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Contraception in Adolescence: Literature Review.

Anticoncepção na Adolescência: Revisão da literatura 

Ana Beatriz dos Santos Reis 1, Ianê Nogueira do Vale 2 

1Universidade Estadual de Campinas, SP, Brasil; 2Universidade Estadual de Campinas, SP, Brasil 

Resumo: É preocupante para a saúde pública o fato de os adolescentes serem a parcela da população que apresenta maior taxa de fecundidade nos últimos anos. Foi realizada uma pesquisa bibliográfica a fim de identificar os motivos pelos quais os adolescentes continuam apresentando comportamento de risco apesar de serem informados sobre os métodos contraceptivos. Duas bases de dados informatizadas foram consultadas: LILACS (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde) e MEDLINE (Literatura Internacional em Ciências da Saúde). Foram encontrados 128 artigos, dos quais 16  foram escolhidos por serem textos compreendidos entre os anos de 2003 e 2008 que  mais se adequaram à proposta da pesquisa. Após a análise dos artigos, a discussão foi baseada em cima dos principais temas abordados pelos estudos: o nível de conhecimentos dos adolescentes quanto aos métodos anticoncepcionais, a idade da primeira relação sexual, o método mais utilizado, os fatores relacionados ao não uso de métodos anticoncepcionais, o uso dos métodos relacionado ao sexo do adolescente e o uso de drogas relacionado à anticoncepção. A pesquisa permitiu notar que o conhecimento não é o ponto chave da mudança de comportamento em relação ao sexo seguro entre os adolescentes. Os adolescentes tendem a usar contraceptivos com mais consistência quando a idade de início da atividade sexual é maior. Entre os métodos contraceptivos mais utilizados pelos adolescentes estão a pílula, o condon. Além disso, os pais têm influência significativa sobre o comportamento dos filhos, podendo contribuir para a redução da taxa de gravidez. A não utilização dos métodos contraceptivos está relacionada a relação sexual não esperada, o custo, a satisfação, a possível ocorrência de efeitos colaterais e atitudes do parceiro, bem como o uso de álcool e drogas está fortemente associado ao sexo inseguro. Os dados apontados podem ajudar a elaborar formas de lidar com os jovens e criar diferentes estratégias para alcançar comportamentos saudáveis dessa parcela da população. Além de levantar a necessidade de desenvolver estratégias educacionais que abordem o assunto nas múltiplas dimensões.

Abstract: It is worrisome to the public health the fact that adolescents are the portion of the population which has increased the fertility rate in recent years. This article aims to identify the reasons in the literature why adolescents are still presenting risk behavior despite of being informed about contraceptive methods. Two computerized databases were consulted: LILACS (Latino-American and Caribbean Health Sciences Literature) and MEDLINE (International Database for Medical Literature). It has been found 128 articles, from which 16 were chosen to fit more to the proposed research. After analyzing the article, the discussion was based on the main issues addressed by the studies: the level of knowledge of adolescents about contraceptives, the age of first sexual intercourse, the most used contraceptive method, the factors related to the no using of contraceptives, the use of methods related to the sex of the adolescent and the use of drugs related to the contraception. The research enabled to note the complexity of the factors that determine the behavior of young people about contraception. The data indicated can help to develop ways of dealing with adolescents and create different strategies to achieve healthy behaviors. There is also a need to develop educational strategies that address the matter in multiplies dimensions. 

Keywords: adolescent, contraception, adolescent behavior.   

Introdução:     

A adolescência é um período de transição da infância para a fase adulta e compreende uma fase de simultâneas mudanças na área mental, biológica e social do indivíduo1. Essa fase de transformações é delimitada pela faixa etária estabelecida por alguns documentos e entidades como o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) e a OMS (Organização Mundial de Saúde). Segundo o ECA2, a adolescência corresponde ao período dos 12 aos 18 anos incompletos; já para a OMS3 se estende dos 10 aos 19 anos de idade. A divergência demonstra a dificuldade de estabelecer o período exato, já que se trata de uma fase que é influenciada por aspectos culturais, sociais e particulares 1.

