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ARTIGOS ORIGINAIS

Envolvimento de pré-aposentados com ações favoráveis ao planejamento da aposentadoria: estudo analítico

Paloma de Souza Cavalcante Pissinati1, Maria do Carmo Fernandez Lourenço Haddad2, Lucas Marcelo Meira da Silva2, Raquel Gvozd2, Maria José Quina Galdino3, Mariana Angela Rossaneis2

1Prefeitura Municipal de Rolândia
2Universidade Estadual de Londrina
3Universidade Estadual Norte do Paraná

RESUMO

Objetivo: Analisar o envolvimento de trabalhadores pré-aposentados de uma universidade pública com ações favoráveis ao planajemento da aposentadoria. Método: Estudo transversal, quantitativo, analítico, realizado em uma universidade estadual pública localizada no norte do estado do Paraná. A amostra foi constituída por 293 indivíduos que se encontravam em fase de pré-aposentadoria. A coleta de dados foi realizada entre novembro de 2014 a abril de 2015, por meio da Escala de Mudança em Comportamento de Planejamento da Aposentadoria. Os dados foram submetidos à análise estatística descritiva, regressão linear simples e múltipla. Resultados: Possuir um parceiro e participar de cursos de aperfeiçoamento profissional contribuiu para o maior envolvimento dos trabalhadores com ações favoráveis à aposentadoria, enquanto ter dependentes financeiros esteve associado ao menor interesse. Conclusão: Gestores devem conhecer as características que influenciam o envolvimento dos trabalhadores com atividades favoráveis ao planejamento da aposentadoria e estimular a participação em ações de preparação.

Descritores: Envelhecimento; Aposentadoria; Saúde do Trabalhador; Enfermagem.


INTRODUÇÃO

O envelhecimento populacional tem evoluído de forma acelerada nos últimos anos, situação que contribuiu para uma maior preocupação dos gestores das instituições laborais em relação às alterações físicas, sociais, culturais e psíquicas que devem ser gerenciadas pelos indivíduos que vivenciam tal processo, bem como por aqueles que o cercam(1). Dentre essas mudanças está o encerramento das atividades laborais, representado pela aposentadoria(2).

A aposentadoria pode assumir diferentes significados para os trabalhadores, sendo desejada por aqueles que possuem trabalhos com elevado nível de exigência física e mental, compreendida como uma forma de descanso. Em contrapartida, os indivíduos que atribuem valores positivos às atividades laborais tendem a apresentar menor estresse frente à aproximação da tomada de decisão(2).

Diante da diversidade de sentimentos que podem ser experimentados pelos trabalhadores, ressalta-se que o planejamento para a aposentadoria deve ser estimulado desde o início das atividades laborais, pois quanto melhor preparado estiver menor a possibilidade de não se adaptar ao desligamento(3). Assim, a participação em grupos e ações que promovam o envolvimento com ações favoráveis pode contribuir para que a tomada de decisão ocorra de forma planejada e desejada pelo pré-aposentado.

A fim de analisar os comportamentos dos trabalhadores em relação à aposentadoria, pesquisadores(4) elaboraram, em 2014, a Escala de Mudança em Comportamento de Planejamento da Aposentadoria (EMCPA). Esse instrumento, composto por 15 itens, objetivou mensurar o envolvimento do pré-aposentado com ações favoráveis à aposentadoria(4).

Nesse contexto, torna-se importante refletir sobre o envolvimento dos trabalhadores com ações favoráveis ao planejamento da aposentadoria, de forma a compreender como esses indivíduos tem se preparado para o desligamento laboral. Além disso, por se tratar de uma temática pouco explorada na área da enfermagem, este estudo fornece subsídios para a atuação de enfermeiros nos Programas de Preparação para a Aposentadoria.

Diante disso, este estudo teve como objetivo analisar o envolvimento de trabalhadores pré-aposentados de uma universidade pública com ações favoráveis ao planejamento da aposentadoria.

