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ARTIGOS ORIGINAIS

 

Amamentação como prática valorativa no saber fazer: estudo descritivo

 

Valdecyr Herdy Alves1, Diego Pereira Rodrigues1, Bruno Augusto Corrêa Cabrita1, Bianca Dargam Gomes Vieira1, Maria Bertilla Lutterbach Riker Branco1, Angela Mitrano Perazzini de Sá2

1Universidade Federal Fluminense
2Secretaria Municipal de Saude do Rio de Janeiro

 


RESUMO
Objetivo: analisar a dimensão axiológica dos enfermeiros acerca da amamentação e seus reflexos junto às nutrizes, no processo de transmissão de conhecimento.
Método: estudo descritivo, qualitativo, do qual participaram onze enfermeiros da Iniciativa Unidade Básica Amiga da Amamentação do Rio de Janeiro. Dados coletados por entrevista semiestruturada, entre janeiro/março de 2010, gerando categorias articuladas com a Teoria dos Valores de Max Scheler.
Resultado: Emergiram as categorias: o vínculo afetivo como valor para o sucesso da amamentação; a amamentação como valor nutricional e de proteção para a criança.
Discussão: Pensar no vínculo valorativo do ato de amamentar e o vínculo com valor de segurança alimentar é também pensar no amor e afeto que, na concepção Scheleriana, é absolutamente original.
Conclusão: a valoração da mulher como sujeito é extremamente resgatada em relação à amamentação, como preconizam as políticas públicas na linha de cuidado à mulher.
Descritores: Enfermagem; Valores Sociais; Leite Humano; Amamentação.


INTRODUÇÃO

O ato de amamentar é milenar, sem custo e essencial para o ser humano. Este momento não é apenas determinado por aspetos naturais e biológicos, mas também construído pelo cotidiano das famílias, nos seus ambientes sociais e culturais(1). Isto quer dizer que a amamentação assume diferentes conotações conforme as várias culturas, fazendo com que sua prática seja um hábito relacionado com os determinantes sociais e as manifestações culturais, e que sofre influência das mesmas concepções e valores assinalados no processo de socialização da mulher(2). Então, indaga-se: o que é amamentar? Qual o significado do aleitamento materno?

Amamentar é dar de mamar; criar ao peito; aleitar; lactar; alimentar, nutrir. Já aleitamento é sinônimo de amamentação, sob o ponto de vista da sua definição, revestido da mesma conotação funcional do aleitar ou criar o filho com o leite que produz. Portanto, o significado de ambas as palavras não fica restrito ao aspecto puramente biológico da ação; ao contrário, ultrapassa-o por traduzir as emoções que envolvem o relacionamento da mulher com o seu filho, a família e o mundo que os cerca(3).

Em levantamento realizado pelo Ministério da Saúde (MS) em todas as capitais brasileiras e no Distrito Federal, somando informações de cerca de 34.366 crianças, se constatou que o tempo médio de aleitamento materno aumentou nas capitais e no Distrito Federal, passando de 296 dias, em 1999, para 342 dias, em 2008. No mesmo período e locais, a duração mediana do tempo de aleitamento materno exclusivo alcançou 51,1 dias (1,8 meses), enquanto que a prática do aleitamento materno complementado por outros alimentos foi de 341,6 dias (11,2 meses)(4).

A prática do aleitamento materno é inicialmente implementada na primeira hora de nascimento e incentivada durante o período puerperal, porém, em muitas situações, é causadora de medo, insegurança, conflitos, ansiedade, desconforto físico e até mesmo de depressão para a mulher nutriz, qual pode adotar o aleitamento materno complementar e/ou artificial, prejudicando o processo de amamentação(5).

