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ARTIGOS ORIGINAIS

 

Perfil de participação científica de concluintes de graduação em enfermagem: estudo exploratório

 

Felipe Clementino Gomes1, Eurípedes Gil de França2, Inácia Sátiro Xavier de França3, Francisco Stélio de Sousa3

1Universidade Federal do Rio Grande do Norte
2União de Ensino Superior de Campina Grande
3Universidade Estadual da Paraíba


RESUMO
Objetivo: Analisar o perfil de participação científica de concluintes de graduação em enfermagem; investigar a produção científica dos acadêmicos concluintes e verificar o fomento à pesquisa nas instituições analisadas.
Método: Estudo descritivo-exploratório, quantitativo, realizado em seis faculdades de enfermagem da Paraíba, com 170 concluintes que responderam a um formulário específico entre outubro e novembro de 2011. Para análise dos dados utilizou-se o Epi Info 3.5.2®.
Resultados: Verificou-se que 22,90% dos alunos participavam de projetos de iniciação científica; destes, 61,53% de instituições públicas. A média de publicação foi de 1,73 resumo e 0,25 artigo por aluno, com preferência pela área ‘Saúde Pública’ (34,10%). Apenas 9,40% pretendiam seguir carreira acadêmica após conclusão.
Discussão: Dificuldades na fixação dos graduandos nas atividades científicas relacionam-se com o incentivo institucional e ao fomento à pesquisa.
Conclusão: É preciso repensar as atividades científicas para construção de novos sentidos para a profissão, potencializando a formação profissional do enfermeiro.
Descritores: Pesquisa em Enfermagem; Educação em Enfermagem; Estudantes de Enfermagem.

 

INTRODUÇÃO

A enfermagem brasileira, como ciência e produtora de conhecimentos, tem ampliado e diversificado sua produção científica, visto que o total, a frequência de publicações em revistas especializadas e a crescente indexação de periódicos em bases de dados internacionais demonstram a força dos conhecimentos produzidos(1).

Tal desenvolvimento ratifica, num âmbito maior, o momento de ascensão científica vivido no Brasil: formam-se atualmente 10 mil doutores por ano; o país ocupa a 13a posição no ranking internacional de publicações científicas, produzindo aproximadamente 30 mil artigos e respondendo por 2,12% de toda a produção científica mundial(2-3).

Investimento na pós-graduação, financiamento de projetos inovadores e formação de recursos humanos especializados são as estratégias com as quais se tem alicerçado as oportunidades de crescimento(4). O intuito é que haja produtividade e desenvolvimento científico por meio de uma política de redução do tempo médio de titulação de mestres e doutores, resultando em um maior número de pesquisadores jovens no mercado que disponham de amplo tempo para atuação(5).

A fim de promover e alcançar tais metas surgiu o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC), que insere os graduandos na dinâmica das investigações científicas e propicia instrumentos para formulação de políticas de pesquisa. Disseminado em 78% das instituições de ensino superior (IES) públicas e 71% das particulares, o PIBIC prepara clientela qualificada para os programas de pós-graduação, diminuindo em até 10 anos o tempo de formação stricto sensu do pesquisador(4;6-7).

O programa, entretanto, possui entraves no que tange ao seu acesso. Em 2007, por exemplo, a iniciação científica (IC) em enfermagem respondia apenas por 642 bolsas das 25.500 distribuídas pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)(8). Depreende-se que 2,5% das bolsas de IC são alocadas na enfermagem, o que pode se configurar como um empecilho ao acesso à pesquisa.

A prática da pesquisa na graduação decorre geralmente da obrigatoriedade do trabalho de conclusão de curso (TCC), que incentiva os alunos a se dedicar de maneira mínima e faz com que o interesse em produzir cientificamente se dê apenas após a conclusão do curso, fato que evidencia o relativo despreparo dos profissionais em realizar investigações científicas(8).

Gera-se, portanto, uma gama de pesquisadores ocasionais, que optam por publicar em revistas de baixo Qualis devido à falta de incentivo e orientação em relação às prerrogativas de uma ciência madura. Um estudo aponta que 55% da produção em enfermagem terá sequer visibilidade regional(1).

