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Coping of Nursing Professionals who take care of people with Aids – an Educative-Reflective Practice

O Enfrentamento de Profissionais de Enfermagem no cuidado de pessoas com Aids

 Jenifer Adriana Domingues Guedes1, Miriam Süsskind Borenstein1, Betina Hörner Shlindwein Meirelles 1.

1 – Universidade Federal de Santa Catarina, SC, Brasil.

 Abstract: It’s an experience report carried out with nursing professionals from a reference institution in the control of aids, which aimed to develop an educative-reflective process, based in the “Problematization” Pedagogy, about the problems that they live and face when taking care of people suffering from aids. The development of the proposal took place in the end of the second semester, in 2006, and involved 10 nursing technicians, in workshops, guided by the Arc Method of Charles Maguerez. During the workshops, the identified problems were grouped in five key points: the Particular Characteristics of the People with aids; the limited Human and Physical resources; the difficult Administrative /Organizational Questions of the institution; the Discrimination and Preconception; the negative influence of Professional life in Personal Life. The discussions carried through, showed that the professionals try to deal with their daily problems, searching for new ways which allow them to change their reality. We got to the conclusion that some of these problems are in consonance with studies previously accomplished in the same institution. Therefore, professionals together with the hospital administration, need to develop efficient coping strategies to solve the daily problems. The accomplishment of this work also opened way for the development of a new study, with a historical nature, in the institution.

Keywords: Nursing. Education. Acquired Immunodeficiency Syndrome.

 Resumo: Trata-se do relato de experiência de um processo educativo-reflexivo, embasado na Pedagogia Problematizadora, desenvolvido com profissionais de enfermagem de uma instituição de referência no controlo da aids, sobre os problemas que vivenciam e enfrentam ao cuidar de pessoas com aids. A operacionalização da proposta ocorreu no final do segundo semestre do ano de 2006, com 10 técnicos de enfermagem, sob a forma de oficinas, norteadas pelo Método do Arco de Charles Maguerez. No decorrer das oficinas, os problemas identificados foram agrupados em cinco pontos-chave: as Características Particulares das Pessoas com aids; os limitados Recursos Humanos e Físicos; as difíceis Questões Administrativas/Organizacionais da instituição, a Discriminação e Preconceito; Vida Profissional influenciando negativamente na Vida Pessoal. As discussões realizadas mostram que os profissionais tentam lidar com os problemas que surgem no seu cotidiano, procurando novas formas que permitem transformar a sua realidade. Concluímos ainda que alguns desses problemas estão em consonância com estudos realizados anteriormente na instituição, pelo que os profissionais e a administração da Instituição necessitam desenvolver, em conjunto, estratégias de enfrentamento mais eficazes para solucionar os problemas do dia-a-dia. A realização deste trabalho também abriu caminho para a realização de um novo estudo, de cunho histórico, na instituição.

Palavras-Chave: Enfermagem. Educação. Síndrome de Imunodeficiência Adquirida.

 INTRODUÇÃO

 No Brasil, a aids (do inglês “Acquired Immunodeficiency Syndrome”) surgiu na década de 1980 tendo-se propagado de forma crescente pelas diversas regiões do país, sendo uma das mais enfermidades mais estigmatizadas no mundo no final do século XX.(1) O aparecimento desta patologia trouxe inúmeras repercussões na qualidade de vida da população, nas relações humanas, nos comportamentos, nos valores e crenças.(2-4) Atento a esta realidade, o governo brasileiro criou serviços especializados nos hospitais para cuidar das pessoas com aids.

 Alguns estudos (2,3) realizados numa instituição de referência no combate à aids, concluíram que os profissionais que lidam diariamente com pessoas com aids são afetados pelo convívio com elas, gerando mudanças nos seus valores, princípios, crenças e formas de enfrentar a vida. A convivência com o estigma, o preconceito, a dor e a morte é considerada difícil para a maioria dos profissionais de saúde, e é carregada de forte conteúdo emocional, interferindo nas suas vidas, causando sentimentos de frustração, tristeza e desequilíbrio emocional. Um desses estudos (2) destaca que os profissionais de enfermagem referem falta de preparo e suporte emocional e psicológico que os auxilie no enfrentamento dos problemas que vivenciam no cotidiano com a pessoa com aids. Esta situação tem causado queda de motivação para o trabalho, ansiedade, medos difusos, problemas de comunicação na relação terapêutica, medo da doença e da morte, como também alterações emocionais e comportamentais nesses profissionais.

