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Care of user with suicidal behavior: the view of Health Community Agents – a qualitative study

 

Atendimento ao usuário com comportamento suicida: a visão dos Agentes Comunitários de Saúde – estudo qualitativo

 

Kelly Piacheski de Abreu1, Eglê Rejane Kohlrausch2, Maria Alice Dias da Silva Lima3.

 

1 Acadêmica de Enfermagem da Escola de Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Brasil. Membro do Grupo de Pesquisa em Saúde Coletiva – GESC.

2 Professora Assistente da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Brasil. Doutoranda de Enfermagem do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Membro do GESC.

3 Professora Associada da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Brasil. Doutora em Enfermagem. Membro do GESC.

 

Abstract. In view of growing rates, the suicidal behavior represents a complex problem worldwide. Health Community Agents (HCAs) are important components of the Family Health Strategy because they establish relations of exchange between the scientific and the popular knowledge. These workers can identify and prevent the suicidal behavior. The objective of this study is analyzing the HCAs´ conceptions about the attendance rendered to users with suicidal behavior in the health care basic units. It is a qualitative research and the data collection was performed by means of interviews. For the treatment of data, the technique of analysis of thematic content was utilized. Results indicate that HCAs are workers that identify mainly the suicidal behavior. The actions that are mostly performed by the HCAs with users with suicidal behavior are: communication of the fact to the staff, listening, welcoming, monitoring of medication use and home visits. The HCAs refer fear of approaching users with suicidal behavior because they are not qualified in the field of mental health. Evidences show the importance of bonds and the participation of the family in these situations.  The results may serve as basis for proposals of actions aiming at the integrality of the care in the attendance to users with suicidal behavior.

Keywords: Suicide Attempted; Primary Health Care; Family Health

 

Resumo. O comportamento suicida, devido a crescentes índices, representa um complexo problema mundial. Os agentes comunitários de saúde (ACS) são importantes componentes da Estratégia de Saúde da Família, pois estabelecem relações de troca entre saber científico e popular. Estes trabalhadores podem identificar e prevenir o comportamento suicida. O objetivo deste estudo é analisar as concepções dos ACS sobre o atendimento prestado a usuários com comportamento suicida nas unidades básicas de saúde. Trata-se de uma pesquisa qualitativa. A coleta de dados foi realizada por meio de entrevistas. Para o tratamento dos dados, foi utilizada a técnica de análise de conteúdo temático. Os resultados indicam que os ACS são os trabalhadores que, principalmente, identificam o comportameto suicida. As ações, mais realizadas pelos ACS com usuários com comportamento suicida, são: comunicação sobre o fato para a equipe, escuta, acolhimento, monitoramento do uso da medicação e visitas domiciliares. Os ACS referem medo de abordar usuários com comportamento suicida, pois não são capacitados na área de saúde mental. Evidenciou-se a importância do vínculo e da participação da família nestas situações. Os resultados podem servir de base para propostas de ações visando à integralidade do cuidado na atenção aos usuários com comportamento suicida.

Palavras-chave: Tentativa de suicídio; Atenção Primária à Saúde; Saúde da Família.

 

INTRODUÇÃO

 

Os dados epidemiológicos sobre o comportamento suicida são ascendentes, representando um complexo problema mundial. As taxas de tentativas de suicídio são, aproximadamente, dez vezes maiores que as taxas de suicídios consumados. Ou seja, uma em dez tentativas de suicídio resulta em morte (1). No ano de 2000, cerca de um milhão de pessoas suicidaram-se no mundo, índice que aponta para uma taxa de mortalidade de 14,5 em cada 100 mil pessoas (2).

O assunto demanda atenção de profissionais de diversas áreas que podem intervir, visando à prevenção das tentativas de suicídio (3). Assim, faz-se necessário a interdisciplinaridade e a combinação do social com o biológico para que se possa obter uma explicação satisfatória dos motivos e causas que levam os indivíduos a tentarem e consumarem sua própria morte (4).

Um estudo descritivo bibliográfico identificou 50 teses e 128 dissertações sobre o comportamento suicida. Entre as ciências humanas, a psicologia desenvolveu maior quantitativo de pesquisas com 26 trabalhos, sendo 18 dissertações e 8 teses. A saúde coletiva liderou o ranking das ciências da saúde em maior número de estudos, 19 dissertações e 3 teses, sendo que a psiquiatria ficou logo em seguida com 9 dissertações e 11 teses (5). Estes achados podem denotar uma maior preocupação destas áreas com o comportamento suicida.

