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The conceptions of public healthcare nurses about care
Concepções de enfermeiros de Saúde Pública sobre o cuidado.

Keli Regiane Tomeleri1, Betina Barbedo Andrade2, Marta Elaine Serafim dos Santos3, Lílian Denise Mai4, Sonia Silva Marcon5. 
1 Universidade do Norte do Paraná – UNOPAR, Londrina, PR, Brasil; 2Universidade Paranaense – UNIPAR, Umuarama, Pr, Brasil; 3 Universidade Paranaense – UNIPAR, Umuarama, Pr, Brasil; 4 Universidade Estadual de Maringá, Maringá, PR, Brasil; 5 Universidade Estadual de Maringá, Maringá, PR, Brasil. 

Abstract: The art of caring is arousing the conscience of being a nurse to a redirection of his/her role as a caring being who becomes involved with other beings. This study aims to identify the understanding that nurses have about caretaking and its practical applicability according to the theorists Leonardo Boff and Vera Regina Waldow. A descriptive and qualitative study, carried out with nurses from Basic Healthcare Units, where 94.1% are women, 58.8% are between 41-50 years old, the majority (76.5%) of them are specialists and 52.9% graduated in the 1980s. This situation produced three categories: the Assistance category – "do something for somebody", the Feeling category – "care with humanistic values", and the Education category – "promotion of the quality of life". It was observed that that nurses spoke mainly in terms of “doing to” or “doing for” someone, rather than "doing with" someone. A great difficulty and certain confusion were observed, when speaking about care.

Keywords: Knowledge; primary nursing care; public health; perception

Resumo: A arte de cuidar vem despertando a consciência do ser enfermeiro para um redirecionamento de seu papel enquanto um ser cuidador que se envolve com outros seres. Este estudo tem por objetivo identificar a compreensão que os enfermeiros possuem do cuidar e a sua aplicabilidade prática, à luz dos teoristas Leonardo Boff e Vera Regina Waldow.  Estudo descritivo, qualitativo, realizado com enfermeiros de Unidades Básicas de Saúde, onde 94,1% são do sexo feminino, 58,8%, possuem entre 41 e 50 anos, a maioria (76,5%) dos sujeitos é especialista e 52,9% formaram-se na década de 80. Suscitaram três categorias: a categoria Assistência- “fazer algo por alguém”; a categoria Sentimento – “cuidado com valores humanísticos” e a categoria Educação –“promoção da qualidade de vida”. Observa-se um discurso pautado no fazer para ou por alguém, em detrimento do fazer “com” alguém. É perceptível uma grande dificuldade e certa confusão, quando se fala sobre o cuidado.

Palavras chave: Conhecimento; cuidados básicos de enfermagem; saúde pública; percepção.

Introdução 

            A arte de cuidar vem despertando a consciência do ser enfermeiro para um redirecionamento de seu papel enquanto um ser cuidador que se envolve com outros seres.

O cuidado influencia e é influenciado pelo contexto social, cultural, político e econômico mais amplo. Esta dimensão do cuidado põe em relevo a possibilidade de “poder” daqueles que cuidam e dos que são cuidados, na transformação individual e coletiva, e da sociedade em geral1.

Na busca de uma compreensão maior para esse termo, decidimos no presente estudo abordar os conceitos e concepções do filósofo Leonardo Boff e da enfermeira Vera Regina Waldow, pela influência de ambos no que tem sido produzido na literatura nacional sobre o cuidado.

Para iniciar, pensamos ser necessário definir os termos cuidar e cuidado. Observa se que “o cuidar é mais que um ato, é uma atitude” 2: 33, que pode ser expressa através de uma postura profissional diante de determinadas situações. Ter uma postura ética diante das atrocidades da violência do dia-a-dia praticadas contra a população, lutar contra a poluição, a degradação da natureza, as grandes filas dos serviços públicos de saúde e as injustiças acometidas contra os menos favorecidos, constitui atitudes de cuidado. Isso portanto, é cuidar.

