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Pregnancy in adolescence: from planning to the desire to become pregnant – descriptive study

Gestação na adolescência: do planejamento ao desejo de engravidar – estudo descritivo

 Náira de Oliveira Caminha1, Lydia Vieira Freitas1, Marta Maria Soares Herculano1, Ana Kelve de Castro Damasceno1 

1Universidade Federal do Ceará, CE, Brasil

 

Abstract: Problem: Adolescent pregnancy is one of the main problems of public health concerning the health of Brazilian teenagers, being the pregnancy on this population often unplanned and sometimes unwanted by the young girl, her partner and/or family. Objective: Observe the rate and risk factors for unwanted and unplanned pregnancy amongst teenagers. Method: Hereby we present a descriptive study, transversal with quantitative approach that took place at one Maternity-School of Fortaleza with 200 puerperal teenagers that were at the hospital for the end of their pregnancy between March and July of 2009. Results: We've noticed that 67,5% of pregnancies wasn't planned, however, wanted by most of them. Greater planning occurred between teens aged more than 15 years, dun, married, with incomplete basic education and winnings of less than a minimum wage. As for the desire of the gestation, we've noticed the same higher rate between those older than 15, dun, married differing only that these had basic education and winnings of more than 3 minimum wages. The variable that has presented most statistic relevance was the marital status regarding planning and desire to start pregnancy. Conclusion: The need of effective public policies for teenagers became evident, mainly on the access to quality family planning at the healthcare units.

Keywords: pregnancy, adolescent; planned pregnancy 

Resumo: Problema: A gravidez na adolescência constitui um dos principais problemas de saúde pública envolvendo a saúde do adolescente no Brasil, sendo a gravidez nesta população por vezes não planejada e algumas vezes não desejada pela jovem, companheiro e família. Objetivo: Observar a freqüência e os fatores de risco para a gravidez não planejada e não desejada entre adolescentes. Método: Trata-se de um estudo descritivo, transversal com abordagem quantitativa realizado em uma Maternidade-Escola de Fortaleza com 200 puérperas adolescentes internadas por resolução da gravidez no período de março a julho de 2009.Resultados: Observamos que 67,5% das gestações não foram planejadas, contudo, desejadas pela maioria. Houve maior planejamento entre as jovens com idade superior a 15 anos, de cor parda, casadas, com ensino fundamental incompleto e renda inferior a um salário mínimo. Quanto ao desejo pela gestação, observamos igualmente maior frequência entre àquelas com idade maior que 15 anos, pardas, casadas, diferindo apenas que estas apresentavam ensino fundamental completo e renda superior a três salários. A variável que apresentou a maior significância estatística foi estado civil com relação ao planejamento e desejo da gravidez. Conclusão: Evidenciou-se a necessidade de políticas públicas eficientes para as adolescentes, principalmente no acesso ao planejamento familiar de qualidade nas unidades de saúde.

Palavras-Chave: gravidez; adolescente; gravidez planejada. 

INTRODUÇÃO

A gravidez na adolescência constitui um dos principais problemas de saúde pública envolvendo a saúde do adolescente no Brasil, estando a jovem e seu filho vulneráveis a riscos físicos, psicológicos e sociais. A gestação nesta população é, por vezes, não planejada e algumas vezes não desejada pela gestante, seu companheiro e sua família de origem, no entanto, é um acontecimento que pode ter seus riscos minimizados, quando a gestação é acompanhada por uma equipe de saúde responsável pelo atendimento pré-natal.

Adolescente, para a Organização Mundial de Saúde – OMS, é o indivíduo que tem entre 10 e 19 anos de idade(1), sendo a população estimada de adolescentes residentes em 2009 no Brasil igual a 33.273.617 pessoas, que corresponde a aproximadamente 17,4% da população brasileira total, sendo tal faixa etária no Estado do Ceará correspondente a 19,5% da população cearense(2).