O incremento do tempo médio do aleitamento materno nas capitais brasileiras deve-se, em grande parte, ao Programa Nacional de Incentivo ao Aleitamento Materno, criado em 1981 pelo citado órgão governamental, conjugando ações multissetoriais, principalmente nas áreas de comunicação social, assistência à saúde e legislação(6). Todavia, os índices alcançados ainda estão bem distantes das recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS) e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), que propõem o aleitamento materno exclusivo por seis meses e o aleitamento materno complementado pelos alimentos da família, até os dois anos de idade ou mais(7).

A estratégia da Iniciativa do Hospital Amigo da Criança (IHAC) preconiza a implementação dos dez passos para o sucesso do aleitamento materno, entre os quais se destaca o passo cinco o qual indica que se deve mostrar às mães como amamentar e manter a lactação, mesmo se vierem a ser separadas dos seus filhos, medida que vai ao encontro do manejo clínico da amamentação, ajudando a quarta meta dos objetivos do milênio para a redução da mortalidade infantil(8).

Nesse sentido, a fim de estimular e instrumentalizar a rede básica de saúde para implantar um conjunto de procedimentos de promoção, proteção e apoio ao aleitamento materno nos serviços da rede de saúde primária, a Secretaria Municipal de Saúde e Defesa Civil do Rio de Janeiro (SMSDC-RJ), em 1999, implantou, de forma pioneira, a Iniciativa Unidade Básica Amiga da Amamentação (IUBAAM) em onze unidades básicas de saúde. Destaca-se, porém, que na capital do estado, no ano de 2009, houve prevalência de 40,7% para o aleitamento materno exclusivo e de 58,3% para o aleitamento materno(9).

Estes números estão abaixo do esperado para a amamentação no município do Rio de Janeiro, onde o manejo clínico da amamentação é instituído como protocolo na assistência à mulher, cabendo à IUBAAM tornar o aleitamento materno uma prática universal, e contribuindo significativamente para a saúde e o bem estar das nutrizes e os bebês.

Nesse contexto, precisa-se entender que o processo de valoração da amamentação, pertinente a mulher, permite compreendê-la em sua essência, existência e valor, pois, os valores condicionam a existência humana como evoca Scheler. O fundamento da axiologia Scheleriana objetiva os valores, cujo princípio apriorístico material os considera como objetos constituídos de essência não formais, ou seja, a existência precede a existência do ser(10). Nesse sentido, os valores atribuídos do aleitamento materno pelas enfermeiras atuante nessa prática permitem a compreensão da sua existência em sua prática profissional.

Diante do exposto, e para contemplar, no presente estudo, os múltiplos aspectos que envolvem a prática do cuidado ao aleitamento materno, estabeleceu-se o seguinte objetivo: analisar a dimensão axiológica dos enfermeiros acerca da amamentação e seus reflexos junto às nutrizes, no processo de transmissão de conhecimento.

 

MÉTODO

Estudo de cunho social, descritivo, com abordagem qualitativa, visando à valoração de dados subjetivos acerca da amamentação. A investigação foi realizada após apreciação e aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da SMSDC/RJ, sob protocolo 62/09, de 20 de dezembro de 2009, conforme prevê a Resolução 466/12 do Conselho Nacional de Saúde(11).

A pesquisa foi desenvolvida em onze Unidades Básicas Amigas da Amamentação, localizadas no município do Rio de Janeiro, todas dotadas de área física denominada sala de amamentação para o atendimento da mulher, do bebê e da família, consideradas unidades de referência para o acompanhamento especializado da mãe e do seu filho no que diz respeito ao aleitamento materno.

O critério de inclusão dos sujeitos foi: enfermeiros atuantes no Programa de Aleitamento Materno da IUBAAMA. A fim de atender a esse critério, a amostra do estudo foi composta por onze (11) enfermeiras. Todas assinaram voluntariamente o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, sendo o anonimato e o sigilo das informações, confirmado com a utilização de um código alfa-numérico (E1...E11) na análise e discussão dos dados. O critério de exclusão adotado foi ser enfermeiro com atuação no setor inferior a seis meses. Isto, pois, considerou-se este período como insuficiente para aquisição de experiência em relação às rotinas do setor, sobretudo porque o treinamento para atuação no setor tem duração de seis meses.