Num sentido heideggeriano, o autor2 ainda refere que o ser humano é um ser de cuidado em essência e, para ver projetada a imagem de sua solicitude, desvelo e atenção para com o semelhante, basta que coloque cuidado em tudo o que pensa e faz. Assim, abrindo-se ao sensível e ao exercício da empatia, o ser humano passa a ter mais preocupação e envolvimento com o que diz respeito a si e ao outro, momento em que se pode dizer que ele constrói uma espécie de responsabilidade, a qual inclui, às vezes, o eu e, às vezes, o outro, num equilíbrio que se faz de uma parte entre poder cuidar de si mesmo e, de outro, e assim poder cuidar dos demais.

Cuidar significa “zelar pelo bem-estar do outro ou pela saúde do outro, tratar da saúde, de sustentar, tratar da própria saúde ou zelar pelo próprio bem-estar”3: 175. E cuidado significa “desvelo, solicitude, pessoa ou coisa objeto de desvelo” 4: 175.

Ser autêntico, envolver-se, estar presente, confortar, preocupar-se, ter consideração, expressar sentimentos, fazer para e com o outro, tocar, amar, ser paciente, proteger, respeitar, compartilhar, ter habilidade técnica, demonstrar conhecimento, segurança, valorizar o outro, ser responsável, relacionar-se espiritualmente e ouvir atentamente 5: 130

Neste contexto, cuidar parece deixar de ser um procedimento, uma intervenção, para ser uma relação, onde a ajuda é no sentido da qualidade do outro ser ou de vir a ser, respeitando-o, compreendendo-o, tocando-o de forma mais afetiva.

Diante do que foi exposto, percebe-se que o cuidado na Enfermagem tem a finalidade de permitir às pessoas desenvolverem suas capacidades e habilidades para a vida, pois o processo de cuidar/cuidado envolve não só as ações, como também uma reflexão sobre as necessidades dos sujeitos envolvidos no ato, visando à melhoria das condições físicas, psíquicas e sociais, fluentes na interação cuidador/cuidado. Trata-se, desta forma, não de uma relação de poder sobre o sujeito cuidado, mas de uma relação que tende à igualdade, na qual se levam em conta as necessidades de um (do cuidador) e de outro (sujeito cuidado), no processo dialógico de assistir alguém a interpretar sua história6.

As concepções sobre o cuidar são relativamente novas para a enfermagem. Até poucos anos nossa formação profissional era direcionada quase que exclusivamente para uma assistência, que quanto mais tecnicamente perfeita melhor seria. Essa “obsessão tecnicista” levou a enfermagem a se distanciar cada vez mais dos aspectos humanos da assistência, mecanizando e alienando as ações de enfermagem. Esse modelo assistencial historicamente construído não se constitui em exclusividade dos profissionais enfermeiros, ao contrário, é o modelo assistencial reproduzido pela maioria das categorias profissionais que compõem a área da saúde.

Refletindo sobre o cotidiano do trabalho de enfermagem, alguns autores concluem que muitas atividades são desenvolvidas tendo como foque principal o bem-estar e conforto do cliente e isto por sua vez, exige um esforço muito grande e constante por parte dos profissionais, uma vez que se torna necessário entender a complexidade e fragilidade desse ser humano sob sua responsabilidade, especialmente por que nem sempre o que se preconiza tradicionalmente para atendê-lo surte o resultado esperado.7 É portanto, é no contexto do conjunto de demandas do cliente que se desenvolve o cuidado específico de enfermagem voltado para as necessidades e desejos de sua clientela.7    

            Então, nos últimos anos, uma preocupação passou a fazer parte do universo assistencial da saúde: a deterioração da qualidade. Surgiu então, um movimento que busca resgatar os aspectos ontológicos do homem na construção da assistência de enfermagem e que introduziu o “cuidado” como o objeto da disciplina de enfermagem.

