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Contributions from Alfred Schütz’s phenomenological sociology for nursing research - review article

Contribuições da sociologia fenomenológica de Alfred Schütz para as pesquisas em enfermagem – revisão de literatura 

Marcio Wagner Camatta 1, Cíntia Nasi 1, Diego Schaurich 1, Jacó Fernando Schneider 1 

1Universidade Federal do Rio Grande do Sul, RS, Brasil

Abstract: Understanding the human being is a complex task, because it involves biological, psychological and social questions. Investigation of Cartesian procedure had suffered ruptures, mainly because of the criticism to objectivity, on dealing whit human questions. In the end of nineteen century, phenomenology is born as a philosophical-methodological option for research, in which Comprehensive Sociology, from Alfred Schütz, outstands. This study’s objective is discuss some of the possible contributions from Schütz’s Phenomenological Sociology for nursing research. The main concepts boarded were intentionality, intersubjectivity, determined biographical situation, human actions, typification and social relation. Phenomenological research seeks the meanings that people attribute to their own experience, which are revealed with these people’s descriptions. Alfred Scütz’s phenomenological sociology aims the subjective meaning of the human actions, trying to establish the ideal type by typification. These concepts can be used as a theoretical-methodological base to investigate about things lived in the social world, mainly when it is about a social world in which nursing professionals are part of.

Keywords: nursing; philosophy; qualitative research 

Resumo: Compreender o ser humano é uma tarefa complexa, pois envolve questões biológicas, psicológicas e sociais. O modelo cartesiano de investigação sofreu ruptura principalmente com a crítica à objetividade ao lidar com as questões humanas. No fim do século XIX a fenomenologia nasce como opção filosófico-metodológica de pesquisa, na qual se destaca a Sociologia Compreensiva de Alfred Schütz. O objetivo deste artigo é discutir algumas possíveis contribuições da Sociologia Fenomenológica de Schütz para as pesquisas em enfermagem. Os principais conceitos destacados foram o de intencionalidade, intersubjetividade, situação biográfica determinada, ações humanas, tipificação e relacionamento social. A pesquisa fenomenológica visa os significados que os sujeitos atribuem à sua experiência vivida e que são revelados a partir das descrições desses sujeitos. A sociologia fenomenológica de Schütz busca o significado subjetivo das ações humanas e estabelecer o tipo ideal por meio da tipificação. Esses conceitos podem servir de alicerce teórico-metodológico para se investigar sobre questões vividas no mundo social, principalmente quando se trata do mundo social do qual profissionais de enfermagem fazem parte.

Palavras-chave: Enfermagem; Filosofia; Pesquisa Qualitativa. 

O Panorama das Pesquisas em Enfermagem

 

Pesquisar apresenta múltiplos e inter-relacionados objetivos, como descrever, compreender, analisar, testar, desvelar, validar, conhecer, entre outros. Sendo assim, a enfermagem, como arte e ciência na área da saúde, tem se utilizado das investigações científicas para, por exemplo, conseguir maior reconhecimento à profissão por meio da construção de um aporte de conhecimentos próprios, bem como auxiliar na compreensão dos diversos contextos que permeiam o processo saúde-doença, e na transformação de realidades adversas e/ou difíceis ao viver humano(1).

Tanto a abordagem quantitativa quanto a qualitativa têm sido empregadas, utilizando-se dos mais diversos referenciais teóricos e percursos metodológicos para desvelar os fenômenos que fazem parte do processo de cuidar em enfermagem. Há que se considerar, todavia, que um número expressivo de pesquisas qualitativas, em especial, tem buscado suporte teórico-metodológico em outras disciplinas da área da saúde, como a psicologia, por exemplo, ou, então, nas ciências humanas, como a antropologia, a sociologia, a filosofia, entre outras; em relação a esta última, vale ressaltar as contribuições do pensamento fenomenológico nas investigações em enfermagem.

