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The kinds of knowledge involved in nursing home care: integrative review of the scientific production
Os conhecimentos envolvidos no cuidado domiciliar de Enfermagem: revisão integrativa da produção científica
 

Luciane Favero1, Tatiana Braga de Camargo1, Maria Helena Lenardt1, Verônica de Azevedo Mazza1, Maria Ribeiro Lacerda1. 

1 Universidade Federal do Paraná, Curitiba, Paraná, Brasil 

Abstract: It is an integrative review on Brazilian Nursing scientific production which objectifies to recognize the different kinds of knowledge involved in nursing home care productions. The research study took up January/1998 to March/2008 and resulted in the analysis of 41 productions (34 articles, a PhD thesis, a post-graduation monograph, one graduation paper and four publications in Congress annals), distributed in the following database: MEDLINE, LILACS, SciELO and BDENF. The results evidenced that scientific knowledge was present in 100% of the studies followed by political (63.4%), ethical (56.1%), artistic (19.5%), philosophical and common sense (9.7% each), religious (7.3%), esthetical and mythical knowing (2.4% each). It can be concluded that the professionals in the researched studies use such knowing to deliver nursing home care, however there is a need to broaden studies on the theme in order to bring together scientific knowledge and the other kinds of knowing aforementioned, aiming to render clients and their families authentic, effective and thorough home care.

Keywords: Home Nursing, Research, Nursing, Knowledge. 

Resumo: Trata-se de revisão integrativa acerca da produção científica da Enfermagem brasileira, que objetiva reconhecer os diferentes tipos de conhecimentos envolvidos nas produções sobre o cuidado domiciliar de Enfermagem. A pesquisa compreendeu o período de Janeiro de 1998 a Março de 2008 e resultou na análise de 41 produções (34 artigos, uma tese de doutorado, uma monografia de pós-graduação, um trabalho de conclusão de curso e quatro publicações em Anais de congresso) distribuídas nas bases de dados: MEDLINE, LILACS, SciELO e BDENF. Os resultados evidenciaram que o conhecimento científico esteve presente em 100% dos estudos, seguido pelo político (63,4%), ético (56,1%), artístico (19,5%), filosófico e de senso comum (9,7% cada), religioso (7,3%), estético e mítico (2,4% cada). Conclui-se que os profissionais dos estudos pesquisados utilizam tais conhecimentos na realização do cuidado domiciliar de Enfermagem, no entanto há necessidade de ampliar estudos referentes à temática na tentativa de aliar o conhecimento científico aos demais tipos de conhecimentos expostos, com o intuito de exercer ao cliente e sua família em assistência domiciliar um cuidado autêntico, efetivo e completo.

Palavras-chave: Assistência domiciliar, Pesquisa, Enfermagem, Conhecimento.

 Introdução

A Enfermagem tem buscado desenvolver conhecimentos próprios e específicos, capazes de caracterizá-la como ciência e disciplina. Ela também mantém articulação com as demais áreas de conhecimento para, com esta contribuição, desenvolver sua prática1.

Como ciência, profissão e disciplina, a Enfermagem desenvolve suas ações a partir do conhecimento científico que visa explicar “por que” e “como” os fenômenos ocorrem, na tentativa de evidenciar os fatos que estão correlacionados numa visão global2. Outros tipos de conhecimentos integram o saber/fazer da Enfermagem no cuidado ao cliente, tais como, o conhecimento político, ético, artístico, filosófico, popular ou de senso comum, estético, religioso e mítico.

Na prática do cuidar, o profissional compartilha saberes e costumes com o ser cuidado e, quando essa relação ocorre no ambiente domiciliar, o envolvimento dos diferentes tipos de conhecimentos se torna mais evidente, pois o profissional se insere no contexto do domicílio do cliente e de sua família, compartilha saberes, conhece costumes, crenças e o modo de viver daquelas pessoas.

A modalidade de atenção domiciliar à saúde tem sido amplamente difundida no mundo e abrange a atenção, o cuidado, o internamento e a visita domiciliar, e nela estão envolvidos o cliente, a família, o contexto domiciliar, o cuidador e a equipe multiprofissional3.

