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Nursing care for hodgkin's lymphoma patients subject to chemotherapy: an integrative review

Assistência de enfermagem a portadores de linfoma de hodgkin submetidos à quimioterapia: revisão integrativa

Asistencia de enfermería a pacientes con linfoma de hodgkin sujetos a quimioterapia: revisión integrativa

 

Christiane Inocêncio Vasques1, Cíntia Capucho Rodrigues2, Paula Elaine Diniz dos Reis3, Emília Campos de Carvalho4

1 Bolsista CAPES, mestranda da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, SP, Brasil; 2 Mestranda da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, SP, Brasil; 3 Bolsista CAPES, doutoranda da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, SP, Brasil; 4 Professora Titular junto à Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, SP, Brasil.

 

Abstract: The high occurrence rates of Hodgkin’s Lymphomas and the treatment-associated complications as well as the complication of the disease itself evidence the need for a technical-scientific training of nurses in order to provide health care to this population. In this sense, this study had the aim to identify the nursing care described in the literature for these patients subject to chemotherapy treatment. An integrative review of the 15 eligible articles was carried out. Findings show that the generated knowledge is aimed at the epidemiological aspects of the disease, therapeutic forms, besides nursing interventions. Regarding the latter, the teaching process, use of coping and technical-technological procedures were found appropriate and feasible.

Keywords: nursing care, lymphoma, drug therapy, antineoplastic combined chemotherapy protocols 

Resumo: As altas taxas de ocorrência de Linfoma de Hodgkin (LH) e as complicações relacionadas ao tratamento e à própria doença evidenciam a necessidade de que os enfermeiros tenham capacitação técnico-científica para prestar assistência a essa clientela. Neste sentido, buscou-se identificar os cuidados de enfermagem arrolados na literatura a esses pacientes submetidos a tratamento quimioterápico. Foi realizada revisão integrativa dos 15 artigos elegíveis. Os achados mostram que o conhecimento produzido está voltado para os aspectos epidemiológicos da doença, modalidades terapêuticas, além das intervenções de enfermagem. Destas, o ensino, o uso de coping e de procedimentos técnico-tecnológicos mostraram-se adequados e viáveis.

Palavras-chave: cuidados de enfermagem, linfoma, quimioterapia, protocolos de quimioterapia combinada antineoplásica.  

Resúmen: Las altas tasas de ocurrencia de los Linfomas de Hodgkin (LH) y las complicaciones relacionadas al tratamiento y a la propia enfermedad evidencian la necesidad de que los enfermeros tengan una capacitación técnico-científica para prestar asistencia a esa clientela. En este sentido, el estudio buscó identificar los cuidados de enfermería relacionados en la bibliografia a estos pacientes sujetos a tratamiento quimioterápico. Una revisión integrativa de los 15 artículos elegibles fue realizada. Hallazgos muestran que el conocimiento producido está direccionado para los aspectos epidemiológicos de la enfermedad, modalidades terapéuticas, y para las intervenciones de enfermería. De los últimos, la enseñanza, el uso de coping y de procedimientos técnico-tecnológicos se mostraron adecuados y viables.

Palabras-clave: atencíon de enfermería, linfoma, quimioterapia, protocolos de quimioterapia combinada antineoplásica.  

Introdução

O linfoma de Hodgkin (LH) é responsável por cerca de 7.500 casos novos/ano nos Estados Unidos e, aproximadamente, 50% dos casos no Brasil parecem estar associados com a infecção pelo vírus Epstein-Barr (1).

            O tratamento é determinado de acordo com o estadiamento da doença, podendo a quimioterapia e a radioterapia ser utilizadas isoladas ou em combinação. Vários são os efeitos colaterais decorrentes do tratamento; dentre eles figuram a flebite, náusea/vômito, mucosite, diarréia e alterações hematológicas (1-2). Parte significativa das ações de enfermagem está voltada para minimizá-los.