            Entretanto, a introdução de novos conceitos não é apreendida na mesma velocidade por todos, e, ainda, a prática nem sempre absorve as mudanças ou as absorve muito mais lentamente que a teoria. Diante disso, surgiu o questionamento: o que pensam sobre o cuidar e como o aplicam, os enfermeiros inseridos nas unidades básicas de saúde? Para responder a este questionamento, definiu-se como objetivo deste estudo: identificar a compreensão que os enfermeiros possuem do cuidar e a sua aplicabilidade prática, à luz dos conceitos de Boff e Waldow. Os objetivos específicos são: a) Identificar as ações que os enfermeiros relacionam ao processo de cuidar; b) Investigar as contradições vivenciadas por estes profissionais na implementação da assistência de enfermagem.

Metodologia                       

Trata-se de um estudo descritivo e exploratório, de natureza qualitativa, realizado junto a profissionais enfermeiros que atuam na Atenção Básica do município de CambéPR.

Cambé é um pequeno município localizado na região norte do Estado do Paraná que possui aproximadamente 100.388 mil habitantes. O Programa Saúde da Família (PSF) foi implantado no município em 1999, inicialmente com 07 equipes. Atualmente existem 24 equipes, distribuídas nas 13 Unidades Básicas de Saúde (UBS), sendo 12 na zona urbana e 01 na zona rural, o que corresponde a uma cobertura populacional de 80,2%.

O estudo foi desenvolvido em todas as UBSs localizadas na área urbana. São 36 enfermeiros no total, porém a população do estudo foi composta somente por 17 enfermeiros, os quais tiveram a disponibilidade e aceitaram responder o questionário.

            Cada sujeito preencheu por escrito o instrumento de coleta de dados e o devolveu aos pesquisadores. Utilizou-se esse método de coleta de dados, pela dificuldade em conseguir marcar um encontro com esses enfermeiros para realizar uma entrevista.

         A coleta de dados foi realizada no período de 09 a 23 de outubro de 2006. O instrumento utilizado na coleta de dados foi um roteiro constituído de questões abertas, elaborado pelos próprios pesquisadores a partir dos objetivos do estudo, o qual foi submetido à avaliação aparente e de conteúdo de três peritos. Ele está constituído de duas partes: a primeira contém questões objetivas relacionadas à identificação das características sociodemográficas e a segunda é constituída de quatro questões abertas relacionadas com o conceito de cuidar: O que a palavra cuidar significa? O que é ou quais os componentes de cuidar? O que cuidar significa para você? Como é a prática do cuidar?

          Os dados obtidos foram tratados, ou seja, o material foi lido na íntegra, iniciando-se a pré-análise e exploração dos dados; em seguida os dados foram organizados sistematicamente e agregados em unidades, o que permitiu uma descrição exata das características pertinentes.

Procedeu-se, então, à categorização, que consistiu em isolar os elementos do discurso e impor certa organização às mensagens, investigando o que cada um tem em comum com o outro ou então, isolando-os segundo os temas propostos, com base em categorias determinadas a partir dos temas suscitados nas entrevistas e processadas em uma série de etapas8. Em seguida, os resultados foram discutidos à luz das teorias do cuidar, de Leonardo Boff e Waldow.  

O desenvolvimento do estudo obedeceu aos preceitos éticos de pesquisa com seres humanos disciplinados pela resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde e o projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UNOPAR - Universidade Norte do Paraná (parecer PP011/07). A solicitação de participação no estudo foi acompanhada do fornecimento do termo de consentimento livre e esclarecido, sendo que só participaram do estudo os profissionais que concordaram, assinando o referido termo em duas vias.  Nesta solicitação informamo-los sobre os objetivos do estudo, tipo de participação desejado e tempo provável de duração da entrevista. Também foi assegurado aos participantes o livre consentimento e a liberdade de desistir da participação, se em qualquer momento o desejassem, sigilo quanto às informações prestadas e anonimato sempre que os resultados da pesquisa fossem divulgados.  