A sexualidade tem dimensão especial neste período, devido ao aparecimento da capacidade de procriar concomitante à reestruturação do psiquismo, ocorrendo também gradativa definição de valores éticos e morais. O jovem constrói novos papéis mediante a socialização com seus pares, exercendo, pela sexualidade, uma forma mais influente de sociabilidade e de construção de identidade, sendo delineada e determinada em vários encontros com o outro, sendo um momento de confronto de valores, crenças e emoções(3).

No Brasil, a proporção de jovens com idade entre 16 e 19 sexualmente ativos alguma vez na vida equivale a 61,6%, sendo 14,9 anos a idade média da primeira relação, sendo tendência, tanto no Brasil como em outros países, a estabilização da idade da iniciação sexual entre os 15 e 19 anos(4). No Ceará, entre mulheres que realizavam consulta ginecológica em um serviço de enfermagem ginecológica na cidade de Fortaleza, observou-se que 75,3% das mulheres iniciaram a vida sexual precocemente, entre os 10 e 19 anos de idade(5).

A gravidez na adolescência se apresenta como um tema polêmico e controverso nos debates sobre saúde sexual e reprodutiva, sendo considerada, em geral, situação de risco e elemento desestruturador da vida do adolescente, além de elemento determinante na perpetuação do ciclo de pobreza, pois impõe obstáculos à conclusão dos estudos e ao acesso ao mercado de trabalho(6). Além desses aspectos negativos, é válido destacar a possibilidade da gravidez nesta fase da vida contribuir para que o jovem amadureça e se faça responsável.

O percentual de nascidos vivos de mães adolescentes no país foi em 2006 equivalente a 21,5%, sendo 0,9% para àquelas com idade de 10 a 14 anos e 20,6% para as jovens com idade entre 15 e 19 anos. É importante ressaltar que tal percentual vem sofrendo constante declínio desde o ano de 2000, o que pode estar relacionado à maior difusão de informações sobre o uso de métodos contraceptivos e às novas tendências da mulher na sociedade e no mercado de trabalho(7,8).

O uso estimado de contraceptivos na primeira relação sexual entre jovens de três capitais de diferentes regiões brasileiras é em média 68,3%, sendo o preservativo masculino o método contraceptivo mais utilizado na primeira relação (85,0%), seguido por contraceptivos orais (16,2%)(9). O uso da camisinha na primeira relação sexual tem, muitas vezes, seu uso descontinuado nas relações seguintes, sendo em alguns casos substituído pela pílula, transferindo a responsabilidade pela contracepção para a parceira(10).

Os riscos aos quais as adolescentes grávidas estão expostas, no entanto, não estão relacionados somente à idade materna, mas também ao fato que muitas gestam pela primeira vez, decorrendo daí também riscos adicionais relativos à primeira gravidez. Outros fatores contribuem para os riscos da gravidez na adolescência, como a baixa escolaridade, status social e qualidade de vida e falta de acesso aos serviços de saúde. Os riscos à saúde da mulher e da criança nos casos de gravidez em idade muito jovem são as questões que merecem destaque, e não simplesmente o fato de terem filhos, sendo preocupante a gravidez em adolescentes em situação de vulnerabilidade social(7,11).

Alguns adolescentes não percebem a situação de risco a que estão expostos e a sua necessidade de serviços de saúde específicos, ou não sabem que estes estão disponíveis para ajudá-los. A articulação dos serviços de saúde com outras instituições, como escolas, igrejas, clubes, além de publicações de experiência inovadoras, ajudam a divulgar e ampliar o acesso às informações, constituindo estratégia de promoção de saúde capaz de alcançar esta população(12).

Entre aquelas que supostamente provocam a interrupção da gravidez, 63,7% não planejam a gestação e 26,8% não a desejam, existindo uma forte associação entre gestantes adolescentes e gravidez desejada e não planejada, demonstrando que as adolescentes não possuem maturidade para planejar uma gravidez precoce e suas conseqüências(13).

