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The development of the adolescent mother and her baby ’s attachment

O desenvolvimento do apego da mãe adolescente e seu bebê

 Eva Neri Rubim Pedro1 Daisy Zanchi de Abreu Botene1   Maria da Graça Corso da MottaNair Regina Ritter Ribeiro1 Ana Amélia Antunes Lima2

 1  Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Rio Grande do Sul, RS, Brasil.2 Centro Universitário Feevale, RS, Brasil.

 ABSTRACT. The study concerns about the development of the attachment between the adolescent mother and her baby. Its objectives are to know the adolescent’s experience as a mother; to recognize the manifestations of attachment between mother/baby and to know the factors that facilitate and/or interfere the development of the attachment. It is a longitudinal study with a qualitative approach, realized with six adolescent mothers, between thirteen and nineteen years old, and their babies, linked to the Family Health Program (FHP) from Vila Pinto, a popular class comunity in Porto Alegre/RS. The collection of the information was realized through semi-structered interviews and participatory observations. For the analysis of the information, an analysis of the content was used, from where the following cathegories emerged: satisfaction with the maternity; bonding-attachment; familiar support and interrupted project of life. The results indicate that the familiar and the partener’s support are the bonding facilitating factors, since youngesters have this support, show an affectionate relationship with their babies, but we can not to say that others adolescents whose don’t have this support, don’t development of the attachment with your sons.  

Descriptors: mother-child relations; pregnancy in adolescence, maternal behavior, family relations, nursing 

 RESUMO. O estudo aborda o desenvolvimento do apego entre a mãe adolescente e seu bebê e tem como objetivos conhecer a vivência da adolescente como mãe; reconhecer as manifestações de apego entre mãe/bebê e conhecer os fatores que facilitam e/ou dificultam o desenvolvimento do apego. É um estudo longitudinal com abordagem qualitativa, realizado com seis mães adolescentes, na faixa etária entre treze e dezenove anos, e seus bebês, vinculados ao Programa de Saúde da Família (PSF) da Vila Pinto, uma comunidade de classes populares de Porto Alegre/RS. A coleta das informações foi realizada através de entrevistas semi-estruturadas e observações participantes. Para a análise das informações, utilizou-se análise de conteúdo de onde emergiram as seguintes categorias: satisfação com a maternidade; vínculo-apego; apoio familiar e projeto de vida interrompido. Os resultados apontam que o apoio familiar e do companheiro são fatores facilitadores do vínculo, pois as jovens que tem esse apoio apresentam uma relação afetuosa com seus bebês, porém, não se pode afirmar que as demais adolescentes, que não contam com esse apoio, não desenvolvam o apego com seus filhos. 

Descritores: relações mãe-filho, gravidez na adolescencia, comportamento materno, relaçoes familiares, enfermagem

INTRODUÇÃO 

Esse estudo surgiu para dar continuidade a uma investigação anterior, do Grupo de Estudos do Cuidado à Saúde nas Etapas da Vida (CEVIDA) da Escola de Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Os resultados desse estudo prévio evidenciaram tópicos que chamaram a atenção das pesquisadoras, como o tipo de envolvimento das mães com seus filhos além de atitudes e comportamentos que podem e devem interferir no crescimento e desenvolvimento das crianças.  Diante disso, houve preocupação em investigar e aprofundar conhecimentos voltados à temática do apego entre mães e filhos com a intenção de conhecer que fatores estão envolvidos neste processo.

Sabe-se que as mulheres antes de serem mães trazem consigo um aprendizado, ou seja uma bagagem de conhecimentos adquiridos pela observação, pelas brincadeiras de infância e pela forma como eram cuidadas por suas mães.(1) De acordo com suas vivências do papel materno exercido pelas mulheres da família, como avós, mães, irmãs mais velhas que observam, elas podem formar suas opiniões e consolidar suas atitudes e condutas as quais irão inconscientemente repeti-las quando elas próprias se tornarem mães . Assim se observam que essas mulheres dizem que bebês devem se acostumar a ficar no berço pois, caso contrário, “ficarão rebeldes”, ou  que a criança deve chorar bastante “porque faz bem para os pulmões”, são alguns dos fatos que repetirão com seus filhos.