Em outro estudo, foi identificado que mais de 75% das vítimas de suicídio procuraram um serviço de atenção primária à saúde no ano de sua morte e 45% no mês que cometeram suicídio (6). Portanto, profissionais da saúde pública desempenham importante papel na detecção precoce de fatores de risco.

A Estratégia de Saúde da Família (ESF) mostra-se como um modelo de atenção à saúde que pretende articular ações com as políticas de saúde. Acrescenta, na sua prática, o domicílio e espaços comunitários, fortalecendo, assim, o vínculo entre profissionais de saúde e a comunidade (7).

Foi identificado em um estudo que enfermeiras de Unidades Básicas de Saúde se envolvem pouco no atendimento a usuários com comportamento suicida, sendo que os Agentes Comunitários de Saúde (ACS) são os trabalhadores que mais se envolvem nessas situações (8). Visto que as enfermeiras são responsáveis pelo planejamento, gerenciamento, coordenação, avaliação e supervisão das atividades desenvolvidas pelos ACS, bem como a realização de atividades de qualificação e educação permanente dos mesmos (9), torna-se imprescindível o conhecimento das ações destes trabalhadores para identificar suas potencialidades e dificuldades na realização do trabalho, visando melhorias na qualidade do atendimento prestado.

Os Agentes Comunitários de Saúde (ACS), trabalhadores da equipe de saúde da comunidade onde moram, têm se revelado importantes agentes da equipe da ESF, pois estabelecem relações de troca entre os saberes científicos e os saberes populares. A peculiaridade de conviverem com a realidade da comunidade e as práticas de saúde do bairro onde residem, faz com que exista a possibilidade de um diálogo profundo entre a comunidade e a equipe de saúde, tornando a Estratégia mais resolutiva. Ademais, os ACS dispõem de conhecimento sobre a dinâmica social da área onde habitam, permitindo a análise da forma que ocorre a penetração de saberes no universo popular (7).

Nessa perspectiva, os ACS são capazes não somente de identificar, mas também de realizar atividades de prevenção do comportamento suicida. Assim, este artigo tem o objetivo de analisar as concepções dos agentes comunitários de saúde sobre o atendimento prestado a usuários com comportamento suicida nas unidades básicas de saúde, destacando as ações desenvolvidas com esses usuários.

 

METODOLOGIA

 

Este estudo foi desenvolvido seguindo o método qualitativo, que permite ao pesquisador interpretar a significação de fenômenos que ocorreram com certos indivíduos. Estes significados são imprescindíveis para qualificar as relações entre o usuário, sua família, o profissional e a instituição, bem como compreender seus sentimentos, idéias e comportamentos (10).

O cenário para a realização desta pesquisa foi constituído por unidades de saúde da rede básica do município de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, pertencentes à gerência distrital Lomba do Pinheiro e Partenon. A região pode ser descrita como um grande espaço geográfico, onde encontramos sete bairros e mais de sessenta vilas, com variados níveis de urbanização e infra-estrutura. A área caracteriza-se pela incidência de população em condição de pobreza ou indigência (11). Os critérios para a seleção das unidades incluídas no estudo foram os números de notificações de ocorrências de comportamento suicida.

A coleta de dados foi realizada em 4 unidades básicas de saúde que trabalham com a Estratégia de Saúde da Família (ESF) no período de 10 de dezembro de 2007 a 19 de fevereiro de 2008. A coleta de dados foi realizada por meio de entrevista semi-estruturada com ACS das unidades, seguindo um roteiro contendo questões que abordavam suas concepções sobre o atendimento prestado a usuários com comportamento suicida nas unidades básicas de saúde, enfatizando as ações desenvolvidas com esses usuários. Estes questionamentos foram construídos a partir do referencial teórico que sustenta o estudo, com vistas a atingir seus objetivos (12).

Para o tratamento dos dados, foi utilizada a técnica de análise de conteúdo temático (13). Os dados foram classificados e agregados, estabelecendo-se seis categorias empíricas: o trabalho da equipe, ações realizadas com usuários com comportamento suicida e ações com familiares, o conhecimento necessário para realização do trabalho, dificuldades encontradas na realização do trabalho, concepções sobre o atendimento e concepções sobre o comportamento suicida.

O Projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre (Parecer 068/2004). Os princípios éticos foram respeitados, conforme determina a Resolução nº 196/96, do Conselho Nacional de Saúde (14).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

 

O comportamento suicida é identificado de várias formas por todos os profissionais da equipe que trabalham na ESF, mas principalmente pelos ACS. Além disso, a situação também é reconhecida por vizinhos e familiares. Após a delimitação do problema, é feita uma avaliação da melhor forma de prestar atendimento ao usuário com comportamento suicida, seja por meio de encaminhamento ou por meio do acompanhamento do usuário pelos profissionais que atuam na ESF.

A atuação dos ACS tem a peculiaridade de apontar as diversas necessidades dos usuários. Por isso, esses trabalhadores conseguem reconhecer o comportamento suicida na comunidade com mais freqüência do que outros profissionais. Este resultado diverge de estudo (15) que verificou que os ACS não dispõem de elementos para identificar morbidade por causas externas, incluindo o comportamento suicida e, dessa forma, não estão preparados para o atendimento nessas situações.

O usuário que apresenta comportamento suicida é avaliado por toda a equipe, e, dessa forma, todos os profissionais têm conhecimento dos fatos sucedidos na comunidade. Além disso, esses acontecimentos são analisados em reuniões de equipe, nas quais ocorrem trocas de informações.

O serviço de saúde nunca deixa de acompanhar o usuário com comportamento suicida, mesmo quando o usuário realiza acompanhamento com alunos de um curso de especialização em saúde mental em um serviço ambulatorial do Estado. Além disso, esses alunos auxiliam os ACS, orientando-os sobre ações em saúde mental.

As ações desempenhadas pelos ACS, quando realizam atendimento aos usuários com comportamento suicida, variam de acordo com o sujeito ao qual se destina a ação. Por isto, as ações identificadas foram divididas em ações preventivas com usuários e ações com familiares de usuários com comportamento suicida. A fala abaixo representa ações preventivas com usuários com comportamento suicida:

Um acompanhamento, a gente está sempre em cima também, se não vem aqui já fica preocupado, já tem que ir atrás! Mas não fica só nessa de quando acontecer eu vou lá! Não! Esses que a gente sabe que tem o risco a gente está sempre acompanhando, elas (as enfermeiras) estão sempre perguntando se a gente foi, o que aconteceu, como é que está, se está consultando, se está tomando a medicação... Daí às vezes tem uns que vão na psiquiatria, né? A gente tem que saber se foi, se está realmente indo, se não está pegando a medicação aqui, tem que ver se está pegando lá... (ACS1)

As ações preventivas realizadas com maior freqüência com usuários com comportamento suicida são: comunicação para a equipe sobre a ocorrência do fato, escuta e acolhimento, verificação sobre a administração correta da medicação, visitas domiciliares com maior periodicidade, marcação, encaminhamento e verificação sobre o fato dos usuários terem ido às consultas marcadas. As ações relatadas com menor freqüência foram orientações ao usuário com comportamento suicida sobre questões de saúde, realização de busca ativa, registro da causa externa e questionamento sobre a ideação suicida. É importante ressaltar que todos os ACS entrevistados já realizaram atendimento a usuários com comportamento suicida.

Além das ações citadas anteriormente, os ACS realizam algumas atividades com familiares dos usuários, como visitas domiciliares, planejamento de grupos para familiares de usuários com transtornos mentais e orientação sobre a importância da restrição ao acesso a meios letais.

Entre as ações atribuídas aos ACS está a realização de atividades de promoção e prevenção à saúde por meio de visitas domiciliares, de ações educativas, da manutenção do contato permanente com as famílias, buscando alternativas de solução das suas necessidades prioritárias, bem como fornecer informações para a equipe sobre os acontecimentos (16, 17). As ações identificadas neste estudo enquadram-se nesse referencial. Algumas atividades desempenhadas pelos ACS no atendimento realizado ao usuário com comportamento suicida estão de acordo com as ações propostas pelo Suicide Prevention Program (SUPRE), iniciativa da Organização Mundial da Saúde (17). Entre essas ações estão: escutar com empatia, levar a situação a sério, indagar sobre o comportamento suicida, informar outros profissionais sobre o risco para comportamento suicida e restringir o acesso a meio letais. É imprescindível escutar com empatia efetivamente, pois isso se constitui em um passo importante para reduzir o desejo suicida.

Os ACS julgam importante para a realização de seu trabalho saber abordar e conversar com o usuário, identificar o problema e o motivo que levou o usuário a tentar o suicídio, conhecer a história de vida do usuário e um pouco sobre transtornos mentais, com a finalidade de diferenciar a orientação realizada.