Incentivar a pesquisa na graduação, no lócus da formação do profissional enfermeiro, é essencial para o desenvolvimento de novas gerações com habilidades e competências que apontem para o atendimento das demandas específicas da enfermagem, do indivíduo e da coletividade(1).

Um graduando aberto às investigações científicas será um profissional capaz de tomar atitudes, enfrentar o desconhecido e estar sempre atento às novas descobertas, inferindo modificações em sua conduta que culminem em práticas eficazes na prevenção de doenças e aperfeiçoamento de tratamentos, tornando-os mais eficazes e menos agressivos(8).

Há necessidade, assim, de averiguar o estado atual da pesquisa em enfermagem, de forma a buscar a melhoria das atividades científicas nos cursos de graduação. Essa análise teria o fim de contribuir para consolidar a experiência científica como um processo que deve se iniciar na graduação e ser aperfeiçoado na formação do pesquisador mestre e doutor(8).

Almejando contribuir para o entendimento da produção científica na graduação em enfermagem e proporcionar ferramentas úteis e objetivas nos processos de avaliação dos resultados da atividade científica, este estudo se propôs a analisar o perfil de participação científica dos concluintes no âmbito da graduação; verificar se há estímulo e fomento à prática da pesquisa nas faculdades pesquisadas a partir da fala dos alunos; e investigar a produção científica entre os acadêmicos concluintes.

 

MÉTODO

Pesquisa do tipo transversal, descritiva, exploratória com abordagem quantitativa, realizada em seis IES da Paraíba que oferecem cursos de graduação em enfermagem. Selecionaram-se aquelas que possuíam turmas concluintes, com presença dos alunos em sala de aula, que aqui serão chamadas de Instituição A (pública), B e C (privadas), situadas no município de Campina Grande/PB; Instituição D (privada) localizada na cidade de Patos/PB; Instituição E (pública) e a Instituição F (privada), com sedes na cidade de Cajazeiras/PB.

Optaram-se por alunos do último período do curso por estarem vinculados à elaboração do TCC, além de ser nesse período que as dificuldades, decorrentes do não desenvolvimento das habilidades investigativas nos anos anteriores, manifestam-se com maior intensidade(8-9).

A população de alunos perfez um total de 278 indivíduos de acordo com o número de matrículas ativas. Constituiu-se a amostra de 170 sujeitos dos 161 estipulados, conforme cálculo amostral para populações finitas com significância de 95%. Para cálculo amostral foi considerada a fórmula n= t²5%*P*Q*N / e²(N-1)+t²5%*P*Q, no qual N=número de alunos matriculados, t5%=nível de significância, e=erro amostral absoluto e P uma proporção de 50% considerando os alunos matriculados que podem desenvolver atividades de pesquisa, tendo em vista que essa proporção possibilita um tamanho de amostra máximo. Logo, calculando t5%=1,96; P=50%; Q=50%, e=5% e N=278, obtém-se n=161 alunos. A Figura 1 detalha o arrolamento das unidades amostrais.

 

FIGURA 1 – Fluxograma das unidades amostrais.

  

Fonte: Dados da pesquisa, 2011.

 

 

Coletaram-se os dados nos meses de outubro e novembro de 2011. Elaborou-se um formulário com 30 perguntas objetivas e mistas, estruturado em três eixos principais a fim de se obter informações referentes ao: 1) perfil sociodemográfico; 2) entendimento sobre pesquisa; 3) perfil de produção científica.

O instrumento de coleta de dados foi submetido à revisão externa por docentes com experiência na temática abordada e ao pré-teste no intuito de validá-lo, corrigir inadequações e questões não compreendidas, melhorando a clareza e objetividade das perguntas a fim de reduzir as possibilidades de vieses.

O horário de coleta foi previamente acordado com as respectivas coordenações dos cursos. Procedeu-se uma abordagem coletiva, em sala, antes do início das aulas do dia e em momento único, evitando-se assim a possibilidade de repetição da participação de estudantes. Assegurou-se aos discentes direito à autonomia na participação em estudos científicos, reiterando possibilidade de optar pela desistência em qualquer etapa da pesquisa. A aplicação do instrumento se deu somente após a assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido.