Com a compreensão do comportamento materno e do apego, talvez possamos identificar possíveis intervenções com vistas a melhorar a relação mãe/bebê.(2)  Por apego entende-se o relacionamento ativo, afetuoso, recíproco e duradouro entre duas pessoas, cuja interação fortalece ainda mais sua ligação.(3) Nesse sentido, tanto a mãe quanto o bebê contribuem para a segurança do apego por suas personalidades, comportamento e o modo de responderem um ao outro.

Quanto mais seguro é o apego da criança a um adulto responsivo, mais fácil parece ser para ela tornar-se independente deste adulto. O relacionamento entre o apego e as características que aparecem anos mais tarde salienta a continuidade do desenvolvimento e o inter-relacionamento do desenvolvimento emocional, cognitivo e físico(2).

O relacionamento mãe/bebê com qualidade, embasado no vinculo afetivo, possibilita que a criança se relacione melhor com as outras crianças e adultos, que se torne independente, adaptável, desenvolvendo auto-estima e resiliência, sendo esses aspectos de interesse dos pesquisadores do estudo.

O desenvolvimento biopsicossocial da criança está diretamente vinculado ao cuidado recebido desde o pré-natal passando pelo parto e pós-parto, mantendo-se ao longo da infância.

Na criança, filho de mãe adolescente, essa questão assume caráter fundamental em função da maior vulnerabilidade psicológica e física da adolescente e do pouco conhecimento e informação sobre as necessidades do bebê.  Estas características se traduzem por maior risco, relacionado às dificuldades no cuidado adequado dos filhos e risco de comportamento negligente.(4, 5)

A criança, como ser-no-mundo, desde a mais tenra idade constrói sua imagem corporal a partir do nascimento e vai transformando-a ao longo da trajetória existencial. O corpo está sujeito a limitações e é vulnerável aos agravos físicos e emocionais, desta maneira, a criança necessita de afeto, cuidado e proteção para crescer e desenvolver-se de forma saudável.(6)

Os laços de afeto são estabelecidos logo que a criança nasce, caracterizando o apego, condição fundamental para a construção da estrutura emocional deste pequeno ser. Os elos afetivos da mãe com seu bebê geram condições para que a criança possa crescer e desenvolver-se com segurança, prevenindo o abandono, negligência e maus tratos.

Os bebês, filhos de mães adolescentes, são em potencial, crianças de risco aos agravos biopssicosociais, considerando a vulnerabilidade desta adolescente que assume uma gestação em uma etapa precoce do desenvolvimento humano, pois, muitas vezes, ela não está preparada física e emocionalmente para enfrentar a gravidez e o cuidado de um recém-nascido, podendo, inclusive, prestar cuidados inapropriados ao seu bebê.

Um estudo do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (SINAS/RJ), entre 1996 e 1998, encontraram maior índice de baixo peso entre nascimentos de filhos de mães adolescentes, menor índice de acompanhamento pré-natal e maior índice de prematuros, quando comparados a outras faixas etárias.(4) Vários fatores são apontados como influenciadores dos cuidados maternos com o recém-nascido, desde os aspectos sociais de pobreza, da falta de recursos materiais e de orientação médica, dentre outros. Dentre os fatores promotores de práticas adequadas no cuidado do bebê está a capacidade de apego entre mãe e filho e o estabelecimento de um vínculo afetivo amoroso e estável.

A capacidade de vínculo emocional entre a mãe e a criança é um fator primordial no estabelecimento de uma relação afetiva estável que proporcionará as condições necessárias para o desenvolvimento físico, emocional e social do bebê. No recém-nascido a necessidade de cuidados é indispensável para a sobrevivência. Neste sentido, a capacidade de apego entre a figura cuidadora (mãe) e o bebê se estabelece desde a gestação e se consolida após o parto, quando a mãe inicia o processo de cuidado e atenção às demandas fisiológicas e emocionais do recém-nascido.(7)

O reconhecimento por parte da mãe dos comportamentos do bebê (choro, vocalização, toque, expressão facial e necessidade de colo, dentre outros), é fundamental no estabelecimento do vínculo afetivo. Uma figura cuidadora presente, estável e que atenda às necessidades do bebê são fundamentais para o desenvolvimento psicológico da criança. Ao contrário, mães indiferentes e pouco responsivas estabelecem vínculos instáveis e tendem a demonstrar mais estresse na relação.(8)

A fragilidade da mãe adolescente pode ser ampliada se não houver uma rede social de apoio, onde está inserida sua família, o que pode acarretar conseqüências desastrosas  para a futura vida do bebê.