[...] Por que ele tentou o suicídio? O que estava acontecendo? Qual a história dele, assim, não dá para ficar criticando, né? Tem que analisar, tem que escutar e eu acho que conhecer o paciente mesmo, a história dele. (ACS 1)

Evidenciou-se a necessidade de aprender a lidar com os sentimentos desagradáveis que o comportamento suicida gera.

[...]Tu tens que aprender com o tempo, aprender a lidar, como fazer, mas isso ai tu aprendes não é fazendo curso, tu aprendes no dia-a-dia, lidando, conversando, indo lá, vendo, então tu vais te preparando emocionalmente [...] (ACS 4)

 

Identifica-se a importância do uso das tecnologias relacionais para o atendimento ao usuário com comportamento suicida, pois se destacam como principal estratégia de atendimento.

Houve relatos dos ACS sobre aspectos negativos de residir na área onde atuam. Esta situação faz com que o atendimento seja requisitado em qualquer horário, sem levar em consideração a jornada de trabalho de oito horas diárias. Além disso, conhecer e conviver com usuários com comportamento suicida gera envolvimento e sofrimento emocional, como ilustra a fala a seguir:

[...] Eu conhecia ela (usuária com comportamento suicida), me deu crise de choro, não na frente dela, né? Eu vim para o posto me sentei e chorei tanto que tu não imaginas... (ACS 2)

 

OS ACS possuem dificuldade de enfrentamento das diversas situações complexas que permeiam diariamente o seu trabalho, conforme relatado na literatura (18). Ainda assim, a eficácia das atividades desempenhadas pelos ACS pode ser atribuída ao compartilhamento do contexto social e cultural com a comunidade, que facilita a identificação de injúrias e fatores de risco para diversas patologias (7). Entretanto, residir na área de atuação foi citado como dificuldade encontrada para a realização do trabalho, pois há um grande envolvimento com os problemas da comunidade, o que repercute em sofrimento psíquico e maior jornada de trabalho.

O número reduzido de ACS nas equipes deixa-os sobrecarregados de tarefas, inclusive administrativas, e os usuários ficam desassistidos. Dessa forma, torna-se difícil realizar acompanhamento de familiares de usuários com comportamento suicida, visto que a demanda de trabalho é muito grande.

 [...] Não tem agente comunitário de saúde, os usuários não estão sendo assistidos como deveriam, por isso que acontecem esses problemas. Teve um rapaz que se suicidou na semana passada, se ele estivesse sendo assistido, seria diferente... (ACS 3)

Os ACS citaram como dificuldade a falta de reconhecimento da importância de sua atuação, pouca estabilidade de emprego, devido à forma de contratação, e a falta de material de proteção individual, como, por exemplo, o protetor solar. O trabalho é avaliado pela produção quantitativa de visitas domiciliares, sem levar em consideração que usuários com transtorno mental precisam de mais atenção, e, assim, visitas para outros usuários deixam de ser realizadas, mas serão exigidas posteriormente.

Os ACS consideram que os familiares não auxiliam no tratamento e apresentam dificuldades em aceitar o transtorno mental, quando presente. Informam que familiares e usuários tendem a relatar os fatos de acordo com sua compreensão, sendo necessário averiguar a realidade. As narrativas revelaram que as famílias, na maioria das situações de problemas em saúde mental, dificultam o tratamento, pois negam o problema, e tendem a mascarar a situação. Assim, deveriam também ser foco do atendimento realizado, uma vez que participam ativamente do processo de cuidado em saúde.

Os entrevistados relataram ter medo e receio para realizar a abordagem com usuários com comportamento suicida, uma vez que não são capacitados para atendimento em saúde mental.

[...] eu tenho receio de chegar direto e falar, sei eu o que vem pela frente? ...às vezes tu vais lá conversar, mas eles não estão muito a fim, ou o familiar não deixa chegar perto, é difícil, ainda mais quando é muito recente. Tu vais lá, conversa com o pai e com a mãe, eles te dizem uma coisa. Depois chega aqui, vai atrás e vê que foi outra bem diferente. (ACS 1)

Evidenciou-se neste estudo a insatisfação dos ACS em relação às capacitações que recebem em saúde mental. Esse achado corrobora com os resultados de outra pesquisa realizada com esses profissionais na qual foi destacada a irregularidade e a insuficiência de capacitação (18). O treinamento dos ACS forneceria diversos conhecimentos sobre o processo de saúde e doença, favorecendo o reconhecimento de necessidades das famílias. Como a ESF ainda está em desenvolvimento, a saúde mental tem sido pouco contemplada nos programas de capacitação, dificultando, assim, o atendimento domiciliar (18).