A entrevista semiestruturada individual foi escolhida como técnica para a coleta de dados a qual se deu durante o período entre os meses de janeiro e março de 2010, nas unidades de trabalho dos sujeitos.
As entrevistas foram gravadas em fita magnética, transcritas pelos pesquisadores e validadas pelas entrevistadas.

A construção dos dados qualitativos, assim como das categorias temáticas, foi baseada em Bardin(12) e a análise temática tomou como referencial a Teoria de valores de Max Scheler(10). Isto possibilitou discutir e estabelecer o ponto de vista dos entrevistados a fim de se alcançar o objetivo do estudo. Da análise emergiram duas categorias temáticas, a saber: O vínculo afetivo como valor para o sucesso da amamentação e; e a amamentação como valor nutricional e de proteção para a criança.

 

RESULTADOS

Categorização dos sujeitos da pesquisa

Entrevistaram-se onze profissionais do sexo feminino, na faixa etária entre 35 e 45 anos (72%), e entre 11-15 anos (72,7%) de experiência profissional.

Quanto ao ano de conclusão do curso, constatou-se ser superior a 10 anos (66,6%), tempo suficiente para possibilitar que se adequassem às mudanças advindas do vertiginoso desenvolvimento técnico-científico.

Evidenciou-se que todas as entrevistadas havia concluído curso de capacitação na temática do aleitamento materno, nos últimos cinco anos, resultando numa perspectiva positiva para a assistência pautada no conhecimento científico para a qualidade da atenção à saúde da mulher, do bebê e da família nas questões do manejo clínico da amamentação.

O vínculo afetivo como valor para o sucesso da amamentação

A partir das falas das enfermeiras, evidenciou-se que a prática do aleitamento materno promove o fenômeno autêntico do vínculo entre a mulher-nutriz e o filho no ato de amamentar. Esse pensamento reflete no recorte dos depoimentos a seguir:

(...) Para iniciar minhas orientações, percebo se há vínculo, pois sei que quando o vínculo da mãe com o bebê acontece, tudo fica mais fácil, a amamentação ocorre melhor. Mas quando não tem, ou a família também não tem vínculo, tudo fica mais difícil. (E8)

(...) Influencio na necessidade da amamentação, pois permite a criação do vínculo entre a mãe e o filho, ficando mais fácil. (E5)

Observa-se que as enfermeiras têm consciência do valor do vínculo que o ato de amamentar contém. Assim sendo, sustenta a valoração do seu discurso de esclarecimento às mães, articulando-o aos significados inseridos no valor afetivo que a mulher nutriz já traz em si, de forma a envolvê-la e obter dela o pleno interesse pela questão. Seguem-se recortes de discursos das entrevistadas acerca da importância do vínculo afetivo para o sucesso da amamentação:

(...) Isso é um processo de construção [do vínculo], isso é construído, não depende só de nós. (E1)

(...) Eu falo que é só ter muito carinho e amor na família que tudo fica mais tranquilo. O vínculo é construído na família. (E3)

(...) Sempre digo: a amamentação deve ser construída desde o pré-natal até o puerpério. Nestas etapas é que podemos e devemos trabalhar o vínculo, tudo fica mais fácil. (E9)

A amamentação como valor nutricional e de proteção para a criança

Nessa categoria, destacam-se os valores vitais de sobrevivência, crescimento e desenvolvimento a partir do entendimento de que o aleitamento materno da nutriz promove alimento, saúde e proteção ao seu filho.

