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ARTIGOS ORIGINAIS

 

 

Percepções de docentes sobre sua corporeidade no ensino de enfermagem: estudo fenomenológico

 

 

Dolores Ferreira de Melo Lopes1, Miriam Aparecida Barbosa Merighi2, Maria Cristina Pinto de jesus3, Mara Lúcia Garanhani1, Alexandrina Aparecida Maciel Cardeli1, Maria Elisa Wotzasek Cestari1

1Universidade Estadual de Londrina
2Universidade de São Paulo
3Universidade Federal de Juiz de Fora

 


RESUMO

O tema corporeidade é atributo significativo na formação em enfermagem, pois trata do ensino do cuidado humano. Objetivo: Compreender como a docente de enfermagem percebe seu corpo na atuação profissional. Método: Estudo qualitativo, fundamentado no referencial filosófico de Merleau-Ponty, realizado em 2009, com dez docentes de enfermagem de uma universidade pública do Estado do Paraná. Resultado: A docente de enfermagem demonstra consciência do corpo na prática pedagógica, além dos aspectos biológicos. Atribui ao corpo significados como facilitador de relações interpessoais e como instrumento de ensino, que repercutem na aprendizagem teórica e prática, ao mesmo tempo em que percebe a repercussão do processo de trabalho sobre sua vida e seu corpo. Conclusão: Reconhecer-se como corporeidade e compreender sua relação, no ambiente da profissão, possibilitará um fazer pedagógico, propiciando melhor interação docente-aluno, docente-docente e docente-equipe de saúde e facilitando o conhecimento de si e de suas relações interpessoais nas atividades profissionais.
Palavras-chave: Educação em enfermagem; Docentes; Pesquisa qualitativa.


 

INTRODUÇÃO

O corpo é o veículo do ser no mundo. Este corpo percebe e é percebido e, mediante esta percepção, volta-se para o mundo e o conhece, convive e relaciona-se com outros corpos, atribui significados aos fenômenos vivenciados e tem uma percepção recíproca do outrem, e vice-versa, em um movimento constante de comunicação(1).

A corporeidade é o corpo envolvido no mundo, relacionando-se com os seres e as coisas. É um processo vivo não confinado aos seus limites físicos, mas, aberto para o mundo(2). Em todas as situações existenciais a corporeidade faz-se presente. Mesmo diante das diferentes concepções e formas de ver o corpo, oriundas de diversas culturas e segmentos sociais, o ser humano continua utilizando-a para coexistir consigo mesmo, com o mundo e com as outras pessoas(3).

O ato educativo constitui-se em um acontecimento que se processa nos corpos permeados por desejos e necessidades, que não podem ser controlados pela disciplina curricular, e é parte da relação estabelecida no ensino e na aprendizagem(4). O corpo fala pela postura, pelos olhos, pelo tom de voz e pelo sorriso, ou seja, utiliza-se de todas as dimensões sensoriais nas relações interpessoais(1).

Na área de saúde o ensino da corporeidade docente é fundamental(5). Já na área de enfermagem os temas corpo e corporeidade são atributos significativos na formação no nível da graduação, uma vez que se trata do ensino do cuidado com seres humanos. A docente do ensino de graduação em enfermagem vivencia contextos diversos relacionados às questões do trabalho docente e do processo de saúde-doença dos sujeitos do cuidado utilizando-se de toda sua dimensão corporal. Comunica-se por meio de seu corpo expressando seus conhecimentos relacionados à Enfermagem. Nem sempre, o trabalho docente provoca alegria e realização. O envolvimento com as questões do processo de ensino e aprendizagem pode gerar sentimentos, assim como sofrimento e desgaste físico e mental(6).

Frente ao contexto apresentado as seguintes questões nortearam este estudo: a docente de enfermagem percebe seu corpo no desenvolvimento de suas atividades profissionais? Ela atribui significado a seu corpo no desempenho de seu trabalho? Como a docente percebe seu corpo no ensino de enfermagem?

Estas inquietações permitiram desenvolver este estudo com o objetivo de compreender como a docente de enfermagem percebe seu corpo na sua atuação profissional.

Os resultados dessa investigação poderão despertar o pensamento crítico e a reflexão teórico-prática circunscritos nas dimensões do ensino, da pesquisa e da assistência de enfermagem.

 

MÉTODO

Adotou-se a pesquisa qualitativa utilizando-se da abordagem fenomenológica existencial e das concepções filosóficas de Maurice Merleau-Ponty(1) que abordam conceitos como: espaço vivido (espacialidade), corpo vivido (corporeidade), tempo vivido (temporalidade) e relação humana vivida (relacionalidade) que compõem o campo existencial e a estrutura fundamental pela qual todos os seres humanos experienciam o mundo(7).