Sabe-se que, entre as conseqüências de uma gravidez na adolescência, encontram-se fatores ligados às próprias condições das jovens como, estrutura familiar deficiente de apoio, abandono de projetos de vida, por exemplo, abandono da escola ou de emprego, abandono pelo companheiro e muitas outras. Há também fatores ligados diretamente às condições da própria criança como, prematuridade, malformações, alterações comportamentais: agressividade, hiperatividade, choro fácil e outros.

Pode acontecer de uma criança ser vítima de violência por apresentar algumas dessas características, ou mesmo, por ter sido indesejada e não ter feito um vínculo com seus pais ou cuidadores ou ainda por sua mãe ter apresentado uma dificuldade no período do parto.(9)

Existem certos traços caracterológicos comprovadamente mais freqüentes nos indivíduos que tendem a manifestar agressividade ou violência, como, por exemplo, baixa auto estima, falta de controle, labilidade emocional e ausência de um projeto de vida.(10) Sabendo-se que estes traços estão presentes em boa parte dos adolescentes, principalmente os que estão inseridos numa situação social vulnerável, pode-se inferir que há, sim, uma maior probabilidade de desencadearem ações violentas com seus companheiros ou filhos. Desse modo,considerando-se que um bom apego mãe/bebê pode contribuir para a redução da violência infantil, percebe-se a importância de refletir-se sobre o papel dos enfermeiros na questão da prevenção da violência intrafamiliar.(11).

Assim, cabe ressaltar que a relevância deste estudo está em conhecer o desenvolvimento de apego mãe/ filho, como forma de promover um desenvolvimento saudável da criança e prevenir o ciclo de violência familiar. Acredita-se que o importante não é apenas saber como a violência se desenvolve, mas, conhecer o que faz nascer problemas de agressividade nas crianças e verificar até que ponto as mães podem ser ajudadas na instalação do apego. 

Os benefícios desse estudo dizem respeito diretamente à compreensão do processo de apego principalmente nos primeiros dois anos de vida, pois sabe-se que um apego deficiente nesta fase  tem a ver com uma possível explicação da violência entre os pais e filhos. Assim, a vivência em família é, portanto, uma experiência que contém oportunidades para se construírem diferentes tipos de relacionamentos entre a criança e seus pais.(12) Para a criança pequena, essa vivência é importante, pois possibilita a mesma experenciar vários papéis como, filha, neta, irmã, prima e outros, proporcionando o desenvolvimento da sociabilidade e suas conseqüências como o estabelecimento de amizades e outras relações vinculares.

Espera-se, que os resultados deste estudo, possibilitem um repensar na prática da assistência à jovem mãe e seu filho, bem como, a possibilidade de inclusão da avaliação da criança sobre o desenvolvimento do apego nos primeiros anos de vida. Este estudo é relevante tanto para os profissionais da área da saúde, como os da educação, pois se destina a todos os envolvidos com o cuidado de crianças, e que têm a preocupação de reconhecer que o desenvolvimento emocional dos primeiros anos de vida fundamenta a saúde mental do indivíduo. 

O objeto da pesquisa, portanto é o estudo do apego de mães adolescentes e seus bebês durante os primeiros anos de vida. Os objetivos do estudo foram: conhecer a vivência da adolescente como mãe de um recém-nascido ou lactente; reconhecer as manifestações de apego entre a mãe adolescente e seu bebê e conhecer os fatores que facilitam ou dificultam o desenvolvimento do apego entre a adolescente e seu bebê. 

METODOLOGIA 

Trata-se de um estudo longitudinal, com abordagem qualitativa, pois essa abordagem trata da análise sistemática de informações caráter mais subjetivo, se preocupando com a compreensão dos fenômenos de modo mais amplo e profundo a partir das experiências pessoais dos indivíduos. (13)

Foi empregado o método de pesquisa descritivo, pois esse método possibilita descrever os fatos com maior precisão através da observação, descrição e exploração dos fenômenos experienciados pelos indivíduos. (14)

O contexto do estudo foi uma comunidade de classes populares de Porto Alegre-RS e as participantes foram mães adolescentes e seus bebês, residentes nessa comunidade, vinculadas ao Programa de Saúde da Família (PSF). Os dados foram coletados no período de maio de 2004 a julho de 2006. O contato com as participantes ocorreu a partir do cadastro no PSF quando foram registradas como mãe adolescente. Participaram, inicialmente, nove mães adolescentes com idade entre treze e dezenove anos e seus bebês, acompanhados desde os primeiros dias de vida até 2 anos. Durante o período houve afastamento gradual de seis adolescentes por mudança de endereço, desinteresse, início de trabalho, entre outros, ficando em três, o número de participantes que foram avaliados até o final dos dois anos. Porém devido ao tempo de acompanhamento dessas mães, optou-se por incluí-las no estudo, para não desprezar os dados e as observações feitas.