Há que se considerar que o desenvolvimento de pesquisas brasileiras em enfermagem teve seu impulso a partir da criação dos cursos de pós-graduação stricto sensu, na década de 1970, que foi garantida pela Lei da Reforma Universitária, n° 5540/68(2). Os anos seguintes, então, auxiliaram com a ampliação e consolidação da investigação na área, uma vez que a criação dos cursos de doutorado (década de 1980) e a obrigatoriedade de oferecer, na graduação, os conteúdos de metodologia científica (década de 1990), incentivaram ainda mais a pesquisa em enfermagem no Brasil(3).

Estas pesquisas vêm evoluindo de forma gradual objetivando, além de construir conhecimentos e saberes específicos à área da saúde, possibilitar respostas relacionadas aos inúmeros aspectos do processo saúde-doença e do viver humano que encontram-se velados e, com isso, fornecer subsídios que facultem uma mudança da e na prática do cuidar. Portanto, percebe-se que as investigações científicas vêm se consolidando como caminho importante à construção e ampliação dos fundamentos que constituem o conhecimento em enfermagem.

Além disso, o pesquisar demonstra que a enfermagem é uma “disciplina em construção através de sua história, da produção de seu corpo de conhecimento, do discurso epistemológico, da busca de novas abordagens metodológicas e da articulação com a prática assistencial”(4:40). Ressalta-se o desenvolvimento de pesquisas com abordagem qualitativa que têm possibilitado à enfermagem o repensar dos fenômenos vividos pelo homem, o questionar de aspectos objetivos e subjetivos do processo de viver e o refletir acerca das inúmeras interfaces presentes no campo da saúde.

Em relação à abordagem qualitativa e, mais especificamente, àquelas que se utilizam do referencial filosófico fenomenológico, percebe-se que este tem se revelado “um caminho possível para a realização de investigações, vislumbrando um novo horizonte de compreensão da enfermagem”(5:87). Isso por que, no Brasil, os estudos científicos tendo por subsídio a corrente fenomenológica tiveram impulso e notoriedade principalmente a partir do final da década de 1980(5).

A fenomenologia surgiu no final do século XIX fundamentalmente como um movimento questionador da aplicabilidade do método científico aos fenômenos humanos, sem discernir que o objeto de pesquisa das ciências exatas era diferenciado daqueles das ciências humanas(6,7). Nascida das reflexões e estudos de Edmund Husserl, a fenomenologia passa, então, a ser entendida como uma ciência voltada às experiências vividas, ou seja, preocupada com a essência dos fenômenos existenciais do ser humano.

Compreende-se que a fenomenologia é um movimento que busca a investigação, descrição, compreensão e interpretação dos fenômenos do existir, daquilo “que se mostra a si e em si, tal como é, e é uma alternativa para trabalhos cuja abordagem traz consigo a necessidade de ver o outro, dentro do outro, como o outro”(8:90). A fenomenologia, assim, tem possibilitado à enfermagem investigar diversas dimensões do existir do ser humano em dado tempo e espaço compartilhados com o outro e com o mundo, a partir do seu modo singular e único de intencionar os fenômenos existenciais.

E é a partir destes entendimentos que o pesquisador precisa, a priori, perceber a si mesmo, o seu ser sendo-no-mundo para, então, vislumbrar a realidade que o cerca em termos de possibilidades, uma vez que ele deve voltar sua atenção aos elementos mais significativos daquilo que se revela de forma não neutra em relação ao estudo. Faz-se fundamental que o referencial fenomenológico seja para além de um modo de pesquisar, mas como um pensar que fundamenta um ver o mundo, uma opção de postura diante do mundo(5,8).

Na enfermagem, a fenomenologia tem sido utilizada como referencial teórico e/ou metodológico de investigações que visam, entre outras questões, compreender a visão do ser humano em seu todo vivido – e não mais em partes e separadamente –, bem como de forma situada no mundo e em sua totalidade de vida. Compreender o ser humano é uma tarefa muito complexa, pois envolve questões biológicas, psicológicas e, também, sociais. Entende-se que o modelo cartesiano de investigação sofreu ruptura principalmente com a crítica à objetividade ao lidar com as questões humanas.