            Os portadores de LH são pacientes extremamente complexos. Ao receberem o diagnóstico, pacientes e familiares deparam-se com uma situação que leva a momentos de estresse e muita ansiedade. Posteriormente, como resultado da própria doença e do tratamento ao qual são submetidos, os mesmos podem vir a apresentar episódios de dor decorrentes da compressão de tecidos, além dos efeitos colaterais causados pela quimioterapia (já descritos anteriormente) e pela radioterapia que incluem descamação e escurecimento da pele do local irradiado, anorexia, dentre outros. Outro aspecto importante é o fato de que esses pacientes estão sob grande risco de desenvolver complicações mais graves, tais como a síndrome de lise tumoral e a síndrome de veia cava superior, podendo resultar em óbito (3-6).

            Frente ao exposto, torna-se evidente a necessidade de que os enfermeiros conheçam profundamente as características, os sinais e sintomas, tipos de tratamentos, efeitos colaterais e os cuidados de enfermagem que podem ser prestados, pois estes, como membros da equipe de saúde, assumem função vital na recuperação do paciente (7).

            A qualidade da assistência de enfermagem depende de um enfermeiro capacitado, pois este também é responsável pelo controle de sintomas relacionados ao tratamento e pelo esclarecimento de pacientes e familiares. Portanto, conhecer o que tem sido produzido na literatura a respeito dos cuidados de enfermagem a esses pacientes, sedimenta o conhecimento e capacita o profissional para que este possa planejar os cuidados de enfermagem mais adequados a esta clientela.

            Portanto, o presente estudo tem como objetivo identificar os cuidados de enfermagem arrolados na literatura à pacientes portadores de Linfoma de Hodgkin submetidos a tratamento quimioterápico.  

MATERIAL E MÉTODOS

            Este estudo é uma revisão integrativa da literatura (8), predominantemente qualitativa, que buscou responder a seguinte questão: “Quais são os cuidados de enfermagem prestados ao paciente portador de linfoma de Hodgkin em tratamento quimioterápico?”.

As buscas foram realizadas até julho de 2007 nas bases eletrônicas de dados PubMed (MEDLINE), LILACS, BDENF e CINAHL, utilizando as palavras-chaves: cuidados de enfermagem (nursing care), doença de Hodgkin (Hodgkin´s disease) e quimioterapia (chemotherapy/ antineoplastic drugs).

            Foram incluídos os artigos que abordassem a temática descrita e que estivessem publicados em inglês, português ou espanhol, não havendo restrições quanto ao desenho do estudo. 

            Foram identificados oito artigos no PUBMED, sendo sete elegíveis para análise; na base BVS, oito artigos foram identificados e elegíveis para análise. Não obtivemos resultado na base de dados CINAHL. Portanto, a amostra foi constituída de 15 artigos.

            Procedimentos

            Após leitura na íntegra de cada artigo, procedeu-se o preenchimento do instrumento composto de identificação da origem dos autores, tipo de estudo, nível de evidência e conteúdo abordado.

            Para a determinação do nível de evidência (9) foi utilizado o sistema de hierarquia de evidências que prevê sete níveis, sendo eles: nível 1 (evidência obtida de revisão sistemática ou metanálise de todos os ensaios clínicos randomizados relevantes ou guidelines baseados em revisões sistemáticas de ensaios clínicos randomizados); nível 2 (evidência obtida de pelo menos um ensaio clínico randomizado bem desenhado); nível 3 (evidência obtida de ensaios clínicos bem desenhados sem randomização); nível 4 (evidência obtida de estudo com caso controle e estudos com coorte); nível 5 (evidência obtida de revisões sistemáticas de estudos descritivos e estudos qualitativos); nível 6 (evidência obtida de um único estudo descritivo ou qualitativo) e nível 7 (evidência obtida da opinião de autoridades e ou comitê de especialistas).