As jovens que se matriculam no programa de planejamento familiar na sua maioria já vivenciaram a gestação e aderem ao serviço por 12 meses em média, utilizando preservativo masculino ou anticoncepcional hormonal, sendo a reincidência de gravidez entre as jovens que deram continuidade ao programa de aproximadamente 4,9%, sendo que 76,9% destas ocorreram por uso incorreto do método utilizado(14). Entre adolescentes atendidas em maternidade de referência no município de Fortaleza, observou-se a reincidência de pelo menos uma gravidez em 61% das adolescentes nos cinco anos após o primeiro parto(15), provavelmente jovens que não aderiam a programas de planejamento familiar.

Considerando os riscos relativos à gravidez na adolescência e a importância dos serviços de saúde na minimização dos riscos e também na prevenção da gravidez não planejada entre adolescentes, bem como do valor do enfermeiro na assistência pré-natal de baixo-risco, nas atividades de educação, prevenção, promoção e cuidado à adolescente grávida, prestando orientação e apoio na gravidez não desejada, objetivou-se com este estudo observar a freqüência e os fatores de risco para a gravidez não planejada e não desejada entre adolescentes. 

METODOLOGIA

Trata-se de um estudo descritivo, de corte transversal e abordagem quantitativa realizado com puérperas adolescentes com idades de 12 a 19 anos internadas no Alojamento Conjunto de uma Maternidade-Escola de Fortaleza/CE por ocasião da resolução da gravidez no período de março a julho de 2009.

A amostra foi calculada a partir do número de partos ocorridos entre adolescentes nos quatro meses anteriores à coleta, sendo a população estimada igual a 396, admitindo erro amostral de 5% e intervalo de confiança de 95%, correspondendo a uma amostra de 200 jovens.

Os dados foram coletados a partir de um formulário pré-testado contendo dados de identificação e da gestação atual, sendo posteriormente analisados por meio do programa Statistical Package for the Social Sciences – SPSS versão 17 de 2008, pelo qual se realizou o teste qui-quadrado, sendo interpretados com base na literatura publicada sobre a temática.

O estudo foi realizado após autorização para a execução da pesquisa no local escolhido e aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa sob o número 76/08, cumprindo com os preceitos éticos e legais da Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde, mediante assinatura do “Termo de Consentimento Livre e Esclarecido” (TCLE) pelo responsável quando a entrevistada possuísse idade inferior a 18 anos. 

RESULTADOS

É comum observarmos a ocorrência de gravidez não planejada entre adolescentes, no entanto muitas desejam serem mães e quando a gravidez ocorre apesar da falta de planejamento, sentem-se felizes com a gestação. Conhecendo tal realidade, iremos observar a partir da tabela a seguir como as jovens do nosso estudo perceberam a gestação vivenciada.

Tabela  1: Distribuição das adolescentes quanto ao planejamento de desejo pela gestação em uma Maternidade de Fortaleza-Ce em 2009. 

Variáveis (N=200)

N

%

Gravidez planejada

 

 

     Sim

65

32,5

     Não

135

67,5

Gravidez desejada

 

 

     Sim

135

67,5

     Não

65

32,5

 

Dentre as adolescentes estudadas verificou-se, conforme Tabela 1, que 135 (67,5%) afirmaram não haver planejado a gravidez e igual número declarou o desejo em ser mãe, após o conhecimento da gestação, confirmando que a gravidez entre adolescentes, realmente, não é algo planejado inicialmente, mas bem aceito pelas jovens.

Contudo, questiona-se a relação entre o planejamento e o desejo da gestação, conforme descrito na tabela 2: 

Tabela  2: Distribuição das puérperas adolescentes que desejaram a gravidez, segundo àquelas que planejaram engravidar. Fortaleza, Ceará, 2009. 