Apresentação e Discussão dos dados

 * Caracterização dos profissionais entrevistados

Todas as Unidades Básicas de Saúde do município foram incluídas no estudo, de forma que os enfermeiros em estudo são provenientes das 13 Unidades Básicas de Saúde, onde somente 17 são participantes.

            Dentre os sujeitos da pesquisa 94,1% são do sexo feminino, fato este por essa profissão ser majoritariamente desenvolvida por mulheres. A faixa etária predominante foi entre 41 e 50 anos (58,8%), com média de idade de 36,9 anos.

A maioria dos informantes tinha alguma especialização (76,5%), porém não se observou predominância na área de saúde pública e nem nível de escolaridade acima deste. Quanto à formação, mais da metade deles (52,9%) formaram-se na década de 80, ou seja, já estão formados há mais de 20 anos. 

* Concepções e práticas sobre o cuidado

Optou-se por apresentar e discutir os dados, de acordo com as categorias extraídas dos questionários, que foram: Assistência, Sentimento e Educação.

 A categoria Assistência- “fazer algo por alguém” refere-se ao cotidiano dos sujeitos da pesquisa, que apontam as ações, o processo de cuidar, a avaliação, a atenção, o zelo por alguém ou por algo e o fazer. Essas ações demonstram a preocupação dos enfermeiros com a ação técnica, com o fazer, de uma maneira organizada.

... fazer preparativos para uma necessidade sua ou de outra pessoa... (Q1). 

... É organizar a forma do fazer, é fazer algo como um curativo, injeção, banho e alimentação (Q14). 

... planejamento e avaliação das atividades, realizadas com o paciente, na família e comunidade... (Q13). 

... torna-se imperativo a elaboração de um programa de atenção.... 

Observou-se que o cuidador estabelece uma relação entre si e aquele que é cuidado, onde os cuidadores (enfermeiros) relatam que precisam mostrar competência e habilidades naquilo que fazem, de forma a dar segurança ao cliente, demonstram nos discursos que a ênfase de satisfação é sempre voltada ao cliente, o que denota a ação de um profissional sobre alguém, uma ação que reflete o modus operandi do mercado capitalista, de produtividade, de satisfação do usuário, sem considerar o próprio sujeito cuidador (enfermeiro), essencialmente, é a ação de fazer algo por alguém, ao ponto de o profissional enfermeiro assumir o processo inteiro sozinho, ou seja, descobrir as necessidades, elaborar plano de ação, executá-lo e, ao final, satisfazer o usuário.

Waldow também aponta uma forma de relação entre sujeito cuidador e sujeito a ser cuidado. No entanto, a forma como tal relação deve se dar é muito distinta daquela revelada nos discursos: “... ações, atitudes, comportamentos (...) para e com o ser cuidado (...) transformando o cuidador e o ser cuidado...” 9: 31.

Desta forma, o cuidado é visto como um processo, que, abrange mais que um momento de atenção, de zelo e de desvelo, trata-se de um encontro entre dois seres que se beneficiam mutuamente, constroem uma relação de respeito e estabelecem um vínculo10. Assim, a essência de cuidador e ser cuidado é respeitada, aumentando as possibilidades de sucesso nas mais simples intervenções.

A categoria Sentimento exprime uma tentativa de resgatar o cuidado dentro de valores mais humanísticos, o que demonstra que estamos em um processo de transição, de mudança de paradigma. Aparecem aqui, o acolher, o saber ouvir, refletir, compreender, zelar, a espiritualidade, a sensibilidade e a empatia.  Aqui também os discursos apontam para uma relação onde o cuidado é um ato de doação do cuidador em relação ao ser cuidado.

Esses discursos apontam para uma mudança nos conceitos de assistência que se capilarizam no cotidiano, influenciados pelo processo e pelo tempo de formação dos diferentes profissionais.