Os usuários com comportamento suicida apresentam resistência para receber a visita do ACS, não abrem a porta e fingem que não estão em casa. A estrutura do sistema de saúde para atender desordens mentais é precária, faltam Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), poucas são as vagas destinadas a internações psiquiátricas nos hospitais gerais, apesar da demanda em saúde mental ser muito grande. Ademais, algumas instituições psiquiátricas, que trabalham no modelo manicomial, realizam o atendimento sem preservar a dignidade e o direito de cidadania de seus internados.

Os entrevistados têm o entendimento de que uma tentativa de suicídio aponta para a repetição do gesto, sendo imprescindível acompanhar os usuários com comportamento suicida. Evidenciou-se a importância do vínculo e da participação da família para o tratamento dos usuários com comportamento suicida. Além disso, os ACS relataram que o tratamento farmacológico sozinho não é suficiente, os usuários precisam de uma palavra, uma conversa. Mas, caso não tomem a medicação, entram em crise.

Os ACS acreditam que embora os usuários procurem o serviço com queixas físicas, apresentam problemas de saúde mental. Esse tipo de situação tem aumentado muito, assim sendo, os ACS apresentam dificuldades em acompanhar todos os usuários. Os alunos de um curso de especialização em saúde mental e acadêmicos de enfermagem auxiliam a reduzir essa demanda.

Os ACS comentam, ainda, que lidar com usuários da área de saúde mental é difícil, é necessário estar bem mentalmente para realizar um bom trabalho, pois enfrentam várias situações complicadas. Mesmo assim, gostam do trabalho que desempenham. Definem seu trabalho como uma tentativa de ajuda, levar carinho e atenção.

Na concepção dos ACS, o comportamento suicida ocorre, principalmente, nas áreas que não têm agentes, pois eles representam o laço entre a equipe e a comunidade. Por esse motivo, os ACS têm o entendimento de que deveria ser acrescentado na equipe de ESF um terapeuta ocupacional para auxiliar a atender casos de saúde mental, ou assistente social para ajudar a resolver entraves sociais que repercutem em sofrimento psíquico.

Os entrevistados acreditam que prevenir tentativas de suicídio é difícil, pois não existem evidências que garantam a certeza deste ato. Às vezes o usuário verbaliza a ideação suicida durante longos períodos de tempo e nunca planificou ou tentou suicídio, enquanto que outro usuário que não verbaliza a vontade de morrer tenta o suicídio. Os ACS acham que a prevenção do comportamento suicida se torna mais difícil nestas ocasiões nas quais o usuário não verbaliza a vontade de morrer, acham complicado identificar todos os usuários que possam vir a apresentar comportamento suicida mesmo sem verbalizar tal vontade. Ocorreram declarações distintas acerca da atitude de questionar, diretamente ou não, os usuários e familiares sobre o comportamento suicida.

[...] tem que perguntar, tem que ser direta, né? Se ficar fazendo muito rodeio eles não contam... (ACS6)

 

[...] procuro não me prender muito no que aconteceu, né? Por medo que aconteça alguma reação [...] não dá para ir direto ao assunto. (ACS 1)

Os ACS têm a concepção de que usuários com comportamento suicida deveriam freqüentar o CAPS onde realizariam diversas atividades durante o dia retornando para casa no final da tarde, assim, seria mais fácil para a família, além de oferecer convívio com outras pessoas.

A comunidade conhece os ACS, sabem que não possuem formação específica, por isso ações desempenhadas por eles, às vezes não têm credibilidade. Fazem o que estiver ao alcance, mas o trabalho possui limitações.

Um estudo identificou conceitos dos ACS sobre transtornos mentais, cujos resultados divergem do ponto de vista teórico atual, o que dificultaria o processo de transformação da assistência à saúde mental, pois excluía qualquer possibilidade de reinserção dos usuários com transtorno mental na comunidade (18). As concepções identificadas em nossa pesquisa não se assemelham àquelas acima descritas, pelo contrário, entendem a gravidade do comportamento suicida e acreditam que esses usuários podem se manter estáveis caso façam o tratamento de maneira correta.