 

Gravidez desejada

 

Sim

Não

Gravidez planejada*

 

 

 

 

     Sim

62

(95,4%)

3

(4,6%)

     Não

73

(54,1%)

62

(45,9%)

                                *x²=34,131 ; P<0,001

A partir da Tabela 2 percebemos que ocorre melhor aceitação da gravidez quando há planejamento, porém, mesmo quando não o ocorre, a gravidez é desejada pela maioria das jovens, ocorrendo também o inverso, com adolescentes que disseram planejar a gestação, mas quando houve a concretização da gravidez, declararam o não desejo pela mesma.

Encontrou-se significância estatística entre o desejo de ser mãe e o planejamento da gravidez (x²=34,131;p<0,001), de forma que a maioria das mulheres que planejou a gestação desejavam ser mães.

Tabela  3: Distribuição do planejamento e desejo pela gravidez, segundo variáveis socioeconômicas entre puérperas adolescentes em uma Maternidade de Fortaleza-Ce em 2009.

Variáveis (N=200)

Gravidez Planejada

Gravidez Desejada

 

Sim

Não

Sim

Não

Idade

N (%)

N (%)

N (%)

N (%)

12 – 14 anos

3 (16,7%)

15 (83,3%)

9 (50%)

9 (50,0%)

15 – 19 anos

62 (34,1%)

120 (65,9%)

126 (69,2%)

56 (30,8%)

Cor

 

 

 

 

Branca

10 (23,3%)

33 (76,7%)

26 (60,5%)

17 (39,5%)

Parda

45 (36,6%)

78 (63,4%)

89 (72,4%)

34 (27,6%)

Negra

10 (11,1%)

24 (70,6%)

20 (58,8%)

14 (41,2%)

Estado civil

 

 

 

 

Solteira

10 (14,1%)

61 ( 85,9%)

39 (54,9%)

32 (45,1%)

Casada

4 (44,4%)

5 (55,6%)

7 (77,8%)

2 (22,2%)

União Consensual

51 (42,5%)

69 (57,5%)

89 (74,2%)

31 (25,8%)

Escolaridade

 

 

 

 

Fundamental Incompleto

44 (39,6%)

67 (60,4%)

72 (64,9%)

39 (35,1%)

Fundamental Completo

7 (35,0%)

13 (65,0%)

17 (85,0%)

3 (15,0%)

Médio Incompleto

12 (21,4%)

44 (78,6%)

36 (64,3%)

20 (35,7%)

Médio Completo

2 (15,4%)

11 (84,6%)

10 (76,9%)

3 (23,1%)

Renda familiar

 

 

 

 

< 1 Salário

24 (41,4%)

34 (58,6%)

42 (72,4%)

16 (27,6%)

1 – 3 Salários

38 (28,6%)

95 (71,4%)

85 (63,9%)

48 (36,1%)

3 – 5 Salários

3 (33,3%)

6 (66,7%)

8 (88,9%)

1 (11,1%)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Conforme Tabela 3, a gravidez na adolescência apresenta-se com maior prevalência na faixa etária de 15 a 19 anos. Cruzando as variáveis sócio-econômicas com “gravidez planejada” e “gravidez desejada” percebe-se que a gestação ocorre de forma não planejada entre as jovens de ambas as faixas etárias, sendo tal situação mais encontrada nas adolescentes com idade inferior a 14 anos. Quanto ao desejo de ser mãe evidenciou-se que é mais freqüente entre as adolescentes tardias.

No tocante à cor, a gravidez ocorre mais frequentemente entre as jovens que se declaram pardas, sendo também dentre essas que ocorre o maior planejamento, mas assim mesmo não sendo superior aos casos de gravidez não planejada. O desejo pela gravidez é mais prevalente nas pardas quando comparadas às brancas e negras.