O cuidado desenvolvido, seja com o indivíduo, com familiares ou seus cuidadores, no contexto de sua residência, é conhecido como cuidado domiciliar e inclui o acompanhamento, a conservação, o tratamento, a recuperação e a reabilitação dos clientes, em resposta às suas necessidades e de seus familiares. Deve ser capaz de proporcionar efetivo funcionamento do contexto domiciliar e uma morte digna para pessoas em fase terminal4.

O cuidado domiciliar, como estratégia da atenção domiciliar, é uma prática ainda recente no Brasil, portanto suscita conhecimento dos saberes nele envolvidos. Acredita-se que vários tipos de conhecimentos estejam relacionados a esta prática de cuidado e é preciso distingui-los para que seja possível aperfeiçoá-los.

A partir dessas colocações, a investigação foi desenvolvida por meio da seguinte questão norteadora: quais os tipos de conhecimentos envolvidos nas produções sobre o cuidado domiciliar de Enfermagem? Para responder a tal indagação, traçou-se como objetivo: reconhecer os diferentes tipos de conhecimentos que abarcam as produções sobre o cuidado domiciliar de Enfermagem.

Metodologia

Trata-se de revisão integrativa acerca da produção científica da Enfermagem brasileira. Seguiram-se os passos preconizados por Ganong5: seleção da questão temática ou questão problema, estabelecimento dos critérios para a seleção da amostra, representação das características da pesquisa original, análise dos dados, interpretação dos resultados e apresentação da revisão.

Devido ao elevado número de estudos selecionados, que resultariam em grandes tabelas de identificação, optou-se em não utilizar a fase 3 (representação das características da pesquisa original) proposta pela autora. Assim, após definição da questão norteadora, determinaram-se os seguintes critérios de inclusão: produções entre o período de Janeiro de 1998 e Março de 2008 em periódicos indexados em bases de dados eletrônicas, de modo a selecionar as produções atuais da Enfermagem acerca da temática; publicações com abordagem no cuidado profissional de Enfermagem em ambiente domiciliar; produções que utilizaram português como idioma e originárias do Brasil. Os critérios de exclusão foram: produções anteriores ao período determinado, material repetido nas bases de dados pesquisadas, que não abordavam o cuidado domiciliar profissional e oriundos de outros países ou idiomas.

O levantamento do material ocorreu a partir da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), nas bases de dados on-line: MEDLINE, LILACS, BDENF e SciELO. Os descritores utilizados na busca foram: assistência domiciliar, Enfermagem e serviços de assistência domiciliar, além das palavras: cuidado domiciliar e home care, as quais não são consideradas descritores pelo DeCS (Descritores em Ciências da Saúde) da BVS. Os seguintes agrupamentos foram realizados para a coleta de dados: assistência domiciliar e Enfermagem, Serviços de assistência domiciliar e Enfermagem, Enfermagem e home care, cuidado domiciliar e Enfermagem.

A busca inicial resultou em 283 produções que sofreram avaliação dos títulos e dos resumos. Com base nos critérios de inclusão mencionados, foram excluídas 242 produções. Sendo assim, 41 produções tiveram seus textos completos analisados e compuseram a amostra total desta pesquisa.

A quarta fase da revisão integrativa compreendeu a análise dos textos selecionados por meio de um instrumento elaborado que permitiu a obtenção de informações sobre a identificação da produção (tipo de produção: tese, monografia, artigo); dados referentes ao autor (profissão, titulação); e a publicação (título do periódico, título da obra, ano de realização e de publicação do estudo, origem, cidade); base de dado em que foi encontrada e dados característicos do texto (tipo de estudo, metodologia adotada, sujeitos, conceitos trabalhados, coleta de dados, conhecimentos envolvidos, resultados encontrados e considerações apresentadas).

