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ARTIGOS ORIGINAIS

 

Percepções de mulheres adolescentes acerca das diferenças de gênero: um estudo descritivo

 

Silvana Cruz da Silva1, Lúcia Beatriz Ressel1, Eva Neri Rubim Pedro2, Camila Neumaier Alves1, Karine Stumm1, Láis Antunes Wilhelm1

1Universidade Federal de Santa Maria
2Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 


RESUMO
Objetivos: compreender as percepções e significados sobre ser mulher adolescente na nossa sociedade e refletir a construção sociocultural desses.
Método: estudo de campo descritivo, qualitativo, desenvolvido em uma escola pública do Rio Grande do Sul. Participaram nove mulheres adolescentes. A coleta de dados ocorreu nos meses de junho e julho de 2012 por meio de grupos focais. Para análise dos dados utilizou-se a análise temática.
Resultado: emergiram as relações que as adolescentes fazem acerca da sexualidade, sua condição como mulheres e ao tratamento destas pela família e sociedade.
Discussão: encontrou-se grande influência das questões de gênero na sexualidade e confirmou-se que as adolescentes trazem suas práticas fundamentadas nas suas origens socioculturais e relações de desigualdades de gênero, preconceitos e hierarquização social.
Conclusão: é importante que os enfermeiros conheçam os significados atribuídos pelas adolescentes às questões de gênero e sexualidade para que possam contribuir com estratégias efetivas e contextualizadas.
Descritores: Saúde da Mulher; Saúde do Adolescente; Identidade de Gênero; Sexualidade; Enfermagem.


 

INTRODUÇÃO

A atenção à saúde das mulheres, a saúde dos adolescentes e a sexualidade estão fortemente interligadas e associadas ao processo de medicalização do corpo feminino, na perspectiva de transformação, não apenas de grupos e espaços públicos, mas também de indivíduos. Num contexto de controle social, o processo de medicalização do corpo feminino se estendeu à sexualidade e à reprodução, sendo determinante para transformar esses aspectos em objeto de saber médico, em razão do entendimento que a natureza feminina era essencialmente maternal e reprodutiva(1).

A medicalização do corpo feminino refletiu-se principalmente na restrição da autonomia das mulheres sobre seus corpos. Contudo, esse panorama começou a mudar no Brasil, na década de 1980, no decurso da Reforma Sanitária, com as reivindicações do movimento feminista(2) , originando, em 1983, o Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher (PAISM), criado pelo Ministério da Saúde. Esse programa, a partir de 2004, transformou-se em política, e passou a ser denominado de Política Nacional de Assistência Integral à Saúde da Mulher (PNAISM). Evidenciou-se, com essa mudança, o compromisso com a implementação de ações de saúde para as mulheres, que deveria nortear os serviços, orientado pela efetividade dos direitos sexuais e reprodutivos como parte dos direitos humanos.

Nessa direção, de ampliação das políticas e ações de saúde, é que se desenvolveram as discussões acerca da singularidade e da necessidade de políticas próprias para os adolescentes.

Assim, este estudo direciona-se às mulheres adolescentes, justificando-se pela compreensão de que o processo de adolescer, por elas vivenciado, é, na maioria das vezes, caracterizado pela repressão de sua sexualidade; pela diferenciação de condutas e de controles impingidos diferentemente aos homens; pelos "nãos" que acenam aos limites constantes; pelas proibições; pelas noções de inferioridade e de passividade, entre outros condicionamentos; bem como pela falta de diálogo e de esclarecimentos dos eventos biológicos, sociais e culturais que fazem parte de sua vida(3).

A sexualidade é uma característica essencial do ser humano, está presente durante toda a vida do indivíduo. Neste estudo, entende-se que a construção da sexualidade é tanto individual quanto coletiva, pois se expressa e recebe influências, caracterizando-se de acordo com o contexto no qual o sujeito está inserido. Ratifica-se que, durante as diferentes etapas de vida, os seres humanos expressam sua sexualidade de forma diferente e com influências culturais diferentes, seja da família, dos grupos de amigos, ou da escola(4).