O estado civil da maior parte das jovens é constituído por unidas consensualmente, seguidas, respectivamente, por solteiras e casadas. Observou-se entre casadas e as que viviam em união estável considerável planejamento da gestação, assim mesmo não correspondendo a 50% de planejamento, quando comparadas às solteiras, sendo a gestação também mais bem aceita entre àquelas.

Encontrou-se significância estatística entre o estado civil das jovens e o planejamento da gravidez (x2=17,017; p<0,001), de forma que as mulheres que vivem atualmente com os seus companheiros (sejam elas casadas ou unidas consensualmente) apresentaram uma tendência maior ao planejamento da gestação. Isto pode estar relacionado ao fato de existir uma estabilidade maior no que diz respeito ao relacionamento amoroso. Encontrou-se ainda significância estatística entre o estado civil e o desejo de engravidar (x2=7,929; p=0,005), de forma que as mulheres que vivem com seus companheiros apresentaram uma tendência maior de desejar uma gestação. Vale ressaltar que para a realização do teste qui-quadrado, a variável estado civil foi dividida entre adolescentes com companheiro, ou seja, casadas e unidas consensualmente, e sem companheiro, as solteiras.

Quanto à escolaridade, a maioria possuía ensino fundamental incompleto e foram estas que planejaram mais a gestação, porém estavam entre as que desejaram menos. O desejo pela gravidez apresentou-se mais freqüente entre as que haviam completado o ensino fundamental, seguido pelas que haviam completado o médio, ressaltando que não havia adolescentes iniciando ensino superior, provavelmente pela pouca idade das mesmas.

Houve predominância das jovens com renda familiar entre 1 e 3 salários mínimos e estas apresentaram-se entre as que menos planejaram e desejaram a gravidez. A adolescentes com faixa de renda menor que 1 salário representaram as que mais frequentemente planejaram a gestação e àquelas com renda familiar maior que 3 salários as que mais desejaram a gravidez. 

DISCUSSÃO

Diante desses resultados percebe-se que a gravidez entre as adolescentes decorre como algo imprevisto, não programado até então para a sua trajetória de vida, no entanto, assim mesmo, é bem aceita por muitas jovens como confirmam estudos realizados com adolescentes no Rio de Janeiro e em São Paulo no qual 75,0%, na primeira cidade, e 81,2%, na segunda, das adolescentes afirmaram a gravidez como um acontecimento imprevisto, mas aproximadamente 80,0% das jovens que não planejaram a gestação, declararam boa aceitação da mesma no Rio de Janeiro e, em São Paulo, 61,4% declararam na ocasião do parto que a gestação ocorrera em época conveniente(16, 17), sendo este fato mais visível quando existe o apoio da família e/ou do companheiro.

Como esperado, o desejo pela gestação é mais comumente encontrado entre aquelas que planejaram engravidar, mas também está presente entre as que não planejaram. É interessante observar a presença de jovens que mesmo com o planejamento prévio de engravidar, passam a não desejar a gravidez quando a mesma é real, tal fato pode ocorrer devido a possíveis desajustes ou imprevistos como término do relacionamento, perca do emprego, não aceitação da família, presença de morbidades associadas ao período gestacional, entre outros.

A ocorrência da gravidez de forma não planejada é um fenômeno que acontece não só entre as adolescentes como demonstram estudos realizados em Pelotas/RS e Bento Gonçalves/RS ambos com puérperas adultas e adolescentes no qual 56% das gestações na primeira cidade e 48,2% na segunda não haviam sido planejadas(18, 19).

A gravidez imprevista entre mulheres que declaram nunca haver desejado filhos, decorre da não utilização de métodos contraceptivos ou do uso incorreto dos mesmos(20), sendo baixo o conhecimento objetivo e percebido sobre o uso de métodos hormonais entre adolescentes, conforme estudo realizado em Teresina/PI com adolescentes que possuíam antecedentes gestacionais em maternidades da cidade(21).  Em Salvador, Rio de Janeiro e Porto Alegre o uso de métodos contraceptivos entre as mulheres apresentou-se associado à renda familiar per capita e a cor/raça(9).

