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ARTIGOS ORIGINAIS

 

Iconografia e enfermagem – por que e como?


Marisa Correia Hirata1

1Universidade Federal da Bahia

 


RESUMO
O artigo  apresenta a iconografia como mais uma fonte de pesquisa para a história da enfermagem, justificando que ao estudar-se uma obra de arte, nela está embutida uma representação mental coletiva e quando esta obra inclui a questão da saúde, ela poderá nos dar  pistas de nossa atividade cuidadora, como, onde e quem cuidava. O artigo  cita exemplos e pontua os momentos da análise iconográfica que é  o método usado para desvelar o significado intrínseco e profundo da obra de arte,  considerado depositário das idéias e crenças de uma sociedade ou época. Enfatiza  o agradável (re) encontro da enfermagem com a arte na perspectiva de (re) afirmar  o valor  do cuidar e com ele sedimentar nossa identidade  profissional, na busca de um futuro onde as enfermeiras possam ser social, econômica e juridicamente reconhecidas. 
Descritores: Iconografia, Análise iconográfica, História da enfermagem.



INTRODUÇÃO 

A enfermagem teve seus primórdios no cuidar que as mulheres tinham para com as crianças, no tomar conta da vida e da morte, em ter atenção ao processo da fecundidade e do parto, desenvolvendo assim saberes que eram repassados de geração em geração. Mas, ao longo do tempo, profundas mudanças foram ocorrendo na sociedade, e a Igreja ao ascender, deu um caminho ao cristianismo que reduziu o corpo a um simples suporte do espírito, e juntamente com esta desvalorização,  minimizou seu cuidar,  considerou as mulheres  cuidadoras, bruxas, e queimou muitas delas  nas fogueiras.

Com o peso deste passado, a enfermagem vem buscando atualmente, na história, raízes da sua identidade profissional, juntando os elos perdidos da valorizada mulher prestadora de cuidados, passando pela  mulher consagrada forjada pela Igreja que foi levada a dissociar o corpo do espírito, e a mulher enfermeira do início do século XX, tida como auxiliar do médico (COLLIÈRE,  1999).

Estas buscas têm  como perspectiva (re) afirmar  o valor insubstituível do cuidar para o ser humano doente ou sadio, e com ele sedimentar a identidade de uma profissão com percepção correta de si própria e do mundo, reconhecendo que tem um passado único, para  divisar um futuro profissional onde as enfermeiras possam ser social, econômica e juridicamente reconhecidas, tanto pela  competência quanto pelo que vem oferecendo à humanidade ao longo dos tempos.

Neste caminhar a enfermagem  identificou  a iconografia como fonte de pesquisa de  considerável valor histórico para a profissão, entendendo esta como o estudo de representações figuradas, abrangendo  esculturas, pinturas, placas, medalhas, selos postais, imagens, fotos, personalidades, etc.  Pela sua riqueza  a iconografia é capaz de  nos transmitir convenções socialmente criadas; sentimentos e motivos de uma época; elementos componentes de uma ideologia; utopias regressivas ou progressivas; mitos e idéias capazes de estimularem uma atividade social, etc. Podemos considerá-la como uma representação mental coletiva que retrata aspectos pontuais e exatos do cotidiano de outras épocas, como também questões da saúde, enfermidade e da morte, a forma como eram atendidas estas questões, o que poderá dar-nos  pistas de nossa atividade cuidadora, como e quem cuidava.


DESENVOLVIMENTO

Enquanto método de pesquisa, a Análise Iconográfica  guarda semelhança com a Análise de Conteúdo,  possuindo, no entanto, suas especificidades e totalmente ancorada na pesquisa qualitativa.