Os adolescentes devem ser vistos na sua totalidade, com sua identidade cultural própria, de acordo com seu tempo e espaço. Para tanto, acredita-se ser necessário que os profissionais da enfermagem repensem modelos culturais dominantes, que sejam reflexivos e críticos, que ao cuidar desenvolvam a sensibilidade, a criatividade, o ouvir, o ver, o sentir. Assim, entende-se a relevância do tema proposto tanto para a práxis profissional quanto acadêmica, pois o enfermeiro tem um papel transformador na sociedade e deve trabalhar por mudanças que possibilitem a melhora da qualidade de vida dos usuários.
A partir do exposto, vislumbra-se a questão norteadora deste estudo: quais os significados atribuídos pelas adolescentes sobre ser mulher em nossa sociedade? O Objetivo delineado foi: compreender as percepções e os significados sobre ser mulher adolescente na nossa sociedade, além de refletir acerca da construção sociocultural desses significados.

 

MÉTODO

Trata-se de uma pesquisa de campo, do tipo descritiva, com abordagem qualitativa. A escolha dessa abordagem se justifica, pois ela permite o estudo das influências socioculturais, que subsidiam investigações de grupos e de histórias sociais sob a ótica dos atores(5).

O cenário da pesquisa foi uma escola pública de pequeno porte, que abrange apenas o ensino fundamental, em um município do Rio Grande do Sul (RS), e atende 303 alunos devidamente matriculados, com idades entre seis e 18 anos.

Participaram deste estudo nove adolescentes do sexo feminino, número de sujeitos dentro do previsto (seis a 15) para a realização da técnica de coleta de dados utilizada por esta pesquisa, o grupo focal, tendo em vista a melhor operacionalização dos encontros(6). Além de propiciar maior interação grupal, essa condição facilita o desenvolvimento das discussões, debates e a comunicação intragrupo.

Os critérios de inclusão foram: ser mulher adolescente (ter entre 12 e 18 anos, conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente), estudante da escola cenário do estudo, e ser moradora da região em estudo. O critério de exclusão foi: adolescentes que tivessem limitações cognitivas, que as impossibilitassem de compreender e participar do estudo.

A seleção dos sujeitos foi intencional, de acordo com os objetivos do estudo e as orientações para o grupo focal. As adolescentes foram convidadas verbalmente a participar do grupo, e sua adesão foi voluntária. Os convites se realizaram em três momentos, nas turmas de 5º a 8º séries, nas quais, segundo a direção da escola, se encontravam matriculadas as adolescentes.  

É interessante salientar que os grupos focais foram realizados com os mesmos participantes, e que ocorreu apenas uma desistência do primeiro para o segundo encontro, sem prejuízo para a pesquisa, e sem substituição da participante desistente.

Os dados foram coletados durante os meses de junho e julho de 2012, em três encontros com grupos focais, os quais foram gravados e transcritos. Estes são definidos(7) como um tipo de debate grupal que valoriza a comunicação entre os participantes, a fim de gerar dados e auxiliar os pesquisadores a perceber as formas diferentes de comunicação que as pessoas usam na interação. Também ressalta os valores culturais e as normas do grupo.

Por meio dessa técnica, o pesquisador pode identificar o conhecimento compartilhado pelo grupo, o que faz com que seja um bom método para coleta de dados culturais, particularmente de temas delicados como é o caso da sexualidade. Nesse sentido, o grupo focal revela dimensões da compreensão que comumente permanecem despercebidas(7).

Para a organização desta pesquisa, o planejamento dos grupos seguiu as orientações teóricas quanto à operacionalização dos grupos focais(6), as quais constam de: composição do grupo; ferramentas e desenvolvimento do grupo focal.

Para a análise dos dados, foi utilizado o método de análise de conteúdo do tipo análise temática(5), a qual é definida como a descoberta dos núcleos de sentido, que constituem uma comunicação em que a frequência ou a presença de palavras, frases ou expressões possuem algum significado para o objeto analítico. Por conseguinte, para uma análise de significados, o surgimento de determinados temas denota estruturas de relevância, valores de referência e modelos de comportamento que podem estar ocultos no discurso(5).

