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Sistematization of perioperative care - a qualitative research

 Sistematização da assistência perioperatória: uma pesquisa qualitativa

Luciana Grittem1, Marineli Joaquim Meier2, Aida Maris Peres2 

1Hospital de Clínicas, PR, Brasil; 2Universidade Federal do Paraná, PR, Brasil. 

ABSTRACT: Qualitative study which objectified to develop a cooperative process in order to structure perioperative nursing at the surgical unit of a hospital in Curitiba/Brazil. Action-research was the methodology used with seven nurses from the surgical unit. The following thematic categories emerged: organizational structure hindering nurses’ decision-making; basic conditions for perioperative nursing care; caring/managerial nursing work process in the surgical unit; caring/managerial nursing attributions in the surgical unit; perioperative nursing instrument; inclusion of nursing diagnosis in the perioperative nursing instrument; relevant information for the transoperative phase; immediate post-operative period as the action setting for perioperative nursing. The discussion process enabled the reflection on perioperative nurses’ professional practice as well as their actions towards professional recognition.

KEY WORDS: perioperative nursing, nursing process, operating room nursing, technology 

RESUMO: Estudo qualitativo que objetivou desenvolver um processo participativo para estruturar a assistência de enfermagem perioperatória na Unidade de Centro Cirúrgico (UCC) de um hospital de Curitiba. Utilizou-se a metodologia da pesquisa-ação com sete enfermeiras da UCC. Da coleta dos dados, realizada em oito reuniões, emergiram as categorias temáticas: estrutura organizacional como dificultador para a tomada de decisão das enfermeiras; condições básicas para assistência de enfermagem perioperatória; processo de trabalho assistencial/gerencial da enfermeira da UCC; atribuições da enfermeira assistencial/gerencial do centro cirúrgico; o instrumento de enfermagem perioperatória; inserção de diagnósticos de enfermagem no Instrumento de Enfermagem Perioperatória; informações relevantes para o transoperatório; pós-operatório imediato como espaço do fazer da enfermeira perioperatória. O processo de discussão possibilitou refletir sobre a assistência de enfermagem perioperatória e a valorização das ações realizadas pela enfermeira como forma de contribuir para o seu reconhecimento profissional.

PALAVRAS-CHAVE: enfermagem perioperatória, processos de enfermagem, enfermagem de centro cirúrgico, tecnologia. 

Introdução

Inicialmente houve um fazer empírico, até a Enfermagem se caracterizar como uma profissão. Nesta construção pode-se destacar a utilização de uma metodologia para o desenvolvimento de suas ações.  Ao basear-se em conhecimentos científicos para a realização de suas ações, a Enfermagem tem obtido reconhecimento e ampliado suas áreas de atuação, com reflexos sobre a coletividade e equipe multiprofissional. Este progresso deve-se a uma prática baseada na ciência, na tecnologia e na pesquisa1.

A área a ser destacada neste estudo é a assistência de enfermagem prestada na Unidade de Centro Cirúrgico (UCC), como parte do trabalho em saúde. Esta assistência envolve uma equipe multiprofissional, e dentre os seus membros tem-se a Enfermagem que é subdividida em três categorias: enfermeiras, técnicos e auxiliares de enfermagem, com uma divisão técnica de trabalho2.

 Atualmente a enfermagem perioperatória assume um caráter peculiar, preocupada em oferecer ao paciente cirúrgico assistência especializada, individualizada e humanizada. O trabalho da enfermeira no período perioperatório tem como objetivos aumentar a segurança e auto-estima do paciente, estabelecer interação, reduzir ansiedade, garantir segurança física, controlar assepsia, monitorizar condições fisiológicas e psicológicas, diminuir a morbi-mortalidade e realizar atividades em conjunto com a equipe multidisciplinar3. Estas necessidades poderão ser atendidas por meio da Sistematização da Assistência de Enfermagem Perioperatória (SAEP).

A preocupação em sistematizar a assistência tem sido percebida pela Enfermagem há décadas. Uma das ferramentas utilizadas pelas enfermeiras para o planejamento destas atividades é o Processo de Enfermagem, descrito como um método de trabalho, no qual ações são sistematizadas e inter-relacionadas, e visam à assistência ao ser humano4.