 Preocupadas com esta problemática, resolvemos desenvolver com os profissionais de enfermagem de uma instituição de referência no combate à aids, um processo educativo-reflexivo sobre os problemas que enfrentam no cuidado de pessoas com aids, tendo por base a Pedagogia Problematizadora,

 Entendemos o processo educativo-reflexivo como um processo de desenvolvimento e aprendizagem contínuo, que permite ao ser humano construir-se como sujeito crítico-reflexivo, capaz de fazer a (re)leitura da sua realidade enquanto possibilidade de reconstrução de saberes e promover progressivas transformações na sua prática quotidiana.(5,6)

 REFERENCIAL TEÓRICO – METODOLÓGICO

 Considerando a finalidade deste trabalho, procuramos um referencial teórico-metodológico que promovesse a reflexão dos profissionais de enfermagem sobre a sua prática, no sentido de poderem adquirir novos conhecimentos, habilidades e competências que lhes permitissem enfrentar os problemas que vivenciam no cuidado de pessoas com aids. Encontramos assim, na Pedagogia Problematizadora(7-12), um eixo norteador para o desenvolvimento deste trabalho.  

A reflexão sobre a prática permite revelar aspectos ocultos na própria experiência e, quando obtida nova informação, permite um novo olhar, com o qual se torna possível revisitar essa experiência, desenvolver novas compreensões, “insights” que poderão intervir em atividades futuras.(11) A pedagogia ou educação problematizadora está fundamentada na criatividade e estimula a ação e a reflexão sobre a realidade comprometendo os homens na procura e na transformação, através da busca pelo conhecimento, a sua ação e aplicação na realidade.(7,9)

Assim, o profissional torna-se um sujeito crítico e reflexivo capaz de partir da sua realidade, identificar os seus problemas, aprender a partir dela e a ela retornar com vontade de a transformar para uma melhor prática.  

De forma a desenvolver esta proposta, utilizamos o Método do Arco proposto por Charles Maguerez(8) uma vez que este constitui uma idéia metodológica adequada para se experimentar, na prática, os princípios da Pedagogia Problematizadora. (9) Este método é composto por 5 etapas(5,8-10): Observação da Realidade (1ª Etapa), os sujeitos contemplam a realidade física, social ou concreta a partir de um tema ou unidade de estudo, identificando os problemas a serem estudados; Identificação dos Pontos-Chave (2ª Etapa), procuram-se as possíveis causas e fatores associados ao problema, que se forem modificáveis podem permitir a solução do mesmo. Desta análise reflexiva, elaboram-se os pontos essenciais que deverão ser estudados de forma a encontrar formas de solucionar o problema; Teorização (3ª Etapa), é a fase em que se obtêm as explicações, é a do estudo propriamente dito, não estando somente relacionada aos conhecimentos técnico-científicos, mas também aos conhecimentos prévios que cada ser humano possui; Hipóteses de Solução (4ª Etapa), são formuladas a partir das informações científicas, técnicas, legais, históricas, empíricas ou outras que possibilitam apresentar alternativas viáveis e aplicáveis na realidade para a resolução do problema, estas hipóteses orientarão a última etapa; Aplicação/Intervenção na Realidade (5ª Etapa), nesta fase as decisões tomadas devem ser aplicadas, de forma a transformar a realidade. Contudo, nem sempre as transformações são evidentes, rápidas e concretas, por vezes permanecem na consciência de cada um, permitindo ao grupo um novo olhar sobre a realidade e as transformações surgem a longo prazo.(13) Caso a transformação da realidade nunca ocorra, devem-se estudar e construir novas hipóteses de solução até conseguir resolver o problema levantado na 1ª Etapa do Método do Arco. 

METODOLOGIA DESENVOLVIDA 

Trata-se de um processo educativo-reflexivo desenvolvido por uma enfermeira (facilitadora) e realizado com 10 técnicos de enfermagem que cuidam de pessoas com aids, numa instituição de referência no controlo da doença, na região sul do Brasil. Inicialmente foram convidados todos os profissionais de enfermagem que trabalham diretamente com pessoas com aids na instituição, sendo estes os únicos critérios de inclusão dos participantes. Contudo, apenas técnicos de enfermagem mostraram interesse em participar do trabalho. 

