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The nurse in sexual abuse child suspicion attention: a phenomenology approach
O enfermeiro na atenção à criança com suspeita de abuso sexual: uma abordagem fenomenológica

Lia Leão Ciuffo 1, Benedita Maria Rêgo Deusdará Rodrigues 1, Janice Machado da Cunha 1 

1 Universidade do Estado do Rio de Janeiro, RJ, Brasil 

Abstract: Introduction: This study brings reflexions and contributions about nurse attendance in child sexual abuse suspicion, in view the gravity and seriousness of this issue in society and the possibilities of actions to be undertaken by nurse face the child and his family, considering health promotion, protection and prevention. Objective was to analyze nurse actions in child sexual abuse suspicion context Methodology: qualitative research based on sociological phenomenology of Alfred Schutz, which emphasizes social relations and define the action as human conduct with a purpose, namely, has an intent, the In – Order- To motives of the action, that were captured by phenomenological interview. The questions that guided the interview were: When you attend a child with sexual abuse suspicion, what do you do? ; What you have in mind with nurse actions triggered in this type of attendance? Why? Results: The analysis of speech allowed the apprehension of four categories: interact with other professionals for child care; establish a dialogue and an open allowing, a care with a prospect from the other, to attend the children and fulfilling the routines of the unit.  Conclusions: From interviews comprehension and interpretation the understanding was that nurse’s actions can propel nurses in child health area research and offering possible interferences in family and child assistance and in yours healthy growing and development. Relevance to clinical practice: the study contributes to a better  attendance and identification of child sexual abuse suspicion by the nurse and a wide vision in violence cases assistance. 

Keywords: Nursing. Child. Sexual abuse. Phenomenology.

 Resumo: Introdução: Este estudo traz reflexões e contribuições acerca da assistência do enfermeiro à criança com suspeita de abuso sexual, tendo em vista a gravidade e a seriedade desta temática na sociedade e as possibilidades de ações a serem desenvolvidas pelo enfermeiro em relação à criança e sua família, considerando a promoção, proteção e prevenção em saúde. Objetivo: analisar as ações do enfermeiro no contexto de atendimento à criança com suspeita de abuso sexual.  Metodologia: pesquisa qualitativa pautada na fenomenologia sociológica de Alfred Schutz, que enfatiza as relações sociais e define a ação como conduta humana dotada de propósito, ou seja, tem uma intencionalidade. As perguntas que orientaram a entrevista foram: Quando você atende uma criança com suspeita de abuso sexual, o que você faz?  ; O que você tem em vista com as ações de enfermagem desencadeadas neste tipo de atendimento? Por quê? Resultados: a análise das falas possibilitou a apreensão das categorias: interagir com outros profissionais para o atendimento à criança; estabelecer um diálogo e uma escuta aberta; cuidar na perspectiva do outro e assistir a criança sem deixar de cumprir as rotinas da unidade. Conclusões: a partir da compreensão e interpretação das entrevistas entende-se que as ações de enfermagem podem impulsionar os enfermeiros para o campo da pesquisa na área de saúde da criança oferecendo possibilidades de interferências na assistência à criança e sua família no que se refere ao seu crescimento e desenvolvimento saudáveis. Relevância para a prática clínica: o estudo contribui para um melhor atendimento e a identificação da criança com suspeita de abuso por parte do enfermeiro e uma visão mais ampla da assistência em casos de violência.

 Palavras-chave: Enfermagem. Criança. Abuso sexual. Fenomenologia. 

Introdução 

             As crianças constituem um grupo que apresenta grande vulnerabilidade e exposição a situações de maus-tratos, e, em especial o abuso sexual infantil, que muitas vezes é imposto à criança pela violência física, ameaças ou induções de sua vontade.

 Um estudo nacional divulgou que a Secretaria de Saúde de São Paulo aponta que 60 dentre 71 crianças vítimas de abuso sexual relataram que conheciam a pessoa que as havia agredido sexualmente e que na maioria dos casos tratava-se de um parente biológico. A residência da criança configurou-se como o local mais comum de ocorrência da agressão (42,3%), seguido do domicílio do agressor (28,2%) e em locais próximos à habitação da vítima (22,5%) (1).