A fenomenologia representa um método adequado para pesquisas na área da enfermagem, pois ao considerar o ser que experiencia um determinado fenômeno, pode ser possível ao pesquisador compreender o significado real dessa experiência.(9)

A fenomenologia nasce, então, como opção filosófico-metodológica de pesquisa, na qual destaca-se a vertente da Sociologia Compreensiva de Alfred Schütz. Assim, este artigo tem por objetivo discutir algumas possíveis contribuições da Sociologia Fenomenológica de Alfred Schütz para as pesquisas em enfermagem. Antes do aprofundamento nas peculiaridades que envolvem esta vertente, explora-se de forma sucinta os conceitos fundamentais da fenomenologia.  

Fenomenologia: breves considerações 

A fenomenologia, concebida como conhecimento da essência das coisas, teve seu início com Edmund Husserl, que sob a influência de Franz Brentano, concebeu a idéia de fazer da filosofia uma ciência rigorosa, baseada num novo método, o fenomenológico. Muitos têm sido seus seguidores, especialmente Alfred Schütz, Martin Heidegger, Maurice Merleau-Ponty, Jean-Paul Sartre, entre outros.

Para Husserl(10:22) “o método da crítica do conhecimento é o fenomenológico; a fenomenologia é a doutrina universal das essências, em que se integra a ciência da essência do conhecimento”; sendo assim, a fenomenologia “[...] designa uma ciência, uma conexão de disciplinas científicas; mas, ao mesmo tempo e acima de tudo, fenomenologia designa um método e uma atitude intelectual: a atitude intelectual especificamente filosófica, o método especificamente filosófico”(10:46).

A fenomenologia é mais que um método de investigação científica, consistindo também como uma atitude ou modo de pesquisar, pois este modo refere-se a um pensamento impreterivelmente filosófico diante dos eventos da vida mundana. Em outras palavras, isso significa que pensar por meio desta vertente implica numa atitude fundamentalmente reflexiva, de profundidade filosófica.

A construção de conhecimento na fenomenologia foca-se não nos fatos, mas nos fenômenos. Neste entendimento, este conhecimento está em permanente construção, haja vista que a fenomenologia volta-se para o vivido, ou seja, para as experiências humanas e os significados atribuídos a essas vivências.

Vale ressaltar que a cientificidade do método repousa sobre a produção de conhecimento do ser-no-mundo (vivências) à medida que se utiliza, imprescindivelmente, do rigor. Este é sem dúvida o caminho que permitiu à fenomenologia ser, apesar de ainda timidamente em alguns espaços acadêmicos, uma vertente de produção de conhecimento verdadeiramente científica. Como método de pesquisa, a fenomenologia visa a descrição da experiência vivida e os significados atribuídos a ela, dirigindo-se para o sentido que os sujeitos têm deste fenômeno(11).

Dentre os conceitos suscitados e explorados por Husserl na fundamentação da fenomenologia, destaca-se alguns nessa discussão para permitir avançar especificamente na fenomenologia de Alfred Schütz. Assim, torna-se elementar o entendimento dos fundamentos da fenomenologia de Husserl, principalmente dos conceitos de fenômeno, essência, atitude fenomenológica, consciência, intencionalidade, epoché e redução eidética.

Fenômeno refere-se a tudo aquilo de que podemos ter consciência, de qualquer modo que seja; é tudo o que existe e aparece diretamente à consciência(12,13). Assim, fenômeno mostra-se a si mesmo para a consciência. Para Boemer(14) o fenômeno é aquilo que exige um desvelamento, e pede para ser revelado, pois o pesquisador se inquieta com algo que está oculto e necessita ser ‘iluminado’. Então, a proposta da fenomenologia como ciência dos fenômenos, conduz a volta às ‘coisas em si’.