Organizaram-se os dados em um banco no software Epi Info 3.5.2® e efetuou-se a análise estatística descritiva. As respostas das questões mistas foram agrupadas por palavras-chave conforme a frequência com que apareceram. Elaboraram-se os gráficos e tabelas no Microsoft Excel 2007®.

No tocante aos aspectos éticos, o estudo foi submetido à apreciação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual da Paraíba e recebeu parecer favorável à realização, CAAE N°: 0496.0.133.000-11.

 

RESULTADOS

A pesquisa envolveu 170 indivíduos, sendo 138 (81,2%) mulheres. A amostra apresentou idade mínima de 21 anos e máxima de 50 anos, com média de 26,35 anos, sendo 24,45 anos nas instituições públicas e 27,06 anos nas privadas.

Predominaram-se concluintes solteiros (72,40%), que se autodeclararam brancos (51,80%), católicos (75,90%), com renda mensal de dois a três salários mínimos (38,80%) e cujo principal provedor familiar é funcionário público (43,50%). Considerando-se somente as instituições públicas, a maior parte dos alunos (30,0%) declarou renda de até um salário (Tabela 1).

Verificou-se que 23,50% possuem algum tipo de atividade remunerada capaz de prover totalmente seu próprio sustento. Nas faculdades privadas, observou-se percentual de 28,20%. A maior parte (40,0%) dos que possuíam atribuições trabalhistas eram profissionais da área da saúde.

 

TABELA 1 – Aspectos sociodemográficos dos concluintes de enfermagem de instituições de ensino superior do estado da Paraíba.

CARACTERÍSTICAS ESPECIFICAÇÕES N = 170 %
ESTADO DE PROVENIÊNCIA PB 102 60,00%
PE 16 9,42%
RN 11 6,47%
CE 7 4,11%
Outros/Ignorado 34 20,00%
FAIXA ETÁRIA 20 a 24 anos 87 51,17%
25 a 29 anos 40 23,52%
30 a 34 anos 16 9,42%
34 a 39 anos 11 6,47%
40 anos ou mais 6 3,52%
Ignorada 10 5,90%
ESTADO CIVIL Solteiro 123 72,35%
Casado 38 22,35%
Divorciado 7 4,11%
Ignorado 2 1,19%
RAÇA Branca 88 51,76%
Parda 67 39,42%
Negra 11 6,47%
Amarela 3 1,76%
Não sei/Ignorado 1 0,59%
RELIGIÃO Católica 129 75,89%
Protestante 30 17,64%
Kardecista 5 2,95%
Não possui religião 6 3,52%
OCUPAÇÃO DO RESPONSÁVEL Funcionário Público 74 43,52%
Autônomo 34 20,00%
Aposentado 25 14,70%
Empresário 15 8,84%
Outras/Ignorado 22 12,94%
RENDA Até 1 salário 51 30,00%
2 a 3 salários 66 38,82%
4 a 6 salários 12 7,06%
Não tenho renda 27 15,89%
Não sei/Ignorado 14 8,23%

Fonte: Dados da pesquisa, 2011.

 

No tocante à distribuição de alunos por instituição, verificou-se maior quantitativo de matriculados em escolas privadas. A distribuição ocorreu da seguinte forma: FIP 25,90%, UNESC 17,60%, FSM 16,5%, FCM 12,90%, UEPB 9,40% e UFCG 7,60%. Nas instituições particulares, 73,70% dos estudantes provém do próprio estado; nas públicas, esse percentual caiu para 65,90% (Figura 2).

 

FIGURA 2 – Distribuição geográfica referente à naturalidade dos estudantes de enfermagem e a concentração de escolas de enfermagem no estado da Paraíba.

Fonte: Dados da pesquisa, 2011.