            Para análise do conteúdo, foram estabelecidas as seguintes categorias: intervenções de enfermagem, modalidade terapêutica e epidemiologia da doença, definidas posteriormente a leitura dos artigos. Considerou-se intervenções de enfermagem como sendo qualquer procedimento ou tratamento de cuidado direto, baseado no julgamento clínico e no conhecimento que a enfermeira executa em benefício de um cliente, objetivando alcançar os resultados esperados, que incluem aspectos psicossociais e fisiológicos (10). Esta categoria englobou, ainda, três subcategorias, a saber: educação, conceituada como uma experiência planejada, usando uma combinação de métodos como ensino, aconselhamento e técnicas de modificação de comportamento, que influenciam o conhecimento do paciente e, conseqüentemente, o seu comportamento de saúde (11); coping, definido como o processo que busca controlar as demandas estressantes e as reações por elas geradas, consistindo nas habilidades utilizadas pelo individuo para controlar as demandas internas e externas excessivas aos seus recursos disponíveis (12); e procedimentos técnicos/tecnologia, entendido como habilidades psicomotoras e/ou ações específicas realizadas por enfermeiros que fazem parte do plano global de assistência de enfermagem, auxiliando na promoção de conforto e na recuperação dos pacientes/clientes (13-14). Os dados foram agrupados nessas categorias por dois dos autores, independentemente, havendo concordância entre os mesmos. 

RESULTADOS

Os artigos analisados foram publicados no período de 1986 a 2006. De acordo com a origem dos autores, nove (60%) eram norte-americanos, cinco (33,3%) europeus e um (6,7%) brasileiro. No que diz respeito ao tipo de publicação, sete (46,7%) eram revisões de literatura; dois (13,3%) pesquisas qualitativas; dois (13,3%) pesquisas quantitativas; dois (13,4%) estudos de caso; um (6,7%) relato de experiência e uma (6,6%) reflexão teórica.  Quanto ao nível de evidência, oito (53,3%) dos artigos foram classificados como nível 7, seis (40%) como nível 6 e apenas um artigo (6,7%) como nível de evidência 4.

Quanto ao conteúdo abordado, os artigos contemplavam intervenções de enfermagem (53,2%), modalidades terapêuticas (25%) e epidemiologia da doença (21,8%). Neste aspecto, alguns artigos foram incluídos em mais de uma categoria, dada à abrangência do seu conteúdo. 

Intervenções de Enfermagem

Nesta categoria foram observados onze estudos. Dentre eles 6 relativos aos aspectos de educação, 6 de coping  e  4 de procedimentos técnicos / tecnológicos.

            Na abordagem de Educação, considerou-se a revisão de literatura (15) que destacou o papel educacional exercido pelo enfermeiro no que diz respeito ao paciente e familiar, sobre questões relativas à doença, efeitos colaterais, manejo de toxicidades, de infecções e possíveis seqüelas decorrentes do tratamento. Afirmou, ainda, que as ações educativas do enfermeiro em relação aos pacientes devem ser individualizadas, além de ser parte integrante do plano de cuidados.

            Outro estudo (16) também ressaltou a importância da ação educativa do enfermeiro em relação aos efeitos colaterais oriundos dos vários tipos de tratamento.  Os autores sugeriram aos enfermeiros um processo contendo 10 etapas de reflexão que abrangeu desde a fisiopatologia da doença, processo de investigação, tratamento, impacto social, grupos de apoio, manejo dos efeitos colaterais, suporte psicológico para família, fontes de stress e protocolo de condutas.

            De acordo com outros autores (17), prover informações sobre a doença e o uso dos medicamentos prescritos auxiliou o paciente durante o curso de seu tratamento.      

            Um dos estudos, uma revisão de literatura (18), tornou evidente que o papel de educador do enfermeiro está em explicar ao paciente a relação existente entre o aparecimento do linfoma de Hodgkin e a presença do HIV, assim como as medicações que deverão ser utilizadas, os sinais e sintomas das doenças, os efeitos colaterais e toxicidades.

            Por meio de um relato de caso (19), foi possível identificar os efeitos tardios que podem surgir decorrentes do tratamento do linfoma de Hodgkin. Os autores destacaram a importância do enfermeiro na educação do paciente em relação aos efeitos tardios do tratamento, assim como ao fato de relatar sobre sua condição de saúde quando atendido em outro serviço, a fim de que a equipe possa relacionar eventos passados e atuais. 

            O desenvolvimento de diretrizes, segundo um grupo de pesquisadores (20), foi considerado uma estratégia importante, pois estas asseguram a qualidade da assistência prestada aos pacientes e familiares, reduzindo a freqüência de incidentes e promovendo a continuidade do cuidado.