Dentre as 41 produções, tem-se: 34 artigos científicos publicados, uma tese de doutorado, quatro publicações em Anais de Congresso Brasileiro de Enfermagem, um trabalho de conclusão de curso de graduação e uma monografia de curso de pós-graduação (lato sensu).

Dos 34 artigos selecionados, 7 deles eram produções resultantes de dissertação de mestrado; 05 de teses de doutorado; 3 advindos de projetos de iniciação científica; 3 artigos desenvolvidos por grupos de pesquisa, sendo 2 destes, parte de projetos de pesquisas financiados pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq); 2 artigos desenvolvidos com financiamento (CNPq e Fundação de amparo à pesquisa do estado de São Paulo - FAPESP); 1 decorrente de disciplina desenvolvida em curso de mestrado e 13 artigos decorrentes de pesquisas.

Na base de dados MEDLINE foram encontradas 169 publicações, mas nenhuma delas preenchia os critérios de inclusão, sendo, portanto, excluídas. Na base LILACS, foram encontrados 63, dos quais resultaram 10 da análise inicial. No SciELO, 21 artigos foram obtidos, e 13 selecionados. Na base BDENF, 30 produções emergiram e 18 foram selecionadas.

A apresentação dos resultados e discussão dos dados foi obtida de forma descritiva, o que possibilita a avaliação da aplicabilidade da revisão integrativa e atingir o objetivo desse método, ou seja, impactar positivamente a qualidade da prática de Enfermagem e fornecer subsídios ao enfermeiro para sua tomada de decisão cotidiana.

Resultados e discussão

Apresenta-se os tipos de conhecimentos envolvidos nas produções de Enfermagem domiciliar, seguindo as etapas 5 e 6 preconizadas por Ganong5, momento em que ocorre a interpretação dos resultados e apresentação da revisão.

A análise dos diferentes tipos de conhecimentos envolvidos no cuidado domiciliar de Enfermagem ocorreu com base na avaliação do texto na íntegra. Porém, é importante salientar que os textos analisados nesta revisão não traziam explicitamente os conhecimentos utilizados, por isso sua classificação ficou a critério da análise e interpretação dos autores do presente estudo.

Quadro 1 – Tipos de conhecimentos envolvidos no cuidado domiciliar das produções analisadas. Curitiba, 2009

Tipos de conhecimentos

Porcentagem de artigos*

Tipos de conhecimentos

Porcentagem de artigos*

Científico

100% (n=41)

Vulgar

9,7% (n=4)

Político

63,4% (n=26)

Religioso

7,3% (n=3)

Ético

56,1% (n=23)

Estético

2,4% (n=1)

Artístico

19,5% (n=8)

Mítico

2,4% (n=1)

Filosófico

9,7% (n=4)

 

 

Fonte: Os autores, 2009.

* Vários autores utilizaram mais de um tipo de conhecimento para o desenvolvimento de suas produções.

 

O conhecimento científico trata de um conhecimento real, factual, porque lida com ocorrências ou fatos, é contingente, pois suas proposições ou hipóteses têm veracidade ou falsidade conhecida por meio da experiência e não apenas pela razão. É sistemático, forma um sistema de ideias e não se trata de saberes dispersos e desconexos, possui a característica da verificabilidade, a tal modo que as hipóteses que não podem ser comprovadas não pertencem ao âmbito da ciência. É um conhecimento aproximadamente exato, pois novas proposições e o desenvolvimento de técnicas podem reformular o acervo de teoria existente, sendo então falível, em virtude de não ser definitivo, absoluto ou final2.

No recorte de uma das produções analisada, observa-se o envolvimento do conhecimento científico:

“... é necessário que os profissionais de saúde tenham clareza em relação aos termos da atenção domiciliar à saúde, para que possam fundamentar suas práticas e para que tenham uma visão unificada, e, assim, obtenha-se maior êxito na realização de seus objetivos”3:90. 

A Enfermagem utiliza para a realização dos seus estudos, práticas, gerenciamento e ensino, os fundamentos do conhecimento científico. Nesta perspectiva, entende-se porque a totalidade de artigos selecionados utilizou esse tipo de conhecimento em seus estudos, pois ele estabelece os princípios fundamentais do saber para o profissional da área da Enfermagem.