Foi fundamental respeitar a condução ética durante todo o processo. Para tanto, seguiu-se as normas da Resolução nº. 466/12 do Conselho Nacional de Saúde do Ministério da Saúde, que regem pesquisas envolvendo seres humanos. A pesquisa só teve início após autorização da direção da escola e do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Santa Maria, RS, do dia 27 de março de 2012, sob o número do Parecer: 8931 e CAAE 00555212.2.0000.5346.

As adolescentes foram esclarecidas quanto ao tema da pesquisa, seus objetivos e implicações para elas, sendo providenciada a assinatura do Termo de Assentimento, aplicado a menores de 18 anos e aos seus pais ou responsáveis, que assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. As pesquisadoras assinaram o Termo de Confidencialidade e a identidade das participantes foi codificada em nomes de princesas de contos de fadas.

 

RESULTADOS

Para as adolescentes, há diferença de conduta dos pais para os filhos homens e as filhas mulheres, havendo maior controle e regulação no comportamento das mulheres. Essas diferenças no tratamento foram fortemente destacadas nas falas:

Eu sou a única filha do meu pai e existe muita diferença. (…) com o guri é mais liberal, eles podem tudo, né? (Rapunzel)

Mas pra gente fazem um interrogatório […] meu pai diz que as mulheres são loucas, que ele não entende, que não entendeu mulher nenhuma! (Ariel)

Se a gente vai sair tem que responder onde foi, quando foi, com quem foi. […]o meu pai, quando meu irmão era pequeno, ele já dizia que ele tinha que namorar, e eu só depois que fizesse 15. Daí, agora que eu tenho 15 ele fala que eu só vou namorar com 22. Minha mãe não, minha mãe diz que os dois já podem. (Fiona)

Observa-se certa naturalização ao escutar comentários depreciativos e machistas em relação às mulheres e percebeu-se que algumas delas acabavam repetindo ou concordando com essas falas.

É… algumas mulheres são loucas mesmo. (Yasmin)

Outra diferença, apontada pelas adolescentes na discussão grupal, relacionou-se aos castigos que os pais imprimem diferentemente às meninas e aos meninos, fazendo, por meio disso, um controle diferenciado à liberdade das mulheres e mais agressividade para com os homens.

Tipo, meu irmão, ele incomoda, incomoda, e minha mãe só xinga, mas se eu faço isso, não posso sair. (Rapunzel)

Acho que para a gente os castigos são mais ligados em outras coisas, não poder ficar acordada de madrugada, no telefone, no computador, não sei… (Branca de Neve)

Eu não gosto de ter que ficar em casa; é um castigo ficar em casa. (Fiona)

Elas indicam outra diferença nas relações entre o feminino e o masculino relativa às ocupações diárias, em que os meninos têm mais opções de atividades.

Porque com os guris não adianta, tudo que eles fazem está bom, se sair na rua está legal! Se ficarem jogando futebol, tá legal. Se proibir de jogar futebol… vão achar outra coisa para fazer… As gurias... não, não tem tanta coisa para fazer quanto os meninos. (Cinderela)

Ao longo do debate grupal, em diferentes momentos, se pôde perceber que existem imposições dos seus familiares sobre o que pode e o que não pode ser feito pelas mulheres.
Sempre falam que tu não pode fazer isso porque tu é guria, não pode namorar porque tu é guria, não pode sair sozinha porque tu é guria. Ah! É uma droga! (Bela)

Ele (irmão) tem a minha idade, quatro meses mais velho que eu só, mas mesmo assim ele tem mais liberdade que eu, pode fazer o que ele quiser, e eu não. (Fiona)

Os meus irmãos podem jogar mais no computador que as meninas […] Quem decide é o pai. (Pocahontas)

Porque eles são mais fortes e daí a gente não pode nem chegar perto pra usar. (Cinderela)

Outro aspecto externado por elas foi a preocupação sobre o que “os outros” falam ou pensam sobre suas atitudes e comportamento:
[…] mesmo que a gente não faça nada de errado, depois os vizinhos ficam falando... (Bela)

[…] é melhor ser adolescente homem do que guria. Porque o homem pode sair lá, sair cá, depois não ficam falando deles. (Ariel) 