Para se chegar à essência, ao sentido-da-coisa-em-si, a fenomenologia husserliana propõe superar a atitude natural pela atitude fenomenológica. Na primeira, há uma ingenuidade do ser frente ao mundo da vida, aceitando-o em sua aparência como verdade, numa relação dicotômica entre o ser humano e o mundo, entre sujeito e objeto. Por outro lado, por meio da atitude fenomenológica, esta relação entre ser humano e o mundo é resgatada, ou seja, é justamente na consciência dele que este mundo é constituído, ganha significado.

À consciência então, é atribuída a tarefa de constituição das essências e significados das coisas. Estas, por sua vez, são os correlatos da consciência, aquilo que é visado por ela e que, por meio dela, recebem significado.

Um importante elemento da fenomenologia de Husserl, e que ocupa lugar de destaque em seus manuscritos, diz respeito à intencionalidade. Esta característica da consciência permite que ela somente exista como “consciência de alguma coisa” que é visada. Nesse sentido, “a consciência enquanto intencionalidade é o ato de expandir-se para o mundo e de apreendê-lo nos atos vivenciais”(12:26-27).

Na busca do fenômeno puro, da sua essência, Husserl propõe ainda que se coloque o ‘mundo entre parênteses’, a partir da redução fenomenológica (epoché). Isto significa dizer que se deve colocar em suspensão os valores, crenças, pressupostos, pré-conceitos, para se ter uma atitude fenomenológica e, assim, descrever o mundo como se apresenta na consciência, seguindo em direção à essência do fenômeno. Com isto, busca-se ‘ir-às-coisas-mesmas’. A epoché é a maneira pela qual se torna possível acessar a consciência pura e suas experiências significativas, isto é, àquelas já vivenciadas pelo sujeito e que são visíveis por meio de uma atitude reflexiva.

Por fim, frente ao fenômeno, o fenomenólogo procede a sucessivas reduções em busca da essência (redução eidética), por meio da variação, na qual “variamos em pensamento, de toda maneira possível, a experiência, isolando a invariante que permanece como eidos ou essência”(’12:102).

Diante do exposto, salienta-se o pensamento de Peixoto(12:30) que, ao referir-se a fenomenologia proposta por Husserl, diz que a mesma “é uma filosofia, um método e também um estilo de vida intelectual, aberto para a vida, para a significação das coisas, para a valorização do humano, da ética e do diálogo”. Numa atitude crítica reflexiva, dentre os conceitos utilizados na fenomenologia, resgata-se alguns outros elaborados e desenvolvidos por Schütz na busca de estabelecer a Sociologia Fenomenológica como uma possibilidade relevante de investigação para a enfermagem. 

Alguns Aspectos da Sociologia Fenomenológica 

Partindo dos pressupostos estabelecidos nos conceitos elementares da fenomenologia de Husserl e nos estudos da sociologia compreensiva de Max Weber, Schütz fundamentou a estrutura de uma Sociologia Fenomenológica, também denominada de Fenomenologia Social ou Sociologia Compreensiva. Schütz se apropria dos conceitos husserlianos de intencionalidade, de intersubjetividade e de Lebenswelt (mundo vivido) para aplicá-los ao método sociológico compreensivo de modo sistemático(15).

A partir desses conceitos, Schütz tinha por objetivo fundamentar filosoficamente as ciências sociais, procurando saber o que é a sociologia nela mesma, buscando a compreensão do sentido das ciências sociais e voltando-se para sua fonte originária na vida da consciência.

O conceito de intersubjetividade é fundamental no pensamento de Schütz. Este conceito foi desenvolvido primeiramente por Husserl, contudo, segundo Capalbo(16) este não conseguiu resolver o ‘problema da intersubjetividade’ por meio da fenomenologia transcendental. Por sua vez, Schütz, ao considerar a intersubjetividade como uma categoria ontológica da existência humana, supera tal obstáculo, ou seja, resolve o problema da intersubjetividade, pois é algo já dado aos sujeitos que vivenciam o mundo da vida(16).