            Já dentre os artigos incluídos na categoria Coping, autores (16) reconheceram que o diagnóstico de câncer pode desestruturar paciente e familiares, sendo necessários conforto e suporte emocional. Incentivar a crença na cura e a retomada das atividades diárias e atitudes positivas frente à vida auxiliam na luta contra a doença. Os mesmos enfatizaram que prover informações tem sido identificado como uma estratégia-chave de coping.

Numa revisão realizada (17), foram indicadas algumas estratégias para auxiliar o paciente a enfrentar os efeitos colaterais decorrentes do tratamento, principalmente durante o processo de perda de cabelo. Inicialmente, os autores sugerem que o enfermeiro deve assegurar ao paciente que o cabelo crescerá novamente. Em seguida, ao iniciar a queda capilar sugerir o corte do cabelo e a utilização de perucas ou de coberturas. Se a decisão do paciente for a de tentar manter os cabelos, então poderá ser utilizado o torniquete de pressão no couro cabeludo ou a capa gelada. No entanto, afirmam que explicar como enfrentar os problemas causados pela alopecia pode fazer com que o paciente supere com mais tranqüilidade esta fase.

            Um estudo de revisão (18) destacou a intervenção do enfermeiro oncologista no sentido de minimizar as seqüelas associadas ao tratamento do câncer na presença do HIV. O autor afirma que é função do enfermeiro ajudar o paciente a encontrar maneiras de conviver com alguns sintomas quando estes não podem ser aliviados.

            Com a realização de um estudo descritivo (21) foi possível observar que o pior dia vivenciado pelos pacientes submetidos ao transplante de medula óssea (TMO) é o quinto dia pós-transplante, quando o padrão de stress é mais intenso e o sofrimento mais severo. Os autores identificaram que estratégias de coping ineficazes somadas a este dia, faziam os pacientes experimentarem um sentimento de desesperança, usando um padrão de coping negativo. Desta forma, concluem que o enfermeiro está em posição chave para o reconhecimento desses sintomas, podendo lançar mão de intervenções de suporte que têm sido relatadas como efetivas no tratamento da dor e stress psicológico desta população, tais como o tratamento adequado da dor, informações realistas sobre o que esperar do transplante, além de incentivar o sentimento de esperança.

            Numa abordagem qualitativa (22), ao analisar pacientes imunodeprimidos em isolamento protetor por ocasião do período de nadir (período de menor contagem hematológica) da quimioterapia, observou-se que estes apresentam sentimentos tanto em relação ao isolamento, quanto em relação ao processo do câncer, podendo ser divididos em 8 categorias: estar preso, aprendendo com a experiência, sentimento de solidão, mantendo contato com o mundo externo, ter o câncer, sofrendo com a quimioterapia, aprendendo o que esperar e fazendo amizades com o profissional de saúde. O estudo reforça o importante papel da relação profissional de saúde – paciente, principalmente o profissional de enfermagem, que assume papel importante na recuperação do paciente em isolamento, pois diminui o estresse psicológico gerado pela redução da interação social destes pacientes.

            Um estudo experimental (23) desenvolvido com 11 crianças que faziam uso da realidade virtual durante o ciclo de quimioterapia confirma a eficácia da utilização da mesma enquanto instrumento de distração para esta clientela. A estratégia foi bem aceita, proporcionando bem-estar aos pacientes, além de ser de fácil aplicação. Os autores reportam a viabilidade de seu uso, sendo um mecanismo de coping eficaz nesta população.

            Dentro da categoria Procedimentos técnico/tecnológicos, os dados do estudo obtidos por meio de uma reflexão teórica (17), evidenciaram algumas condutas para determinados efeitos adversos relacionados ao tratamento, enfocando as complicações gastrointestinais e pulmonares causadas pela quimioterapia. Dessa forma, os autores afirmam que dieta rica em fibras é eficaz contra a constipação, assim como o kaopectato (caolin + pectina, medicamento antidiarreico) auxilia no controle da diarréia. Quanto ao risco de infecção decorrente do surgimento de mucosite e estomatite, os autores sugerem o uso de artigos adequados para higiene oral, como escovas macias, além do uso correto de antifúngicos e antibióticos.  Para a prevenção da fibrose pulmonar é imprescindível a ausculta pulmonar, observação do padrão respiratório, além da realização de radiografias periodicamente.