[…] colocam apelido, chamam de sabonete só porque está na rua… (Fiona)
E isso é errado, os guris também saem… (Pocahontas)

Quando questionadas sobre qual o motivo dessas diferenças e de onde surgiu isso, as participantes responderam que a sociedade é machista:

É porque a sociedade é assim! (Yasmin)
Porque o mundo é machista. (Bela)
É assim porque ele é menino e o mundo é machista, como já disseram. (Aurora)

Machista é assim: o guri sai e eles não dão bola, porque é guri, mas se a guria sai, eles ficam falando: “Aquela lá está sempre na rua…”. (Cinderela)

As adolescentes percebem a influência da mídia e dos preconceitos na visão que a sociedade tem sobre as mulheres.

Tem aquelas novelas antigas, sabe? Agora está passando ‘Gabriela’. Não sei se vocês olham, mas, tipo, o trabalho da mulher é cuidar do homem, da onde isso? Enquanto o homem podia ficar sem fazer nada, fazer o que ele quisesse… mas a mulher tinha que estar em casa cuidando das coisas dela e dele. Mas ele podia estar em qualquer lugar, porque os homens sabem se cuidar... (Rapunzel)

É, até hoje tem isso! (Branca de Neve)
Esses dias eu estava com minha família olhando televisão, daí meu tio falou pra mim que mulher só pode ter contato com o fogão: Mulher pra mim só vai cuidar de mim e do meu fogão’. Eu achei o cúmulo! (Ariel)

Que horror! É o cúmulo! (Cinderela)

 

DISCUSSÃO

Verificou-se nas falas das adolescentes a explicitação de tratamento diferente, nas famílias, para os filhos homens e para as filhas mulheres. Isso implicou na desvalorização da opinião dos pais em relação a suas vivências, no maior controle e regulação exercidos pelos pais às adolescentes, além da menor liberdade nas atividades diárias para elas.

Salienta-se que as questões de gênero e sexualidade são campos distintos e inter-relacionados, com um conjunto de ideias relativas à cultura compartilhada, a partir do qual os seres, nesse caso as adolescentes e seus pais, pautam suas ações e concepções de mundo, reproduzindo e recriando essas mesmas convenções(8), como foi visto na fala das adolescentes.

Assim, a sexualidade, largamente influenciada pelas relações de gênero, pode se converter em dilemas significativos para as mulheres adolescentes, que acabam tendo consequências nas suas escolhas e práticas relativas a cuidados com sua sexualidade, muitas vezes tornando-as mais vulneráveis simplesmente por uma questão de gênero(2).

Este estudo concorda com pesquisas da enfermagem em que todo adolescente traz consigo suas práticas, experiências, e seu exercício de sexualidade. Isso se fundamenta nas suas origens, de acordo com a classe social, história familiar, socialização, relações de igualdade e desigualdade vividas, partilhamento de preconceitos e hierarquização social, entre outros processos da subjetividade humana(9).

O grupo indicou que para as meninas os castigos são relacionados a mantê-las em casa, proibindo de fazer as coisas que elas gostam. Já para os meninos os castigos são mais violentos e agressivos.

Percebe-se que as adolescentes utilizam valores relativos a modelos de masculinidade, associando a violência e maiores possibilidades lúdicas aos homens. Ao mesmo tempo elas se sentem prejudicadas pelas sanções destinadas às mulheres. Esse achado assemelha-se ao de outro estudo da área da saúde, realizado com adolescentes mulheres(8).

Observou-se que atividades como namorar, passear sozinha e até mesmo passar mais tempo no computador foram sinalizadas como práticas em que os meninos têm maior liberdade. Percebeu-se também que os adolescentes são beneficiados em algumas atividades pelas diferenças de força física.

O comportamento diferenciado dos pais em relação à criação das filhas e filhos interfere diretamente na formação da sua identidade e na postura que eles assumem em relação à sexualidade. Essas manifestações e normas comportamentais dirigidas às mulheres adolescentes repercutem diretamente na compreensão e construção de sua sexualidade(3).