 

Questionaram-se os estudantes a respeito de sua participação e pretensões em pesquisa científica (Tabela 02). A maioria (98,20%) afirmou que era importante fazer pesquisas científicas na enfermagem, para aquisição, aprimoramento e atualização dos conhecimentos (54,40%); desenvolver e solidificar a enfermagem como ciência (22,10%), e construção de paradigmas que viabilizem melhorias no ensino e na prática da profissão (16,90%). Um total de 6,60% dos concluintes ainda citou outros motivos pelos quais a pesquisa tem sua importância, destacando-se a resolubilidade nos problemas da saúde brasileira.

A respeito das publicações, 35,30% afirmaram ter participado de trabalhos que culminaram em publicação. Destes, 68,30% publicaram em eventos com anais; 18,30% em eventos sem anais e 1,70% em revistas científicas. Quanto à natureza dos trabalhos desenvolvidos, 35,60% foram resumos; 32,20% apresentações orais; 18,80% resumos expandidos e 3,3% de artigos.

Durante a graduação, 94,10% participaram de eventos científicos, sendo a maior parte (45,90%) eventos locais e (34,70%) regionais.

Registrou-se ainda que 34,40% possuíam intenção de publicar o TCC; destes, 49,3% assinalaram que a intenção era em periódico científico. Quando perguntados onde pleiteariam a publicação, apenas 7,5% apontaram especificamente as revistas, como a Revista Brasileira de Enfermagem (40,0%), Revista Brasileira de Saúde Pública (20,0%), Revista da Escola de Enfermagem da USP (20,0%) e a Revista Brasileira de Saúde Materno-Infantil do IMIP (20,0%).

Verificou-se que somente 9,40% pretendiam continuar na pesquisa, postulando formação stricto sensu; 58,80% planejavam se especializar em uma área ou fazer alguma residência; e 23,50% preferiam entrar no mercado de trabalho assistencial.

Percebeu-se também que 45,90% da amostra possuía currículo na plataforma Lattes. Destes, 71,70% eram de escolas públicas; 48,80% do total afirmaram que o mantém o atualizado.

Constatou-se que 22,90% participaram de projetos que envolvem IC (PIBIC, PIVIC, PIBID, PIBITI, PROPESQ, PET, outros), mesmo percentual observado para aqueles que participaram de grupos de pesquisa cadastrados no diretório do CNPq.

 

TABELA 2 – Representações percentuais do envolvimento dos concluintes de graduação em Enfermagem de instituições públicas e privadas, com a pesquisa científica.

  PÚBLICAS (N = 46) PRIVADAS (N = 124)
SIM NÃO MISSSING SIM NÃO MISSING
  N % N % N % N % N % N %
Gosta de Pesquisar? 40 86,9 4 8,6 2 4,3 108 87 15 12 1 0,8
Participou de Projetos de IC? 24 52,1 22 27,8 0 - 15 21 97 78,2 12 9,6
Participou de Grupos de Pesquisa? 18 39,1 27 58,6 1 2,1 21 26,9 95 76,6 8 6,4
Participou de Eventos? 44 95,6 0 - 2 4,3 116 93,5 4 3,2 4 3,2
Participou de Publicações? 26 56,5 14 30,4 6 13 34 27,4 56 45,1 34 27,4
Pretende publicar o TCC? 31 67,3 1 2,1 14 30,4 36 29 15 12 73 58,8

Fonte: Dados da pesquisa, 2011.

 

Analisando a produtividade dos concluintes (Figura 3), detectou-se a média de 1,73 resumo e de 0,25 artigo por aluno pesquisado. Desta forma, 75,30% não possuíam ao menos um resumo e 93,70% nunca publicaram um artigo científico.

A preferência com relação à área de pesquisa foi de 34,10% para saúde pública; 24,10% em fundamentos da enfermagem; 18,20% em materno-infantil e 10,60% em médico-cirúrgica. Percebeu-se que 1,20% optou por desenvolver trabalhos em outras áreas da enfermagem; 2,40% em outras ciências e 9,40% não tinham preferências.

Quanto ao estímulo para pesquisa, 56,30% relataram que falta estímulo por parte da instituição e dos docentes; já 25,30% afirmaram que o incentivo era satisfatório.