Os encontros ocorreram sob a forma de oficinas, que atenderam às cinco etapas propostas pelo Método do Arco. Desta forma, constituiriam-se quatro grupos de profissionais (com cerca de dois a três sujeitos cada), sendo realizadas três oficinas (com duração aproximada de duas horas) com cada grupo. Os encontros decorreram no final do segundo semestre do ano de 2006, na própria instituição, nos dias agendados com os sujeitos envolvidos. Escolhemos trabalhar em grupo uma vez que desta forma, é possível avançar, aprofundar discussões, ampliar conhecimentos e melhor conduzir o processo de educação (14); e em forma de oficinas por estas constituírem um lugar em que é possível teorizar a prática, pensar, descobrir, criar e recriar movimentos, objetos, materiais em novas formas e significados (15)

As Oficinas

A primeira oficina permitiu: que os participantes se conhecessem melhor, expressassem as suas expectativas em relação aos encontros e conhecessem de forma mais aprofundada a proposta de trabalho a ser desenvolvida. Também foram lidos e assinados os Termos de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), tendo sido obtida autorização para a gravação das oficinas. Foi garantido o anonimato das suas falas, atribuindo-se um codinome a cada sujeito do estudo, utilizando-se as letras do Alfabeto (A a J). Foi ainda fornecido, a cada participante, um resumo da proposta e um quadro esquemático com o planejamento prévio das oficinas. Por último, acordamos as datas, horários e locais dos próximos encontros, de acordo com a disponibilidade de cada um. 

Na segunda oficina, os profissionais de enfermagem, em conjunto com a facilitadora, agruparam os problemas levantados no encontro anterior em cinco pontos-chave: as Características Particulares das Pessoas com aids; os limitados Recursos Humanos e Físicos; as difíceis Questões Administrativas/Organizacionais da instituição, a Discriminação e Preconceito; Vida Profissional influenciando negativamente na Vida Pessoal. Nem sempre a escolha dos problemas foi fácil, devido à existência de alguma discordância entre os profissionais. Apesar de terem sido constituídos quatro grupos distintos, os pontos-chave levantados foram discutidos dentro de cada grupo de trabalho, tendo os profissionais e a facilitadora atingido um consenso (nos cinco ponto-chave descritos anteriormente). Não consideramos o fato de ter havido alguma divergência entre os profissionais uma desvantagem, porque se considerarmos os pressupostos da Pedagogia Problematizadora, a identificação dos problemas está intimamente ligada à visão que cada pessoa tem da realidade que a rodeia. Neste encontro, os profissionais também descreveram as estratégias que utilizam, ou podem vir a utilizar, para lidar com os problemas que vivenciam. Após uma pequena discussão, a facilitadora abordou a Teoria do Enfrentamento(16), a sua importância, quais as suas formas, recursos e estilos. Desta forma foi possível relacionar, com os profissionais, os tipos de estratégias de enfrentamento que utilizam no seu cotidiano, fazendo uma interligação entre a teoria aprendida com a sua prática. 

Para dar continuidade ao Método do Arco e considerando o que foi discutido no encontro anterior, na terceira oficina, organizamos os conteúdos discutidos e apresentamos aos profissionais de enfermagem de forma a validá-los. Durante este encontro, discutiu-se a possibilidade de mudança da realidade de cada um, em particular, e de todos, enquanto profissionais na instituição, ponderando que, nem sempre, as transformações são visíveis e possíveis em termos práticos, muitas vezes limitando-se à consciência de cada um. Também foi solicitado aos profissionais que fizessem uma reflexão acerca das discussões realizadas ao longo dos encontros, de forma a poderem avaliar a metodologia utilizada (sua adequação ou não), os conteúdos discutidos e a mais-valia (ou não) de participarem das oficinas. 

Como fechamento dos encontros, e de forma a atender a algumas solicitações feitas pelos profissionais (pelo fato da facilitadora ser de um país estrangeiro), falamos um pouco sobre a situação da aids em Portugal. Finalmente, agradecemos a participação dos profissionais nas oficinas e informamos os mesmos que receberiam os certificados de participação, “a posteriori”. 