   Portanto, o abuso sexual por ser um fenômeno complexo, merece ações efetivas para sua redução; sendo a informação, educação e notificação aos órgãos competentes elementos imprescindíveis para direcionar as ações dos profissionais que lidam diretamente com a criança, em particular, o enfermeiro.

             Há de se considerar que o enfermeiro pode e deve ter ação decisiva frente à realidade diária de abuso sexual contra a criança, haja vista que, além de reconhecer e identificar os sinais de abuso deve estar ciente da legislação de proteção aos direitos da saúde das crianças e das atitudes a serem assumidas diante desses casos. Assim, possibilita o acompanhamento da situação da criança e sua família durante e após o seu atendimento e os desdobramentos jurídicos envolvidos quando se constata a suspeita de abuso sexual.

             A sistematização da conduta do enfermeiro frente a situações suspeitas pode contribuir para uma intervenção embasada em um conhecimento técnico e ético, possibilitando, assim, a interrupção do ciclo da violência no qual muitas crianças se encontram (2).

   Neste sentido, a atuação do enfermeiro nos casos suspeitos ou confirmados do abuso sexual apresenta-se como questão relevante, principalmente quando aliada ao olhar da equipe multiprofissional no desenvolvimento de atividades com vistas à promoção da saúde da criança no seu contexto familiar.

            Na aproximação entre os profissionais de saúde e a família das vítimas é necessário um olhar que considere o sofrimento causado pela perplexidade, indignação e conflitos resultantes dessa vivência. O cuidado do profissional com os familiares visa o bem estar e o estar melhor do cuidador, que por sua vez se refletirá no bem estar e no estar melhor da criança (3).

            O cuidar em enfermagem abriga amplo significado para os seres humanos, pois envolve o relacionamento e interação entre as pessoas. A compreensão do cuidado humano, no qual a enfermagem tem papel fundamental, consiste em contribuir para o bem-estar físico, mental, espiritual e social. Em relação aos enfermeiros (4), afirma-se que devem estar preparados para prover um cuidado holístico a partir das necessidades dos clientes.

            Quando uma vítima de violência busca um serviço de saúde e nele encontra uma enfermeira pró-ativa e empática, que se compromete com a sua dor, pode-se dizer que além do cuidado amoroso do enfermeiro, também se aclara a dimensão social e política da profissão (5). Nesta perspectiva, à medida que as necessidades da criança e sua família são descortinadas, o enfermeiro realiza um cuidado mais focado no caso, promovendo uma ação adequada às necessidades que elas apresentam.

            A partir do exposto delimitamos como objeto deste estudo as ações do enfermeiro face à criança com suspeita de abuso sexual e como objetivo analisar as ações do enfermeiro no contexto de atendimento à criança com suspeita de abuso sexual.

            Pretende-se assim, fornecer subsídios para uma assistência de qualidade, caracterizada por ações pautadas no conhecimento de profissionais de formações diversas no atendimento à criança e sua família diante de um problema tão delicado e ao mesmo tempo, desafiador. 

Metodologia

            Para a realização deste estudo, a metodologia utilizada foi qualitativa, pautada na fenomenologia sociológica de Alfred Schutz, que tem como fundamento a busca do significado da ação a partir da consciência dos sujeitos envolvidos. Por esse motivo optou-se por trabalhar com o significado da ação dos sujeitos que são os enfermeiros que lidam com a criança com suspeita de abuso sexual.

            O termo ação define a conduta humana como um processo contínuo que é percebido pelo ator, que é baseado num projeto pré-concebido (6).