Este mundo intersubjetivo pode ser constituído quando um sujeito torna-se intencionalmente consciente do semelhante que o confronta e compartilham o mesmo tempo e espaço, caracterizando a experiência comum do mundo do ‘nós’.

Importante destacar que o sujeito vivencia o mundo como um mundo compartilhado, como um mundo social, o qual não é de maneira nenhuma homogêneo, mas mostra uma estrutura multiforme(17). Os diversos âmbitos desse mundo social – realidade diretamente vivenciada, dos contemporâneos, dos predecessores e dos sucessores – organizam-se ao redor do “eu”. Schütz(18) aponta que o ser humano nascido em um mundo social, e que vive nele sua existência cotidiana, o experimenta como construído em volta do lugar que ocupa nele, aberto a sua interpretação e ação, mas sempre com referência a sua situação biográfica determinada.

A experiência da vida cotidiana do mundo social do sujeito está em íntima relação com os semelhantes, por meio do mundo dos antecessores (a herança histórica dos semelhantes do passado), o mundo dos sucessores (influencia as relações e as ações humanas com perspectiva aberta para o futuro) e o mundo dos contemporâneos (aquele habitado por outros que compartilham o tempo cósmico com o sujeito e com quem este faz trocas e intercâmbios sociais)(17).

O estabelecimento de um relacionamento social ocorre quando um sujeito compartilha com um semelhante um ambiente comum ou quando esse está orientado para um contemporâneo. Desta maneira, é possível experienciar o outro de forma direta, numa situação denominada de face a face, ou indireta, quando nesta relação o sujeito se volta para um contemporâneo.

Para Schütz(19) uma relação social direta ocorre quando: 1) há orientação unilateral do sujeito (Eu) para o semelhante (Tu), surgindo assim a ‘orientação para o Tu’; 2) há orientação mútua e recíproca entre sujeito e semelhante concretizando o ‘relacionamento do nós’; 3) confere ao mundo um caráter intersubjetivo e social; 4) permite apreender o semelhante mais diretamente, de maneira mais viva, vivenciando-o de forma imediata; e 5) compartilham uma relação típica de comunidade de tempo e espaço.

Por outro lado, Schütz(19) aponta que uma relação social indireta ocorre quando: 1) o sujeito se volta para o outro (semelhante) que apenas compartilha com ele a dimensão do tempo cósmico, surgindo assim, a ‘orientação para o Eles’; 2) estabelece uma relação de anonimato, numa relação voltada par o seu contemporâneo; 3) o sujeito vivencia o seu contemporâneo (outro) de forma mediata, indireta e impessoal; 4) o sujeito apreende o outro pelas características típicas na orientação para o Eles; e 5) a compreensão do outro ocorre por meio de um contexto significado objetivo (tipificação), na qual o outro é tido para o sujeito em suas funções/papéis no mundo social.

O relacionamento social sofre interferência do sistema de relevâncias intrínseco e imposto e, também, é influenciado pelo estoque de conhecimento à mão, que é dado pela situação biográfica do sujeito. Ambos, o sistema de relevâncias e o estoque de conhecimento à mão definem os interesses à mão do sujeito, e isto vai motivá-lo a um determinado comportamento social;

O sistema de relevâncias intrínseco diz respeito aos meus interesses, já o sistema imposto diz respeito aos interesses do outro. Assim, nesta situação, o outro está parcialmente sob meu controle, assim como eu estou sob o dele. Voltando-se espontaneamente um para o outro, ‘afinando-se’, emergem as relevâncias intrínsecas em comum; contudo, uma parte do sistema de relevâncias intrínseco de cada um permanecerá não compartilhada(18).

O estoque de conhecimento à mão refere-se à biografia do sujeito, ou seja, ao estoque de conhecimento adquirido ao longo de sua vida, por meio das suas vivências e experiências no mundo social. Para Schütz(18), trata-se da ‘situação biográfica determinada’ do sujeito que representa a sedimentação das suas experiências ao longo do tempo, que funciona como um esquema de referência para interpretação do mundo.