Entende-se que o processo de enfermagem, considerado como componente da SAE, é uma tecnologia de enfermagem, aplicada no perioperatório, pautada na cientificidade, raciocínio clínico e aspectos éticos. Este reconhecimento de tecnologia se traduz no conceito construído em conjunto com um grupo de enfermeiras: 

Tecnologia de enfermagem compreende o conhecimento humano (científico e empírico) sistematizado, requer a presença humana, visa à qualidade de vida e se concretiza no ato de cuidar, considerando a questão ética e o processo reflexivo. Os materiais e equipamentos requerem conhecimentos agregados para sua aplicação, sendo assim considerados, tecnologia de Enfermagem5:168. 

A compreensão da SAEP como tecnologia de Enfermagem implica em qualificar a assistência de enfermagem para aprimorá-la por meio de ações reflexivas, com a aplicação de todas as etapas do Processo de Enfermagem, pautadas pelos conhecimentos que sustentam a profissão.

Este estudo justifica-se na necessidade sentida de aprofundar teoricamente a temática sistematização da assistência de enfermagem perioperatória (SAEP) e contribuir na prática para a (re)organização da assistência de enfermagem.

Tendo em vista o exposto anteriormente, a questão norteadora deste estudo foi: “Como estruturar a assistência de enfermagem perioperatória em um hospital de ensino?” Para tanto se estabeleceu o objetivo de desenvolver um processo participativo para estruturar a assistência de enfermagem perioperatória na Unidade de Centro Cirúrgico de um Hospital de Ensino de Curitiba.  

Metodologia

Trata-se de um estudo de abordagem qualitativa, do tipo pesquisa-intervenção, que objetiva influenciar uma realidade para alterá-la6.  Tal pesquisa se propõe à resolução de problemas de forma participativa. Utilizou-se como referencial metodológico a pesquisa-ação7, do tipo intervencionista, que prevê a participação do pesquisador na situação e a sua modificação.

O estudo em questão foi realizado na UCC, de um Hospital de Ensino de Curitiba, capital do Estado do Paraná. Os dados foram coletados durante a realização de reuniões, por meio de observação e gravação das falas dos participantes. A coleta de dados foi realizada no período de março a julho de 2007, durante as 08 reuniões para as quais foram desenvolvidos planejamentos, a discussão central não ultrapassasse 01 hora, visto que algumas participantes não poderiam permanecer após o horário combinado. O tempo previsto para cada reunião foi de no mínimo 60 minutos, não excedendo 02 horas. A participação média nas reuniões foi de 04 enfermeiras

A análise de dados foi qualitativa, mais especificamente a análise temática, que consiste em descobrir os núcleos de sentido8, num determinado discurso, no qual a apresentação ou constância tenham um significado expressivo.

O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos do HC/UFPR, sob protocolo n°. 1278.126/2006-9, atendendo aos aspectos da Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde9 e as demais Diretrizes e Normas Regulamentadoras de Pesquisa Envolvendo Seres Humanos do Ministério da Saúde. 

Discussão dos dados

As categorias emergiram a partir das unidades de significado, extraídas das falas dos sujeitos, das discussões realizadas nas reuniões de coleta de dados. A seguir apresentam-se as categorias e os aspectos relevantes a cada uma delas:  

A estrutura organizacional como um dificultador para a tomada de decisão das enfermeiras da UCC

As enfermeiras expuseram algumas dificuldades que permeiam sua prática assistencial, relacionando-as às deficiências estruturais. Entre elas está a falta de controle dos equipamentos e materiais da UCC. Outros fatores contribuintes para a ocorrência de falhas na assistência de enfermagem são a indefinição de papéis, falta de supervisão, inadequação de recursos humanos e materiais10.

Uma das exigências para eficiência organizacional depende de que os funcionários das unidades conheçam a importância das suas atividades e como elas se articulam a outras atividades desenvolvidas pela organização11.

Neste contexto, é importante que todas as unidades hospitalares, desempenhem suas atividades dando respostas eficazes aos problemas. Cabe a cada profissional orientar, coordenar e controlar suas ações e utilizar os recursos necessários para atingir os objetivos organizacionais.