Os adolescentes compõem uma parcela considerável da população, e de acordo com a estimativa do IBGE, no Brasil existem 33.273.617 adolescentes na faixa etária dos 10 aos 19 anos até o ano de 20094. Esse número tende a aumentar a nível sem precedentes, tanto no nosso país como no mundo 5. Esses números são preocupantes para a saúde publica, já que esses indivíduos estão numa fase de buscar novas experiências e explorar o que lhe é novo 6. São mais vulneráveis a apresentar comportamento de risco, pois têm maior propensão a deixar se influenciar pelo meio em que vivem 7.

Nessa busca por novas vivências, o adolescente apresenta  comportamentos que podem comprometer sua saúde tanto física como mental proporcionando conseqüências negativas a curto e longo prazo ( 8). Entre os comportamentos de risco estão o uso excessivo de álcool, fumo e drogas ilícitas, alimentação inadequada, atividade física insuficiente e comportamento sexual desprotegido, conseqüentemente, essas práticas acabam sendo a causa da mortalidade dessa parcela da população, pois os tornam suscetíveis a adquirir doenças sexualmente transmissíveis e gravidez indesejada 9

Pode-se perceber a gravidade desse comportamento quando verificamos os números que a OPAS publica em seus relatórios, como o fato de aproximadamente 70.000 adolescentes sofrerem complicações associadas à gravidez a cada ano, bem como o número de infecção por transmissão sexual entre os jovens de 15 a 24 anos de idade ser elevado 5. Segundo a OMS, aproximadamente 15 milhões de crianças nascem no mundo a cada ano de mães adolescentes de 15 a 19 anos de idade 1. No Brasil, apesar do decréscimo da fecundidade nas mulheres em geral, as adolescentes apresentaram um aumento considerável da taxa de fecundidade 1.

A gravidez na adolescência é vista como um grande problema tanto para a mãe quanto para o bebe, por aumentar as chances de complicações como o risco de aborto, prematuridade, malformações, alterações comportamentais, bem como contribuir para o aumento das taxas de morbi-mortalidade materna (10,11). Para agravar ainda mais a situação, nos últimos anos, o perfil dos adolescentes tem mudado em relação ao comportamento sexual12.  Com a facilidade de obter informações a respeito de questões sexuais, os adolescentes têm iniciado a atividade sexual mais precocemente 13.

 O início da atividade sexual precoce associado ao comportamento de risco tem sido uma dos maiores causas do aumento das taxas de gravidez indesejada e contração de doenças sexualmente transmissíveis nessa faixa etária 14.

Nos últimos tempos, adolescentes têm tido mais informações sobre anticoncepção. Na prática clínica e no ambiente escolar, verifica-se como é raro um adolescente dizer que não recebeu informações sobre anticoncepção 15. Apesar dessas informações, os números indicam que não há uso ou continuidade do uso por estes jovens. 

Diante do exposto, o conhecimento, atitude e prática do uso de anticoncepcionais entre os adolescentes necessita ser melhor investigado. Qual o motivo que leva os adolescentes a continuarem apresentando comportamento de risco em relação à proteção de uma gravidez indesejada?

Objetivo:

Identificar na literatura motivos pelos quais os adolescentes continuam apresentando comportamento de risco apesar de serem informados sobre os métodos contraceptivos.

Metodologia:

A revisão bibliográfica foi realizada através de pesquisa no site da Biblioteca Virtual em saúde (BVS), da Biblioteca Regional de Medicina (BIREME), na qual se buscou identificar estudos cujas combinações de descritores eram as seguintes: “comportamento do adolescente”, “contracepção” e “adolescência”.  Foram encontrados 104 artigos na MEDLINE e 24 trabalhos na Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS). Foram selecionados aqueles publicados no período compreendido entre 2003 e 2008. Essa determinação do ano foi devido à necessidade de captar as recentes publicações sobre o tema. Fez-se uma primeira leitura dos resumos dos artigos, descartando-se aqueles que francamente não se encaixavam no propósito do estudo. Em seguida, passou-se à localização dos artigos completos e novos artigos foram descartados de tal forma que se chegou a um resultado de 16 artigos.  Os artigos completos foram encontrados em sua maioria na biblioteca digital CAPES. Foi necessário procurar alguns periódicos na biblioteca da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp para tentar encontrar os artigos que não foram encontrados na biblioteca digital. Os artigos não encontrados nos locais citados acima tiveram de ser requisitados à bibliotecária que entrou em contato com outras universidades conseguindo tais artigos. Finalmente, dos 16 artigos escolhidos apenas 2 não estavam disponíveis. Após leitura dos artigos, foi feita uma ficha de leitura para cada um, na qual foram destacados os pontos em comum dos artigos. As informações foram comparadas e analisadas em seguida. A discussão foi elaborada em cima dos temas elencados nos artigos usados para a revisão bibliográfica.