Como aquela  que busca  descobrir o que está por trás dos conteúdos, o que está sublinearmente descrito, indo além das aparências,  a Análise Iconográfica busca descobrir  o que está além da representação figurada,  desvela  motivos e  sentimentos que levaram um artista a produzir a obra e  chegando a um  significado profundo, não aparente, ligado a  valores de uma dada sociedade ou época, e que estão implícitos. Para desvelar este significado, recorre-se a  ligações  temporais e espaciais; tendências da mente humana; observação e interpretações que envolvem o imaginário social; associação com a Literatura e com a História, com mitos e lendas, sem dispensar  uma descrição formal e técnica da obra e, principalmente, uma observação acurada e sensível da mesma.  PÉREZ (2001), pioneira da análise iconográfica na enfermagem, indica fazer relações da obra  com o mundo da enfermagem, das mulheres e dos oprimidos.  SILES (1999),  recomenda a  capacidade de  síntese como de grande importância  numa análise iconográfica.

Na nossa experiência, desenvolvemos uma pesquisa com a análise iconográfica do aleitamento materno para o qual fomos  selecionando ícones para a formulação  dos objetivos e para a análise. Neste momento deixamo-nos invadir por impressões e orientações,  buscas e identificações  em museus, nos livros especializados em Artes,  História e Literatura, em livrarias,  bibliotecas, públicas e particulares e em sites online, a representação figurada da temática eleita, à semelhança de uma revisão bibliográfica: quer  sejam  pintura, escultura, artesanato, selos postais, medalhas, posters, fotos, etc. toda uma arte que através dos tempos,  artistas aliaram mitos, religião, alegoria  e realidade, e  dando vida  à pedra, à tinta e à argila, imortalizaram  a cena ancestral e familiar do aleitamento materno.

Diante deste referencial, o passo seguinte é separar estas obras  segundo sua tipologia (pinturas, esculturas, fotos, etc.), e, finalmente, eleger uma   para o foco da pesquisa.

Para a realização da análise iconográfica PÉREZ ET AL (1997), SILES (1999), HIRATA (2003)  indicam que podemos observar três momentos: 

a) Descrição pré-iconográfica. É o momento da captação do sentido do fenômeno, quando nos convidamos  a penetrar  no mundo dos motivos artísticos, considerado o mundo das formas puras.  Neste momento observamos e examinamos formalmente a obra de arte (se pintura, escultura, foto ou medalha, etc), e  tudo o mais que lhe seja análogo. Em caso de pintura, com atenção ao gênero - se aquarela, afresco, têmpera, óleo, estilo, perspectiva, luz e cor, etc. No caso de escultura, se de caráter militar, civil ou religioso, material empregado, etc. Identifica-se o autor, finalidade da obra, sua localização temporal e espacial,  outras obras do autor e o movimento a que a obra pertence;

b) Análise iconográfica.  Este momento nos permite ver o motivo da obra como portadora de um significado secundário ou convencional. É o mundo da imaginação do artista, formado por histórias e alegoria, com identificação correta dos motivos e garimpagem de diferentes condições históricas, da familiaridade com as fontes, juntando bagagem para a interpretação, com atenção de como  a temática se adeqüa e se relaciona com a  enfermagem, com a mulher, com seu tempo histórico e com o agora;

c) Interpretação iconográfica ou análise iconográfica propriamente dita. Este é o momento de desvelamento e captação do significado intrínseco e essencial da obra, o qual comporta valores simbólicos, traduz as representações sociais e está subjacente aos fenômenos e aos significados. Segundo PÉREZ ET AL, apud PANOFSKY (1997), para se chegar a este estado de conhecimento, é necessário  possuir um acervo para esta interpretação por meio de uma intuição sintética ou familiaridade com as tendências essenciais da mente humana. Isto acontece com o testemunho dos momentos anteriores.  

Como exemplo, citamos nossa experiência  com a pesquisa - Iconografia do Aleitamento Materno -  quando observamos,  que  embora estes momentos possam estar didaticamente separados, eles podem se entrelaçar num ir-e-vir coerente, da observação para os referenciais históricos e vice-versa, até a revelação do significado profundo da obra, que surge como um insight.  