A cada turno, as atividades e os problemas se modificam e os profissionais envolvidos tomam as decisões de acordo com a necessidade do momento, que inevitavelmente são comentadas e comparadas perante as equipes multiprofissionais que ali atuam. “O reconhecimento do trabalho da enfermeira deve ser iniciado pelos próprios pares”12:111. As ações das enfermeiras devem ser embasadas no conhecimento técnico-científico e suas atribuições devem ser divulgadas primeiramente para equipe da UCC e após para toda a Instituição. Essas profissionais também podem demonstrar sua importância por meio do desempenho cotidiano do seu papel na UCC e de sua participação para o sucesso e efetivação dos procedimentos anestésico-cirúrgicos.

A enfermagem articula-se com uma diversidade de cenários, entre eles pode-se citar o econômico, político e social. Nesta articulação de cenários, nenhum deles é visto como limitador, mas sim como elementos desafiadores a serem transpostos, para buscar o planejamento, estabelecimento e prestação de cuidados de qualidade. O grupo de enfermeiras notou que existe necessidade de ampliar as discussões sobre a prática profissional e estabelecer uma metodologia de trabalho, que esta construção precisa ser coletiva e respeitar as limitações impostas pelos fatores discutidos anteriormente. 

Condições básicas para assistência de enfermagem perioperatória

Os recursos humanos, materiais e financeiros são necessários para o funcionamento das organizações públicas e privadas, constituindo fator que possibilita o alcance das metas pretendidas13.

Nesta perspectiva, o suprimento e manutenção adequados de recursos materiais (insumos e equipamentos) fazem parte do suporte básico para estruturação da assistência de enfermagem. Tendo em vista que na UCC é a enfermeira a profissional responsável pela previsão, provisão, organização e controle desses, isto faz parte significativa de sua jornada de trabalho, afastando-a da assistência direta ao paciente.

Portanto, apesar da Instituição apresentar falha na realização de manutenções preventivas e corretivas dos equipamentos, a enfermeira precisa organizar melhor o tempo que dedica a estas atividades, delegar aos outros membros da equipe multiprofissional.

Desta maneira faz-se necessária a integração com as unidades prestadoras de serviços, para sensibilização destas a respeito da importância das atividades desempenhadas para o funcionamento da UCC, e mecanismos institucionais de planejamento que envolve todas as estruturas afins.

As enfermeiras também refletiram sobre seu papel na UCC e apontaram para a urgência de seguirem uma mesma linha de trabalho. Apesar de tantas outras atividades que relatam, a assistência também é prestada por elas de forma direta em alguns momentos, e ocorre sobrecarga de trabalho, sendo necessário estruturar uma metodologia de trabalho, descrita como estratégia interna pelas participantes.

O método mais conhecido e utilizado para sistematizar a assistência é o processo de enfermagem, que é utilizado no nível hospitalar, ambulatorial e em saúde pública e tem fundamentação científica para resolução de problemas14.

Porém as enfermeiras são educadas para gerenciar serviços de enfermagem, fazer escalas de plantão e de atividades diárias, prever material e pessoal, revisar medicações, visitar pacientes, entre outras. O cuidado indireto assinala o trabalho da enfermeira no Brasil. O cuidado é delegado para outras categorias profissionais da enfermagem15.

Foi pontuada ainda a necessidade de reconhecimento e discussão do processo de trabalho da enfermeira no centro cirúrgico e a definição do papel ou atribuições deste profissional. Percebe-se que a divisão técnica de atividades é uma característica do processo de trabalho da enfermagem, na qual as atividades, procedimentos e responsabilidades são divididos entre diferentes categorias profissionais. Desta forma, o trabalho de enfermagem não é todo executado pela enfermeira, que representa apenas uma parcela deste e a quem geralmente compete o controle administrativo, porque esta perdeu seu espaço ou ainda não o conquistou junto à assistência direta16

Processo de trabalho assistencial/gerencial da enfermeira da UCC

Ao analisar o processo de trabalho em enfermagem, apreende-se a dinâmica e as incoerências da prática, sendo possível contribuir com táticas para mudanças destas17.