Resultados:

Os principais assuntos abordados pelos autores foram: o nível de conhecimento dos adolescentes quanto aos métodos anticoncepcionais, a idade da primeira relação sexual, o método mais utilizado, fatores relacionados ao não uso de métodos anticoncepcionais, uso dos métodos relacionado ao sexo do adolescente e o uso de drogas relacionado à anticoncepção. 

Os assuntos abordados pelos autores foram os pontos principais da discussão.

1-Nível de Conhecimento sobre MAC:

Muitos estudos avaliaram o nível de conhecimento dos adolescentes em relação à anticoncepção buscando identificar se a educação sexual fornecida tem apresentado falhas ou se tem sido suficientemente esclarecedora dos diversos métodos anticoncepcionais. Alguns estudos aprofundaram essa questão perguntando sobre os mecanismos de ação, fisiologia e efeitos colaterais, vantagens e desvantagens do uso; outros estudos se limitaram a investigar apenas se o adolescente recebeu educação sexual e em que local (na escola ou em casa) se deu essa educação.

A necessidade de saber o nível de conhecimento por parte dos adolescentes nasce da possibilidade de relacionar esse aspecto com a utilização de contraceptivos, a fim de investigar se a educação sexual tem alguma influência sobre as atitudes dos jovens. 

O conhecimento nem sempre reflete no comportamento adequado por parte dos adolescentes, como vemos no estudo de Almeida et al16 que buscou investigar o aspecto citado acima. O autor em seu estudo transversal com 1.664 entrevistados de ambos os sexos, entre 11 e 19 anos de idade, que haviam tido relação sexual prévia, pertencentes a escolas publicas da Bahia, investigou o nível de conhecimento sobre contracepção, fertilidade e concepção e concluiu que esses indicadores não se mostraram associados ao uso de contraceptivos.

Bretas17 também apóia que o comportamento de risco dos adolescentes não está relacionado ao conhecimento após realizar um estudo descritivo com 80 adolescentes de ambos os sexos, na faixa etária entre 14 e 18 anos, freqüentadores de um centro de formação profissional da zona sul da cidade de São Paulo. Nesse estudo o autor detectou que os adolescentes apresentam pouco conhecimento sobre os diversos métodos anticoncepcionais, sendo os mais conhecidos a camisinha e pílula. No entanto, poucos usam continuamente os métodos que mais conhecem.

Em uma análise retrospectiva e descritiva Díaz et al18 tentaram reconhecer a relação entre a educação prévia e o uso de métodos contraceptivos das fichas de 347 mulheres de 11 a 16 anos que engravidaram, pertencentes ao oriente de Santiago, no Chile. Os autores pesquisaram a menção de educação sexual prévia e a relacionaram com o uso de algum método contraceptivo. Por fim, concluíram que apenas 34,05% das pacientes que haviam recebido algum tipo de educação sexual haviam utilizado algum método para evitar uma gravidez.

Como se pode observar o conhecimento não é o ponto-chave na mudança de comportamento. Levanta-se, então, a questão: há outros fatores que podem influenciar as atitudes além do conhecimento?

Segundo Hillard19, o conhecimento sobre métodos pode estar associado positivamente com o uso de contraceptivos, mas alguns fatores podem influenciar o comportamento dos adolescentes como o apoio do parceiro ao método e crenças sobre fertilidade; fatores estes, que poderiam atenuar os efeitos benéficos do conhecimento. Assim também, o estudo realizado em outro contexto por Almeida et al16, detectou que a parceria estável na primeira relação sexual esteve associada positivamente ao uso de contracepção, o que poderia supor que em relacionamentos estáveis os parceiros têm mais tempo para chegar a um consenso sobre o uso de contracepção.