            Em uma revisão de literatura (16), os autores chamam a atenção do leitor para os efeitos adversos ao tratamento e traçam condutas de forma que o enfermeiro possa identificar sinais/sintomas e, além disso, propor intervenções. Assim sendo, os autores direcionam o olhar do enfermeiro para observar tanto a presença de linfedema por meio da inspeção local, quanto de infecção e/ou trombocitopenia através do controle da temperatura corporal, do número de evacuações, presença de eritema, sinais de sangramento ao escovar os dentes, sangramento nasal e púrpura. Na tentativa de controlar infecção proveniente de mucosite, os autores sugerem o uso de escovas macias para diminuir a possibilidade de sangramento oral, bem como enxaguante bucal sem álcool a base de clorohexidina. Para náusea e vômito, o enfermeiro deve atuar de maneira que forneça os antieméticos em quantidade suficiente no período crítico e assegure que o paciente saiba utilizá-lo.  Além disso, orientá-los a cerca das refeições que deverão ser frias, com alimentos livres de gorduras e acompanhados de refrigerantes, pois são mais toleradas que os alimentos quentes devido ao odor.

            Em um estudo de caso (24) onde se identificou a dificuldade de obtenção de acesso venoso em pacientes submetidos a tratamento quimioterápico, foi indicado o uso de cateter do tipo PICC (cateter central de inserção periférica). Este dispositivo é inserido por veia cefálica ou basílica, e gradualmente avançado até a porção superior da veia cava, sendo necessário um raio-x confirmatório para certificação do exato posicionamento do cateter. A paciente estudada não apresentou alteração na qualidade de vida relacionada à duração do banho, além de relatar que o PICC tornou o tratamento mais tolerável.

            As características da população diagnosticada com linfoma foram descritas em um estudo (25), afirmando que a capacitação técnico-científica e o conhecimento destas características propiciam competência ao enfermeiro durante o desenvolvimento da sistematização da assistência de enfermagem.  

            Modalidades terapêuticas     

Nesta categoria incluiu-se um estudo de revisão da literatura (26) acerca da classificação e do tratamento de linfomas de acordo com as várias apresentações da doença. Os autores confirmaram a evidência de que a escolha do tratamento deve ser feita de acordo com cada caso, levando-se em consideração a localização, o estadiamento, além das características clínicas e biológicas individuais do paciente.

            Por meio de um survey (27) com médicos americanos e europeus, especialistas e não-especialistas que já haviam atendido portadores de Linfoma de Hodgkin, foi possível identificar as variações de tratamento e os fatores associados a elas. Portanto, foi identificado que especialistas eram mais favoráveis a recomendar tratamento combinado do que quimioterapia ou radioterapia isolada. No entanto, os não-especialistas, são mais favoráveis à indicação de quimioterapia ou radioterapia isolada. Os autores sugerem que a experiência profissional explica a variação das decisões na prática.

            Segundo alguns autores (15-16), o melhor tratamento para Linfoma de Hodgkin no estágio I e II seria radioterapia isolada ou quimioterapia associada à radioterapia para aqueles cujo prognóstico fosse adverso. Para os demais estágios, os mesmos indicam os tratamentos de radio e quimioterapia associados.

            Divergindo dos anteriores, um estudo (28) afirmou que o uso de quimioterapia isolada nos estágios IA – IIA é mais eficaz. Contudo, confirma para os estágios mais avançados o uso de quimioterapia associada à RXT.

            Por meio de revisão de literatura (29) que buscava identificar o melhor tratamento para Linfoma de Hodgkin, identificou-se que americanos e europeus não utilizam a radioterapia isolada para o tratamento de estágios iniciais. Dessa forma, para estágios iniciais, é indicado de 2 a 4 ciclos de ABVD e de 4 a 6 ciclos de ABVD + RXT para estágios intermediários. O autor sugere que avanços nas técnicas de diagnóstico por imagem e de expressão gênica podem ajudar a distinguir quais pacientes serão bons respondedores à quimioterapia e a definir o momento exato de utilizar a radioterapia.