Há conflitos acerca das atribuições idealizadas para a enfermeira de centro cirúrgico, pois se busca separar a assistência da gerência, porém o que se observa no cotidiano das instituições de saúde é a enfermeira na gerência do cuidado, que prevê e provê meios para a execução deste. O “nó” crítico desta discussão está aqui, pretende-se construir um processo de trabalho focado no paciente, quando a enfermeira se vê distante dele.

O objeto de trabalho refere-se ao foco do trabalho, quando se revela como passível de transformação. No centro cirúrgico há diferentes profissionais, que atuam em diversas práticas, com diferentes objetos de trabalho, porém com o objetivo comum de prestar assistência perioperatória multidisciplinar e integral, para tanto se torna responsabilidade da enfermeira adequar recursos humanos e materiais, providenciar informações e estrutura física para esta equipe multiprofissional18.

Apesar de algumas participantes pontuarem o paciente como seu objeto de trabalho, percebe-se uma confusão de opiniões, tendo em vista que outras se identificam em funções gerenciais, o que as fazem pensar na equipe de enfermagem como seu objeto de trabalho. Esta divergência é coerente, pois as enfermeiras da UCC desempenham as atividades assistenciais e administrativas no seu cotidiano.

A finalidade do trabalho refere-se à meta de produção no trabalho. Quando questionadas sobre a finalidade de seu trabalho na UCC, houve hesitação. A enfermeira ainda está voltada à organização da assistência sob a alegação de sobrecarga de atividades e falta de tempo para prestar assistência direta aos pacientes, contudo percebe-se o desejo de algumas participantes em modificar seu objeto de trabalho. Este fato pode estar ligado ao desconhecimento das metas institucionais e/ou da indefinição do papel da enfermeira perioperatória.

O instrumental utilizado pelas enfermeiras da UCC em seu processo de trabalho para o desenvolvimento de suas atividades, sejam elas gerenciais, assistenciais, de ensino ou pesquisa, são definidos como tecnologia; pode ser dividida em materiais e equipamentos e ainda atividades humanas e profissionais5.  Estas tecnologias são classificadas em leves (relações e vínculos entre os indivíduos), leve-duras (os saberes e conhecimentos) e duras (materiais, equipamentos e estrutura organizacional)19.

Além da sobrecarga de trabalho e sobreposição de tarefas, as enfermeiras precisam estabelecer coerência na sua prática profissional. Caso contrário estarão todos os dias cumprindo tarefas mecanicamente, sem refletir a real importância de seu trabalho na equipe de saúde e para a sociedade.  

As atribuições da enfermeira assistencial/gerencial do centro cirúrgico

O trabalho da Enfermagem ultrapassa as ações puramente técnicas, administrativas ou assistenciais, ainda que os profissionais de Enfermagem tenham sua formação focada basicamente para o aspecto assistencial. Há conflitos para a determinação de um modelo de atuação para as enfermeiras em centro cirúrgico, pois é necessário elucidar o foco de atenção, tendo como prioridade o paciente e suas necessidades. Mas, devido à situação econômica das instituições de saúde, muitas vezes é valorizado o número de cirurgias realizadas, ignorando-se a qualidade da assistência prestada12.

Nos depoimentos das participantes foi destacada a sobreposição de atividades assistenciais e gerenciais e a necessidade de adequação de recursos humanos. O destaque às atividades gerenciais, ocasiona dificuldades na implementação da assistência de enfermagem direta ao paciente, principalmente no período perioperatório, quando a enfermeira fica sobrecarregada com dupla função, com valorização das atividades burocráticas, afastando-se da assistência ao paciente20.

Desta forma, a temática que emergiu desta discussão provocou surpresa, pois foi unânime entre as participantes a opinião de que seria impossível o desempenho de atividades puramente assistenciais pela enfermeira do centro cirúrgico, pelo menos enquanto a instituição não prover recursos humanos em número adequado para tal divisão de atividades.

Na formação da enfermeira há uma perspectiva de atuação direta junto ao paciente e a família no perioperatório. Porém quando exerce funções gerenciais, este objetivo é alcançado por meio do trabalho em equipe, que precisa ser harmonioso, comprometido e bem determinado12.