Além desses fatores influenciadores, é necessário comentar sobre as fontes de informação dos adolescentes, ou seja, pessoas a quem o adolescente se reporta como fonte de informação e que podem ter influência positiva ao uso de contraceptivos. Foram encontrados nos estudos que a família tem um papel considerável no incentivo ao uso de contraceptivos.

Em seu estudo, Almeida et al16, observaram que a família tem grande influência no uso de contraceptivos nos adolescentes do sexo masculino. Um estudo islandês, com 1.181 meninas e 224 meninos sexualmente ativos entre 17 a 20 anos de idade, detectou que um dos fatores que induziam o comportamento contraceptivo entre as garotas era o fato de seus pais saberem do uso de contraceptivos 20.

 Em estudo transversal com 164 adolescentes Taiwanesas entre 16 e 19 anos de idade, Wang et al21 inferiram que o fato das adolescentes serem mais propensas a utilizar o coito interrompido como método anticoncepcional pode estar relacionado com a cultura local. Os autores inferem que o sexo pré-nupcial não é aceitável no país, portanto, as adolescentes por provável medo, principalmente, dos pais descobrirem que elas têm usado métodos contraceptivos optam pelo método do coito interrompido.

Pelos estudos citados percebe-se que a influência dos pais é considerável quando se trata de contracepção. Quando os pais são abertos ao diálogo ou estão conscientes do uso de anticoncepcionais pelos adolescentes, ou mesmo são fontes de informação e apoio aos filhos, acabam por reduzir as taxas de gravidez na adolescência, como afirma Hillard19.     

2-Início da atividade Sexual:

Há estudos que apontam sobre a idade de início sexual e sua relação com a consistência no uso de contraceptivos.

O estudo de Almeida et al16 detectou que o uso de contraceptivos na primeira relação sexual das garotas esteve positivamente associado à iniciação mais tardia e ao fato de ter o pai como fonte de informação sobre sexualidade. O estudo transversal islandês de Bender e Kosunen 20, realizado em outro contexto, afirma que um dos itens que propicia o uso de contraceptivos nas garotas é adiamento da idade de início sexual. O mesmo estudo detectou que os adolescentes que estavam com idade entre os 15 e os 16 anos quando iniciaram as relações sexuais, eram duas vezes mais propensos a usar contraceptivos, enquanto aqueles que tinham 17 anos ou mais foram cinco vezes mais propensos a fazê-lo quando comparados aos de idade de 14 anos ou mais jovens.

Outro estudo mostra um baixo índice de uso de contraceptivos e início de atividade sexual precoce. Ao realizar um estudo descritivo pesquisando o perfil de adolescentes do sexo feminino atendidas em ambulatório de um hospital destinado a saúde da mulher situado em uma cidade do interior de São Paulo Costa-Paiva et al22, relata , que a média de idade de início da atividade sexual ocorre aproximadamente aos 14 anos, além de detectar uma alta taxa de gravidez e baixa incidência de uso de métodos anticoncepcionais entre a população estudada.

Após realizar um estudo transversal no México com 15.241 adolescentes de 12 a 19 anos de idade Garza et al23 verificaram que as adolescentes que iniciaram a vida sexual antes dos 14 anos de idade tiveram probabilidade de engravidar 12,29 vezes mais que as adolescentes que iniciaram atividade sexual entre 18 e 19 anos de idade.  

Como se pode observar, a idade de início sexual tem influência sobre o uso de métodos anticoncepcionais. Para Martins et al12 que realizaram estudo transversal no município de São Paulo procurando investigar o conhecimento sobre métodos anticoncepcionais de 1594 adolescentes entre 12 a 19 anos de idade, inferiram que a idade de início sexual mais tardia pode estar relacionada a uma maior busca ativa por mais informações contraceptivas pelo adolescente refletindo, assim, positivamente no uso dos métodos anticoncepcionais. Talvez a busca ativa de informações seja uma forma que motive os adolescentes a adquirir maior conhecimento quando estão mais amadurecidos e gerar assim, um comportamento mais adequado em relação à anticoncepção.    