Para a coleta das informações utilizou-se entrevistas semi-estruturadas e observações participantes. As observações participantes foram realizadas por dois pesquisadores concomitantes, que fizeram registros individuais em diário de campo próprio, dos comportamentos observados.

A coleta das informações ocorreram durante visitas domiciliares e/ou consultas agendadas no PSF, sendo desenvolvida em etapas:

Primeira avaliação - na primeira semana de vida da criança;

Segunda avaliação - ao final do primeiro mês de vida;

Terceira avaliação - ao final do terceiro mês de vida;

Quarta avaliação - ao final do sexto mês de vida;

Quinta avaliação –ao final do nono mês de vida;

Sexta avaliação – ao final do décimo segundo mês de vida;

Sétima avaliação -  ao final do décimo oitavo mês de vida;

Oitava avaliação – ao final do segundo ano de vida;

As informações foram analisadas através da técnica de Análise de Conteúdo. (15) As falas das participantes foram reunidas e identificadas com letra e número: S1, S2, ...,S9. Cabe salientar que a análise também consta de avaliação do crescimento e desenvolvimento do bebê, de observações e percepções dos pesquisadores.

As participantes da pesquisa foram esclarecidas sobre a finalidade, os objetivos e a metodologia do estudo e, sendo assinado Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, em duas vias, permanecendo uma com a participante e a outra com os pesquisadores. Este termo também foi assinado pelo adulto responsável pela adolescente. Foi garantido à participante o anonimato sobre sua identidade, bem como, o esclarecimento que julgasse necessário antes ou no decorrer da pesquisa. Também foi assegurado a liberdade de se recusar a participar ou retirar seu consentimento em qualquer fase da pesquisa, sem nenhum ônus para a criança, adolescente ou família.

Com relação aos aspectos éticos, este estudo observou as diretrizes da Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde do Ministério da Saúde. (16) Foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa da UFRGS sob o parecer nº 200284. 

DISCUSSÃO E ANÁLISE           

No período prévio a gestação, a maioria das adolescentes não trabalhava, dependia basicamente da renda da família e havia interrompido seus estudos em função da gestação, o que veio de encontro à literatura, que aponta o abandono dos estudos como sendo, geralmente, um evento anterior à gravidez, que ocorre com maior freqüência entre as adolescentes das classes populares (17, 18, 19) .

No que diz respeito ao uso de métodos contraceptivos, também seguiram alguns achados da literatura, a maioria conhecia, porém não fazia uso. Um estudo realizado com 156 adolescentes grávidas constatou que todas as adolescentes do estudo conheciam e achavam que deveriam usar algum método anticoncepcional, contudo, apenas cerca de  32,7% estavam usando antes de ficarem grávidas(20). Esses dados podem indicar que a gravidez não é fruto da desinformação a respeito de métodos contraceptivos, confirmando a complexidade do comportamento contraceptivo entre adolescentes, e a necessidade de que os programas educativos incorporem as múltiplas dimensões da questão, para que tenham efetividade.

Contudo essa atitude frente ao uso de contraceptivos, pelas mães adolescentes estudadas, sofreu alterações, uma vez que no final dos dois anos de acompanhamento todas faziam uso de métodos anticoncepcionais, sendo que, uma delas utilizava preservativo de barreira, cinco, anticoncepcional oral e outra, anticoncepcional injetável, pois afirmava que desse modo não correria o risco de esquecer de tomar a pílula. As adolescentes engravidaram de seus companheiros, sendo que, somente um deles não era adolescente. Atualmente uma delas mora com um novo companheiro e as outras ainda mantém relacionamento fixo com os pais de seus filhos, mas continuam dependendo basicamente da família para sua subsistência.                     

Após leitura dessas informações fez-se o agrupamento das idéias, fatos, observações e depoimentos semelhantes, constituindo-se as categorias temáticas: Satisfação com a Maternidade, Vínculo-apego, Apoio Familiar e Projeto de Vida Interrompido.