O conhecimento político diz respeito à vida pública, a capacidade ou possibilidade de um grupo ou indivíduos de governar, gerir sobre a atividade de outros indivíduos ou grupos. Todos estão envolvidos totalmente pela política, mesmo quando não querem ou não tem consciência disso. Em sentido amplo, todos têm poderes: de produzir, consumir, criar, punir, comandar; seduzir, agraciar. O homem despolitizado compreende mal o mundo em que vive e é facilmente conduzido ou dominado por aqueles que detêm o poder. Já aquele que é politizado atua na vida pública e é investido de poder para imprimir determinado rumo à sociedade, tendo em vista o interesse comum6.

O conhecimento político foi encontrado em 26 produções acerca do cuidado domiciliar da Enfermagem, conforme exemplo que segue:

“As ações de saúde realizadas no domicílio (...) permitem que os profissionais desenvolvam atividades de modo que o cliente perceba que a sua participação no processo saúde–doença é de fundamental importância, pois é ele (o cliente) que poderá diminuir ou até mesmo eliminar os fatores que colocam em risco sua saúde, não bastando apenas à informação veiculada pelos profissionais”3:91. 

Subsidiado por este saber, o enfermeiro pode tornar-se um agente de mudança, de inovação em potencial, pois dispõe de instrumentos como poder e força, os quais devem ser usados com vistas à coletividade. Assim, é capaz de conhecer o curso de como as questões de saúde são determinadas, repensar os condicionantes e determinantes da realidade, interferir politicamente nestas questões, bem como mobilizar as pessoas com as quais interage, para que também possam agir.

O conhecimento ético é definido ao citar os padrões de conhecimento descritos por Barbara Carper em 1978, como o compromisso moral da enfermeira com o que deve ser feito ou realizado e que objetivos devem ser alcançados com ou para o seu cliente, o que inclui, também, além das normas e códigos de ética, todas as ações deliberadas e sujeitas a julgamentos sobre acerto ou erro1.

Durante a realização dos cuidados de Enfermagem no domicílio, a enfermeira e/ou equipe de Enfermagem se depara com situações críticas, em que são necessárias indagações a respeito do bem e do mal, valores, natureza do dever, moral autônoma e da finalidade da ação moral.

“... ao se despedir de D. Agnes em alemão, disse-lhe a enfermeira: ‘passar bem’. Qual não foi a surpresa com a resposta da cliente também em alemão: ‘o médico prescreveu o sustrate para eu colocar embaixo da língua sempre que sentir dores no peito, mas eu não estou colocando porque desejo morrer’. (...) surpresa com a fala (...) a enfermeira respondeu-lhe, ainda, em alemão: ‘muito bem, mas a senhora já pensou na possibilidade de não morrer e sim desenvolver um derrame e ficar acamada precisando dos outros para tudo?’. D. Agnes silenciou e depois disse: ‘não havia pensado nisso, é melhor eu tomar o remédio’7:221. 

No atendimento domiciliar, a ética auxilia o enfermeiro a alcançar um patamar que norteia e permeia suas ações, munindo-se da somatória de experiências dos demais conhecimentos e de sua própria intuição para chegar a uma decisão capaz de beneficiar o indivíduo e família. Vislumbra a melhoria da qualidade de vida para aqueles que se encontram sob seus cuidados8.

A ética representa mais que o seguimento de regras e normas, ela valoriza elementos ativos no processo, uma vez que as regras não são os únicos elementos presentes na vida cotidiana. A ética como conhecimento se ocupa com a reflexão sobre as noções e princípios que fundamentam a moral. Para o desenvolvimento do cuidado ético além de conhecê-lo, deve-se aplicá-lo, praticá-lo, desenvolver reflexões cotidianas para a tomada de decisões, sem esquecer da autonomia e do respeito ao outro9.