(...) O leite materno é seguro, está pronto, a mulher não tem que fazer nada, é só tirar o peito e dar, quer coisa melhor? E ainda é uma vacina. (E2)

(...) Amamentar é a primeira segurança alimentar do bebê, pois é rico em tudo que ele precisa, não falta nada, tem minerais, proteínas, ferro, água, IGG, IGM, enfim, tem tudo que ele necessita, certo? (E6)

(...) Falam que o leite materno é bom. Eu oriento que o leite materno é o melhor alimento, é um liquído vivo, com tudo que o bebê necessita. (E7)

Constatou-se que as enfermeiras divulgam a segurança alimentar do leite materno para o bebê, procurando transmiti-la às mães ao prestar-lhes esclarecimentos acerca do aleitamento. O discurso que lhes apresentam desvela o valor nutricional do leite materno: bom para o estado físico e psíquico, garantido ao bebê através do aleitar em livre demanda, sempre que possível.

(...) O bebê alimentado ao seio materno em livre demanda até os seis meses, tem mais segurança, porque não fica doente fácil, o leite tem os nutrientes adequado para seu crescimento, desenvolvimento, isso é real. (E8)

(...) O aleitamento materno é uma segurança alimentar (...) é um alimento vivo, diferente, quando a mãe necessita preparar as fórmulas infantis, quem garante se a água é potável? (E11)

Assim, os discursos a seguir valoram o instituído pelo modelo biológico, que também está presente nos cenários em que as enfermeiras vivem e laboram.

(...) O aleitamento materno tem o menor custo, vem pronto e na quantidade ideal, e tem tudo que ele [bebê] precisa; é uma alimentação saudável. (E1)

(...) O bebê tem todas as vantagens no leite materno, quando a mãe oferece em livre demanda. Isso favorece ao bebê que ele receba todos os nutrientes necessário para ficar forte e bonitão, com imunidade contra algumas doenças. (E10)

(...) Tanto mulheres de um poder econômica melhor quanto as mulher com menos dinheiro, seus bebês são beneficiados com o leite materno, (...) sabemos que a imunidade é a base do bebê saudável (...) não adianta dar fórmula, hoje temos criança com obesidade mórbida, isso é sério. (E5)

 

DISCUSSÃO

Na primeira categoria,o vínculo afetivo como valor para o sucesso da amamentação” analisa-se que, a amamentação é um fenômeno autêntico do vínculo, pelo fato de se poder perceber, afetivamente, os sentimentos dos outros, sem vivê-los realmente. Esta percepção é a condição primeira e fundamental do amor. É nesse sentido que o amor é criado, pois busca e descobre valores que, de outra forma, permaneceriam ocultos(10). Pressupõe o desejo de que o ser amado realize o seu próprio ser para alcançar a plenitude do valor que encarna. 

Ao refletir sobre a questão do vínculo como valor imbricado no ato de amamentar, infere-se que essa valoração corresponde à experiência fundante de um ser vivente, pois o homem é um ser valorativo engajado no seu existir. E como o amamentar perpassa por este vínculo, deduz-se que tal afetividade está diretamente ligada ao valor afetivo, pois a relação mãe nutriz e filho é uma vivência própria, única, do ser humano, originária da relação que o aleitamento proporciona.

Pensar no vínculo valorativo do ato de amamentar é também pensar no amor que, na concepção Scheleriana, é absolutamente original. Nesse sentido, o amor é algo essencialmente dinâmico, voltado para o outro enquanto portador de um valor único e exclusivo. Este é o seu verdadeiro objeto; além disso, o amor é espontâneo(10).

O aleitamento no peito é uma das provas de amor da mãe pelo filho, pois engendra grandes sentimentos de prazer(13). Nesta mesma linha de pensamento, o aleitamento deve ser considerado também como estratégia fundamental para o desenvolvimento do apego entre mãe e filho(14).

Entretanto, a noção de que o valor deste vínculo consiste em compreender que o outro, na sua individualidade e na sua diferença, é um ser a preferir amamentar ou não sua cria; portanto, é o reconhecimento sem reservas da realidade e do valor do modo de ser do outro.