O grupo sugeriu a delegação de atividades para outras categorias profissionais da equipe de enfermagem, como alternativa para implementação da assistência perioperatória. Por parecer inviável a criação de uma metodologia de assistência de enfermagem no qual a enfermeira estivesse voltada para o cuidado direto, tentou-se traçar um perfil assistencial/gerencial, segundo o qual a enfermeira seria responsável pelo planejamento da assistência para ser executada por outras categorias de enfermagem.

Entre as atividades assistenciais que são desempenhadas pela enfermeira coordenadora está o desenvolvimento da sistematização da assistência de enfermagem perioperatória (SAEP), entre outras21

O Instrumento de enfermagem perioperatória

São inúmeros os métodos de assistência adotados para a enfermagem perioperatória, entre eles pode-se citar o enfoque de risco, o de gerenciamento de caso (case manegement), práticas baseadas em evidências, planejamento baseado na programação cirúrgica, diagnósticos de enfermagem (NANDA), perioperatório focado no paciente (PNDS), sistematização da assistência de enfermagem perioperatória (SAEP). Este último é o mais difundido no Brasil, por ter como base o processo de enfermagem estruturado no atendimento das necessidades humanas básicas22.

Nesta pesquisa, optou-se pelo investimento na SAEP, tendo em vista o diagnóstico prévio do conhecimento das participantes acerca deste referencial.  Partiu-se então do principio que a discussão sobre a SAEP seria a mais indicada, pois o ponto de partida seria o domínio do assunto pelo grupo.

Para viabilizar a SAEP é necessário implantar a assistência de enfermagem de maneira integral e individualizada, documentar nas fases do pré-operatório, transoperatório e pós-operatório, com o registro das ações da enfermeira em instrumento específico, apropriado para todas as fases21.

Discutiu-se a importância da existência de instrumento para anotações da equipe de enfermagem. Entretanto, algumas participantes sugeriram e justificaram que um documento para anotações das etapas anestésico-cirúrgicas para equipe multiprofissional seria mais viável, tendo em vista o volume excessivo de documentos que compõem o prontuário do paciente e a falta de valorização das anotações de enfermagem.

Perceberam-se no grupo, opiniões inconsistentes e divergentes a respeito dos itens que deveriam compor o instrumento. Em alguns momentos as enfermeiras participantes verbalizaram que não seria competência da enfermeira do centro cirúrgico a avaliação pré-operatória do paciente, mas sim da enfermeira da unidade de internação. Apesar de o grupo ter descrito anteriormente as atribuições da enfermeira perioperatória, não havia se apropriado das mesmas.  

A inserção de diagnósticos de enfermagem no Instrumento de Enfermagem Perioperatório

A SAEP é uma solução utilizada para documentar a assistência por meio de uma linguagem natural, porém é possível incorporar a esta os diagnósticos de enfermagem como proposta para estabelecer uma padronização para os registros de enfermagem.

A utilização de um sistema de classificação define o conjunto de conhecimentos do qual uma determinada profissão tem propriedade, por meio do qual se obtêm uma estrutura de referência singular23,24.

O grupo optou por utilizar, no instrumento perioperatório em reestruturação, os diagnósticos mais comuns nos três períodos (pré-operatório imediato, transoperatório e pós-operatório imediato), num esquema de check-list, por sua praticidade e que permite ainda que outros diagnósticos sejam acrescentados conforme a necessidade e avaliação das enfermeiras. Devido à diversidade de especialidades cirúrgicas, os problemas de saúde destes pacientes também são variados, resultam em inúmeros diagnósticos de enfermagem no perioperatório. Para viabilização de um instrumento de enfermagem, optou-se por trabalhar com os de maior prevalência, pois a instituição não conta no momento com possibilidade de informatização da SAEP para a UCC, ferramenta esta que facilitaria o trabalho da enfermeira. 

Informações relevantes para o período transoperatório

A assistência ao paciente no período transoperatório, ocorre desde o período da recepção do paciente no centro cirúrgico, até o seu encaminhamento para a sala de recuperação pós-anestésica. A enfermeira, por meio de intervenções efetivas, poderá minimizar os riscos decorrentes do procedimento anestésico cirúrgico20,22,25,26.