O conhecimento artístico é um modo simbólico que o ser humano se utiliza para atribuir significados ao mundo, o qual mostra, por meio de um objeto, as possibilidades do real. O artístico fala à nossa imaginação e, por isso, sua compreensão exige sensibilidade treinada, disponibilidade e conhecimento específico10.

No cuidado domiciliar, o conhecimento artístico relaciona-se com o fazer e com o desenvolvimento do cuidado humano, em que não há apenas a realização de técnicas e procedimentos, e sim um momento íntimo na relação que deve ser vivenciada com o cliente ou com sua família, e que envolve empatia, interesse, preocupação, apoio nos momentos difíceis, ensino e orientação aos cuidadores, o que se refere ao uso da arte durante o cuidado de Enfermagem11.

“No contexto domiciliar, ocorre o cuidado relacional e/ou terapêutico, numa interação, evidenciando-se, além dos aspectos técnico-científicos, também os afetivos, empáticos e de relação de ajuda”12:36. 

A arte é concebida como expressão, transforma em fim aquilo que em outras atividades humanas é um meio7. Como tal, precisa ser compreendida em sua finalidade (a ciência visa o cuidado técnico, a arte visa o cuidado humano), ainda que pesem os valores simbólicos, individuais ou coletivos das diferentes formas, pois nela reside a essência, a imanência e a transcendência do cuidado de Enfermagem13.

O conhecimento filosófico se distingue dos demais pelo objeto e pelo método que emprega, pois procura conhecer e compreender a realidade mais avançada ou universal que possa ser percebida pelo homem. Este conhecimento conduz a uma reflexão crítica sobre os fenômenos e possibilita informações coerentes14. É caracterizado pelo esforço da razão para questionar os problemas humanos e poder discernir entre o certo e o errado e recorrer unicamente às luzes da própria razão2.

A utilização deste conhecimento limitou-se a uma pequena porcentagem de produções, porém vale destacar que este conhecimento é complexo e possui particularidades que proporcionam um desafio ao profissional que o utiliza em associação ao conhecimento científico. É preciso, antes de tudo, ter formação básica ou pelo menos ser um estudioso do conhecimento filosófico. Sua complexidade encerra o observável sob diferentes aspectos e ainda a reflexão sobre os acontecimentos a partir de certas posições teóricas. Essa reflexão permite ir além da pura aparência dos fenômenos, em busca de suas raízes e de sua contextualização em um horizonte amplo, que abrange os valores sociais, históricos, econômicos, políticos, éticos e estéticos.

“... Como a enfermeira realiza o cuidado domiciliar? Como age? Como delimita suas ações? Como toma decisões? Baseia-se em quê? Como se relaciona com os clientes e familiares? Que papel ela desempenha? Como é que ela insere a realidade da casa no seu cuidar? Como se percebe cuidando? Qual sua conduta com independência, com autonomia? Com certo amadurecimento, (...) foi imperioso buscar estas respostas. O resultado foi surpreendente, pelo achado de respostas que ultrapassavam as minhas expectativas e a percepção sobre o ser/estar enfermeira no cuidado domiciliar. A percepção e apreensão, do assunto em pauta,

ampliaram-se oportunizando a tentativa de compreender a experiência vivida por outras enfermeiras no exercício do cuidado domiciliar.”12:33-34. 

A filosofia é imprescindível para examinar criticamente os rumos da técnica e da ciência no cotidiano profissional, e ainda, é por meio do conhecimento filosófico que os pressupostos da ética, da política e as expressões sensíveis utilizadas no cuidado domiciliar de Enfermagem são reavaliados.

O conhecimento popular, vulgar, espontâneo ou também conhecido como senso comum é construído na vida cotidiana, muitas vezes ao acaso, fundamentado em experiências vividas ou transmitidas de geração a geração, faz parte de tradições e pode derivar de experiências casuais, por meio de erros e acertos, sem fundamentação metodológica14.