Portanto, para determinar como ocorrem os relacionamentos com os diversos tipos de mundos sociais, também é preciso compreender cada tipo diferente de congênere, suas diferentes peculiaridades, sua tipificação. Pode-se compreender o outro mediante tipos ideais de pessoas e tipos ideais de cursos de ações, sendo que ambos estão em íntima ligação(17).

A tipificação é a forma de abstração que leva à conceituação mais ou menos padronizada, embora vaga, do pensamento do senso comum, “isso é assim porque nossa experiência, [...] é organizada, desde o princípio, a partir de certos tipos”(19:200).

O ‘tipo ideal de pessoa’ é um esquema interpretativo do mundo social que tem um valor de significação do qual os sujeitos fazem uso nas relações sociais; para isto, o mesmo utiliza-se do seu estoque de conhecimento à mão(15). Nos tipos ideais de pessoas o contexto de significado subjetivo é substituído por uma série de contextos objetivos, altamente complexos e inter-relacionados. Trata-se de nenhuma pessoa em particular, mas de uma idealização que emerge da descrição vivida do comportamento social.

O conceito de ação de Schütz(18) está relacionado com uma conduta que é baseada em um projeto prévio relacionado com o estoque de conhecimentos à mão dos sujeitos, ou seja, é um comportamento motivado. O ato designa o resultado dessa ação em curso, a ação já realizada. Já o projeto é a fantasia antecipada, motivada por uma intenção posterior em desenvolver um projeto. Estes conceitos permitiram à Schütz desenvolver seu pensamento entorno das ações humanas, as quais só podem ser compreendidas por meio das motivações dos sujeitos. Assim, ele desenvolve os conceitos de ‘motivos para’ e ‘motivos porque’ para interpretar o comportamento dos sujeitos no mundo social.

Os ‘motivos para’ refere-se a uma categoria subjetiva, em que o ato do sujeito social é projetado, portanto numa perspectiva de futuro, sendo idêntico ao propósito cuja realização da ação é um meio. Por ser subjetiva, esta categoria de motivos só é revelada ao pesquisador social se ele perguntar ao ator da ação qual o significado que ele atribui a ela(18).

Já os ‘motivos porque’ é uma categoria objetiva, na qual a atitude do ator está concluída, portanto está numa perspectiva de passado, podendo ser denominada, também, de razão ou causa. Esta categoria de motivos é acessível ao pesquisador quando este reconstrói, a partir do ato realizado ou, mais precisamente, a partir do estado de coisas provocado no mundo exterior pela ação do ator, a atitude do ator em sua ação(18)

Possíveis Aplicações da Sociologia Fenomenológica para as Pesquisas em Enfermagem 

Em relação à compreensão do outro, tem-se que toda compreensão está dirigida para aquilo que tem significado, ou seja, o vivido no passado. A atenção do pesquisador deve focar-se no que se manifesta por meio do discurso, e não se limitar às indicações (movimentos do corpo e fatos externos).

Conforme Schütz(19) a compreensão e interpretação da ação humana só se tornam compreensíveis ao revelar seus ‘motivos para’, ou melhor, as suas motivações, o que pode ocorrer de duas maneiras: ou pela interação indireta ou ao voltar-se para o ator da ação e perguntar os seus motivos.

Há três abordagens indiretas para interpretar as motivações do outro: a) utilizar-se da lembrança de experiências semelhantes vivenciadas pelo sujeito pesquisador (observador) em sua biografia e, assim, destacar um princípio geral para explicar os ‘motivos para’ do outro; b) o pesquisador (observador) pode tentar deduzir os ‘motivos para’ da pessoa observada baseando-se no comportamento costumeiro do outro frente a situações semelhantes a observada; e c) pode-se, ainda, tentar inferir os ‘motivos para’ do outro por meio da interpretação da ação ainda em curso, supondo os efeitos desta ação.