A maturidade também é um fator que pode ser levado em conta quando se trata do uso de métodos anticoncepcionais nas relações sexuais, como afirma Bretas17 depois de realizar um estudo descritivo, verificou que o sentimento de onipotência era constante na população estudada. São muito freqüentes as falas em que o adolescente acredita que não engravidará ou não contrairá doenças sexualmente transmissíveis, ou seja, nada acontecerá porque é jovem. Este sentimento é conhecido como onipotência 17. Talvez esse sentimento esteja menos presente nos adolescentes que iniciam a vida sexual com maior idade, o que poderia ser um motivo pelo qual os adolescentes mais velhos apresentem maior comportamento contraceptivo.

3-Método contraceptivo mais utilizado:

            Muitos artigos apresentaram os métodos anticoncepcionais mais utilizados pelos adolescentes nas diferentes amostras. 

Nota-se que a escolha dos contraceptivos pode depender do local onde o adolescente está inserido. No estudo transversal de Godeau et al24 foi observado que entre os adolescentes pertencentes aos países do Norte da America e à Europa os métodos mais usados na última relação sexual foram: camisinha a mais utilizada, seguida pelo método combinado (condom e pílulas), em terceiro lugar o uso de contraceptivos orais isolados. Os autores ainda inferem que algumas diferenças geográficas geraram padrões no uso de anticoncepcionais orais: os adolescentes do norte e oeste da Europa são mais suscetíveis a usar contraceptivos orais que os do sul e leste da Europa. Godeau et al24 chegam a mencionar que tais padrões podem ser ocasionados pelas diferentes formas de acesso aos contraceptivos e serviços de saúde, bem como pela cultura e pelos valores transmitidos aos adolescentes.

No estudo taiwanês de Wang et al21, observando uma diferente amostra de adolescente, concluíram que os preservativos eram os contraceptivos mais populares, sendo o coito interrompido o segundo mais popular.

Entre as adolescentes chilenas com historia prévia de gravidez e que relataram usar métodos contraceptivos, o método mais utilizado eram os contraceptivos orais (55,1%), seguidos pela preferência de condons (39,37%) e apenas 2,36% relatavam usar o método combinado (camisinha e pílula)18.

Percebe-se que as características da amostra dos adolescentes juntamente com suas distintas etnias demonstram a variabilidade nas escolhas dos métodos.

Outro fato observado foi a escolha do contraceptivo relacionada à ocasião da atividade sexual, assim, o método contraceptivo escolhido na primeira relação era distinto do contraceptivo escolhido na última relação sexual. Larsson et al25, em seu estudo transversal, observaram que a dupla proteção foi relatada por 8% dos entrevistados em relação à primeira relação sexual e por 6% dos adolescentes em relação à última relação sexual.

O estudo de Bender e Kosunen20, pesquisando outro contexto, observaram que após a “estréia sexual” os adolescentes islandeses costumam usar com mais freqüência os anticoncepcionais orais que o preservativo.

Há diferenças também quanto ao gênero do adolescente e a escolha do método contraceptivo. Godeau et al24 verificaram que a camisinha era usada por 78,4% dos adolescentes do sexo masculino em sua última relação sexual, enquanto que das adolescentes do sexo feminino esse numero cai para 67,9% em 12 países. Outro ponto importante observado é o fato de maior número de garotas relataram uso de pílulas na ultima relação quando comparado aos garotos.

No estudo de Bender e Kosunen20, os adolescentes do sexo masculino usaram camisinha com mais freqüência, enquanto as adolescentes usaram os contraceptivos orais mais frequentemente.

Percebe-se que a escolha do método contraceptivo foi variada nas diferentes amostras dos adolescentes entrevistados. E que pode haver múltiplas variáveis que interferem na escolha do método contraceptivo como a diferença de valores, culturas, tipo de relação sexual, bem como as diferentes perspectivas de gênero.