... significa se doar ao próximo, ajudar, auxiliar e prestar assistência. Q4  

... assumir como um todo, pensar no processo de cuidar, fazer a promoção e prevenção da saúde, fazer educação permanente, acolher e encaminhar para quando não é de sua alçada, diminuir os temores, esse é o verdadeiro cuidado. Ser assistencialista... fazer a diferença efetivamente, resgatar o que aflige esse ser, ouvir e envolver afetivamente procurando compreender esse ser de uma maneira holística. Q2

... compreensão, sensibilidade, amor, compaixão (...), conhecimento de suas fragilidades... Q7

As falas nos mostram um claro processo de transição, no qual os sujeitos aparecem confusos. O conflito entre o prático e o teórico, entre o fazer por e o fazer com, entre a ação e a emoção.  Os conceitos teóricos do cuidar parecem estar presentes, mesmo que ainda não de forma dominante. É perceptível um anseio de mudança em relação aos conceitos já estabelecidos, mas fica claro o quão difícil é estabelecer esta mudança.

 As dificuldades de apreensão do cuidar são muitas, os conflitos se estabelecem a partir da decisão de mudança de atitude frente ao paciente, parece muito difícil para o enfermeiro, um “ser do fazer”, estabelecer uma nova relação com sua prática, e, muitas vezes ele não sabe como estabelecer essa mudança. Uma das dificuldades é que para mudar as atitudes em relação ao cuidar, este deve ser considerado como um valor, um modo de ser, ao invés de um modo de fazer9. É consenso que mudança de valores é um processo lento e delicado, os autores do cuidar, nos chamam a atenção todo o tempo para as questões individuais de cuidador e ser cuidado, portanto um cuidado verdadeiro só é estabelecido quando ambas as partes envolvidas comungam de um mesmo sentimento. 

Historicamente nossa profissão foi estabelecida nos pilares biológicos e técnicos, o bom profissional era o que desempenhava de forma mais eficiente e em menor tempo, as técnicas assistenciais tão necessárias ao restabelecimento do paciente. 

O paradigma dominante que ainda prevalece é valorizar o aspecto biológico, tecnologia e a produtividade. Por outro lado, parece que o novo paradigma que emerge, mais humanista, priorizando a expressão dos sentimentos, as ações simples e o sujeito, surge como uma tentativa para satisfazer uma nova necessidade, porem, por parte de alguns, conflitua-se, mostrando suas contradições 6: 55.  

Com esta mudança de paradigma, o que se busca, é uma assistência mais humanizada. Não se trata aqui de excluírem-se as questões técnicas e científicas do processo de cuidar, ao contrário, elas são componentes indissolúveis do cuidado. Uma abordagem que não faça esta inclusão corre o risco de incorrer em outro extremo, repetindo a hegemonia do modelo biológico.

Parece bastante compreensível que haja tanta dificuldade em definir o cuidado, especialmente quando nos pautamos nos teóricos do cuidar, que nos ensinam muito sobre como “Ser” cuidado e muito pouco como fazer cuidado. Este parece ser justamente o nó crítico da questão, tudo o que se faz pode se fazer com ou sem o cuidado. “Cuidar representa uma atitude de ocupação, preocupação, de responsabilização e de envolvimento afetivo com o outro”2.

A terceira categoria encontrada nos resultados é a Educação que expressa a promoção da qualidade de vida, a prevenção e recuperação da saúde, o aconselhamento, o ensino do autocuidado e a orientação. As ações de educação aparecem nas falas, principalmente quando os enfermeiros são questionados sobre os componentes do cuidar e de como é a prática do cuidar, o que nos leva a refletir sobre o quanto as ações educativa estão incorporadas às ações de enfermagem.