            Em relação aos pacientes portadores de Linfoma de Hodgkin e HIV positivo (18), o estudo de revisão, já mencionado, confirmou que os pacientes portadores de ambas as doenças apresentam uma resposta pior ao protocolo MOPP e ao ABVD. De acordo com este, aproximadamente 50% conseguem entrar em remissão completa e, dentre esses, 40% apresentam progressão ativa da doença em menos de um ano. 

            Epidemiologia da Doença

            Em 1986, uma reflexão teórica (17) reportou que o número de casos novos atingiu o número de 100 no referido ano nos Estados Unidos, tendo a mortalidade atingido cerca de 1600 pessoas.

            Já no ano de 1998, a estimativa de incidência para os Estados Unidos era de 7. 500 casos novos e sua prevalência estaria na população acima de 15 anos (15).

            Segundo uma revisão de literatura (16), a estimativa de casos novos para o Reino Unido era de 1.400 ao ano. Além disso, foi observado que existiam dois picos de incidência, sendo o primeiro em jovens adultos de 15 a 34 anos e, o segundo em adultos maiores de 50 anos.

            Dados de um estudo austríaco (28) apresentam a incidência de 14 em cada 100.000 habitantes em idade acima de 15 anos. O autor revela, ainda, os picos de incidência da doença neste país que se encontram na faixa etária entre 20-29 anos e em torno dos 50 anos. O estudo sugere que nos países em desenvolvimento a incidência entre adultos e crianças é muito similar, sendo rara em crianças menores de cinco anos.

            Entretanto, um relato de experiência (20) apresenta três picos de incidência para o Linfoma de Hodgkin, a saber: na infância, em pacientes em torno dos 14 anos (raramente ocorre em crianças menores que cinco anos), em adultos jovens entre 15 e 34 anos e em adultos a partir de 50 anos.

            Um estudo realizado por pesquisadores brasileiros (25) avalia a freqüência do surgimento do LH em crianças. Os autores afirmam que esta é uma doença muito freqüente em maiores de 10 anos, observando a ocorrência de 2,5% na faixa etária de 0 a 5 anos e 5,1% na faixa entre 10 e 15 anos, o que perfez um total de 7,6%.

            Dados epidemiológicos apresentados por outro estudo (18), evidenciam a relação entre a Doença de Hodgkin e a contaminação pelo vírus HIV, além de afirmarem a existência de um aumento significativo da doença de Hodgkin em homens HIV positivos, concluindo que a associação entre as duas doenças possui um prognóstico de vida que varia de 8 a 18 meses com o tratamento adequado.

Discussão

            O olhar da enfermagem ao paciente portador de Linfoma de Hodgkin, em tratamento quimioterápico, está direcionado ao conhecimento das características da doença na população, aos efeitos do tratamento, aspectos emocionais que tratam do processo de enfrentamento das situações causadas pelo stress da doença e ao seu perfil adaptativo.

            As estratégias de intervenções de enfermagem têm se mostrado eficazes no tratamento de portadores de LH. Em relação à educação, a melhor estratégia, segundo os autores, é fornecer orientação aos pacientes e familiares a respeito da doença (sinais e sintomas), dos efeitos colaterais relacionados ao tratamento, toxicidades e possíveis seqüelas; e destacam a importância do desenvolvimento de diretrizes para a assistência de enfermagem (15-20). Quanto ao uso da estratégia de coping, os achados nos mostram que o enfermeiro é peça fundamental na redução do estresse psicológico enfrentado pelo paciente, pois é capaz de reconhecer quando o mesmo apresenta coping negativo. As principais estratégias sugeridas pelos autores são o incentivo a acreditar na cura e na retomada das atividades diárias, enfoque no caráter passageiro dos efeitos colaterais e nas alternativas para minimizá-los, tal qual o uso da distração. Porém, há necessidade de estudos experimentais sobre as mesmas, principalmente a respeito das tecnologias que vêm se mostrando de grande valia no tratamento desses pacientes, assim como a técnica de distração utilizando a realidade virtual (16-18, 21-23). Assim sendo, a produção de evidências sustentarão sua utilização na prática clínica. A respeito dos procedimentos técnico/tecnológicos, estes estão voltados para condutas que controlem ou reduzam os efeitos colaterais relacionados ao tratamento, tais como oferecer dieta adequada tanto para constipação quanto para diarréia; evitar infecção secundária à mucosite  através do uso de escovas adequadas, enxaguantes bucais sem álcool; além da obtenção de acesso venoso com a implantação do PICC (16-,17, 24-25).