Aspectos Éticos

Para o desenvolvimento deste trabalho atendemos às diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos estabelecidas pela Resolução 196 de 10 de outubro de 1996.  Além disso, as oficinas iniciaram-se apenas após a obtenção do parecer positivo por parte do Núcleo de Pesquisa da instituição envolvida, da autorização formal por parte da Direção e dos profissionais de enfermagem (assinatura do TCLE), e a aprovação do projeto pelo Comitê de Ética da Universidade Federal de Santa Catarina, (Parecer número 0334/06, novembro de 2006).  

DISCUSSÃO DOS RESULTADOS 

Para apresentar os resultados do que foi discutido ao longo das oficinas, optamos por seguir as Etapas do Método do Arco. É importante salientar que as falas dos profissionais se encontram ao natural, ou seja, foram transcritas da gravação realizada nos encontros e colocadas aqui tal como foram proferidas. 

Os sujeitos que participaram dos encontros tiveram também a oportunidade de expor as suas expectativas em relação aos encontros e sobre o que eles gostariam que fosse discutido a partir do tema do trabalho. Alguns referiram ter curiosidade de saber

                          como é cuidar/lidar com o paciente com HIV/aids em Portugal (Téc. A),

outros levantaram a importância das

  trocas de conhecimento (Téc. B),

e ainda o

                          aprendizado (Téc. F).

 

Assim, tentamos fazer com que as oficinas fossem ao encontro das expectativas dos profissionais, como a apresentação realizada sobre a realidade portuguesa, no que concerne ao cuidado aos pacientes com aids. 

Observação da realidade & identificação dos pontos-chave

Para a observação da realidade por parte dos profissionais e para identificar os pontos-chave, partimos da seguinte questão norteadora Como vocês convivem, compreendem e enfrentam os problemas que surgem no dia-a-dia, ao cuidar de pessoas que vivem com aids? 

1º Ponto-Chave: as Características Particulares das Pessoas com aids

Neste ponto, os profissionais identificaram como problemas: o fato dos pacientes serem usuários de droga, terem problemas de Alcoolismo, de abstinência, de serem majoritariamente pacientes jovens, que recusam o tratamento/regime terapêutico; o fato de na sua maioria serem extremamente pobres, alguns presidiários, viverem na rua, terem um comportamento agressivo e uma linguagem ofensiva, fugirem do hospital (o que leva a reinternação); o fato da família de muitas das pessoas com aids as abandonarem; a questão da morte e da falta de apoio psicológico (para os pacientes e família). Salientamos ainda algumas falas:

                                   O que mais vejo ali, é a negação deles com o tratamento [...]. (Téc. E)

 

É por isso que tá tendo essa proliferação grande porque o lema deles é: eu vou mas eu vou levar muita gente comigo. (Téc. B)

 

Mas só que aí é onde dói... Tu tá ali para tratar o cara e ele te chama, eu vou usar os termos mesmo, de vagabunda, de p___, de tudo que é nome […] (Téc. A)

 

2º Ponto-Chave: os Limitados Recursos Humanos e Físicos

Aqui, os profissionais levantaram como problemas: a falta de funcionários em todas as unidades do hospital; o descumprimento de horários por parte de outros profissionais; a ausência dos médicos; a estrutura da unidade; os cuidados com os uniformes; a falta de material e de roupa para os pacientes. Como podemos verificar também nas seguintes verbalizações:

[…] na AF é muito bom, porque é uma unidade menor […], lá se trabalha de manhã em 4 funcionários para 15 leitos, enquanto que na AM se trabalha em 5/6 para 36. (Téc. G)

 

                                   Porque ninguém gosta da AM. […] É uma unidade grande, pesada, escura. (Téc. J)

 

[…] não tem um banheiro decente para a gente tomar banho, não tem uma salinha onde a gente possa se acomodar adequadamente […] o expurgo do lado do posto […] (Téc. F)

 

Os nossos uniformes são de responsabilidade nossa […] nós trabalhamos com bactérias multi-resistentes […] eu tenho que levar para casa, para a minha família […]. (Téc. G)

 

[…] na AM falta tudo, falta luva, máscara, roupa de cama, roupa para paciente, esparadrapo, Micropore, Dersani, tudo. (Téc. I)

 