MÉTODO

Trata-se de uma pesquisa quantitativa, analítica, transversal, realizada em uma universidade estadual pública localizada no norte do estado do Paraná. A amostra de estudo foi constituída por 293 indivíduos que se encontravam em pré-aposentadoria, seja por idade ou tempo de serviço, definida por probabilística aleatória a partir de 1.312 servidores que se enquadravam nos critérios de inclusão do estudo. No entanto, durante a coleta de dados, as instituições públicas do estado do Paraná entraram em greve devido a possíveis alterações nos fundos previdenciários dos servidores públicos estaduais, por essa razão a coleta de dados foi suspensa, obtendo-se uma amostra de 164 indivíduos(5).

Os critérios de inclusão definidos foram: trabalhadores que se enquadravam na Lei previdenciária nº 8.213/1991 e na emenda constitucional brasileira 41/2003, que dispõem sobre a aposentadoria por idade. Essas asseguram o direito do homem de se aposentar a partir dos 65 anos e o das mulheres a partir dos 60 anos, além de resguardar o direito a aposentadoria a mulheres com 55 anos e 30 anos de trabalho e homens com 60 anos e 35 anos de trabalho, respectivamente. Excluíram-se do estudo trabalhadores que estavam em férias ou licença durante o tempo da coleta de dados, ou os que não retornaram contato após três tentativas(6-7).

A coleta de dados foi realizada entre novembro de 2014 a abril de 2015, mediante assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Utilizaram-se dois instrumentos: um formulário composto por variáveis sociodemográficas e ocupacionais (sexo, idade, situação conjugal, categoria profissional, tempo de atuação na instituição, entre outros) e a EMCPA, desenvolvida e validada no Brasil, que inclui 15 ações favoráveis para o trabalhador se adaptar ao desligamento laboral(4).

Para análise dos dados, realizou-se a dupla digitação no banco de dados do programa de análise estatística Statistical Package for Social Sciences (SPSS) versão 20.0. A fim de verificar a associação entre os dados sociodemográficos e ocupacionais ao envolvimento com ações favoráveis à aposentadoria, realizou-se a regressão linear simples, seguida pela regressão linear múltipla, adotando o nível de significância de 5% (p<0,05) e intervalo de confiança de 95%.

O estudo foi realizado de forma a garantir o cumprimento dos preceitos da lei brasileira sobre pesquisa envolvendo seres humanos e obteve aprovação do Comitê de Ética em Pesquisas Envolvendo Seres Humanos de uma universidade púbica, conforme Parecer nº 115/2014.

RESULTADOS

Dentre os 164 trabalhadores, 109 (66,5%) eram técnicos e 55 (33,5%) eram docentes, dos quais 42 (25,4%) eram homens. A faixa etária variou de 49 a 69 anos, com 90 (54,9%) trabalhadores entre 49 e 59 anos e uma média de idade de 58,4 anos, com desvio padrão de 4,5 anos, conforme tabela 1.

Tabela 1 - Caracterização sociodemográfica e ocupacional de trabalhadores pré-aposentados de uma universidade estadual pública. Paraná, Brasil, 2015. (n=164)

Tabela 1

Por meio da realização da análise de regressão linear simples, identificou-se que os trabalhadores com maior nível de escolaridade possuíam mais interesse em praticar ações favoráveis à adaptação para a aposentadoria (β= 0,152; p= 0,05). Os indivíduos que realizavam cursos de aperfeiçoamento profissional demonstraram estar dispostos a realizar ações favoráveis à aposentadoria (β= 0,286; p= 0,00).

Os trabalhadores que participavam de cursos de aperfeiçoamento profissional apresentaram maior interesse em atividades de preparação à aposentadoria em investimento ocupacional social (β= 0,270; p= 0,000), ou seja, participar de ações religiosas, cultivar novas amizades ou atividades comunitárias. Enquanto aqueles que possuíam parceiros mostraram-se mais propensos a praticar ações de autonomia e bem-estar (β= 0,241; p= 0,002), como atividades físicas regulares, passar mais tempo com a família e dedicar-se a relação com o cônjuge.