... proporcionando ao paciente que ele aprenda o autocuidado, sempre estimulando o mesmo a buscar formas de se cuidar. Q11

... é orientar a pessoa ao autocuidado... Q14 

Os componente do cuidar são a observação, escuta ativa, grupos de orientação... Q 6 

A educação está muito ligada com o “fazer algo por alguém”, uma ação sobre o outro. Deter todo o processo educacional, desconsiderando o ser cuidado como protagonista de seu próprio aprendizado, parece ser uma atitude bastante pretensiosa, que denota o quanto ainda a enfermagem está condicionada a velhos padrões e presa a armadilhas criadas pela medicalização do cuidado.

Existe muito pouco na literatura de enfermagem sobre o cuidado humano na prática do ensino, ressalta que uma questão emergente é saber se é possível ensinar comportamentos de cuidados. Não existem receitas ou manuais para que se prescreva ou ensine o cuidado, pois este deve ser vivido8. Essa autora vai buscar em Heidegger a noção de cuidado autêntico, entendido como o exercício do poder do ser, que necessita de cuidado, para cuidar de si mesmo. O filósofo do cuidar, nos ensina ainda, que o cuidado autêntico não é uma forma de ensinar autocuidado, mas uma forma em que o cuidador sutilmente possibilita ao outro conhecer e utilizar suas próprias capacidades.

Concordamos com os autores e observamos que as noções de cuidar que são referenciadas pelos sujeitos da pesquisa, parece se distanciar muito do conceito dos teoristas do cuidado. A enfermagem adotou o comportamento educativo, sem considerar o ser educado como protagonista de seu próprio processo de aprendizagem. Isto se reflete na pequena resolutividade que as ações educativas campanhistas têm colhido. Certamente a compreensão do cuidado autêntico seria de grande valia para nossa prática educativa, que é frequentemente unilateral e arbitrária, como se apenas os profissionais fossem os detentores do saber.

Essas questões nos ensinam que o cuidado é fenomenológico, neste sentido não se trata de pensar e falar sobre o cuidado como objeto independente de nós. “Mas de pensar e falar a partir do cuidado como é vivido e se estrutura em nós mesmos. Não temos cuidado. Somos cuidado”2. O que significa que o cuidado entra na constituição do ser humano. Destarte, como é possível educar para o cuidado?

Os modelos teóricos na enfermagem têm contribuído para a formação de conceitos para a enfermagem, para a introdução de uma linguagem muito usada no campo profissional. Esse vocabulário é muitas vezes incorporado sem a reflexão de seu significado e passa a ser repetido por nós em nosso cotidiano. Palavras como autocuidado, holismo, promoção e prevenção estão se tornando verdadeiros chavões na enfermagem e sua utilização muitas vezes não passa de mero capricho sintático. Mas o que é realmente cuidar para nós? Como estamos cuidando? São questões que permanecem nebulosas e confusas.

Quando os sujeitos pesquisados foram solicitados a identificarem algum teórico que desse suporte aos mesmos em relação ao cuidar, foram citadas Horta (8 vezes),  Nigthingale (2 vezes), Orem (2 vezes), entre outros.

Esta referência demonstra como os teoristas do cuidado ainda não foram incorporados pelos profissionais e a forte influência que ainda exercem sobre nós, as teoristas referidas. A citação de Horta é observada tanto em profissionais com mais de 10 anos de graduação como nos com menos de 05 anos.

Outro aspecto observado na pesquisa, diz respeito a relação entre o tempo de graduação e a categoria em que mais se identificou o sujeito pesquisado. Aqueles graduados na década de 80 se identificaram mais na categoria assistência (assistência-10 respostas, sentimento-2 respostas, educação-3 respostas); os graduados na década de 90 mostraram-se equivalentes nas três categorias (assistência-3 respostas, sentimento-2 respostas e educação-2 respostas) e os graduados da década de 2000 para frente, mostraram-se predominantemente na categoria sentimento (assistência-6 respostas, sentimento-8 respostas e educação- 3 respostas).  Esse resultado pode estar de acordo com a influência das escolas, que dependendo do período da formação, enfatizavam mais uma ou outra teoria e ainda, reforçam o período de transição a que se refere a literatura estudada. 