Considerando a idade das adolescentes, a frequência superior de falta de planejamento entre as jovens com idade até 14 pode estar relacionada ao fato que os adolescentes tendem a usar contraceptivos com mais consistência quando a idade de início da atividade sexual é maior(22) e a frequência inferior de desejo pela gravidez no mesmo grupo, ao menor desenvolvimento psicossocial dessas jovens para assumir o papel de mãe, status socialmente esperado e melhor aceito para mulheres adultas. É válido destacar, no entanto, que não houve diferença estatística entre adolescentes precoces e tardias.

A variável cor também não se demonstrou significativa para o planejamento e desejo pela gestação, sendo as negras as que menos planejaram e desejaram a gravidez. Segundo publicação do Ministério da Saúde, as adolescentes de raça negra apresentam chance 32% maior do que as brancas de se tornarem mães nessa idade(23).

O estado civil constituiu a única variável de significância estatística para o planejamento e desejo pela gestação entre as mães adolescentes, resultado já esperado considerando que a gravidez é mais bem aceita pela sociedade quando dentro do matrimônio ou de uma união estável, não sendo, no entanto, possível determinar qual fenômeno ocorreu primeiro, se a união ou a gravidez. A gravidez pode ter sido planejada antes da união, talvez como forma de manter o parceiro quando o relacionamento está abalado por algum motivo; ou ainda diante do desejo maior de viver a maternidade; também pode ter ocorrido a união anterior à gestação, sendo esta planejada por desejo de uma ou ambas as partes; ou ainda a união pode ter ocorrido como forma de legitimar a gestação, tornando-a mais bem aceita pela sociedade; não podemos, no entanto, descartar a possibilidade de algumas jovens sentirem-se envergonhadas, não tendo coragem para revelar a gravidez como um acontecimento não planejado, diante das diversas formas de evitá-la.

A gravidez entre mulheres solteiras é algo ainda permeado por preconceitos, sendo a mulher que engravida fora do casamento mal vista pela sociedade, o que é contraditório e ambíguo numa sociedade na qual se observa o sexualismo difundido, conferindo legitimidade ao exercício da atividade sexual, porém quando esta acontece antes do matrimonio, deve acontecer de forma sigilosa, favorecendo a falta de diálogo e a obtenção de informação e orientação com pessoas preparadas para oferecê-las(24).

Em relação à escolaridade e o planejamento gestacional, percebe-se que quanto menor o grau de instrução entre as jovens maior é a freqüência da ocorrência da gravidez na adolescência, talvez por menores perspectivas quanto a um futuro profissional, estas jovens acabam vendo na gravidez uma possibilidade de ascender na vida, vêem a possibilidade para a emancipação da família de origem e estruturação de um novo núcleo familiar, no qual serão as “Rainhas do Lar”, sendo uma ansiedade por reconhecimento social(24). No entanto, nestas mesmas jovens percebe-se o menor desejo pela gestação no momento que se descobrem grávidas, que pode ocorrer devido às jovens reconhecerem que a maternidade precoce pode ocasionar uma situação de angústia em que a adolescente terá mais dificuldades em continuar os estudos, interrompendo sua capacitação para adentrar o mercado de trabalho e alcançar uma melhor situação social(25).

As jovens que possuem classe socioeconômica mais baixa planejam mais frequentemente a gestação provavelmente por motivo já discutido anteriormente, o desejo de ascender socialmente, possuindo o status de “mãe” e de “rainha do lar”, no entanto não estão entre as que desejam mais a gestação, talvez por que a gravidez também é vista pelas jovens, em especial pelas de classe social economicamente baixa, como algo oneroso, uma despesa inviável, incompatível com a realidade da adolescente que ainda não atingiu a maturidade e independência financeira(24)

CONCLUSÃO

Conclui-se a partir desse estudo que dentre as puérperas adolescentes, a faixa etária que mais representa tal situação é a que se encontra entre 15 e 19 anos, correspondendo a quase totalidade da amostra deste estudo. Percebemos também que essas jovens são em sua maioria unidas consensualmente e possuem uma baixa escolaridade, nem sempre compatível com a idade cronológica.