4-Uso de MAC relacionado ao sexo do adolescente:

Adolescentes de diferentes sexos apresentam comportamento distinto como pode ser visto nos estudos. Conhecer o modo como cada sexo encara a anticoncepção pode ajudar a entender como se estabelecem os acordos na escolha do método e quais os fatores que contribuem para a consistência do uso de contraceptivos.   

Os estudos brasileiros de Martins et al12 e Bretas17, pesquisando diferentes contextos, detectam que os adolescentes acreditam que a mulher deve ser a principal responsável pela contracepção. 

Isto talvez reflita na forma como as mulheres agem, sendo as que mais usam contraceptivos quando comparadas aos garotos. No estudo brasileiro de Almeida et al16, as mulheres relataram maior uso de contracepção tanto na primeira quanto na ultima relação quando comparada aos garotos, além disso, elas relataram com mais freqüência o uso consistente.

Em  estudo transversal sueco com 718 estudantes de 18 anos de idade, dos quais 387 eram homens e 331 mulheres, que responderam a um questionário, Larsson et al25 mostraram que os adolescentes do sexo masculino são aparentemente menos responsáveis do que as garotas no que se refere a anticoncepção, bem como os garotos costumam ser menos propensos a usar métodos contraceptivos na ultima relação sexual.

Entre acreditar na sorte ou em si mesmo em relação à possibilidade de engravidar, Bender & Kosunen20 em seu estudo islandês, verificaram que as garotas acreditam mais em si mesmas que os garotos.

Podemos ver que os estudos estrangeiros também mostram que as mulheres costumam assumir mais comportamentos contraceptivos que os homens. Talvez o motivo do comportamento contraceptivo ser mais comum em mulheres se deva ao fato de terem de enfrentar as conseqüências de uma gravidez não planejada17  e, provavelmente, seja por isso que a responsabilidade de usar anticonceptivos acabe sendo tarefa prioritariamente feminina na concepção da maioria dos adolescentes.

5-Fatores relacionados ao não uso de contraceptivos:

Os artigos lidos mostraram diversas perspectivas sobre o comportamento contraceptivo. Como se pode observar através dos discursos acima, o comportamento de contracepção nas relações sexuais tem várias dimensões. Tentou-se delinear os principais fatores que podem influenciar na tomada de decisão dos jovens.

É importante considerar a parcela dos adolescentes que não fazem uso de contraceptivos para se tentar entender quais são os fatores que possam estar envolvidos, numa tentativa de buscar estratégias que mobilizem esses jovens a usarem contraceptivos.

 Portanto, este sub-item abrange os principais fatores que aparecem entre os adolescentes das diferentes amostras dos estudos lidos que costumam não fazer uso de métodos contraceptivos.

Um dos estudos lidos observou um fator que pode levar os adolescentes a não utilizarem os contraceptivos. Paiva-Costa et al22, pesquisando adolescentes brasileiros, identificou que a não utilização de métodos contraceptivos é mais freqüente entre os adolescentes que detém parceiros fixos.

            Para Bretas17 os adolescentes entrevistados relataram que o grau de intimidade com o parceiro pode determinar a aderência ao uso do preservativo.

Além da relação com o parceiro, outro estudo aponta outro fator envolvido na não utilização de métodos contraceptivos. Almeida et al16, pesquisando um contexto distinto do estudo citado acima, verificou que o motivo mais relatado pelos adolescentes que mantiveram relações sexuais dos últimos seis meses e não fizeram uso de contracepção foi o fato de não esperar ter a relação sexual, sendo assim, para essa população ter relações imprevisíveis foi causa principal do sexo inseguro.    

A dificuldade de planejar o uso de contraceptivos foi apontada como um motivo para o não uso no estudo islandês de Bender e Kosunen20, após detectar que os adolescentes que relataram maior dificuldade de planejar o uso de métodos eram os que mais se arriscavam em relações desprotegidas.

Uma série de fatores influencia o comportamento contraceptivo do adolescente para Hillard19, entre eles estão a facilidade do uso do método contraceptivo, o custo, a satisfação, a ocorrência de efeitos colaterais, a idade e atitudes do parceiro. 