Contudo, Schütz(19) ressalta que esses três tipos de compreensão de motivações não oferecem a mesma segurança, pois, quanto mais distante do relacionamento do ‘nós’ concreto, mais abstrata é esta interpretação.

Uma outra maneia de compreensão do comportamento do outro pode ser definido por meio de um contexto de significado objetivo. Este contexto diz respeito aos ‘motivos porque’ de uma determinada ação, que está acessível tanto ao ator, quando o mesmo reflete sobre sua ação, quanto ao pesquisador no momento em que este reconstrói os ‘motivos porque’ do ator frente à ação desempenhada, concluída como ato.

Diante desse contexto de significado objetivo, o pesquisador social tenta estabelecer o ‘tipo ideal’ de pessoa que desempenha uma determinada ação típica em um cenário, e em uma situação tipicamente similar. Para Schütz(19) há uma grande possibilidade (chance) do pesquisador captar o significado subjetivo dos atos do ator, porém, esta possibilidade aumenta com o grau de anonimato e estandartização do comportamento estudado pelo pesquisador.

Assim, quanto mais anônimo for este ator que desempenha esta ação, mais o pesquisador utiliza-se de um contexto de significados objetivos para a compreensão desta ação. Desta maneira, Schütz(19) afirma que a ‘orientação para o Eles’ é a forma pura de compreender o contemporâneo de modo predicativo.

Além destas maneiras citadas anteriormente para a compreensão das ações humanas, surge do relacionamento do ‘nós’ concreto, na medida em que o pesquisador e o outro, o ator de uma ação que está sendo estudada pelo pesquisador, estabelecem uma relação social direta. Nesta situação, o pesquisador pergunta ao ator da ação: qual o significado que o mesmo atribui àquela determinada ação em estudo? Desta forma é possível ao pesquisador acessar a categoria subjetiva da ação do ator, ou seja, os ‘motivos para’ daquela ação.

O estudo do comportamento social tem sido tema das discussões no âmbito da sociologia há muitas décadas, contudo, por meio dos conhecimentos acumulados como sociólogo, Schütz aproxima esta temática aos conhecimentos desenvolvidos na fenomenologia. O diálogo entre estas disciplinas – sociologia e fenomenologia – tem permitido a observação do comportamento humano por outras perspectivas, contribuindo para a construção do conhecimento na área das ciências humanas e sociais.

A característica filosófica, inerente ao método fenomenológico, por vezes é considerada complexa por aqueles que se enveredam em sua direção, principalmente para os profissionais da área de saúde, como a enfermagem que ainda possui uma formação acadêmica predominantemente biologicista e mecanicista. Contudo, o processo saúde-doença não deve mais ser analisado isoladamente da pessoa que vivencia concretamente esse fenômeno em sua existência, requerendo uma metodologia para dar conta desta totalidade existencial(20).

Reconhecendo o mundo da vida como um mundo social, que é compartilhado, vivenciado e interpretado pelo sujeito, e por seus semelhantes, o campo de investigação do pesquisador social é o da realidade social. Esta realidade tem um significado específico e uma estrutura de relevância para os seres humanos que vivem, agem e pensam dentro dela.

Então, por meio de uma série de construções do senso comum, os seres humanos previamente selecionam e interpretam a realidade social que vivenciam como a realidade de suas vidas diárias, classificado por Schütz como construtos de primeiro grau. São esses objetos de pensamento que determinam o seu comportamento, motivando-os(18). Por outro lado, os construtos das ciências sociais são de segundo grau, ou seja, os construtos feitos pelos atores no cenário social, cujo comportamento o pesquisador tem que observar e explicar de acordo com as regras de procedimentos da sua ciência(18).

Em outras palavras, pode-se afirmar que os significados atribuídos pelos sujeitos do mundo social são reconhecidos pelo pesquisador social como construtos de primeiro grau ou de primeira ordem. Contudo, quando esses significados são interpretados e compreendidos pelos pesquisadores do mundo social, são tidos como construtos de segundo grau ou de segunda ordem.