Apesar da propagação de informações sobre métodos anticonceptivos na atualidade, a gravidez entre adolescentes prossegue ocorrendo predominantemente de forma não planejada, percebendo-se o provável uso inadequado destes métodos, ressaltando a necessidade da promoção de estratégias educativas eficazes pelos profissionais da educação e da saúde, cada um no desempenho da sua função, na educação sexual e reprodutiva dos jovens, que evidenciem experiências anteriores positivas, bem como atividades que visem à diminuição da ocorrência de gravidez não planejada entre esta população. Neste cenário o enfermeiro tem um papel determinante por ser um dos principais profissionais que atuam nos programas relacionados à saúde da mulher, envolvendo a educação em saúde como estratégia para promoção da saúde desta população.

Diante do exposto, percebe-se que a gravidez entre as adolescentes não é planejada na maioria dos casos, no entanto, apesar disso é desejada pelas jovens, sendo que a variável investigada, estado civil, a que obteve uma maior significância estatística, (com p<0,001 e p = 0,01 respectivamente) em gravidez planejada e gravidez desejada, evidenciando a necessidade de políticas públicas eficientes para as adolescentes, principalmente no acesso ao planejamento familiar de qualidade nas unidades de saúde.

Encontrou-se como limitação deste estudo o fato de o mesmo ter ocorrido em um serviço público de saúde, que se caracteriza por atender principalmente usuários de menor renda financeira. Este é um fator relevante, visto que meninas de melhor status financeiro tendem a ter aspirações profissionais maiores, o que faz com que as mesmas planejem as suas gestações para após a sua estabilidade profissional e financeira. Desta forma, faz-se necessário a realização de estudos que visem uma amostra diversificada, visando maior significância estatística entre os dados encontrados.

Identificamos ainda que o estado civil deveria ter sido investigado em dois momentos: quando adolescente se descobriu grávida e no momento da coleta de dados, enquanto puérperas. Isto pelo fato de a gestação ser um motivo que pode causar a mudança de estado civil entre as adolescentes, e ainda este ser um fator que influencia no planejamento e no desejo de engravidar.

Entretanto, este estudo se destaca por buscar esta abordagem quanto à intenção da adolescente em vivenciar uma gestação, dado o fato de que muitas vezes uma adolescente grávida é vista como culpada ou como se a gravidez representasse um desastre na vida dessa jovem, enquanto que muitas vezes este acontecimento faz parte do desejo e até dos planos destas meninas, apesar das dificuldades que enfrentam. 

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Contribuição dos autores:

Concepção e desenho: NO CAMINHA; AKC DAMASCENO. Análise e interpretação: NO CAMINHA; LV FREITAS; AKC DAMASCENO. Redação do artigo: NO CAMINHA; LV FREITAS; MMS HERCULANO; AKC DAMASCENO. Revisão crítica do artigo: LV FREITAS; MMS HERCULANO; AKC DAMASCENO. Aprovação final do artigo: NO CAMINHA; LV FREITAS; MMS HERCULANO; AKC DAMASCENO. Pesquisa bibliográfica: NO CAMINHA; LV FREITAS; AKC DAMASCENO.

 

Contato: NO Caminha -  E-mail: nairacaminha@yahoo.com.br

Agradecimento: Projeto de Pesquisa Enfermagem na Promoção da Saúde Materna; Universidade Federal do Ceará (UFC); Maternidade-Escola Assis Chateaubriad (MEAC).

 

 






 

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