            Nesta perspectiva, o próprio sujeito é responsável pela definição do significado da sua ação.  Perceber a natureza das ações e atitudes adotadas na prática diária do enfermeiro que lida com crianças com a suspeita de abuso sexual é um processo que se dá a partir do contato com essas crianças. Para compreender as ações do enfermeiro é preciso apreender os significados da sua ação no mundo da vida cotidiana que se dá na instituição cenário de sua prática, o que de certa forma indica um modo de ser profissional.

            O mundo da vida significa o mundo da intersubjetividade, que sempre existiu, foi experienciado e interpretado por outras pessoas e por nossos antecessores, como um mundo organizado. Então, pode-se dizer que as interpretações de cada sujeito perpassam pelas próprias experiências de vida, aliado à bagagem de conhecimentos que adquirem através dos ensinamentos de familiares, mestres e pessoas com as quais lidamos direta e indiretamente (6).

Subsidiadas pelas concepções de Schutz buscamos compreender as ações do enfermeiro face ao atendimento à criança com suspeita de abuso sexual para o enfermeiro que atua na assistência à saúde da criança. Para isto, é imprescindível entender a interação do enfermeiro em sua convivência social e, principalmente, as ações de natureza intersubjetiva.

A intersubjetividade se dá à medida que os homens se relacionam, levando-os às influências comuns, compreendendo os outros e sendo compreendido por eles (6).

O caráter subjetivo da ação deve ser dotado de propósito para que o ator concretize uma determinada conduta. Para tanto, a fenomenologia sociológica traz os conceitos do motivo para e motivo porque.

            O motivo para da ação é entender o processo da ação em curso com a perspectiva do futuro. O motivo porque se refere às ações que estão pautadas em experiências passadas, que determinam a atuação do ator (6).

           Compreender os motivos que estão impulsionando a ação humana é a meta do pesquisador social, e ainda assim cada unidade da ação humana é só um corte que se extrai do contexto social como um todo (7).

A realidade social pesquisada envolve os enfermeiros e as crianças com suspeita de ter sofrido abuso sexual. Portanto, é essencial considerar o contexto no qual estão inseridos para apreender o significado das suas ações como algo intencionado para alcançar um determinado fim. 

-Trajetória do estudo

           Os sujeitos desse estudo são enfermeiros de um Hospital Municipal que é referência em atendimento à criança vítima de abuso sexual.

           A entrevista fenomenológica foi a técnica que possibilitou captar os significados das ações dos sujeitos, sendo elaborado um roteiro de entrevista não estruturada. Os sujeitos foram convidados a participar de forma voluntária do estudo, sendo garantido o anonimato na apresentação dos resultados.

           A cada sujeito foi distribuído o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido – TCLE, de acordo com a Resolução nº 196 de 10 de outubro de 1996 (Diretrizes e Normas Regulamentadoras de Pesquisa envolvendo Seres Humanos), do Ministério da Saúde. A investigação foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro, sob número 207/07 em 17 de dezembro de 2007. 

           A priori, não foi determinado o número de entrevistados; no entanto, a partir do momento em que as respostas às perguntas elaboradas no roteiro de entrevista tornaram-se repetitivas e não havia mais uma variação das respostas coletadas, ocorrendo saturação dos achados expressos nas similaridades das falas, as entrevistas foram encerradas.

            As entrevistas foram gravadas com a autorização dos mesmos e tiveram como perguntas orientadoras:

·         Quando você atende uma criança com suspeita de abuso sexual, o que você faz?

·         O que você tem em vista com as ações de enfermagem desencadeadas neste tipo de atendimento? Por quê?

           Participaram do estudo, 11 enfermeiros, sendo 5 diaristas e 6 plantonistas. Vale ressaltar que 2 deles trabalhavam no ambulatório de pediatria e os outros 9 nas enfermarias pediátricas. Em cada encontro foram utilizados cerca de 20 a 45 minutos.

           A cada enfermeiro foi dado um codinome de árvore de copa grande, selecionado aleatoriamente, com o intuito de preservar o sigilo de sua identidade, sendo respeitado, assim, o caráter ético da pesquisa.  