Além disso, os trabalhadores com maior escolaridade (β= 0,181; p= 0,020) ou que realizavam cursos de aperfeiçoamento profissional (β= 0,195; p= 0,012) demonstraram-se interessados em manter atividades vinculadas à sua autonomia e ao bem-estar para a preparação à aposentadoria. Em contrapartida, os indivíduos que possuíam dependentes de sua renda apresentaram menor interesse em atividades ocupacionais e sociais, como realizar investimentos financeiros para o futuro, praticar atividades de lazer ou realizar exame e consultas médicas (β= -0,155; p= 0,047).

Posteriormente à regressão linear múltipla, constatou-se que os trabalhadores envolvidos em cursos de aperfeiçoamento profissional estavam mais dispostos a realizar ações gerais favoráveis à aposentadoria (β= 0,262; p= 0,001) e ações de investimento ocupacional social (β= 0,273; p= 0,000), como realizar cursos de aperfeiçoamento profissional para iniciar uma nova carreira e dedicar-se a amizades.

Os servidores que participavam de cursos de aperfeiçoamento profissional desejavam envolver-se com ações de autonomia e bem-estar (β= 0,157; p= 0,040), isto é, ter uma alimentação mais saudável, investir tempo na convivência familiar e praticar atividades de lazer. Todavia, aqueles que tinham dependentes de sua renda demonstraram menor interesse em ações de investimento ocupacional social (β= -0,177; p= 0,022), como exposto na tabela 2.

Tabela 2 - Fatores sociodemográficos e ocupacionais associados ao envolvimento de trabalhadores pré-aposentados com ações favoráveis à adaptação da aposentadoria, após regressão linear múltipla. Paraná, Brasil, 2015. (n=164)

Tabela 2

Ressalta-se que possuir parceiros e realizar cursos de aperfeiçoamento profissional estiveram associados de forma positiva à prática de ações favoráveis à aposentadoria. Entretanto, indivíduos que possuíam dependentes de sua renda financeira apresentaram maior dificuldade para estabelecer um planejamento pós-laboral.

DISCUSSÃO

Diante da posição que o trabalho ocupa na sociedade atual, alguns trabalhadores enfrentam dificuldades para se desvincular e se envolver com novas atividades, fatores que podem contribuir para a não adaptação à aposentadoria, bem como para o adiamento da tomada de decisão. Dentre os motivos que levam os indivíduos a permanecer no ambiente de trabalho podem estar a preocupação com o sustento familiar, a perda do status profissional, a insegurança quanto ao futuro financeiro, a associação ao período de velhice e a consequente possibilidade de adoecer(8).

A análise de regressão linear múltipla demostrou que ter dependentes financeiros não favorece o envolvimento dos trabalhadores com ações favoráveis à adaptação da aposentadoria. Ao considerar que, atualmente, muitos pré-aposentados chefiam suas famílias, o interesse em praticar tais ações se torna ainda mais necessário, uma vez que ao planejar a saída do trabalho poderão minimizar a insegurança em relação ao futuro financeiro e ao sustento de seus familiares(9-10).

Neste estudo, possuir um parceiro influenciou positivamente o envolvimento dos trabalhadores com ações relacionadas à sua autonomia e bem-estar. Esse resultado pode estar associado ao fato de que o casal tende a se aproximar durante o período de aposentadoria, partilhar tarefas domésticas e de lazer, consideradas por muitos como ganhos da aposentadoria(11-12).

Esses resultados reforçam a afirmativa de que a família representa um fator de proteção para os indivíduos em fase de preparação à aposentadoria. Isso ocorre principalmente porque os relacionamentos com os amigos costumam se restringir ao ambiente laboral, assim, a família se torna o primeiro e o principal vínculo social dos trabalhadores pré-aposentados(13).