3º Ponto-Chave: as Difíceis Questões Administrativas/Organizacionais da Instituição

Neste item, os profissionais de enfermagem identificaram como problemas: infra-estrutura do Sistema Único de Saúde e da instituição (questionando o fato de ser referência no controlo da aids); a falta de um serviço de Saúde Ocupacional (para acidentes de trabalho, por exemplo); falta de apoio psicológico para os funcionários; a necessidade do treinamento dos profissionais da instituição; carga horária excessiva (muitas horas de trabalho); a separação de plantões (transferência de elementos de uma equipe para outra); a retirada da folga do serviço; a remuneração baixa; a desigualdade no tratamento dos funcionários novos e dos funcionários antigos; o descaso e a desvalorização por parte da chefia do seu trabalho. Ressaltamos aqui as seguintes falas:

[…] essa questão da referência do hospital […] isso foi um título dado para ficar ali, basicamente é uma forma de se isolar os pacientes aqui. (Téc. G)

 

A questão também dos acidentes de trabalho. […] o próprio hospital, não tem uma boa estrutura para isso, é complicado. (Téc. G)

 

É que eles botam uma ou duas psicólogas, como é que uma psicóloga vai dar conta, lá na AM  são 38 pacientes e aí elas vêm só o que é mais grave e nós? E nós? (Téc. A)

 

                                                  Às vezes tu tem um problema […] a tua chefia só sabe te criticar. (Téc. H)

 

A área da saúde é muito romântica, quando tu olha de fora... salvar vidas, ajudar pessoas […] agora tira o romantismo da profissão e o que sobra? Sobra um cara mal-humorado, cansado, trabalhando igual um condenado, trabalha sábado, domingo, feriado, Natal, Ano novo, Páscoa, aniversário de pai, aniversário de mãe, noite de sono, aniversário de filho...quer dizer...mal pago, escutando coisa do paciente, escutando...daí... (Téc. F)

 

                                   Aí, se tu for direto no “jesus” é porque tu não respeitou a hierarquia […] (Téc. J)

 

4º Ponto-Chave: a Discriminação e Preconceito

Inerente a este ponto, os profissionais levantaram: a desigualdade existente entre o serviço AM e o AF (o serviço AM possui uma estrutura velha, com pouco espaço e luz; o serviço AF foi reformado possuindo agora uma estrutura nova, espaçosa e com muita luz natural); a discriminação feita por outros profissionais, serviços do hospital e instituições; o preconceito e discriminação da comunidade e da família. Como se observa nas verbalizações:

Eu acho que dentro do hospital, a AM é muito discriminada. […] Na AF tu pede dois esparadrapo, vai os dois. Na AM, são o dobro dos pacientes, tu pede três e vai um. (Téc. I)

 

Eu fui expulsa até de outro local onde eu trabalhava... porque desconfiavam que eu tava com aids […] (Téc. A)

 

Eu fui afastada de vários locais. […] a dona não queria que entrasse na padaria […] porque eu trabalhava no hospital […] e a minha família sempre quis que eu saísse do hospital. (Téc. A)

 

Quando que contei para a minha família […] minha cunhada pensando que eu tava com aids não permitiu que eu pegasse  minha sobrinha no colo […] eles já tinham me condenado […] (Téc. A)

 

                                   Quando vim para o hospital, as minhas filhas queriam me matar, queriam me matar! (Téc. B)

 

5º Ponto-Chave: Vida Profissional versus Vida Pessoal

A este respeito, os profissionais de enfermagem identificaram o seguinte: a influência da vida profissional na vida pessoal e vice-versa; o nível de stress elevado; o sentimento de medo, impotência, fracasso e frustração; a depressão; o fato de muitas vezes terem de ser profissionais “multi-funções”; as “brigas” entre colegas; a falta de companheirismo; a divergência de opiniões entre funcionários novos e funcionários antigos. Como vemos nas falas:

[…] eu me sinto um pouco fracassada, como pessoa, como profissional. Parece que eu não venci, que eu fraquejei. (Téc. A)

 

                                                  […] tu acaba ficando estressada, acaba brigando com colega […] (Téc. I)

 

                                   Eu me sinto assim, quando vai um a óbito, eu fico arrasada, eu fico arrasada […] (Téc. B)

 