Para as adolescentes, as relações de gênero e sexualidade são construídas com possibilidades e espaços demarcados, que não se podem transgredir, sob a pena de serem pressionadas e censuradas. Um exemplo é o reforço desses estereótipos de masculinidade e feminilidade, que também foi encontrado em nosso estudo, em que o que é vivido pelas mulheres adolescentes como perdas, é visto como ganho para os homens adolescentes. Tais padrões socioculturais interferem diretamente no poder de decisão da mulher(2) .

Vale ressaltar que o reforço da desigualdade nas relações entre homens e mulheres dificulta e aumenta a vulnerabilidade destas quanto ao exercício seguro de sua sexualidade(8). Isto, pois, muitas delas sentem-se chateadas e relatam não buscar orientações dos pais quanto às suas dúvidas e medos referentes à sexualidade, permanecendo com as dúvidas ou fazendo o que acreditam ser o correto e se colocando, por vezes, em situações de maior vulnerabilidade.

Foi unânime no grupo o entendimento de que, mesmo quando elas não estão fazendo algo de errado ou fazem a mesma coisa que os meninos, suas atitudes vão gerar comentários maldosos na comunidade, porque elas são mulheres. As adolescentes ficam incomodadas com essas situações, mas não deixam de fazer o que elas acham que é certo, ou porque não veem maldade nas suas atitudes.

Percebe-se a ambivalência entre o que é normatizado e o que é praticado pelas adolescentes. Para as meninas, diferentemente dos meninos, o intercurso da sexualidade está associado ao controle de condutas, e aquelas que insistem em transgredir essa norma, deliberada e explicitamente, sofrem sanções sociais em função do controle moral do grupo, ficando, neste caso, “faladas” na vizinhança(8).

Vale refletir que é frequente que a sociedade recrimine os adolescentes por suas práticas sexuais ou comportamentais, enfatizando o sucesso dessas práticas quando ocorrem em outros extratos etários, ou seja, em grupos de adultos tais práticas são consideradas bem-sucedidas(10). Isso, de certa forma, modela o comportamento adolescente quando estes se espelham nos grupos adultos.

Concomitantemente, os controles e diferenças normativas se reproduzem entre adolescentes femininos e masculinos.

As adolescentes demonstravam ter entendimento de que as atitudes dos pais e vizinhos com elas não é algo isolado, mas sim reflexo de uma cultura, que elas definem como machista. Nota-se, nas falas, que a compreensão de machismo para as adolescentes tem relação com as condutas e possibilidades diferenciadas, além dos juízos que são feitos das mesmas atitudes realizadas por pessoas de sexos diferentes.

Depreende-se por meio deste estudo que a construção da sexualidade é compreendida na dimensão de gênero, destacando diferenças e semelhanças entre o masculino e o feminino, construídos social e culturalmente. Esses dados corroboram com estudo(11) que apresenta as práticas sexuais e sua organização social como vinculadas aos dispositivos de poder específicos a determinadas épocas e certas sociedades.

Nota-se, nessa abordagem, uma aproximação ao estudo de Foucault acerca da sexualidade, que mostra a existência da repressão à sexualidade ao longo da história por meio do foco de atenção sobre ela manipulado por meio de discursos, criando efeitos de poder, formas de saber e controle do prazer(12).

As adolescentes demonstraram indignação, revolta e se solidarizaram contra a forma com que as novelas abordam o papel da mulher na sociedade e sobre os comentários machistas expressos em suas famílias e grupo social. Elas entendem que a mulher não deve ser submissa ao marido, que tem os mesmos direitos e as mesmas condições de cuidar-se que o homem. Contudo, é perceptível que os valores patriarcais da sociedade tradicional e machista ainda são transmitidos a essas adolescentes dentro de suas próprias casas.

Algumas modificações históricas acerca da questão de gênero vêm se processando na sociedade atual no que se refere aos papéis masculino e feminino e à posição da mulher nesse cenário. Isso se percebe neste estudo a partir da atitude de indignação das adolescentes, em consonância a um estudo na área da enfermagem com adolescentes(13).