Evolução de um discurso tecnicista para um discurso mais humanista. 

Considerações Finais

Os resultados do estudo apontam uma divergência com as concepções de cuidar dos teóricos em estudo, uma vez que os enfermeiros apresentaram um discurso pautado no fazer para ou por alguém, em detrimento do fazer “com” alguém.

Em nenhum momento os sujeitos se referem ao cuidar como um processo, uma relação que envolve e transforma cuidador e ser cuidado. Além disso, é perceptível uma grande dificuldade e inclusive uma certa confusão, por parte dos enfermeiros quando estes se manifestam sobre o cuidado.

São fortes nos discursos as questões relativas à produtividade profissional, refletindo o “modus operandi” do mercado de trabalho.

Por tratar-se de um tema ainda em apreensão, sugerimos reflexão intensa e discussão exaustiva, tanto no serviço quanto na academia, a fim de contribuir para a construção individual do cuidar de cada ser cuidador e nos impulsionar em direção a maturidade da enfermagem ciência e arte.

Por fim, é mister que busquemos uma transformação de nossa prática, onde prevaleça uma abordagem mais humanística, sem, contudo rejeitar os aspectos científicos e técnicos, mas sim os incluindo, sob pena de se incorrer no mesmo erro que privilegiou exclusivamente a ciência e a técnica, fortalecendo uma hegemonia da abordagem biológica, que tanto nos afastou emocionalmente do objeto de nossa prática: o ser humano. 

Referências 

1 Silva AL.  O cuidado no encontro de quem cuida e de quem é cuidado. In: Meyer DE,     Waldow VR, Lopes MJM. Marcas da diversidade: saberes e fazeres da enfermagem contemporânea. Porto Alegre: Artmed; 1998. p 194-241. 

2 Boff, L. Saber cuidar: ética do humano – compaixão pela terra. Petrópolis: Vozes; 1999.  

3 Michaelis D.  Cuidar.  In: Michaelis D. Dicionário da língua portuguesa. São Paulo(SP):  Melhoramentos; 2003.  p.542. 

4  Michaelis D.  Cuidado.  In: Michaelis D. Dicionário da língua portuguesa. São Paulo(SP): Melhoramentos; 2003.  p.542. 

5. Watson J. Theory of human caring in action. Denver (USA): University of Colorado; 1996. Mimeografado. 

6 Waldow VR. O cuidado na saúde as relações entre o eu, o outro e o cosmos. PetrópolisVozes; 2004.  

7 Santos I, Figueiredo N, Sobral V, Tavares C. Caring: building na new history of sensibility. Online Brazilian Journal of Nursing [Online] 2002 [cited 2006 Nov 27]; 1(3): Acesso: 27 Nov.  2006. Available from: www.uff.br/nepae/objn103santosietal.htm.

8 Bardin L. Análise de conteúdo. Lisboa (PO): Edições;1977.  

9 Waldow VR. Cuidado humano: o resgate necessário. Porto Alegre: Sagra Luzzatto; 1999.  

10 Nunes DM. Linguagem do cuidado [tese]. São Paulo (SP): Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de São Paulo; 1995. 243f.

 Contribuição dos autores: -Concepção e desenho: 1,2,3,4,5; -Análise e interpretação: 1,2,3,4,5; -Escrita do artigo: 1,2,3,4,5
-Revisão crítica do artigo: 4,5; -Aprovação final do artigo: 4,5; -Colheita de dados: 1; -Provisão de pacientes, materiais ou recursos: 1,5; -Obtenção de suporte financeiro: 1,2,3,4,5; -Pesquisa bibliográfica: 1,3;

Endereço para correspondência
Sonia Silva Marcon: Rua Jailton Saraiva, 526. Jardim América. Maringá-PR. CEP: 87045-300

 Received Jun17th, 2007
Revised Jul 19th, 2007
Accepted: Aug 25th, 2007