Na concepção dos ACS entrevistados, o comportamento suicida é inesperado, surpreendente e traumático. Consideram que os fatores que influenciam o comportamento suicida são: drogas, álcool, situações mal resolvidas no decorrer da vida, depressão, violência, fome, perda de pessoas queridas, desigualdade, transtornos mentais na família e doenças clínicas. Famílias desestruturadas ocasionam comportamento suicida, e o comportamento suicida desestrutura as famílias.Essas informações enquadram-se nos principais fatores de risco para comportamento suicida descritos na literatura, como: presença de transtornos mentais, antecedentes familiares, sexo, idade, abuso de substâncias, problemas físicos, situação social desfavorável, como pobreza e desemprego (1).

Os familiares têm o conhecimento da existência do problema, mas escondem e não ajudam. É uma luta contra o comportamento suicida, os usuários ora não tomam a medicação, ora tomam demais, choram bastante e tendem a ser agressivos.

Mudança de comportamento e atitude podem ser indicadores de comportamento suicida, conforme relatado pelos entrevistados. Sugerem que os usuários realizem atividades que lhes sejam prazerosas para aumentar o desejo pela vida.

 

CONSIDERAÇÕES CONCLUSIVAS

 

Nas unidades de Estratégia Saúde da Família, os agentes comunitários de saúde foram os trabalhadores que mais se envolveram no atendimento ao usuário com comportamento suicida. Nessas ocasiões valorizaram a utilização de recursos relacionais, mesmo com a falta de conhecimento teórico sobre o assunto.

Evidenciou-se a necessidade de atividades de qualificação e educação permanente para que os ACS possam, por meio do conhecimento teórico, obter subsídios para qualificar o atendimento prestado a usuários com comportamento suicida. Nesse sentido, as enfermeiras desempenham papel fundamental nesse processo de construção do conhecimento. Por meio desse saber, os ACS estarão mais capacitados para a realização de atividades preventivas do comportamento suicida de forma mais resolutiva.

Os agentes comunitários de saúde compreendem o significado do comportamento suicida como um pedido de auxílio. Nesse sentido, dedicam a esses usuários maior número de visitas domiciliares e mais tempo de atendimento com vistas à prevenção desse problema. O acolhimento e a escuta são fundamentais nesse atendimento, levando em consideração a integralidade do cuidado.

O sofrimento gerado pelo atendimento a usuários com comportamento suicida poderia ser minimizado se existissem espaços para discussão dos problemas que os ACS enfrentam subjetivamente e cotidianamente ao prestar assistência, visto que se envolvem intensamente nos problemas da comunidade até mesmo porque fazem parte dela.

Uma melhor articulação entre a atenção primária à saúde e a rede especializada em saúde mental são condições necessárias para o atendimento aos usuários com comportamento suicida. A reorganização do atendimento em saúde mental pretende incorporar na atenção primária à saúde ações de promoção e prevenção de transtornos mentais. Entretanto, existem dificuldades, como as relatadas neste estudo. Este fato ocorre, possivelmente pela falta da implementação das equipes matriciais na região, sendo esta entendida como metodologia de trabalho que integra equipes de saúde especializadas com equipes da atenção primária à saúde, fornecendo suporte técnico e melhorando a resolutividade do serviço de saúde por meio da discussão e supervisão do atendimento ao usuário com comportamento suicida.

 

REFERÊNCIAS

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Contribuição dos autores:

¹ Kelly Piacheski de Abreu: Concepção e desenho, análise e interpretação, escrita do artigo e colheita de dados.

² Eglê Rejane Kohlrausch: Concepção e desenho, análise e interpretação, escrita do artigo e revisão crítica do artigo.

³ Maria Alice Dias da Silva Lima: Concepção e desenho, análise e interpretação, escrita do artigo, revisão crítica do artigo e aprovação final do artigo.

Endereço para correspondência: Escola de Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Rua Rua São Manoel, 963, Santa Cecília, Porto Alegre, Rio Grande do Sul. CEP: 90620-110 Telefone: (51) 84204733. e-mail: kelly.piacheski@ufrgs.br

Apoio: Vinculado ao subprojeto Organização do trabalho na assistência a usuários vítimas de agravos por causas externas, inserido no Projeto de Pesquisa e Desenvolvimento: observatório de causas externas na atenção básica do município de Porto Alegre. Auxílio financeiro CNPq - Edital CT-Saúde/MCT/CNPq/MS n.024/2004.





 

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