O entendimento e a aceitação da importância da amamentação pode representar para as mães uma abertura de caminhos para novas reflexões e atitudes diante da vida. Daí a importância de que o discurso do enfermeiro contemple a questão afetiva, porque a decisão de amamentar o filho é um ato de amor em si, que precisa ser apreendido na sua essência pela mulher nutriz, e interpretado por ela como uma das muitas maneiras de expressar o amor materno ao recém nascido.

Percebe-se claramente nos discursos, que as palavras das enfermeiras remetem ao ato de amamentar, valorando o afeto e a criação do vínculo afetivo. Assim, a palavra mediadora da inter-relação entre mulher nutriz e amamentação faz das enfermeiras interlocutores de um acontecimento real - a amamentação.

A prática do aleitamento materno sob livre demanda deve ser orientada e incentivada, como preconizada pelo Ministério da Saúde(14), durante a gestação e após o nascimento porque garante a manutenção do vínculo mãe e filho.

Nesse sentido, é importante mencionar a importância da disponibilidade do enfermeiro junto à mulher nutriz, e a necessidade de uma comunicação simples e objetiva durante a orientação, o incentivo e o apoio ao aleitamento materno.

O enfermeiro deve orientar quanto às diversas posições de amamentar, o relaxamento e o posicionamento confortável da mulher, explicar a fonte dos reflexos da criança e mostrar como isso pode ser usado para ajudar na sucção.

Diante do exposto, torna-se evidente que o enfermeiro, ao atuar junto à mulher nutriz, deve valorar não só a amamentação, como também seus efeitos positivos, visando estabelecer um vínculo afetivo entre mãe e filho pleno de significados que, sem dúvida, repercutirão beneficamente no futuro de ambos. Não se trata, pois, da mera contemplação imanente de um objeto dado, mas supõe o desejado: que o amamentar transcenda os seus conhecimentos técnicos e científicos e alcance o outro (a mulher nutriz) na plenitude do exercício de um valor vital (o amamentar).

Na segunda categoria, “a amamentação como valor nutricional e de proteção para a criança” pondera-se que o ato de amamentar permeia os valores vitais, que são universais. Todos nós necessitamos de alimento, saúde e proteção, entendidos como elementos básicos para a sobrevivência(10). No que se refere à prática alimentar, considerada um valor vital, é almejada por todas as sociedades que, para tanto, ratificam costumes e conceitos de vida que possam garanti-la, um dos quais é o aleitamento materno, reconhecido por seus benefícios nutricionais para a criança.

Os profissionais que atuam diretamente ou indiretamente na área materno-infantil reconhecem unanimemente a superioridade do leite materno para o bebê em detrimento do leite artificial, por conter proteínas, água, açúcar e vitaminas em proporções equilibradas, que tornam mais fácil a sua digestão e assimilação pelo recém-nascido, aspectos já referidos no presente estudo(15). Este equilíbrio facilita sua absorção, tornando-se uma das razões pelas quais a criança amamentada no peito alimenta-se mais e melhor do que aquela cuja mãe se utiliza do leite artificial.

Estudiosos do assunto destacam o valor da segurança alimentar do leite materno para o bebê e para a mãe(14), que os enfermeiros compartilham e divulgam em seus discursos. Como profissionais atuantes na área materno-infantil, ratificamos o valor conferido à amamentação, todavia, é preciso ressaltar que a valoração é um processo pontual que envolve um fato em um determinado espaço de tempo. Então, se a amamentação tem o seu valor para a saúde nutricional do bebê, o valor da segurança alimentar enfatizado pelos enfermeiros junto às mães, apresenta-se com autonomia, pois sempre valeu e valerá a busca da saúde como um valor superior.

O ato de amamentar é um fenômeno natural e cientificamente comprovado em relação às suas vantagens para o bebê. Seu valor nutricional vem sendo transmitido às mulheres de geração em geração, aguçando-lhes a percepção em relação ao assunto. Nas palavras das enfermeiras está implícito que o discurso não tem como função constituir a representação fiel de uma realidade, mas assegurar a permanência de certa representação(16).