As atitudes preconceituosas dos pais e tios das adolescentes reforçam a construção de gênero que atribui valores de submissão feminina, postura recatada e cautelosa, além do controle sobre o corpo das mulheres, correspondendo a outro estudo dessa temática(13).

Nessa esteira de pensamento, acredita-se que as adolescentes precisam ser empoderados a viver seus relacionamentos conscientes de que estão sendo observadas e que a sociedade impõe condutas estereotipadas. E que as questões de sexualidade e gênero imprimem normas, valores, percepções, representações que permeiam a vida do sujeito, legitimando sua identidade e influenciando no comportamento dos indivíduos. Nesse sentido, identidade de gênero é uma questão de aprendizado e trabalho contínuo, e não simplesmente um espaço de diferenciação biológica(14).

Pensa-se, nessa direção, ser necessário empreender esforços nas ações de educação em saúde junto aos adolescentes, como importante estratégia profissional, em espaços dialógicos de construção e troca de conhecimentos, embasadas no respeito e dignidade para acolher e estabelecer o vínculo verdadeiro e sem preconceitos com as adolescentes(15).Tais ações devem considerar a liberdade, o direito de ser e a responsabilidade da vivência sexual, auxiliando-os na formação de uma consciência crítica sobre o assunto.

 

CONCLUSÃO

Clarifica-se a compreensão das adolescentes em relação à sua sexualidade, sua condição como mulheres e ao tratamento desta pelos pais e a sociedade. Encontrou-se neste estudo grande influência das questões de gênero na sexualidade, uma vez que ambas são construídas desde a socialização primária dos indivíduos e estão fortemente embasadas em valores que são culturalmente impingidos diferentemente às mulheres e aos homens. Confirmou-se que as adolescentes trazem suas práticas fundamentadas nas suas origens socioculturais, bem como nas relações de desigualdades, preconceitos e hierarquização social. 

Dentre os desafios desta pesquisa, destaca-se o comprometimento com a metodologia de coleta de dados. Trabalhar com grupos é sempre um desafio, é surpreendente e inovador, porém, quando se trata de pesquisa em saúde, da rigorosidade dos métodos científicos, é muito difícil afastar a enfermeira da pesquisadora, e por vezes na realização dos grupos focais isso era necessário.

Nessa direção, abre-se um amplo espectro de ação aos profissionais da saúde, no esclarecimento de dúvidas e orientação aos adolescentes; nas possibilidades de espaços de discussão e troca de conhecimentos condizentes às suas dificuldades e contextos, a fim de qualificar a vivência da sexualidade na adolescência, e consequentemente na vida adulta, de maneira mais saudável, responsável, confiante e segura.

Ao investigar a adolescência feminina, não se encontram receitas prontas, mas sim caminhos que podem ou não servir, uma vez que, mesmo quando um grupo está sob efeito das mesmas situações culturais, cada ser humano responde às demandas e oportunidades da vida de modo único e de uma forma muito pessoal.

As implicações deste estudo para a enfermagem são relativas à essência da profissão, que é o cuidado. Uma vez que, ao assistir e educar as adolescentes, o enfermeiro deve estar atento aos significados e percepções que essas adolescentes têm acerca de seu papel social como mulheres e dos sentimentos e comportamentos em relação à sua sexualidade. É somente com essa visão holística que o enfermeiro prestará um cuidado humanizado.

 

REFERÊNCIAS

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2. Vargens OMC, Rangel TSA. Reflective analysis on the social aspects of HIV/AIDS: feminization, discrimination and stigma. Online Braz. J. Nurs. [ internet ]. 2012 April; [ acesso em 2013 jan 11 ] 18:[ about ## p. ].  Available from: http://www.objnursing.uff.br/index.php/nursing/article/view/3531

3. Ressel LB, Junges CF, Sehnem GD, Sanfelice C. A influência da família na vivência da sexualidade de mulheres adolescente. Esc Anna Nery (impr.). 2011 Abr; 15(2):245-250.

4. Fonseca AD, Gomes VLO, Teixeira KC. Percepção de adolescentes sobre uma ação educativa em orientação sexual realizada por acadêmicos(as) de enfermagem. Esc. Anna Nery (impr.).   2010 abr/jun; 14(2):330-337.