Resultados

           A análise das falas possibilitou a construção de quatro categorias discutidas à luz da fenomenologia, sendo elas: interagir com outros profissionais para o atendimento à criança; estabelecer um diálogo e uma escuta aberta; cuidar na perspectiva do outro.

-Interagir com outros profissionais para o atendimento à criança

          Durante as entrevistas muitos sujeitos enfatizaram nas suas falas que uma providência de grande relevância na assistência à criança que sofreu abuso sexual é interagir com outros profissionais no atendimento à criança. Abaixo destaco algumas falas que revelam a importância da interação multiprofissional: 

[...] encaminhar para conversar com o pediatra para que ele consiga trabalhar essa questão e saber se é uma coisa mais fechada. Na hora que a gente encaminha para a DIP, ou para o serviço social... A partir daí a gente não se envolve. - JACARANDÁ 

[..]a gente tem que estar encaminhando para o serviço social porque é o serviço social que faz os encaminhamentos para o Conselho Tutelar e no meu ponto de vista é importante esse tipo de encaminhamento, né. - OITI 

[...] vamos pedir para o psicólogo e para o assistente social ajuda.Acho que é importante fazer reuniões para cada profissional ver, dentro da sua possibilidade o que pode fazer para ajudar... se temos profissionais que tem esse caminho mais delineado, tem que solicitar a eles... - QUARESMEIRA 

-Estabelecer diálogo e uma escuta aberta

            Ter sensibilidade ao se aproximar, respeitando o momento da criança favorece o estabelecimento de uma conversa saudável entre o enfermeiro e a criança. Os profissionais deixam claro que interagir e deixar a criança o mais confortável possível para se expressar, seja através da fala ou de brincadeiras e desenhos, possibilita uma comunicação mais aberta e, por conseqüência, uma receptividade melhor para as orientações. Vejamos alguns exemplos:

[...] o enfermeiro tem como orientar [...] Saber escutar aquela criança, aquela mãe sem pré-julgamentos [...]. – MAGNÓLIA AMARELA 

[...] brincar com a criança, porque na brincadeira a criança revela muita coisa, nos desenhos a criança fala muita coisa [...]. - QUARESMEIRA 

[...] Você deve procurar estabelecer um vínculo com ela (a criança), de amizade no dia-a-dia para ela desabafar com você, conversar com você ou confidenciar alguma coisa [...].  – JEQUITIBÁ 

[...] mas agora também tem o Estatuto da Criança e do Adolescente que diz que tem que aprender a ouvir e dar crédito para as crianças. - FLAMBOYANT  

-Cuidar na perspectiva do outro

           Os enfermeiros reconheceram que o cuidar está ancorado em um acolhimento direcionado tanto para a criança quanto para sua família. Preservar o paciente evitando sua exposição na enfermaria, tentar minimizar o trauma sofrido e ter sensibilidade e um olhar especial para a família fazem parte desse cuidar em enfermagem segundo as falas a seguir:

O cuidar dessa criança é o que existe de mais importante até para a criança aceitar o tratamento dela ... o primordial é o acolhimento dessa criança, a forma como você se dirige a ela, o vínculo estabelecido entre profissional – paciente no caso de uma violência dessa [...]. - JEQUITIBÁ 

A gente tem que lembrar também do cuidar, tem que observar o comportamento auto-agressivo, se fazem sexo sem proteção...  não é super-proteger, mas sim, fazer um acolhimento sem aquela ciosa maternal, sabe? Fazer um acolhimento de uma forma profissional, preservar para a enfermaria toda não ficar sabendo. - MAGNÓLIA AMARELA 

[...] dar apoio para a mãe, para a família, ter muita paciência numa situação dessas para poder ajudar, realmente. - ABÓBADA 

-Assistir a criança sem deixar de cumprir as rotinas da unidade 

            O enfermeiro, segundo os relatos, deve procurar assistir a criança, sem, no entanto, deixar de cumprir das rotinas da unidade como administrar as medicações prescritas nos horários aprazados, o procedimento do exame físico e a observação minuciosa no momento da higiene corporal são ações de enfermagem que também foram destacadas pelos enfermeiros como constatamos nas falas:

[...] quando se está dentro de uma unidade, de uma enfermaria, você tem que cumprir toda a questão da assistência de enfermagem propriamente dita dos horários, das medicações, identificação de DSTs e fazer o tratamento prescrito [...] você observar não só a questão do abuso propriamente dito, mas os maus- tratos de uma forma geral. - IPÊ ROXO 

[...] você vai examinar e de acordo com o que ela (criança) tiver apresentando. – OITI 

[...] Quando eu estou na enfermaria, eu fico atenta a determinadas situações em que eu suspeito de abuso Então tem que estar percebendo, nos casos crônicos, os comportamentos auto-destrutivos, e ter esse olhar diferenciado para você atuar. - MAGNÓLIA AMARELA 

O típico da ação

           Deste modo, as características comuns a todas as falas permitiu a apreensão de que ao atender à criança com suspeita de abuso sexual, o enfermeiro busca  interagir com outros profissionais para o atendimento à criança e  ao mesmo tempo estabelecer um diálogo e uma escuta aberta possibilitando um cuidar na perspectiva do outro,  visando assistir a criança sem deixar de cumprir as rotinas da unidade.

 Discussão

           De acordo com a primeira categoria interagir com outros profissionais para o atendimento à criança, valorizar as ações interdisciplinares e multiprofissionais é vital para o oferecimento de um suporte adequado, cujos esforços deveriam centrar-se não apenas no exame físico e diagnóstico, mas também no apoio emocional e psicológico com vistas ao bem-estar da criança. O abuso sexual por si só impõe a necessidade de um atendimento diferenciado, acionando o sistema de referência e contra-referência deve funcionar de forma organizada para atender o fluxo do atendimento.

           Os enfermeiros expõem nas falas a necessidade da interação com outros profissionais na assistência, buscando encontrar melhores soluções para seu agir e, com isso, ganhando um suporte e adquirindo novos conhecimentos a partir dessa interação com os outros profissionais.

            As ações de enfermagem enquanto parte das intervenções da equipe multidisciplinar, são desenvolvidas em várias etapas do atendimento, dentre elas: prevenção; identificação de novos casos; suporte para evitar novas agressões; promoção da saúde da criança; capacitação da equipe e estudantes e a educação em saúde dos familiares (8).

           Na segunda categoria, intitulada estabelecer um diálogo e uma escuta aberta ficou claro, em algumas falas, que o enfermeiro está preocupado em promover um ambiente acolhedor para a criança, pois desta forma, ela se sentirá segura para se expressar. Além disso, em algumas falas os enfermeiros expõem a preocupação com a família para tanto, utilizam-se de vocabulário apropriado de acordo com o contexto social e cultural apresentados, colocando-se de modo franco e respeitoso é uma das possibilidades a serem adotadas pelo enfermeiro.

            É essencial que o enfermeiro oriente a família da criança ao lidar com uma situação difícil como o abuso sexual infantil. Assim sendo, em situações graves ou difíceis, a existência de pessoas dando apoio durante o processo de superação dos problemas ajuda a reduzir o seu impacto sobre a criança (9).

           Uma das ações do enfermeiro é o ouvir atento, expressando que se importa com a pessoa que está diante de si, valorizando-o e respeitando seus direitos e decisões, o que pode ajudá-lo a crescer. Ainda acrescenta que para sua recuperação e reinserção tornam-se fundamentais os cuidados ofertados pela enfermagem (5).

            Na terceira categoria cuidar na perspectiva do outro ficou evidenciado que a intenção de cuidar perpassa por aspectos importantes para o indivíduo, pois promove o alívio da dor, o conforto através da palavra, o restabelecimento das condições de saúde e, sobretudo, a doação de amor. Colocar-se no lugar do outro é buscar compreender um pouco do seu problema e seus sentimentos.