[…] é complicado porque eles trazem para a gente muitos outros problemas além da patologia e isso influencia na tua vida no dia-a-dia. […] Tu fica em casa pensando nisso […] nós ficamos em mais contacto com eles […] do que todo mundo, e como só tem uma psicóloga para o hospital todo, tu acaba fazendo tudo – assistente social, psicologia ... […]. (Téc. G)

 

                                   […] em vez de te ajudar, acaba […] fazendo alguma coisa para te prejudicar . (Téc. H)

 

Teorização & Levantamento das Hipóteses de Solução & Aplicação na Realidade

No que diz respeito à teorização, procuramos em conjunto subsídios teórico-reflexivos na Teoria do Enfrentamento(16), embasados na Pedagogia Problematizadora, para a constituição das hipóteses de solução para os problemas levantados. Ao mesmo tempo, buscamos ver quais as possibilidades de aplicação na realidade. Para cada conjunto de pontos-chave levantados, os profissionais desvelaram as estratégias que usam atualmente para lidar com os problemas identificados e tentaram encontrar outras estratégias que poderiam utilizar ou exigir da instituição para a solução desses problemas. Para isso, partimos da seguinte questão norteadora Como vocês enfrentam os vossos problemas no dia-a-dia e como podem melhorar esse enfrentamento? Em seguida apresentamos essas estratégias, recorrendo às próprias falas dos sujeitos. 

1. Características das Pessoas com aids

[…] para ver se eles acordam e vê que eles ainda podem se recuperar […] levar uma vida melhor […] eu converso muito com eles, alguns escutam e vão de alta e não voltam. (Téc. B)

 

                                   Escuta, entra num ouvido e sai pelo outro. […] se eles pedirem perdão eu desculpo. (Téc. A)

 

E tem esse lado do relacionamento […] se tu chegar na brincadeira, na ‘malandragem’, usando esses termos, o pacie            nte vai-se soltar. (Téc. E)

 

[…] eu tento passar para eles que a morte é uma coisa que é uma passagem e não uma morte […] não o acabar de tudo. (Téc. A)

 

                                   […] a gente vê a morte de uma maneira diferente das outras pessoas […] (Téc. A)

 

2. Recursos Humanos e Físicos

                                   […] se falta funcionário na AM […] e na AF  tem três […] então não custa subir. (Téc. J)

 

Aqui dentro, tem uma moeda de troca. As senhoras da cozinha, por exemplo, […] em troca de eu verificar a pressão delas […] na hora do almoço eu consigo um bife a mais. O pessoal da zeladoria, da limpeza […], do almoxarifado. Tem uma moeda de amizade […] (Téc. G)

 

                                   […] não tem para trocar roupa da cama […] aí tu tem que fazer jogo de cintura […] (Téc. A)

 

                                                  […] pedir para a família trazer cobertor porque não tinha. (Téc. J)

 

3. Questões Administrativas/Organizacionais

Às vezes eu passo a hierarquia mesmo […] às vezes o enfermeiro não está na unidade e a gente tem que resolver […] (Téc. H)

 

                                   […]  tu tem que dançar conforme a música, conforme a chefia […] (Téc. I)

 

4. Discriminação e Preconceito

Às vezes eles acham que aqui só tem aids […] ‘ah, lá é onde tem aids’ e tu fala ‘não tem só aids lá, tem pneumo, particular, tem tetra, meningite’ […] (Téc. A)

 

Eu digo que trabalho no hospital e tenho maior orgulho nisso. (...) tento falar sobre a nossa realidade aqui. (Téc. D)

 

5. Vida Profissional versus Vida Pessoal

                                   Deixar os problemas do hospital no hospital e os de casa em casa (Téc. C)

 

[…] por isso que na ala a gente sempre tá brincando, sempre tá rindo […] é a maneira que a gente tem para extravasar” (Téc. A)

 

[…] reflito várias vezes como é que iniciou, se eu errei, mesmo que estivesse certa e o paciente errado ainda fico pensando […] eu podia maneirar […] (Téc. A)

 

                                   […] a gente diz ‘a gente não está discutindo, está conversando’ (Téc. H)

 

[…] porque a minha família […] foi a pior coisa que eu fiz. Depois disso tive mais dois acidentes mas, eu nunca contei para a minha família. (Téc. A)

 