Como referido, a valorização da amamentação é determinada por crenças e valores que a mulher tem em relação aos atributos nutricionais do leite, que influem na atitude que ela adota frente à amamentação e à sua disposição em amamentar. É importante lembrar que apenas a informação não basta para que as mulheres tenham sucesso em sua experiência de amamentar, ou fiquem motivadas a fazê-lo. Além disso, a mulher nutriz leva em consideração um processo multidimensional, que incorpora várias facetas da realidade vivenciada por ela, principalmente relacionadas a aspectos individuais, como a percepção e o sentimento acerca da amamentação(17), que certamente influenciarão na sua decisão de aleitar ou não, independentemente do seu julgamento no que se refere à segurança alimentar propiciada pelo leite humano(18).

Os discursos dos depoimentos perpassam pelo reencontro do solo imaginário dos atos do sujeito - como consciência, sendo fonte daquilo que determina na realidade, o sujeito como tal se apresenta(19).

Dessa forma, a experiência de amamentar é percebida pela mulher não somente como a ação de garantir a nutrição do recém-nascido, estabelecida num contexto centrado na interação com seu filho, mas também como um processo que se expande e se reflete nas demais interações de sua vida pessoal, fazendo com que suas percepções sofram modificações, num constante movimento, ao longo do curso dessa vivência (20).

Assim, infere-se que, como profissionais da saúde habilitados a atuar junto às mulheres -mães no processo da amamentação, os enfermeiros devem considerar todos os aspectos, pessoais, sociais e biológicos, e serem capazes de reafirmar os valores intrínsecos do aleitamento materno.

Os profissionais percebem a mãe, o bebê e a família como partes integrantes do processo de amamentação em toda sua amplitude e abrangência, tornando o discurso adequado com a realidade, ao falar sobre a segurança alimentar que o leite materno confere ao bebê, incentivando-as a amamentarem.

 

CONCLUSÃO

Os enfermeiros que atuam junto às gestantes, puérperas e nutrizes, valoram a amamentação como prática de cuidado. Nesse sentido, asseguram sua presença profissional nas unidades de saúde, onde seus valores pessoais e profissionais emergem e instituem marcas no processo de cuidar, pautados nos aspectos biológico, cultural e social do fenômeno da amamentação. Nesse contexto, institui valores vivenciados no cotidiano em relação ao aleitamento, resultantes de saberes e culturas pessoais e coletivas, que integram a praxis do cuidado, passando a divulgar os benefícios da amamentação para a mulher, criança e família.

Nessa perspectiva, o estudo aponta que os enfermeiros valorizam as mulheres, sujeito de direito, cuja cultura precisa ser respeitada e até resgatada, tornando-se este o ponto de partida de todas as iniciativas do cuidado à mulher, em especial no que se refere ao cuidado à amamentação como preconizadas pelas políticas públicas vigentes.

A amamentação antes de ser concebida, deve ser vivenciada, referindo-se ao existir concreto e histórico da mulher nutriz sob os cuidados dos enfermeiros nas salas de amamentação das unidades de saúde. Isto permite inferir que a amamentação é um valor em si; e no que se refere ao vínculo entre mãe e bebê, sendo percebido como um caminho para o sucesso da amamentação.

Neste sentido, afirma-se que no espaço oficial destinado aos cuidados de enfermagem nas unidades com o título de Iniciativa Unidade Básica Amiga da Amamentação da cidade do Rio de Janeiro, os discursos das enfermeiras fizeram emergir a dimensão valorativa das orientações e esclarecimentos da amamentação junto às nutrizes, confirmando a expressão cotidiana do saber-fazer em enfermagem e da possibilidade do sucesso da amamentação, não só por se tratar de um valor em si mesmo, simbolizando proteção e segurança para a criança, como também por se constituir em fenômeno pleno de inegável e reconhecido valor social.

 

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Recebido: 19/01/2013
Revisado: 01/12/2013
Aprovado:  02/12/2013





 

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