O conhecimento do senso comum, assim como o filosófico, ocupou 7,8% das produções analisadas. Esse fato é devido ao cuidado domiciliar ser realizado em um contexto de diferentes crenças, culturas, hábitos que são valorizados e respeitados durante todo processo de cuidar. A relevância para a enfermeira está em saber utilizar o científico por meio da valorização da experiência e do saber comum7.

“Fátima (...), cuidadora (...), ao ser indagada sobre o que fazer em uma crise hipotensiva, referiu que: (...) ‘para pressão baixa é só tomar um copo de leite com sal’.Verifica-se, segundo Leininger, que, no domicílio, o sistema popular de cuidado acontece, naturalmente, sendo prestado pelas pessoas próximas e que o mesmo é resultante de uma bagagem cultural, que valoriza as crenças e é determinado pelos hábitos e práticas cotidianas (...)”7:219.  

No domicílio, o profissional se depara com diferentes culturas, modos de viver, hábitos, costumes e tradições, os quais se evidenciam no interior dos lares, pois os indivíduos encontram-se despidos de críticas e julgamentos. Cabe ao enfermeiro a percepção destes padrões e conduzir de forma ética a realização do cuidado, sem prejudicar sua essência, e, de forma sensível, verificar se a manutenção destes costumes trará algum prejuízo à saúde dos envolvidos no cuidado, para que, de forma perspicaz e científica, possa mostrar ao indivíduo e a família a necessidade de adaptações a este modo de viver8.

O saber popular é fruto dos sentidos, da memória, do hábito, dos desejos, da imaginação e principalmente das crenças e tradições. Assim, ele também subsidia a Enfermagem para o cuidado domiciliar, ao mesmo tempo em que possibilita à profissão condições de operar sobre ele.

O conhecimento religioso é definido como um conjunto de verdades que advieram da revelação com o sobrenatural, caracterizado pela natureza sagrada, pelo caráter valorativo e pela infalibilidade, o que exige, por conseguinte, apenas uma adesão humana daquele que assim crê por meio do que é chamado ato de fé15.

Encontrou-se a inserção e utilização do conhecimento religioso em apenas três pesquisas selecionadas. Apresenta-se pequeno trecho de uma delas:

“... A equipe (que cuida do cliente em cuidados paliativos seja no hospital ou em ambiente domiciliar) deve considerar a participação de um religioso (não devendo ser administrado por apenas um indivíduo, e sim um grupo de indivíduos que trabalhem juntos). (...) apesar de todo o avanço da ciência, ainda estamos pouco preparados para lidar com as questões subjetivas (...) é necessário considerar aspectos técnicos, culturais, sociais, religiosos, psicológicos (ao se definir pelo cuidado domiciliar em detrimento do hospitalar)16:18-19

A Enfermagem no domicilio compartilha a racionalidade e organização para alcançar progresso na luta contra o sofrimento e a doença, entretanto é preciso entender que a religiosidade é parte significativa do processo terapêutico da maioria das pessoas.

A religiosidade é mais creditada diante da ameaça da doença e da morte. Ao invés das explicações reducionistas da medicina, os sistemas religiosos de cura oferecem uma explicação à doença que a insere no contexto sociocultural mais amplo do sofredor17. Neste tipo de conhecimento não cabem questionamentos ou experimentações que tentem prová-lo, pois ele encontra-se pronto, organizado, sistematizado, com regras, hierarquias e leis. É proporcionado por uma entidade divina e exige a fé para seu entendimento15,18.

O conhecimento estético na Enfermagem é entendido como o “que faz conexão dos significados mais profundos de uma situação e aponta os recursos criativos internos necessários para transformar uma determinada experiência em algo que ainda não é real, mas que é possível”1:24. É aliado importante na busca do cuidado efetivo e possibilita o verdadeiro cuidado humanizado, pois restabelece a sensibilidade do profissional e complementa os saberes do enfermeiro.

A palavra estética vem do grego aisthesis e significa faculdade de sentir, compreensão pelos sentidos, percepção totalizante10. O conhecimento estético estuda as condições e os efeitos da criação artística. Tradicionalmente é o estudo racional do belo, quer quanto à possibilidade da sua conceituação, quer quanto à diversidade de emoções e sentimentos que ele suscita no homem.

