (A1, A2...A10 por exemplo). 

Resultados  

O círculo de cultura, baseado no método proposto por Paulo Freire, respeita a curiosidade, a inquietação indagadora, verbalizada ou não, pois integra o fenômeno vital do ser humano, e sem ela não haveria a criatividade que nos move e nos põe pacientemente impacientes diante do mundo(8), é nesta reflexão interna que os participantes desta estratégia educativa repensam sua maneira de ver o mundo e de estar nele.

Numa atividade educativa, o seguimento de ações permite identificar diferentes descobertas, como também reafirmações de percepções semelhantes, pelo fato dos participantes se encontrarem no mesmo contexto(7).

As reflexões sobre sexualidade foram iniciadas com a visualização da autoimagem. Neste momento apenas uma das adolescentes demonstrou vaidade, ao arrumar o cabelo, se preparando para ver a própria imagem, já os outros participantes demonstraram alegria de sua imagem, correlacionando-a à imagem de Deus, conforme observado nas falas a seguir:

Mas eu sou lindo demais, porque sou imagem e semelhança de Deus. (A1)

Oh! Coisa linda!( A2)

Sou bonito porque sou a imagem e semelhança de Deus. (A3)

Ainda sobre a autoimagem, os participantes foram motivados a pensarem sobre as diferenças que existem entre as pessoas, ou seja, o que é semelhança e diferença entre os sexos, de forma que possibilitassem adentrar no tema referente ao objetivo deste estudo, ou seja, a sexualidade.

 Foram perceptíveis as impressões dos meninos sobre o homem, quando afirmam que este é mais trabalhador que a mulher, enquanto que elas discordaram, afirmando que existem mulheres que são até mais trabalhadora que determinados homens. Outra impressão manifestada pelos meninos foi a de que o comportamento masculino está ligado a grosserias e insensibilidade.

Para o grupo feminino as diferenças entre os sexos se dão principalmente nos seguintes aspectos:

Somos diferentes nos pensamentos porque o homem é machista, não chora, e é insensível, então ela agrupou como o homem é diferente da mulher no pensamento. (A2)

Homem não chora. Então ele é insensível. (A4)

Para refletir sobre a sexualidade, foi salientado como sendo algo além de genitalidade, ou seja, além da dimensão físico-genital. Assim, uma das participantes lembrou-se da fala de um palestrante de Congresso para Jovens promovido pela RCC, quando relatou:

Lá foi falado da sexualidade abordando o sentido espiritual e que aquela informação poderia confundir algumas pessoas que não entendem, que não têm conhecimento, pensando que sexualidade é a mesma coisa de castidade. (A4)

No contexto da sexualidade, a escola tem um papel importante no esclarecimento adequado, no entanto, na fala dos participantes, foi evidenciado que este papel não é desempenhado, pois os professores não são preparados para tal.

O que a gente percebe é que quando meu professor foi explicar sobre este assunto, ele ficou com vergonha. (A3)

Muito embora não dialoguem nem sintam segurança em abordar a temática eles relatam a sexualidade da seguinte forma:

Sexualidade não é algo feio, pois é dado por Deus, então as pessoas não deveriam ter vergonha de falar sobre este assunto, essa ideia de que é algo feio, colocado pelo homem. (A4)

E por que colocamos tantos nomes feios, porque não falar pênis, vagina. (A3)

Temos que falar sobre este assunto com respeito. (A5)

No momento de desenhar o contorno dos corpos, os subgrupos se detiveram às características externas do homem/mulher, como aparência física, acessórios comumente utilizados, ou seja, as características próprias do gênero, e em nenhum momento despertaram para os órgãos genitais. Os meninos capricharam nos músculos e roupas, colocaram inclusive a imagem da cruz no pescoço da silhueta, para caracterizar sua fé e religiosidade. As meninas nos detalhes e enfeites do corpo, sempre procurando cores para representar a maquiagem e unhas pintadas.

Porém, mesmo não se reportando aos genitais, os desenhos já evidenciaram a diferença e as características próprias de cada indivíduo, aprofundando o conhecimento acerca da sexualidade. Antes de começarem esta atividade foi enfatizada a necessidade de se falar sobre este assunto com naturalidade, pois os órgãos sexuais fazem parte de nosso corpo. Ambos os grupos colocaram somente os órgãos genitais externos. Para esta atividade foram utilizadas frutas e outros objetos para auxiliar na caracterização dos órgãos, uma das participantes falou:

É mais fácil os órgãos do homem. (A5)

Os órgãos genitais femininos foram demonstrados pelos ovários, trompas, útero e mamas. No momento de explicarem seus desenhos lembraram-se dos óvulos. Ao mesmo tempo era debatido sobre o conhecimento dos participantes com reflexões motivadas pela animadora, o que despertou algumas dúvidas nos participantes, conforme relacionado a seguir:

Existem pessoas que tem os dois sexos? A mulher menstrua quando está grávida? (A6)

A mulher, mesmo menstruada, pode correr o risco de engravidar? (A3)

Não tem gente que menstrua demais e outros muito pouco? Por que a menstruação é sangue? (A4)

No momento em que descreviam os órgãos genitais masculinos, os meninos colocaram principalmente a genitália externa, emergindo outras perguntas, do tipo:

Quando se faz laqueadura ou vasectomia pode engravidar? (A2)

Para a mulher é mais fácil engravidar se fizer laqueadura que o homem quando faz vasectomia? O que causa a ejaculação precoce? A mulher, mesmo que dificilmente, ela pode ejacular? (A3)

O que é brochar? (A5)

Outro assunto que emergiu neste encontro foi acerca da masturbação, quando um dos participantes falou o que tinha ouvido de um professor:

A masturbação é mais comum nos homens do que nas mulheres, quando entram na adolescência eles se masturbam, buscando prazer e mais prazer, daí quando vão ter relação com a parceira não conseguem mais sentir prazer, só conseguem se masturbando. E às vezes a gente até estranha uma mulher muito linda com um homem feio, por que é o prazer, pois é mais difícil a mulher sentir prazer, ela demora mais. (A3)

Polução noturna foi outro assunto abordado pelos participantes. Falaram sobre circuncisão, tema citado na bíblia e comum no cotidiano destes adolescentes, muito embora tenham demonstrado desconhecimento do que realmente seria este procedimento. 

Discussão 

A inserção e a participação do jovem em grupos de iguais é fato natural e necessário, esta relação estabelecida entre eles atesta o papel do grupo no desenvolvimento psicossocial, além de ser um lugar de externalização de sentimentos, de atenuar a onipotência, de compartilhar dúvidas e de enfrentamento. Os encontros em grupos é um dos fatores mais significativos na busca de identificação. A relação dos adolescentes com seu corpo representa um meio de expressão simbólica de seus conflitos e de como se relacionam com os outros(9).

O interesse que o adolescente expressa pelo seu corpo ilustra a presença da dimensão narcisista no funcionamento mental, às vezes preponderante nesta faixa etária. A abordagem integral do adolescente envolve lidar com suas diferentes questões e transformações, considerando, inclusive, o olhar deste sobre si mesmo e sobre seu mundo. Neste sentido é fundamental que o enfermeiro atente para a importância da atenção integral à saúde, considerando não somente as características físicas, mas também seus anseios enquanto indivíduo em maturação(10).

Pelas falas ficou evidente que estes jovens não possuem insatisfação com sua autoimagem corporal. Esta impressão positiva sobre si é importante, pois para autores as transformações hormonais, funcionais, afetivas, sociais e corporais adquirem uma importância fundamental para os adolescentes, já que é em seu corpo que elas se percebem e internalizam as alterações que estão vivenciando(1).

Outra característica evidenciada foi a de agressividade, principalmente masculina, as demonstrações de agressividade na adolescência, que podem ocorrer contra si e contra os outros, podem ser originadas provavelmente da raiva narcisista manifestada por sentimentos como vergonha(11).

Quando visualizamos nas falas as diferenças próprias de cada indivíduo, diferenças de gêneros e individuais, autores corroboram afirmando que estas fazem parte do processo de desenvolvimento da personalidade(12).

Ao se reportar à sexualidade, observa-se que estes participantes manifestaram dúvidas e desconhecimentos. No contexto religioso a sexualidade deverá ser casta e vivida ativamente no casamento, relacionada à noção de responsabilidade, associada à consciência, maturidade afetiva, formação educacional e inserção no mercado laboral, deste modo têm no matrimônio a principal característica de sua existência e expressão(13).

E para compreender o adolescente deve-se considerar não somente um corpo em desenvolvimento, mas também um ser em processo de crescimento emocional e intelectual, relações interpessoais, vivência da afetividade e sexualidade, além de aspectos religiosos, entre outros que merecem ser considerados(14).

Outro fator importante a ser considerado é que, embora o preservativo e a educação sexual nas escolas sejam apoiados por mais de 90% dos brasileiros, independente de sua religião, poucas iniciativas no campo dos programas de DST/AIDS conseguiram abordar sistematicamente os jovens religiosos em diálogo com suas crenças e nos seus próprios termos, garantindo o seu direito à prevenção, como o acesso ao preservativo e à informação de como utilizá-lo(15).

Pelos relatos observa-se que os participantes do estudo encaram o sexo como algo pecaminoso, mas ao mesmo tempo falam que é preciso discutir estes assuntos com naturalidade e não como algo feio. Neste sentido, autores apontam que se deve incorporar o sexo e o erótico como condição de fertilidade social e não como força essencial que deve ser combatida por se colocar contra a vida(13).