[…] eu chego em casa e choro, desabo […] com a minha mãe […] meu filho […] é a melhor coisa […] se não eu vou […] brigar com todo mundo. (Téc. H)

 

[…] eu não falo com ninguém, tomo o meu aparadinho de café e vou-me deitar. […] dá uma grande lição de vida e tu passa a valorizar tudo que tu tem. (Téc. B)

 

[…] essa coisa espiritual […] depois que eu entrei aqui, toda sexta-feira tem um Centro Espírita […] quando posso eu vou lá […] tirar todas as energias ruins (Téc. C)

 

[…] a vida tem que ser vivida o mais simples possível […] estar de bem comigo mesmo, ir pegar minha onda, jogar bola com os amigos […] (Téc. C)

 

Outras estratégias

                          […] eu procuro sempre trabalhar da melhor forma, eu tenho uma boa empatia […] (Téc. D)

 

[…] eu procuro […] eu separo, acho que do hospital para dentro tu tem que se atentar com os problemas do teu setor, do teu paciente. (Téc. E)

                                  

                                   Assim como eu gosto de ser bem tratado também gosto de tratar bem […]. (Téc. D)

 

Hipóteses de Solução levantadas

Como hipóteses de solução, ou seja, como estratégias de enfrentamento a serem desenvolvidas, os profissionais de enfermagem envolvidos levantaram o seguinte:

                                   […] a gente deveria ter mais preparação para lidar com o público. (Téc. A)

 

Isso aqui devia ser terceiro setor, administração privada. Porque se não fez, ele vai sofrer sanções por causa daquilo. […] Quais são os locais da Secretaria da Saúde que são terceiro setor? […]  Vai lá ver se falta alguma coisa […] (Téc. F)

 

                                   […] eu acho que deveria ser feito uma nova AM. (Téc. J)

 

                                   […] a gente devia ter uma ajuda por trás, um retorno, um suporte. (Téc. A)

 

[…] apostar no treinamento para a gente […] insistir em fundamentos de enfermagem […] a gente está pecando no básico […] não faz o complexo direito […] (Téc. F)

 

[…] como nós somos a maioria […] dentro do hospital, se nós fossemos mais unidos eu acho que a gente conseguiria mais coisas […] teria mais conquistas perante a Direção […]. (Téc. G)

 

Tem hora que […] Tu tem que procurar uma ajuda diferenciada, especializada, por mais que tenha uma outra gama de ajudas (terapêutas, amigos e assim). (Téc. I)

 

[…] eu acho que deveria haver mais esse tipo de reunião […] aqui dentro, com a gerência, chefia de enfermagem. […] Porque levanta essas questões […] que a cada reunião vão-se afirmando mais, vai-se batendo na mesma na mesma tecla e vão sendo resolvidas. (Téc. E)

 

[…]  isso devia ser discutido […] com os enfermeiros […] eu acharia válido e construtivo, se abrisse um tipo fórum […] ou assim em grupo […] onde a gente pudesse sentar e discutir […] (Téc. F)

 

Além destas hipóteses de solução, os profissionais questionaram a facilitadora acerca das repercussões da realização deste trabalho na Instituição, tendo sugerido que a mesma elaborasse um Relatório do trabalho desenvolvido que fosse entregue na Direção. Desta forma, através de um documento formalmente escrito, as dificuldades que os profissionais sentem, ficariam registradas. A administração da instituição (Direção) poderia ser sensibilizada e novas estratégias poderiam ser delineadas e colocadas em prática para o enfrentamento dos problemas apontados pelos profissionais. 

Avaliação

No decorrer da última oficina de cada grupo, todos os profissionais envolvidos tiveram a oportunidade de avaliar o processo educativo-reflexivo desenvolvido, bem como a metodologia utilizada ao longo do mesmo. Referiram que

[…] foi um momento que a gente pára para refletir sobre nós, sobre o que a gente tá fazendo e o que a gente espera ainda (Téc. A),

 

que os levou a refletir sobre os próprios erros

Quando a gente senta e conversa sobre certas coisas a gente vê erros que a gente comete (Téc. F),

 

e com eles crescer, evoluir, reciclar conhecimentos

                          […] então  a gente consegue assim... essa coisa da reciclagem. (Téc. F).