Nas produções selecionadas, este fez parte da elaboração de 2% dos estudos, o que não retrata o verdadeiro valor e importância que tal conhecimento tem principalmente no que diz respeito ao cuidado domiciliar de Enfermagem, visto que deve ser um dos principais conhecimentos utilizados pelos profissionais desta área de atuação. Suas peculiaridades exigem do profissional a dotação de sentimentos, emoções, humildade, paciência, intuição, flexibilidade, simpatia, entre outros, e que reconhece, na relação com o outro, a chave para o início do cuidado domiciliar8.

“... Pôde-se observar em dona Agnes, (...) como ela pontua o seu dia-a-dia, diante do trágico, cuja perda de visão significou não ler, não assistir TV, não sair. Porém, seu cotidiano manifesta-se em um querer viver/deixar viver: ‘gosto muito de música, então, deito na cama e fico ouvindo, isso me dá prazer’. Dessa observação nasceu um bate-papo em torno de cantores e suas músicas, ou seja, a enfermeira foi despertada pela cliente para sentir a beleza da letra de uma música de dupla sertaneja. (...) Ver o (in)visível pode ser um exercício interessante e, no domicílio, onde acontece o cuidado de enfermagem, a singularidade precisa ser preservada como um ato de respeito e de valorização do ser humano e do ambiente”7:220

O conhecimento mítico é um modo ingênuo, fantasioso, anterior a toda reflexão, e não crítico de estabelecer algumas verdades que não só explicam parte dos fenômenos naturais ou mesmo a construção cultural, mas que dão as diretrizes da ação humana10.

Ao perceber tal significado e compreender a influência do sobrenatural no cotidiano da população brasileira, entende-se que este conhecimento deveria perpassar as produções nacionais da Enfermagem domiciliar, pois esta forma de atenção à saúde ocorre no contexto do cliente e sua família, em que estão envolvidos pelas suas crenças e costumes. Entretanto, em apenas 2% das produções analisadas, foi encontrado o uso deste conhecimento no cuidado domiciliar.

“A fascinante evolução dos conhecimentos sobre o processo saúde-doença desenha um caminho de cuidado com a saúde projetado para os ritos mágicos (...). Paralelamente ao desenvolvimento científico absoluto, o ser humano continuou com suas crenças enriquecidas de mitos e ritos para o enfrentamento do estar doente. Assim, inúmeras práticas alternativas e/ou complementares foram usadas e insistem em se perpetuar através dos tempos”7:217. 

O mítico remete para os tempos mais remotos, em que o homem buscou formas de explicar o mundo. Os fenômenos naturais e os acontecimentos da sua própria existência o conduziram a criar um conhecimento que saciasse suas dúvidas e tornasse a realidade mais clara e inteligível. Como o homem primitivo não conhecia a escrita, buscou observar os fenômenos por meio de símbolos e alegorias, e criou os mitos.  Porém, o mito não cabe na categoria do fantástico. Seu objeto de investigação é a realidade, mesmo que, muitas vezes, a recriação do mundo real o aproxime da arte19.

Destaca-se que a narração mítica fornece suporte à vida em comunidade, capaz de ligar o homem a um mesmo passado, a uma mesma história. Por isso, o mito constitui um elo que permite alcançar as origens e o passado dos povos, pois confere identidade aos indivíduos e à comunidade, o que o torna parte da cultura e tradição populares19.

No cuidado domiciliar de Enfermagem, ao se excluir o conhecimento mítico, estar-se-á empobrecendo a realidade humana. As pessoas hoje, tanto quanto as que viviam no período antigo, não são somente razão, mas também afetividade e emoção. Negar a associação do mito às práticas do cuidado domiciliar é negar algumas das expressões fundamentais da existência humana. Estas são fundadas no desejo de segurança e da imaginação que cria histórias tranquilizadoras às quais guiam as pessoas no cotidiano pela vida afora, independente do seu desenvolvimento intelectual. 