Portanto, a primeira tarefa da metodologia das ciências sociais é a de explorar os princípios gerais segundo os quais o homem organiza suas experiências na vida diária e, especialmente, as do mundo social(17). Diante disto, o mundo social não deve ser aceito de forma ingênua, com idealizações e formalizações prontas. No entanto, deve-se reconhecê-lo como ambiente complexo de atividades humanas, que para serem compreendidas deve-se voltar ao ator dessas ações, ao homem do mundo social.  

Considerações Finais 

O que se busca na pesquisa fenomenológica são os significados que os sujeitos atribuem à sua experiência vivida, significados esses que se revelam a partir das descrições desses sujeitos. Em Schütz, a tarefa da fenomenologia é fundamentar a intersubjetividade na realidade social. Esta realidade tem um significado e uma estrutura de relevância para os seres humanos que vivem, agem e pensam dentro dela. Além disto, este é o campo de investigação do pesquisador social. Para a captação desta realidade, a fenomenologia se mostra adequada(19).

O mundo social não deve ser aceito de forma ingênua, mas deve-se reconhecê-lo como ambiente complexo de atividades humanas, que para serem compreendidas deve-se voltar ao ator dessas ações, ao homem do mundo social. A primeira tarefa da metodologia das ciências sociais é a de explorar os princípios gerais segundo os quais o homem organiza suas experiências na vida diária e especialmente as do mundo social.

Diante disto, os conceitos aqui apresentados, dentro da perspectiva fenomenológica da Sociologia Compreensiva de Alfred Schütz, nos permitiriam aprofundar em questões vividas, numa perspectiva compreensiva, livre de explicações e generalizações. 

Referências 

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6 Martins J, Boemer MR, Ferraz CA. A fenomenologia como alternativa metodológica para pesquisa: algumas considerações. Rev. Esc. Enferm. USP. 1990;24(1):139-47.

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9 Leite PC, Merighi MAB, Silva A. O cotidiano de trabalhadoras de enfermagem acometidas por distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho (DORT) sob a luz da fenomenologia heideggeriana. Online Braz J Nurs (OBJN- ISSN 1676-4285). 2007; 6(3). Available at http//www.uff.br/objnursing. Acesso em 10/01/2008.

10 Husserl E. A idéia da fenomenologia. Lisboa (Portugal): Edições 70; 1990.

11 Schneider JF. O método fenomenológico na pesquisa em enfermagem psiquiátrica. Rev. gauch. enferm. 1996;17(2):100-8.

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15 Capalbo C. Metodologia das ciências sociais: a fenomenologia de Alfred Schütz. Londrina (PR): UEL; 1998.

16 Capalbo C. A intersubjetividade em Alfred Schütz. Veritas. 2000;45(2):289-98.

17 Schütz A. La construcción significativa del mundo social. Buenos Aires (Argentina): Paidos; 1993.

18 Schütz A. El problema de la realidad social. Escritos I. Buenos Aires (Argentina): Amorrortu; 2003.

19 Schütz A. O mundo das relações sociais. In: Wagner HR, organizador. Fenomenologia e relações sociais: textos escolhidos de Alfred Schütz. Rio de Janeiro (RJ): Zahar; 1979. p.157-237.

20 Capalbo C. Considerações sobre o método fenomenológico e a enfermagem. Rev. enferm. UERJ. 1994;2(2):192-7. 

Contribuição dos autores

- Concepção e o desenho: 1,2,3;  - Escrita do artigo: 1,2,3; - Revisão Crítica do artigo: 4; - Aprovação final do artigo: 4; - Pesquisa bibliográfica: 1,2,3. 

Endereço para correspondência Marcio Wagner Camatta: Rua São Manoel, 844/201, Santa Cecília, CEP: 90620-110, Porto Alegre, RS, Brasil.    

 

 





 

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