            A relação de cuidado humano é transpessoal, onde existe uma conexão especial com o outro, com seu todo, considerando sua forma de ser/estar no mundo. Na relação do cuidado transpessoal, a enfermeira conhece a experiência da outra pessoa e esse indivíduo também tem acesso às experiências da enfermeira, sendo um ideal de intersubjetividade em que ambos estão envolvidos numa troca (10).

           O cuidar reflete a preocupação com o outro. A criação e o estabelecimento de vínculos de afeto, carinho e as manifestações espontâneas de apoio e compreensão são de grande valia na construção de laços do enfermeiro com a criança, segundo os relatos dos enfermeiros.  O afeto e o contato físico ajudam a fortalecer a criança e a curar muitos males do corpo e do coração (9).

            A última categoria assistir a criança sem deixar de cumprir as rotinas da unidade alguns enfermeiros explicitaram a preocupação em dar conta das rotinas de seu setor e, ao mesmo tempo ter um olhar para o cuidado com a saúde física e mental da criança com a suspeita de ter sofrido o abuso sexual. Dessa forma, ficou claro que a tônica da assistência de enfermagem deve comportar muito mais do que o cumprimento de medicações prescritas para cada caso.

           Os enfermeiros entrevistados relatam que a descoberta do abuso sexual, geralmente se dá no momento do exame físico, quando se detecta a presença de DSTs ou a presença de lacerações, hematomas, eritemas, dentre outros. Quando é constatada a presença de DSTs, a criança é encaminhada para a DIP (Doenças Infecto-Parasitárias), onde é feito o tratamento medicamentoso para o problema e, caso haja indicação, é feito o tratamento cirúrgico (principalmente em casos de exérese de condilomas).

           É importante lembrar que apesar da importância de procedimentos, é indispensável o estabelecimento de uma relação com o outro para cuidá-lo em sua fragilidade exposta, tomando em consideração a visão do ser humano como um todo, não se esquecendo de que ele é um cidadão do universo (5).

 Conclusões

           O estudo proporcionou reflexões acerca da atuação do enfermeiro frente ao abuso sexual infantil, o que conduziu a entender que esse fenômeno é complexo e têm raízes sociais, políticas, econômicas e afeta a ordem natural dos acontecimentos da vida do ser humano, deixando marcas invisíveis que o indivíduo carrega por toda a vida.

           As ações de enfermagem podem ser pensadas como mola propulsora que impulsiona os enfermeiros ao campo da pesquisa na área da saúde da criança e das interferências no seu crescimento e desenvolvimento saudáveis. Consideramos importante que as ações sejam em conjunto com os outros profissionais da equipe de saúde, pois as possibilidades de identificar os problemas de saúde e as necessidades a eles relacionadas são maiores.

            A identificação e notificação dos casos de violência e maus-tratos, a comunicação e referência de todos os casos, sejam suspeitos ou confirmados, além do acolhimento, assistência, tratamento e encaminhamento necessários às redes de apoio são de responsabilidade das equipes de saúde (11).

           Além da necessidade de profissionais treinados que saibam investigar e tenham ferramentas adequadas para aplicar na resolução desse tipo de violência, é preciso levar as denúncias a sério. Acreditamos que são necessárias unidades especiais nos departamentos de polícia, promotorias públicas especiais, para alertar os profissionais da escola para que estejam atentos aos indícios de identificação dos casos.

           Diante das possibilidades que a profissão oferece no atendimento a essas crianças, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) deveria ser instrumento de consulta constante nas enfermarias e ambulatórios, pois esclarece ao enfermeiro e outros profissionais os artigos que garantem os direitos das crianças, respaldam a atuação profissional e ao mesmo tempo, apresenta a responsabilidade em notificar e as penas impostas para aqueles que se omitirem.

           Pensamos ser importante que o enfermeiro realize estudos dessa natureza, pois cada vez que deixamos de agir ao suspeitar de um abuso sexual, estamos sendo coniventes com as possíveis recidivas e, muito provavelmente com outros tipos de maus-tratos que podem estar potencializando esse tipo de violência.