Quanto ao fomento financeiro, 11,20% dos alunos pesquisados recebiam bolsas. Aqueles que já possuíam, recebiam-na, em média, por um período 16,05 meses. Deste grupo, 50,0% publicou.

 

FIGURA 3 – Discriminação das médias de publicação de resumos e artigos científicos por aluno nas instituições de ensino superior de enfermagem na Paraíba – 2011

Fonte: Dados da pesquisa, 2011.

 

DISCUSSÃO

Os achados deste estudo revelam um quadro de discreta participação científica dos concluintes, evidenciando aspectos importantes que expõem as dificuldades na prática da IC na graduação em enfermagem.

Primeiramente, a própria expansão da enfermagem como ciência e força de trabalho acarreta em contratempos para prática de investigações científicas. Com o aumento da oferta dos cursos de graduação, sobretudo no sistema privado, sobreveio uma crescente demanda de estudantes que necessita trabalhar para prover o financiamento de sua formação, fato que interfere diretamente em sua participação científica.

Trabalhar em horário complementar pode se constituir em um entrave para desenvolver atividades além das obrigatórias previstas no currículo (estágios, monitoria, extensão e pesquisa), limitando os estudantes a uma formação reduzida à sala de aula(7). Possuir dupla jornada impede, indubitavelmente, o desenvolvimento da pesquisa na realidade do estudante(8;10).

Esta parece ser uma tendência na enfermagem e em diversos cursos: a de ter estudantes com atividades laborais como sua clientela preferencial.  O relatório do Exame Nacional do Ensino Superior (ENADE) aponta que 28,20% dos estudantes de graduação e 53,7% dos concluintes do país possuem atribuições trabalhistas(11)

Outro ponto que demanda preocupação é a necessidade de problematizar os efeitos dessa ostensiva ampliação e suas repercussões na relação enfermeiro/paciente, no dimensionamento de pessoal e no atendimento às necessidades de saúde da população. Enfermagem é a quinta formação com maior número de matrículas ativas no país e possui atualmente 920 cursos de graduação, sendo 772 destes privados. A Paraíba possui 17 cursos, e tomando por base a média da população deste estudo, formam-se aproximadamente 1.200 profissionais enfermeiros por ano no estado(11-12).

Cabe ressaltar que o perfil sociodemográfico dos alunos não tem sofrido modificações mais acentuadas(7-13). As mulheres continuam sendo maioria expressiva na categoria, quadro percebido ao longo do processo histórico de desenvolvimento da profissão(14). No entanto, a concorrência masculina tem se tornado cada vez mais evidente: de acordo a Organization for Economic and Co-operation Development (OECD), os profissionais do sexo masculino já representam 13% dos trabalhadores enfermeiros, percentual que condiz com os achados deste estudo(15).

Um segundo impedimento na prática da pesquisa na graduação refere-se ao desconhecimento da área científica por parte dos discentes. A formação deficiente em termos de estratégias que favorecem a IC, a falta de estímulo à participação em grupos de pesquisa (GP) e a não vinculação dos cursos de enfermagem à pós-graduação resultam em formação enviesada para assistência(6-9).  

O imediatismo da prática assistencial ou a especialização para tal é a finalidade da maioria dos pesquisados. O investimento na carreira acadêmica e em mestrados, por exemplo, é pretensão de poucos. A própria publicação do TCC requer um esforço considerado por muitos como desnecessário, pois não há a consciência da apropriação da pesquisa como forma de fortalecer a identidade da enfermagem nem como contribuição para as perspectivas da prática profissional(5). De acordo com ENADE, 20% dos concluintes de graduação de todo o país consideram que projetos de IC tiveram pouca ou nenhuma participação na sua formação(11).