E a educação no campo da sexualidade deve ser aprofundada, salientando que o caminho de integração sexual e afetiva não considera um aspecto particular da vida, e sim a sua globalidade, bem como associar a necessidade de preparo para a educação sexual junto à maturidade sexual, entendida como maturidade moral, que olha caridosamente o critério de escolhas morais(16).

As falas reforçam o quanto é necessário rever as práticas educativas a serem realizadas com adolescentes; porque existe ausência e até omissão, tanto dos setores de educação e saúde como da família. Deste modo, torna-se imprescindível a participação dos educadores e familiares neste processo, pois na sua ausência este grupo busca, com amigos, informações que nem sempre são corretas(17).

Em estudo foi identificado que relacionamentos em comunidade de fé podem representar um importante fator de retardo na vida sexual(18). É importante que se compreenda o contexto em que estes jovens estão inseridos para que sejam pensadas estratégias educativas voltadas às necessidades individuais e coletivas de conhecimento. Em revisão bibliográfica sobre a relação entre religiosidade/espiritualidade, a maioria dos estudos confirmou que esta relação para o adolescente exerce influência positiva nas atitudes e comportamentos deste grupo(19).

Como nem só de espírito vive o homem, a religião reconhece e dialoga com o mundo da vida laica e é interpelada pelo discurso da prevenção da AIDS. Os programas estatais têm estabelecido como centro de sua estratégia a disseminação do uso do preservativo nas relações sexuais, sem considerar as implicações de seu discurso para a sexualidade em “mundos religiosos” (13).

A importância dessa compreensão no combate ao HIV/Aids se dá principalmente na adoção de comportamentos que sejam considerados seguros, norteados pelos ensinamentos da Igreja, que prega uma sexualidade integrada nas suas diversas dimensões: biológica, psicológica e social. Estes comportamentos são: o respeito de si e do outro, como imagem e semelhança de Deus e templo do Espírito Santo; respeito às etapas de conhecimento: namoro, noivado e casamento, preservando a castidade; e manter-se fiel no casamento.

Existe um sentimento de vergonha entre estes para conversarem sobre sexualidade, porém o espaço promovido pelo círculo de cultura possibilitou a todos maior liberdade em expor suas dúvidas, podendo assim desconstruir conceitos de pecado, culpa, relacionados à sexualidade, inclusive no contexto religioso. 

Implicações para a enfermagem 

O cuidado de enfermagem não deve estar voltado apenas para os aspectos biológicos. E o indivíduo holístico? Como pensamos este indivíduo como alguém que tem crenças e valores singulares ao realizarmos as atividades educativas?

A enfermagem precisa respeitar e compreender a espiritualidade e religiosidade das pessoas, principalmente em temas como a prevenção ao HIV/Aids, que têm uma proximidade com a ideia de pecado, exclusão, castigo, enfim, questões que ultrapassam a dimensão biológica.

E numa perspectiva de intersetorialidade, cabe à enfermagem se apropriar dos aspectos religiosos/espirituais do cuidado, para que atenda aos anseios da promoção da saúde e qualidade de vida dos indivíduos, através da promoção da vida humana com compromisso. Tudo isto envolve os aspectos religiosos e individuais que precisam ser contemplados, visando um cuidado eficaz. 

Considerações Finais 

Para os jovens, sujeitos deste estudo, identificou-se certa dificuldade em conversar sobre assuntos relacionados à sexualidade, relataram que os familiares e professores sentem vergonha de abordar esta temática e a Igreja silencia quando se trata deste assunto.

Assim, o pouco conhecimento dos jovens sobre o posicionamento da Igreja a respeito da sexualidade; a associação que os participantes fazem entre pecado e alguns temas como: relações sexuais pré-matrimoniais, masturbação, infidelidade, castidade e virgindade; e a repetição de discursos religiosos, demonstram a necessidade de uma reflexão crítica para que estes possam ter autonomia e, assim, fazerem suas escolhas conscientemente. E esta reflexão crítica pode e deve ser facilitada por profissionais que acompanham este grupo etário com utilização de estratégias educativas que promovam a autonomia dos sujeitos e a saúde da coletividade. 

Referências 

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NOTA: Artigo extraído da Dissertação “Círculo de Cultura com adolescentes pertencentes a grupos religiosos e a prevenção do HIV/AIDS” Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Ceará. 2010. Fortaleza. Data da aprovação: 05/02/2010. Banca examinadora: Profa.Dra.  Patricia Neyva da Costa Pinheiro; Profa. Dra. Neiva Francenely da Cunha Vieira; Prof. Dr. José Antonio Trasferetti e Prof.Dr. Rui Verlaine Oliveira Moreira (membro suplente).