           No que diz respeito à Área da Saúde da Criança, o presente estudo colabora com futuras pesquisas como referência além de provocar a reflexão acerca da atuação e postura do enfermeiro ao atender e cuidar da criança que sofreu abuso sexual, incluindo sempre a assistência à sua família.

            Esperamos que este estudo possa sensibilizar e contribuir com a equipe de enfermagem norteando seu cuidar, exercitando, sobretudo, a escuta atenta e um olhar mais apurado para a violência sexual infantil, buscando compreender as atitudes, posturas, a linguagem verbal e a não verbal da criança e seus familiares, que nos revelam significados importantes para a atuação do enfermeiro.

 

Referências

1. Souza CM, Adesse L. Violência sexual no Brasil: perspectivas e desafios. Brasília (DF): Secretaria Especial de Políticas para Mulheres; 2005.

2. Souza ABG, Silva CL, Cavalcante CGD, Gomes RRl. O enfermeiro frente aos maus-tratos na infância e adolescência: proposta de um protocolo. Rev Nurs. 2005; 89(8): 462-7.

3. Silva LMP, Galvão MTG, Araújo TL, Cardoso MVLML. Taking care of children’s on sexual abuse situation considering the humanistic theory. Online Braz J of Nurs. [periódico on- line]. 2007; [Acesso 2008 Mar 24]; 6(1). Disponível em: http://www.uff.br/objnursing/index. php/nursing/article/view/715/162.

4. Warne T, Mcandrew S. The shackles of abuse: unprepared to work at the edges of reason. J Psychiatr Ment Health Nurs. 2005; (12): 679–86.

5. Grudtner DI. Violência Intrafamiliar contra a criança e o adolescente: reflexões sobre o cuidado de enfermeiras. [tese de doutorado]. Florianópolis (SC): Universidade Federal de Santa Catarina; 2005.

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7. Popim RC, Boemer MR. Cuidar em oncologia na perspectiva de Alfred Schutz. Rev Latino-am Enfermagem. 2005; 13(5): 677-85.

8. Pierantoni LMM. (Des) caminhos do protetor da criança em situação de violência: subsídios para a ação da enfermagem na equipe de saúde.  [Dissertação de mestrado]. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro; 2007.

9. Assis SG, Pesce RP, Avanci JQ, Njaine K. Por que é importante ajudar os filhos a “dar a volta” por cima?: Conversando com pais de crianças e adolescentes sobre dificuldades da vida. Rio de Janeiro: FIOCRUZ; 2006.

10. Watson J. Watson’s theory of human caring and subjective living experiences: carative factors/caritas processes as a disciplinary guide to the professional nursing practice. Rev Texto Contexto- Enferm.  2007; 16(1): 129-35.

11. Ministério da Saúde (Br). Secretaria de Atenção à Saúde. Agenda de Compromissos para a saúde integral da criança e redução da mortalidade infantil. Brasília (DF): Ministério da Saúde; 2005.

Endereço para correspondência: Lia leão Ciuffo. Rua Álvares de Azevedo, 96/904 B.Icaraí. Niterói. Rio de Janeiro - RJ. CEP: 24.220-020. E-mail: leaociuffo@yahoo.com.br

Data da defesa da dissertação de mestrado: 08/12/2008. Instituição: Faculdade de Enfermagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).  

Examinadores: Profª. Drª. Benedita Maria Rêgo Deusdará Rodrigues (Orientadora); Profª. Drª. Florence Romijn Tocantins; Profª. Drª. Judith Sena da Silva Santana 

Contribuição dos autores: todos os autores contribuíram para este estudo, tendo Lia Leão Ciuffo participado como orientanda (concepção e desenho, coleta de dados, análise e interpretação e escrita do artigo); Benedita Maria Rêgo Deusdará Rodrigues como orientadora (concepção e desenho, análise e interpretação, revisão crítica do artigo); e Janice Machado da Cunha como co-orientadora (análise e interpretação dos dados, revisão crítica).