Conclusão

Percebe-se por meio das produções analisadas que ocorre o envolvimento de vários tipos de conhecimentos durante a realização do cuidado domiciliar de Enfermagem. Ao agregar tais saberes, o enfermeiro descobre novos caminhos, assume postura crítica em relação à importância de seu papel nas práticas de saúde, na organização do sistema de saúde e na sociedade. Assim, o enfermeiro torna-se ator ou sujeito chave na discussão, planejamento e organização do cuidado domiciliar, pois este processo permeia toda a atenção à saúde, em especial, ao atendimento domiciliar, prática esta que tem se inserido no sistema de saúde, mas ainda requer avanços.

Alguns conhecimentos pouco se destacaram, embora tenham sido utilizados durante o cuidado de Enfermagem prestado ao cliente e sua família. Assim, a Enfermagem atuante na atenção domiciliar à saúde tem utilizado os diversos tipos de conhecimento durante a realização de suas ações e tais práticas sempre aconteceram aliadas ao conhecimento científico. Esta constatação não poderia ser diferente pela formação da Enfermagem, que se alicerça no modelo biomédico e este por sua vez é emergente do conhecimento científico, o qual exerce um controle rigoroso em seus procedimentos.

O cuidado domiciliar requer a coexistência de outros saberes e a articulação entre eles, para que o cliente e sua família assistidos por esta estratégia da modalidade de atenção domiciliar à saúde supram suas reais necessidades de cuidado. Porém, o conhecimento estético e o mítico foram pouco utilizados nos estudos referentes à temática em questão, este é um dado que deve incitar os profissionais que atuam no cuidado domiciliar de Enfermagem para o avanço de pesquisas que contemplem tais saberes.

Foi possível reconhecer nesta investigação os diferentes tipos de conhecimentos envolvidos no desenvolvimento de estudos sobre o cuidado domiciliar na Enfermagem e a união de alguns deles, embora indelével, nas produções analisadas. Tais considerações expostas ficam para reflexão, revisões de condutas e possibilidade de pesquisas futuras, visto não ter sido encontrado nos materiais disponíveis, pesquisas que remetessem ao foco deste estudo e que pudessem contemplar a temática do cuidado domiciliar nesta perspectiva. 

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18- Araújo CAA. A ciência como forma de conhecimento. Ciência & Cognição. [on-line]. 2006 jul; 8(Ano 3) [acesso em 2009 abr 01]: 127-142. Disponível em: http://www.cienciasecognicao.org/pdf/v08/m32690.pdf

19- Dvoranovski C. As relações homem-mundo e a produção do conhecimento. In: Johann JR. (coordenador). Introdução ao método científico: conteúdo e forma do conhecimento. 3ªed. Canoas (RS): Ulbra; 1997, p. 13-30.

 

Contribuição dos autores: Concepção e desenho: Luciane Favero; Pesquisa bibliográfica: Luciane Favero; Coleta dos dados: Luciane Favero; Análise e interpretação: Luciane Favero, Tatiana Braga de Camargo; Escrita do artigo: todas; Revisão crítica do artigo: Maria Helena Lenardt, Maria Ribeiro Lacerda, Verônica de Azevedo Mazza; Aprovação final do artigo: todas; Provisão de materiais ou recursos: Luciane Favero; Suporte administrativo, logístico e técnico: Maria Helena Lenardt, Maria Ribeiro Lacerda, Verônica de Azevedo Mazza.

 

Endereço para correspondência: Luciane Favero. Rua: Urbano Lopes, 214, Apto.1901, Bl. A – Cristo rei, CEP: 80050-520. Curitiba, PR. Brasil. E-mail: lucianefavero@yahoo.com.br

NOTA: Artigo desenvolvido na disciplina de Concepções do Pensamento Filosófico-Antropológico Aplicadas a Enfermagem do Curso de Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Paraná (PPGENF-UFPR).

 





 

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Online Brazilian Journal of Nursing. ISSN: 1676-4285

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