Os participantes apresentaram estranheza em relação ao conhecimento de termos básicos no meio científico como PIBIC, PIVIC, PIBITI, PIBID e Currículo Lattes, cuja maior parte não o possui, e os que o tem, em geral não o atualizam. O Lattes constitui-se no principal indicador da atividade em pesquisa. Apresenta-se como indispensável para análise de mérito e competência do aluno, instituições de fomento e universidades(6). Surgiu a partir da necessidade de compartilhar descobertas e sua ausência ou desatualização indica que o aluno não tem participação efetiva em investigações de cunho científico(16).

O sistema de classificação Qualis e exemplos de periódicos científicos são quase que totalmente desconhecidos, mesmo com a expansão de publicações e com a ênfase na produtividade científica atualmente vivenciada(14). Apenas 7,5% dos participantes apontou a Revista em que pretendia publicar o TCC, mas não souberam explicar o porquê dessa escolha.

Quanto aos GP, verdadeiro lócus das investigações científicas, percebeu-se um baixo percentual de estudantes que os integram. Autores apontam que são características comuns dos desses grupos em enfermagem possuírem poucos graduandos e muitos pesquisadores de alta titulação. Contudo, existe dificuldade no fomento ao desenvolvimento de suas atividades(16).

Os grupos em enfermagem geralmente alinham-se em duas ou três linhas de pesquisa e são predominantemente vinculados à IES públicas, expondo a disparidade existente da organização científica de IES públicas e privadas(16). Ademais, a presença mais frequente dos alunos de escolas públicas no contexto científico deve-se à maior presença e estímulo à pesquisa em sua realidade acadêmica.

O GP é o local da gênese dos estudos: da concepção, produção, acompanhamento e do compartilhamento dos resultados. Compartilhar os achados científicos, por sua vez, também é propósito de encontros, seminários e congressos(17). Nesse ponto, a participação majoritária dos estudantes em eventos científicos de cunho local sugere uma limitação do intercâmbio de ideias, linhas de pesquisa e metodologias, requerendo a necessidade de incentivo à presença destes em eventos nacionais e internacionais de maior peso científico como forma de contribuir para a potencialização da visão científica.

O terceiro problema apontado no desenvolvimento da pesquisa na graduação pode ser percebido quanto ao incentivo à IC por meio de distribuição de bolsas.

Existem duas formas de participação em programas de IC nas universidades brasileiras: a primeira é estimulada pela ajuda financeira concedida pelas instituições de fomento; a segunda é por meio do voluntariado na participação em pesquisas(6).

O incentivo financeiro institucional é de fundamental importância no provimento do aluno e no suporte à estrutura dos materiais de desenvolvimento do projeto. A bolsa de IC é um incentivo individual que se operacionaliza como um instrumento abrangente de fomento à formação de recursos humanos(6).

No entanto, há um déficit importante no acesso a esse incentivo financeiro. No Brasil, em 2009, foram contabilizados 1514 estudantes de enfermagem PIBIC dos 235,8 mil matriculados(8;10). Percebe-se uma insuficiência de bolsas de IC que se concentram especialmente em uma parcela de estudantes de instituições de maior importância histórica e cultural(13). Metade das IES do Brasil apoia a IC apenas com a dispensa de aulas. Somente 25% fornecem recursos para seu financiamento. Cerca de 30% dos discentes não participarão de qualquer atividade de natureza científica durante o curso(17).

Ainda que haja inviabilidade da concessão de bolsas de incentivo a todos os alunos, necessita-se compreender que a IC é uma atividade bem mais ampla que sua simples realização mediante o pagamento de um incentivo financeiro. Ela é dever da instituição, considerada uma atividade precípua e indissociável da formação acadêmica(6).

A reflexão sobre a participação científica dos concluintes de IES na Paraíba, à luz das deficiências na formulação de políticas de pesquisa pelas IES, da insuficiência de incentivo institucional e do advento da dupla jornada entre os estudantes, induz a constatação de que o concluinte em enfermagem possui um perfil de formação tecnicista, enviesado à assistência, que resulta em um constructo que não promove novos saberes e melhorias da qualidade de vida da população por intermédio de investigações científicas(9). A média de artigos e resumos publicados traduz este cenário indesejado à profissão e contrário à atual política de produtividade da universidade brasileira, que tem na IC e na formação de novos pesquisadores as principais atividades concebidas como processo integrado à vida acadêmica(4-5). Um ponto de grande relevância encontrado na investigação é o atual foco de investigações em Saúde Pública, secundário à nova forma de fazer saúde deste campo(18).