O transoperatório é dividido em dois momentos, o primeiro diz respeito à chegada e recepção do paciente nas instalações do centro cirúrgico e o seguinte a entrada e permanência na sala de cirurgia21.

A recepção do paciente ao centro cirúrgico é realizada pela enfermeira, seja em uma área específica equipada com recursos humanos e materiais ou improvisada no corredor, por se tratar de um momento de transição no qual são prestadas orientações indispensáveis à minimização da ansiedade do paciente27.

A dificuldade na realização da visita pré-operatória de enfermagem é uma realidade no local de estudo, como já discutido anteriormente. Portanto, a enfermeira deve ao menos recepcionar o paciente no centro cirúrgico para identificar algumas necessidades. Dentre elas está o preparo cirúrgico, orientações ao paciente e verificação de sinais vitais. Este momento é breve, pois na seqüência ocorre sua entrada na sala cirúrgica.

A recepção do paciente no centro cirúrgico deve ser privativa da enfermeira. São de sua competência a identificação do paciente, realização de exame físico conciso, verificação de sinais vitais e anotações da assistência de enfermagem prestada, assim como a identificação de diagnósticos de enfermagem e prescrição para o transoperatório, seguida da condução do paciente para a sala de cirurgia21,27,28.

A fase de montagem da sala cirúrgica precede à entrada do paciente na sala de cirurgia e do início desta. Para tanto são necessárias algumas informações pertinentes ao procedimento que poderão ser conseguidas por meio do aviso de cirurgia, ficha de enfermagem pré-operatória e da visita de enfermagem pré-operatória, a fim de que seja possível preparar a sala, prover carrinho com artigos médico-hospitalares e materiais especiais21,28,29.

Apesar de a enfermeira não se fazer presente na sala cirúrgica durante a realização de todas as etapas da anestesia e da cirurgia, faz-se necessário conhecer a importância das atividades desempenhadas neste período pela enfermagem no transoperatório. Compete à enfermeira delegar e supervisionar o pessoal de nível médio da enfermagem que desempenha estas atividades, que garante conforto e segurança para o paciente e equipe multiprofissional.

Cabe ressaltar que todos os autores anteriormente citados enfatizam a importância da anotação da assistência de enfermagem prestada em todas as fases do perioperatório, com dados claros e confiáveis dos acontecimentos para garantir a continuidade da assistência e para respaldar legalmente o paciente, equipe e instituição sobre os serviços prestados. 

Pós-operatório imediato um espaço do fazer da enfermeira perioperatória

O período pós-operatório imediato corresponde à terceira etapa da SAEP, quando o paciente está se recuperando da anestesia, na sala de recuperação pós-anestésica, unidade de terapia intensiva ou unidade de origem30.

Esta etapa exige da enfermeira observação contínua, criteriosa e responsável, requer competência e qualificação desta profissional para sua função, pois o estado dos pacientes neste período é crítico e de prováveis complicações. Para avaliar as possíveis falhas na assistência prestada, o processo de enfermagem deve encerrar-se com a visita pós-operatória22.

As intervenções de enfermagem no pós-operatório imediato são para identificar, prevenir ou tratar as complicações indesejáveis do procedimento anestésico-cirúrgico, com o objetivo de evitar infecções hospitalares, reduzir gastos, amenizar a dor, diminuir o tempo de recuperação e melhorar a qualidade de vida28.

A enfermeira desempenha um papel vital para o sucesso da recuperação dos pacientes no pós-operatório imediato, porém é indispensável que esteja preparada técnica e cientificamente, para prestação de assistência segura e eficaz, em sintonia com as mudanças tecnológicas, que ocorrem em ritmo acelerado. 

Conclusões

Concluiu-se que os profissionais da especialidade de enfermagem perioperatória atuam em uma área complexa que requer de enfermeiras um perfil dinâmico e empreendedor, além de conhecimento técnico, científico e tecnológico.

A complexidade do funcionamento de uma Unidade de Centro Cirúrgico e da inserção da enfermeira nesta, se fez perceber na diversidade de informações que emergiram na discussão dos dados. Estes apontaram para fatores técnicos, científicos, sociais, financeiros e políticos que envolvem a prática profissional e que interferem direta ou indiretamente no processo de tomada de decisão relacionado ao gerenciamento e planejamento da assistência perioperatória.