Com o passar dos anos, os indivíduos tendem a valorizar mais intensamente a interação com amigos e familiares que, em longo prazo, pode contribuir para o desenvolvimento de experiências positivas no bem-estar subjetivo entre esse grupo. Assim, observa-se a importância dos recursos sociais e das relações familiares para adaptação a esse momento de vida(14).

O processo de envelhecimento, que acompanha a aposentadoria, aumenta a preocupação com a manutenção da saúde e com o bem-estar desses indivíduos. Nesse sentido, a família assume posição central como ponto de apoio, sendo comum que os membros envolvam-se nas questões relacionadas aos cuidados de saúde, com contribuições positivas para a compreensão das mudanças decorrentes do envelhecer(15).

É necessário que os trabalhadores em fase de pré-aposentadoria consigam enxergar a necessidade de buscar atividades extras laborais, como hobby e atividades físicas. Essas auxiliam a superar a fase de transição, amenizando os sentimentos ambivalentes que a aposentadoria pode acarretar, como o desejo de continuar trabalhando para amenizar as crises financeiras(16).

Quando se evocam os sentimentos que a aposentadoria traz, alguns trabalhadores podem sentir medo de adoecer e perder a saúde mental. Assim, para evitar que isso ocorra, buscam o suporte em atividades físicas, intelectuais ou profissionalizantes. Dentre essas ações está o desejo de aprender uma nova profissão ou aperfeiçoar-se na própria área, como identificado neste estudo(17-18).

Ainda, manter o aperfeiçoamento profissional ou realizar cursos para buscar uma nova profissão também contribuíram para o bem-estar dos trabalhadores. Essa percepção pode estar associada ao fato dos indivíduos permanecerem inseridos em um contexto social, além de qualificá-los caso queiram trabalhar com carga horária reduzida, como um planejamento para o futuro(19).

Destaca-se que, atualmente, observa-se a tendência em investigar os fatores que influenciam o envelhecimento bem-suscedido, sendo que manter-se ativo e produtivo no meio social são apontados como fatores benéficos no alcance de tal objetivo. Este modelo tem desafiado as expectativas anteriores de que a partir de uma idade fixa os indivíduos abandonariam suas ativiadades laborais e passariam a depender unicamente de suas pensões(20).

Portanto, percebe-se que o ato de envelhecer é uma questão multifatorial na qual as variáveis sociodemográficas e ocupacionais podem influenciar de forma positiva ou negativa. Faz-se necessário identificar os fatores que atuam como proteção e contribuem para a mudança de comportamento para a aposentadoria, bem como aqueles que prejudicam o envolvimento do trabalhador com ações favoráveis(4).

CONCLUSÃO

Observou-se que o fato de possuir um parceiro e participar de cursos de aperfeiçoamento profissional contribuiu para o maior envolvimento dos trabalhadores com ações favoráveis à aposentadoria, enquanto ter dependentes financeiros esteve associado ao menor interesse. Diante disso, ressalta-se a importância de os gestores institucionais atentarem para trabalhadores com tais características, sobretudo aqueles que sustentam suas famílias, estimulando-os a aderir atividades que favoreçam o processo de desligamento laboral.

Compreender os fatores que influenciam o envolvimento dos trabalhadores com ações favoráveis à adaptação ao desligamento do trabalho deve ser uma das premissas do plano gestor das instituições. A não adaptação a essa fase pode trazer sofrimento pessoal, familiar e social e até mesmo psíquico ao indivíduo pré-aposentado, com reflexos sobre seu bem-estar.

Ao pesquisar a temática da aposentadoria, busca-se solidificar o conhecimento científico na área de saúde do trabalhador, impulsionando novas pesquisas e métodos de resolução assertivos para o bem-estar dos indivíduos. Destaca-se como limitação do estudo a greve que ocorreu no estado do Paraná no período de coleta de dados. Não obstante, os dados obtidos mostraram-se pertinentes e condizentes à literatura, o que reforça sua validade científica.


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Recibido: 19/03/2017 Revisado: 18/09/2018 Aprobado: 18/09/2018