 

Os profissionais também acrescentaram que esta prática estimula a mudança, uma vez que

                                   Tanto de falar o que a gente tá notando, o que a gente tá sentindo e também reflectir um pouco sobre o que é que tu pode, tu mesma, melhorar no que tu tá fazendo. (Téc. I).

 

E verbalizaram ainda alguns sentimentos relativos à não participação de alguns colegas nos encontros,

[…] é a primeira vez e estamos só os três...fico decepcionada […] é um momento que a gente dá uma parada […] nem todos têm o mesmo interesse. (Téc. A).

 

Tendo em conta estes depoimentos e a nossa própria avaliação dos encontros, acreditamos que a implementação deste processo educativo-reflexivo, permitiu aos profissionais de enfermagem identificarem os problemas vivenciados e enfrentados ao cuidar de pessoas com Aids, desvelar as estratégias que utilizam para lidar com esses problemas e encontrar novas estratégias que poderão auxiliar na mudança da sua realidade. Apesar das mudanças no cotidiano desses profissionais não terem sido observadas, acreditamos que internamente, na consciência de cada profissional, ocorreram mudanças importantes, levando à construção de sujeitos críticos e reflexivos da sua realidade, conscientizados da necessidade de transformação da realidade para uma melhor prática. 

CONSIDERAÇÕES FINAIS 

Ao longo do desenvolvimento do trabalho, pudemos constatar que a operacionalização do Método do Arco não ocorre de uma forma linear (como descrito anteriormente). Apesar das oficinas estarem planejadas para abranger determinadas etapas do Arco, constatamos que em cada oficina, cada tema era alvo de discussão/reflexão, sendo que muitas vezes ocorriam as cinco Etapas do Arco. De fato, cada um dos sujeitos envolvidos (facilitadora e profissionais) desenvolveu o Método do Arco pessoalmente. Além disso, ao final de cada Arco, iniciávamos um novo Arco (problematizando as nossas conclusões e possibilidades de transformação da realidade). Isto mostra o dinamismo e a flexibilidade deste método que, no nosso entender, não se processa de uma forma linear mas sim em espiral, num ir e vir constante pelas diferentes etapas. 

Assim, o processo educativo-reflexivo desenvolvido com estes profissionais representou um exercício de reflexão sobre a sua realidade, que permitiu fazer uma releitura da sua prática, descobrir problemas, equívocos e erros cometidos, relacionar com o conhecimento, e conseqüentemente, buscar soluções levando a uma melhor compreensão e ação sobre essa prática. (17) 

Por fim, concluímos que alguns dos problemas já encontrados em outros estudos(2,3) realizados na instituição, se mantêm. Portanto, há necessidade que os profissionais de enfermagem e a administração do hospital desenvolvam em conjunto, estratégias de enfrentamento mais eficazes para lidar com os problemas identificados, de forma a possibilitar a mudança na realidade. Por outro lado, os resultados obtidos levaram-nos a refletir sobre o porquê de estes problemas se manterem na instituição, há quanto tempo existem, se começaram a surgir logo que a aids apareceu na sociedade científica, entre outras questões. Por este motivo, as autoras deste artigo já propuseram um novo estudo na instituição, de cunho histórico, para tentar compreender toda esta problemática, na visão dos profissionais de enfermagem que trabalham e/ou trabalharam na instituição. 

REFERÊNCIAS 

1. Vasconcelos SG, Galvão MTG, Aguiar MIF, Braga VAB. The perception of pregnant women dealing with HIV infection. Online Braz J Nurs [periódico na internet]. 2006 [citado 2006 Dez 12]; 5 (1): [aproximadamente 11 p.]. Disponível em: http://www.uff.br/objnursing/viewarticle.php?id=109&layout=html. 

2. Cunha MS. O impacto da aids nas relações sociais dos profissionais de saúde: o estigma, a impotência e o medo da morte [dissertação]. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina; 1997. 

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17. Reibnitz KS, Prado ML. Inovação e Educação em Enfermagem. Florianópolis: Cidade Futura; 2006.

Endereço para correspondência: Rua das Araras n.º 52, casa 3 - Lagoa da Conceição - CEP: 88062 – 075, Florianópolis – Santa Catarina – Brasil.

 Received: Jan 31st, 2007
Revised: Mar 29th, 2007
Accept: Apr 17th, 2007