Na categoria Satisfação com a Maternidade, encontramos verbalizações de satisfação e comportamento alegre para com o bebê. Salienta-se que todas as mães, até o momento em que foram observadas e acompanhadas desenvolviam um cuidado direto aos seus filhos, demonstrando-se satisfeitas com a maternidade, através de sorrisos, olhares e palavras carinhosas com os bebês.

Um fator que pode ter favorecido o sentimento de satisfação com a maternidade foi a saúde e o comportamento alegre e carinhoso apresentado pelos bebês. Um estudo com adolescentes de uma periferia de Passo Fundo/RS, apontou que os momentos de choro da criança fazem com que a adolescente sinta-se incapaz no exercício do cuidado materno, pois como referem, um dos grandes desafios é a compreensão do comportamento do bebê. (21)

A participante denominada S2, mostrou-se, no início da pesquisa, triste e pouco comprometida com o bebê. Isso, em virtude de seu filho ser prematuro e ter permanecido hospitalizado nos primeiros dois meses de vida. Sabemos que a interação e o apego com filhos prematuros pode ser bastante difícil e desafiante para os pais, pelo fato de que os prematuros são menos responsivos aos estímulos e interagem menos com os pais.(22) 

Tendo em conta esse afastamento, a mãe de um bebê prematuro ou de risco necessita de um ambiente onde, possa ser acolhida e apoiada pela equipe que trabalha com os pais e seus bebês. (23) As autoras também apontam a importância em esclarecer aos pais de bebês prematuros, as suas capacidades para realizar a interação, além do papel da sensitividade e responsividade materna no processo de formação do vínculo.

Essa mãe exigiu das pesquisadoras especial atenção, em virtude da idade – 13 anos – e da situação do bebê – prematuridade. A experiência da gravidez na adolescência por si só já desperta atenção, quando aliada ao fator prematuridade, a situação fica mais delicada e a formação do vínculo pode exigir maiores cuidados. Durante o período da pesquisa pudemos observar o desenvolvimento do apego, um pouco mais lento, porém sempre crescente entre S2 e seu bebê. Ao final do período já era possível identificar, sem sombra de dúvida, a satisfação com a maternidade vivenciada por S2, bem como a formação de vínculo com seu bebê, observada pela interação entre ambos, por meio de olhares, sorriso social do bebê, boas condições de saúde, bem como, de crescimento e desenvolvimento apresentado dentro dos parâmetros da normalidade.

Referente às condições de higiene e saúde, os bebês apresentavam-se bem, sendo que não tiveram nenhum problema de saúde ou outra intercorrência que pudesse indicar descaso ou negligência com a criança.

Na categoria Vínculo-apego, encontramos o par “presença-aproximação” muito presente. A literatura mostra que a aproximação mãe/bebê é muito importante para a construção do apego entre eles. (8)

Todas as mães do estudo, no primeiro ano de vida, dedicaram-se exclusivamente ao cuidado dos filhos. Durante as visitas era possível acompanhar a demonstração de sinais de apego como tocar a criança, olhar, conversar, alimentar, além de preocupações com higiene e saúde. Eles sorriam aos estímulos, percebiam o ambiente, olhavam para as suas mãe com atenção indicando que as conheciam e confiavam nelas.

Além das demonstrações de apego, os bebês acompanhavam a faixa de crescimento e desenvolvimento conforme preconizado pelo cartão de saúde da criança o que pode indicar que esses bebês não estavam sendo negligenciados quanto aos cuidados físicos e psicológicos.

Na categoria Apoio Familiar merece destaque o apoio, não apenas financeiro, mas emocional recebido da família, além, da presença ativa do pai da criança. O suporte da família se mostra fundamental ao cuidado dos bebês, aumentando as chances de desenvolvimento de um apego seguro. (22, 23)

As participantes da pesquisa recebiam ajuda da família, tanto financeira, quanto de experiências e cultura para o cuidado dos filhos. A literatura traz que as adolescentes tendem a repetir as convicções e valores do núcleo familiar, sendo que estes representariam um molde que serviria de guia para o futuro (24). Entre os cuidados relatados, estavam presentes aqueles transmitidos pelas suas mães ou avós, como, por exemplo, na cólica: deitar o bebê de bruços; no soluço: colocar lã na testa e amamentar; no choro: pegar no colo e embalar. Essas informações as ajudavam no cuidado de seus bebês e diminuíam suas ansiedades.