            Em relação à modalidade terapêutica, os achados nos mostram que o estadiamento da doença é fator preponderante na escolha do tratamento. No entanto, a experiência profissional também pode influenciar nessa escolha. Há uma divergência entre os achados. Alguns autores afirmam que o uso da quimioterapia isolada nos estágios iniciais (I e II) é mais eficaz, outros mostram que a radioterapia isolada nesses casos é o mais indicado. Entretanto, nos estágios mais avançados o tratamento combinado é unânime entre os autores (15-16, 18, 26-29). Um estudo nos mostra que a escolha do tratamento é determinada por vários fatores além dos citados anteriormente; tais como: classificação histopatológica de doença, comorbidades, escolhas do paciente, além da preferência do profissional médico (30).

            Os dados epidemiológicos também variam de acordo com o país estudado e apontam, em sua maioria, para a presença de três grandes picos de incidência, ocorrendo na infância, em torno dos 14 anos, em adultos jovens (entre 15 e 34 anos) e em maiores de 50 anos. Contudo, a incidência de LH vem aumentando, dados de 1986 apontavam o aparecimento de 100 casos novos; pouco mais de uma década depois, esse número já subiu para 7.500 casos novos (16-18, 20, 25, 28). Esse aumento se deu principalmente nas faixas etárias que incluem os extremos de idade, justificada pela presença de síndromes de imunodeficiência, aumento da infecção pelo vírus Epstein-Barr e história familiar para as crianças; e a existência de comorbidades dentre os idosos (31). Não obstante, cresce também o número de LH entre os portadores do vírus HIV. Conhecer os dados epidemiológicos favorece organizar o serviço e preparar a equipe para o uso de estratégias compatíveis às características de cada grupo, como o uso da realidade virtual para se obter distração em crianças e adolescentes.

Tendo em vista que a prescrição de medicamentos no Brasil é uma atividade restrita à classe médica, esta não constitui parte integrante da assistência de enfermagem. No entanto, é de suma importância que o enfermeiro conheça as diversas modalidades terapêuticas relacionadas ao LH, pois estas são fundamentais para o desenvolvimento da assistência de enfermagem a esses pacientes.

Considerando que o corpo de conhecimento da enfermagem é uma das ferramentas indispensáveis para a prática clínica, é necessário que os enfermeiros entendam as características da doença e daqueles que são acometidos por ela, os mecanismos patológicos, sinais e sintomas, os tipos de tratamentos e os efeitos colaterais, assim como os cuidados de enfermagem que podem ser prestados.

            Por outro lado, para que esses profissionais possam prestar assistência de enfermagem de qualidade, faz-se necessário que pesquisas com evidências sólidas sobre as estratégias usualmente empregadas venham a ser disponibilizadas aos mesmos. Por ora, as estratégias de educação, coping e o uso de procedimentos técnico/tecnológicos têm se mostrado adequadas e viáveis de serem empregadas à clientela em estudo. 

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Contribuição dos autores: Concepção e desenho: Christiane Inocêncio Vasques e Emília Campos de Carvalho - Pesquisa Bibliográfica, Análise e Interpretação: Christiane Inocêncio Vasques, Cíntia Capucho Rodrigues, Paula Diniz dos Reis e Emília Campos de Carvalho - Escrita do artigo: Christiane Inocêncio Vasques e Cíntia Capucho Rodrigues - Revisão crítica do artigo: Paula Diniz dos Reis e Emília Campos de Carvalho - Aprovação final do artigo: Emília Campos de Carvalho

 
Endereço para Correspondência: Emília Campos de Carvalho
Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto – USP
Av. Bandeirantes, 3.900 Campus Universitário-Monte Alegre
Ribeirão Preto - SP
CEP: 14040-902
 
Estudo subsidiado pelo CNPq – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico.

 Received: Jan 31, 2008
Revised: Mar 3, 2008
Accepted: Mar 14, 2008





 

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