            Enfim, cada estudo notou um diferente aspecto que pode conduzir ao comportamento de risco, mostrando como é variada a perspectiva de cada estudo quando se trata da contracepção e o grau de intimidade que tem com o parceiro.

6-Uso de drogas e anticoncepção:

Embora poucos artigos tenham investigado sobre este tema, aqueles em que os jovens foram interrogados sobre o assunto mostraram que o uso de álcool e substâncias que alteram o humor tem forte associação ao não uso de métodos contraceptivos nas relações casuais.

Thorsén et al26 realizou um estudo no qual foi feito um grupo de discussões com 16 adolescentes suecas de 15 a 18 anos de idade questionando sobre diversos assuntos, entre eles o uso de álcool e o sexo. Todos os grupos relataram que comumente ocorre sexo casual nas festas, bem como, as adolescentes concordaram que uso de álcool leva ao sexo inseguro.

Costa-Paiva et al22 detectou, em seu estudo brasileiro, que 16% das garotas entrevistadas faziam uso de alguma substância que altera o humor, sendo que o consumo de álcool era o mais comum. A autora infere sobre a possibilidade do uso de drogas e álcool contribuir para pratica de sexo desprotegido tornando os adolescentes vulneráveis à contração de doenças sexualmente transmissíveis e gravidez indesejada.  

Dentre os estudos lidos, Larsson et al25 foi o que mais comentou sobre o assunto. Em seu estudo com 718 estudantes suecos de 18 anos de idade, concluiu que o uso de álcool é o fator que mais contribui para a não-utilização de anticoncepcionais tanto nas primeiras como nas últimas relações sexuais. O autor ainda comenta sobre a complexidade do assunto baseando-se em outros estudos, inferindo que por um lado pode haver características pessoais que levam o adolescente a culpar o álcool por uma relação sexual da qual se arrependeu; e por outro lado, o sucesso do uso de preservativo nas relações sexuais pode depender da quantidade de bebida ingerida, assim, poderia aumentar a falha do uso de preservativo quando combinado com álcool.

Pode-se perceber que a associação entre o uso de álcool e sexo inseguro é comum entre os adolescentes e se trata de um tema complexo, sendo necessárias mais investigações para entender o comportamento contraceptivo nos adolescentes.  

Conclusão:

O conhecimento formal não é o ponto-chave na mudança de comportamento em relação ao sexo seguro entre os adolescentes. Quando os pais são fonte de informação e apoio aos filhos, as taxas de gravidez na adolescência podem reduzir.

Os adolescentes tendem a usar contraceptivos com mais consistência quando a idade de início da atividade sexual é maior.

Entre os métodos contraceptivos mais utilizados pelos adolescentes estão a pílula, o condon. A pílula é um método com alta eficácia, mas depende de um comportamento disciplinado na utilização.

As mulheres são mais ligadas ao uso de anticonceptivos, mas é fundamental o apoio do parceiro ao método. Assim, os relacionamentos estáveis são mais seguros do ponto de vista de evitar uma gravidez indesejada.

Entre a parcela de adolescentes que declaram não fazer uso de contraceptivos, os fatores que parecem estar envolvidos nessa atitude estão relacionados a relação sexual não esperada, com parceiros casuais, o custo, a satisfação, a possível ocorrência de efeitos colaterais, a idade e atitudes do parceiro.

Finalmente, o uso de álcool e drogas é fortemente percebido como associado ao sexo inseguro e tem se tornado comum entre os adolescentes.

Considerações finais e aplicações práticas:

O profissional de saúde deve estar atento aos valores incutidos e também na forma como esse adolescente se relaciona com seus familiares.  

            Levanta-se a necessidade de elaborar programas que atuem na prevenção em busca da conscientização dos adolescentes mais jovens de suas responsabilidades na iniciação de atividade sexual. 

A pesquisa permitiu notar a complexidade dos fatores que determinam o comportamento dos jovens quanto à anticoncepção. Esses dados podem ajudar a elaborar formas de lidar com os jovens e criar diferentes estratégias para alcançar comportamentos saudáveis dessa parcela da população. Além de levantar a necessidade de desenvolver estratégias educacionais que abordem o assunto nas múltiplas dimensões.     

Referências Bibliográficas:

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