A categoria Projeto de Vida Interrompido, recebeu essa denominação pela predominância do abandono da carreira escolar. As participantes da pesquisa interromperam seus estudos em virtude da gravidez. Os depoimentos sempre eram semelhantes afirmando que suas vidas mudaram muito em função da gravidez, pois deixaram de estudar e passaram a dedicar sua atenção ao cuidado do bebê. O abandono precoce dos estudos nesse estudo foi devido a gestação, porém muitas vezes esse abandono ocorre por diferentes razões que não incluem a gestação. Numa pesquisa realizada em Porto Alegre, com nove mães adolescentes, apenas duas deixaram os estudos por causa da gestação, a maioria já havia interrompido por outras razões quando engravidou.(25) Outro estudo no interior paulista, do qual participaram 140 adolescentes, constatou que 55,8% das adolescentes também já haviam interrompido os estudos antes de engravidar. (18)

A adolescente ao contar com uma rede de apoio formada pela família e pelo sistema de saúde o retorno aos estudos pode ocorrer, sendo que a motivação para a retomada dos mesmos pode ser creditada, e é muitas vezes, ao bebê e a tudo o que ele representa, especialmente por este ser considerado fonte de felicidade e satisfação (27) . Nessa pesquisa, todas, após o primeiro ano do bebê, retornaram aos estudos, sendo que três delas ainda se inseriram no mercado de trabalho. De acordo com os relatos das mães, o desejo de retomar aos estudos e de trabalhar estava relacionado à obtenção de melhores condições de vida para seus filhos. Um ponto muito favorável ao retorno escolar dessas adolescentes foi, sem dúvida, o apoio familiar.

A importância da família e a busca por melhores condições também foi evidenciada num estudo com adolescentes grávidas residentes na periferia de Belém do Pará, que apontou a rede social – representada pela família e pelos amigos – estimulou a permanência das adolescentes na escola, cujo significado envolvia o ingresso no mercado de trabalho almejando mobilidade social e condições mais favoráveis de vida. (28) 

CONSIDERAÇÕES 

Percebeu-se ao acompanhar as adolescentes da pesquisa que as mesmas demonstraram um vivência saudável junto de seus filhos e seus familiares. Não houve, nesse período, nenhuma desagregação familiar que viesse prejudicar o papel da adolescente como mãe. Pelo contrário, as mesmas assumiram os cuidados da casa e de irmãos mais novos para que as avós pudessem trabalhar. Contudo, no período de retorno das adolescentes, aos estudos ou mesmo ao trabalho, observou-se uma reorganização familiar permitindo que isso fosse possível. As manifestações de apego demonstradas pelas mães foram as mais variadas: comunicação afetiva por meio de sorrisos, toques, olhares, embalos, cantarolar para bebê, e a responsividade do mesmo, cuidados dispensados ao filho, observados pelo crescimento e desenvolvimento dentro da normalidade, vacinação em dia, controles de saúde periódicos, e manifestação de preocupação com futuro do filho, indicando a possibilidade de construção de uma infância saudável. Quanto aos fatores facilitadores do apego acredita-se que o apoio familiar e a rede social do contexto da adolescente auxiliam no vínculo mãe/bebê. Outro fator  foi o comportamento do bebê, relatado pelas mães como tranqüilidade, responsividade, além de apresentarem-se saudáveis. Apesar da gravidez não ter sido planejada, a mesma foi conduzida de maneira responsável, pois as adolescentes fizeram pré-natal e acompanhamento junto a um serviço de saúde.

Considera-se portanto, significativo o envolvimento dessa população com profissionais da saúde e a compreensão dos laços de apego uma ferramenta importante na prevenção da violência infantil e na condução da criação dos filhos. A aproximação com o serviço de saúde e os profissionais durante os dois primeiros anos de vida desses bebês juntamente com suas famílias permitiu as adolescentes reorganizarem suas vidas, retornarem aos estudos, além de contarem com o suporte do programa de planejamento familiar.

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Contatos:Mda. Daisy Zanchi de Abreu Botene. Email: daisybotene@yahoo.com.br . Escola de Enfermagem. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Rua São Manuel, nº 963. Bairro Santa Cecília. Porto Alegre, RS, Brasil.

Received: Feb 27th, 2007
   Revised Mar 18th, 2007
   Accept Apr 22nd, 2007





 

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