Várias questões permearam as reuniões, como a falta de tempo das enfermeiras para realizar assistência direta aos pacientes, justificada na sobreposição de atividades provenientes de problemas da estrutura organizacional; as dificuldades de comunicação e atendimentos; as demandas por outros serviços; a falta de conhecimento acerca de suas atribuições reais e de seu processo de trabalho. Essas situações resultam no afastamento da enfermeira da assistência para assumir atividades gerenciais e burocráticas.

A enfermagem perioperatória pode ser desenvolvida além da fronteiras da UCC, não cabe apenas à enfermeira desta unidade a preocupação com sua organização. Existe assistência de enfermagem perioperatória a ser prestada nos centros cirúrgicos ambulatoriais, serviços de hemodinâmica e endoscopias e até mesmo nas unidades de internação sendo, portanto, um assunto de interesse da Enfermagem, que precisa ter conhecimento das ações a serem desenvolvidas nesta área tão complexa, para que ocorra interação entre as unidades assistenciais, com vistas à integralidade do cuidado ao paciente cirúrgico.

            O tempo reduzido entre a internação e o procedimento anestésico/cirúrgico dos pacientes é apontado como fator restritivo à  implantação da SAEP nas instituições hospitalares e à realização de todas as etapas do Processo de Enfermagem, principalmente a visita de enfermagem pré-operatória31. Esta situação demanda que, em tempo hábil antes do procedimento cirúrgico, a enfermeira priorize um contato com o paciente e seus familiares a fim de realizar o histórico, entrevista, levantamento de problemas e orientações de enfermagem.

Entende-se que uma das implicações da SAEP é considerá-la uma tecnologia conduzida privativamente pelas enfermeiras, com a contribuição de ações realizadas pela equipe de enfermagem do centro cirúrgico. Assim, a SAEP pode tornar-se uma referência a ser seguida com a finalidade de direcionar a prática da Enfermagem. Associada aos registros adequados, favorece o aprofundamento do conhecimento científico e reforça a Enfermagem como ciência.

A implantação da SAEP poderá contribuir para a diminuição dos índices de infecção hospitalar e redução de eventos adversos, tendo em vista que as ações de enfermagem estarão voltadas à prevenção, controle e manutenção do conforto e da segurança do paciente, seus familiares e equipe multiprofissional. Tal contribuição advirá do trabalho da enfermeira voltado à identificação precoce e ao planejamento adequado de medidas que visem diminuir ou eliminar fatores de risco inerentes ao ambiente do centro cirúrgico e da sala de recuperação anestésica, além do respaldo ético e legal em situações que requeiram comprovação e registro.

Não há dúvidas de que a implantação da SAEP resultará em inúmeros benefícios. Entre eles, pode-se listar o planejamento das ações da enfermagem para o paciente e seus familiares, que terão suas angústias e incertezas amenizadas por um contato prévio com a enfermeira perioperatória; o funcionamento da UCC otimizado pela organização das informações resultantes dos registros da SAEP; interação da UCC com as unidades de internação na busca conjunta para resolução de problemas e necessidades dos pacientes cirúrgicos; e, para a pesquisadora que acredita ser uma estratégia de superação e de legitimidade da autonomia da enfermeira.

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Nota: Este estudo é parte da Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós Graduação em Enfermagem do Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal do Paraná, em 2007.

Contribuição dos autores: Concepção e desenho: Marineli Joaquim Meier, Aida Maris Peres, Luciana Grittem; Análise e interpretação: Marineli Joaquim Meier, Aida Maris Peres, Luciana Grittem; Escrita do artigo: Luciana Grittem; Revisão crítica do artigo: Marineli Joaquim Meier, Aida Maris Peres, Luciana Grittem; Coleta dos dados: Luciana Grittem; Aprovação final do artigo: Marineli Joaquim Meier, Aida Maris Peres, Luciana Grittem; Pesquisa bibliográfica: Luciana Grittem; Suporte administrativo, logístico e técnico: Luciana Grittem. 

Endereço para correspondência: Luciana Grittem. Rua Alberto Rutz, 506. CEP 81320-280, Curitiba (PR). Email: lug_hc@yahoo.com.br