5. Minayo MCS. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 12 ed. São Paulo: Hucitec-Abrasco, 2010.

6. Mazza VA, Melo NSFO, Chiesa AM. O grupo focal como técnica de coleta de dados na pesquisa qualitativa: relato de experiência. Cogitare Enferm. 2009 Jan; 14(1): 183-8.

7. Ressel LB, Beck CLC, Gualda DMR, Hoffmann IC, Silva RM, Sehnem GD. O uso do grupo focal em pesquisa qualitativa. Texto Contexto Enferm, Florianópolis, 2008 Out-Dez; 17(4): 779-86.

8. Taquette SR, Meirelles ZV. Convenções de gênero e sexualidade na vulnerabilidade às DSTs/ AIDS de adolescentes femininas. Adolesc. Saude. Rio de Janeiro. 2012 jul; 9(3): 56- 64.

9. Ressel LB, Sehnem GD, Junges CF, Hoffmam IC, Landerdahl MC. Representações culturais de saúde, doença e vulnerabilidade sob a ótica de mulheres adolescentes. Esc. Anna Nery Rev. Enferm. Rio de Janeiro; 2009 jul/set; 13(3): 552-7.

10. Coutinho MFG. Sexualidade na Adolescência. In: Pinto JAB, Cunha JB, Liberal EF, Vaconcelos MM. (Org.). Saúde Escolar. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 1:97-102. 2012.

11. Ressel LB, Budó MLD, Junges CF, Sehnem GD, Hoffmann IC, Büttenbender  E. The meaning of sexuality in nurse education. Journal of Nursing UFPE. Rio Grande do Sul. 2010;4(2).

12. Ribeiro MO. A sexualidade segundo Michel Foucault: uma contribuição para a enfermagem. Rev.Esc.Enf.USP. 1999 dez.; 33(4): 358-63.

13. Baggio MA, Carvalho JN, Backes MTS, et al. Significado do papel masculino/feminino para adolescentes. Esc Anna Nery. 2009 Out; 13 (4): 872-78.

14. Moura LBA, Reis PED, Faustino AM, Guilhem D, Bampi LNS, Martins G. Vivências de violência experimentadas por mulheres do distrito federal: estudo descritivo.  Online braz. J. nurs. [ periódico na Internet ]. 2011 set-dez [ cited  jan 11 2013 ] 10(3): [ about ## p. ]. Available from: http://www.objnursing.uff.br/index.php/nursing/article/view/3534

15. Brasil EGM, Queiroz MVO, Cunha JMH. Receptiveness to the teenager in nursing consultation – a qualitative study. Online braz. J. nurs.  [ periódico na Internet ]. 2012 Aug[ acesso em 2013 jan 11 ] 11(2):[ about ## p. ]. Available from: http://www.objnursing.uff.br/index.php/nursing/article/view/3752

 

 

Todos os autores participaram das fases dessa publicação em uma ou mais etapas a seguir, de acordo com as recomendações do International Committe of Medical Journal Editors (ICMJE, 2013): (a) participação substancial na concepção ou confecção do manuscrito ou da coleta, análise ou interpretação dos dados; (b) elaboração do trabalho ou realização de revisão crítica do conteúdo intelectual; (c) aprovação da versão submetida. Todos os autores declaram para os devidos fins que são de suas responsabilidades o conteúdo relacionado a todos os aspectos do manuscrito submetido ao OBJN. Garantem que as questões relacionadas com a exatidão ou integridade de qualquer parte do artigo foram devidamente investigadas e resolvidas. Eximindo, portanto o OBJN de qualquer participação solidária em eventuais imbróglios sobre a materia em apreço. Todos os autores declaram que não possuem conflito de interesses, seja de ordem financeira ou de relacionamento, que influencie a redação e/ou interpretação dos achados. Essa declaração foi assinada digitalmente por todos os autores conforme recomendação do ICMJE, cujo modelo está disponível em http://www.objnursing.uff.br/normas/DUDE_final_13-06-2013.pdf

 

 

Recebido: 27/02/2013
Revisado:25/08/2013
Aprovado: 20/03/2014





 

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