Nesta  pesquisa citada, selecionamos  esculturas com esta temática desde a Grécia Antiga, passando a placas e detalhes de sarcófagos dos séculos II e III, quadros de pintores renascentistas famosos como Da Vinci e Michelangelo, do Barroco com Rubens ao Moderno  com Renoir e Picasso, até artesãos das artes populares na Índia, África e Brasil, selos postais de várias partes do mundo, até a moderna fotografia e cartões telefônicos, tendo, finalmente, optando para efetuar a análise iconográfica da pintura,  “A Origem da Via Láctea”, de Jacopo  Tintoretto. Este quadro tem como motivo a criação da Via Láctea, um fenômeno celeste, que segundo o mito grego, formou-se quando Júpter, deus maior do Olimpo, colocou o pequeno  Hercules, filho de uma sua relação com uma terrena, para mamar em sua esposa a deusa Juno, enquanto esta dormia, com o objetivo de torná-lo também imortal. A deusa acorda assustada, o leite respinga  no céu formando a Via Láctea e esparrama no chão fazendo nascer perfumados lírios brancos. Com a aplicação da metodologia citada, vem à tona que o sentido intrínseco, essencial e profundo da obra não é a formação da Via Láctea e sim comunicar o valor do leite materno como fator protetor contra a mortalidade infantil emprestando verdade ao encantamento da arte num tempo em que era impossível comprovar, cientificamente, seus efeitos imunológicos. A pesquisa trás ainda as relações históricas com a mulher, com a amamentação e com a enfermagem.

A título de informe, citamos  outros trabalhos com análise iconográfica desenvolvido por enfermeiros espanhóis: “Santa Isabel bañando a los tiñosos” de Murillo; “Ciência y Caridad” de Picasso;

“Florence Nightingale, uma mujer de fama, poder y influencia”; “Los cuidados vistos a través de la iconografia Del Camino de Santiago”, todos de PÉREZ et al (1997) e ainda SILES (1999), com a famosa obra de Edward Munch,  “O Grito”, que aborda a questão da saúde mental.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Além de se constituir num empreendimento muito agradável, um verdadeiro (re) encontro da enfermagem com a arte e com a cultura, os trabalhos indicam a análise iconográfica  como um código cultural, com possibilidade de identificar aspectos ancestrais da representação mental coletiva que envolve  nossa profissão e sua identidade, incontestes testemunhos para questões que envolvem o cuidado como ação terapêutica da enfermagem.


REFERÊNCIAS

1. COLLIÈRE, Marie-Françoise. Promover a Vida. Da prática das mulheres de virtude aos cuidados de  enfermagem. Tradução de Mª Leonor Braga Abecasis. Lidel e Sindicato dos Enfermeiros Portugueses:         Lisboa, 1999.

2. CARMONA, Cristina P. Enfermeria y arte: apunte iconográfico de los cuidados a través de la historia. In: CONGRESO  NACIONAL DE HISTORIA DE LA ENFERMERIA, V, 2001, Sevilla. Programa científico y resúmenes de comunicaciones. Sevilla: Universidad de Sevilla, 2001. p. 76.

3. HIRATA, Marisa Correia. Iconografia do Aleitamento Materno. In: CONGRESO INTERNACIONAL Y NACIONAL DE HISTORIA DE LA ENFERMERÍA, VI y I,  Alcalá de Henares - España. Livro de Actas.   Universidad de Alcalá. Servicio de Publicaciones, 2003. p. 63-68.

4. ____  Iconografia e Aleitamento Materno.  Trabalho apresentado no 12° SENPE. Porto Seguro-BA, 2003. 

5. PÉREZ, Magdalena Santo Tomás. Fontes iconográficas para el estúdio de la enfermería. In: CONGRESO  NACIONAL DE HISTORIA DE LA ENFERMERIA, 5, 2001, Sevilla. Programa científico y resúmenes de comunicaciones. Sevilla: Universidad de Sevilla, 2001. p.  77-78. 

6. _____ at all. Iconografia y Enfermería – um instrumento para la investigación histórica. Index de Enfermería. Invierno 1997: 19: 13-16. España. 

7. SILES, José. Historia de la Enfermería: Alicante: Editorial Aguaclara, 1999. 375 p.

 


Received: June 15th, 2003
Accepted: June 22th, 2003





 

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