É importante pensar na qualificação da pesquisa nos níveis de graduação, a qual deve se orientar por uma prática responsável com a vida e saúde. A formação de novos pesquisadores nas universidades torna-se fundamental para o fortalecimento da enfermagem, refletindo-se na melhora do padrão de atendimento prestado na medida em que as pesquisas decorrentes das necessidades da prática vão sendo desenvolvidas(19).

Aparece claramente o papel da IC e dos seus mecanismos de fomento, a partir dos quais se pode desenvolver uma atividade de pesquisa que se oriente pela criatividade, capaz de difundir uma nova atitude frente ao conhecimento: uma atitude de questionamento, de crítica e de construção de alternativas para a ciência, para a sociedade e para o Estado(19).

Não dispor de dados relacionados às percepções e subjetividades do concluinte no tocante à pesquisa certamente foi uma limitação deste trabalho. Todavia, os dados quantitativos e o perfil analisado respondem de forma satisfatória às proposições do estudo. Outra limitação diz respeito à exclusão de duas importantes instituições de ensino. Contudo, o número expressivo de participantes de diferentes IES é fator que contribui para abrandar este eventual viés.

Salienta-se que há necessidade de estudos adicionais sobre as bolsas de IC e seus atores objetivando traçar o perfil dos fatores que influenciam na participação científica de graduandos, visando otimizar os resultados dos investimentos na formação dos pesquisadores e garantindo o desenvolvimento da enfermagem enquanto ciência.

 

CONCLUSÃO

Arranjos e mudanças são necessários para avançar na consolidação da enfermagem como produtora de conhecimentos nos níveis acadêmicos iniciais. A possibilidade de refletir e repensar estratégias que viabilizem a maior participação científica do graduando se faz essencial para reverter a construção de um profissional com dificuldades no desenvolvimento e problematização de questões de significado social por meio de pesquisas.

Nesse viés, estudos como este são pertinentes na tentativa de mensurar o estímulo que é dado à pesquisa onde ela é essencial: na graduação. A inserção precoce do aluno em projetos de pesquisa, o incentivo aos jovens criativos na participação das atividades de IC e a modernização da formação do enfermeiro, se tornam instrumentos valiosos para aprimorar qualidades desejadas em um profissional de nível superior.

Conclui-se que o mais importante atualmente é conscientizar a todos de que fazer pesquisa durante a graduação em enfermagem é um excelente momento para aprendizagem, pois propicia crescimento pessoal e profissional e contribui substancialmente para o desenvolvimento da ciência em todas as áreas.

 

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Todos os autores participaram das fases dessa publicação em uma ou mais etapas a seguir, de acordo com as recomendações do International Committe of Medical Journal Editors (ICMJE, 2013): (a) participação substancial na concepção ou confecção do manuscrito ou da coleta, análise ou interpretação dos dados; (b) elaboração do trabalho ou realização de revisão crítica do conteúdo intelectual; (c) aprovação da versão submetida. Todos os autores declaram para os devidos fins que são de suas responsabilidades o conteúdo relacionado a todos os aspectos do manuscrito submetido ao OBJN. Garantem que as questões relacionadas com a exatidão ou integridade de qualquer parte do artigo foram devidamente investigadas e resolvidas. Eximindo, portanto o OBJN de qualquer participação solidária em eventuais imbróglios sobre a materia em apreço. Todos os autores declaram que não possuem conflito de interesses, seja de ordem financeira ou de relacionamento, que influencie a redação e/ou interpretação dos achados. Essa declaração foi assinada digitalmente por todos os autores conforme recomendação do ICMJE, cujo modelo está disponível em http://www.objnursing.uff.br/normas/DUDE_final_13-06-2013.pdf

 

 

Recibido: 22/06/2013
Revisado: 21/09/2014
Aprobado: 22/09/2014