O método fenomenológico permite ao pesquisador ir além da objetividade da questão, considerando o mundo psíquico e o emocional. Possibilita a investigação do cotidiano para a compreensão da realidade concreta, descreve a estrutura total da experiência vivida e como os indivíduos se percebem nessas experiências(8).

Foram incluídas no estudo professoras que fazem parte do Curso de Graduação em Enfermagem de uma universidade pública do Estado do Paraná que, no período da coleta de dados, atuavam na função há, no mínimo, cinco anos, tempo que pressupõe a experiência docente.

A coleta dos dados foi realizada com 10 docentes do sexo feminino, nos meses de maio e junho de 2009, por meio de entrevista gravada, com duração de aproximadamente 40 minutos, em local de escolha das docentes. Os depoimentos foram identificados com a palavra “docente” e foram numerados de 1 a 10.

Após esclarecimentos sobre a pesquisa e aceite por parte da entrevistada, foi solicitada a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e utilizada a seguinte questão norteadora: como você percebe sua postura corporal ao realizar o ensino da Enfermagem?

A definição do número de entrevistas ocorreu no momento em que as inquietações dos pesquisadores foram respondidas e o objetivo do estudo alcançado.

Para a análise dos depoimentos foi utilizado o referencial fenomenológico de Josgriberg(9): leitura e releitura dos depoimentos para detecção das unidades de sentido e agrupamento das unidades similares (convergentes) que culminaram no tema “corporeidade e o exercício da docência”. A discussão do resultado foi realizada a partir do referencial teórico de Merleau Ponty(1) e referenciais sobre a temática.

O projeto foi avaliado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo e recebeu parecer favorável (Parecer nº 767/2008).

 

RESULTADOS

Corporeidade e o exercício da docência

A docente do Curso de Graduação em Enfermagem mostra que refletir sobre corpo e corporeidade não constitui uma rotina comum no dia a dia do mundo acadêmico:

] na verdade [...] a gente não pára para refletir [...] como é a questão do meu corpo como docente. (Docente 5)

 

Ao refletir sobre o corpo o primeiro destaque é para o corpo físico. A preocupação com o desenvolvimento das aptidões cognitivas se sobrepõe à percepção de sua corporeidade e o modo como essa corporeidade é utilizada na sua vida profissional:

] não sei se é porque na Enfermagem a gente valoriza muito a parte técnica [...] quando se pensa em corpo, vem primeiro na mente a parte física mesmo. (Docente 4)

 

Salienta a Enfermagem como uma profissão que exige muito do corpo físico do trabalhador e esta pode ser a razão deste ter sido destacado no momento de reflexão sobre o corpo vivido em sua integralidade. Contudo explicita que no desempenho da função acadêmica, seja em sala de aula ou nos campos de estágio, a docente utiliza-se não só de seu corpo físico, mas também do corpo vivido que compõe o cenário da Educação. Ambos os aspectos constituem um todo de significados e responsabilidades:

] eu não penso no corpo só em termos de corpo da mulher, vejo como um corpo físico, mas, que é também, o meu arcabouço para sustentar o mental, o físico e o espiritual. (Docente 1)
 

O corpo é evidenciado como possuidor de significados que expressa sentimentos, ideais, valores e crenças:

] o corpo tem o significado de quem você é [...] é o teu próprio significado, às vezes, você expressa o que você sente, acredita. Então o corpo é expressão das suas crenças e valores.  (Docente 8)

 

O corpo vivido foi lembrado como um facilitador de relações interpessoais que compõe o ensino e a aprendizagem:

] o meu corpo é a minha comunicação com os outros, com o doente e com o meu estudante. Então, eu vejo como ele é fundamental. (Docente 7)

 

A docente de enfermagem movimenta-se e comunica-se por meio de sua corporeidade, utilizando seu esquema corporal. Relata que se utiliza de vários recursos do corpo quando realiza as atividades de ensino:

] percebe como sua voz é instrumento? Na sala de aula eu percebo o corpo inteiro. (Docente 10)

] quando você conhece um pouco mais o estudante você consegue a comunicação corporal, o não verbal [...] que se mostra para você. (Docente 2)

 

O corpo é lembrado como instrumento de ensino que permite ao estudante observar comportamentos e atitudes do professor durante as atividades pedagógicas:

] o meu corpo é um instrumento na minha profissão, no ensino, como eu me dirijo para o doente, para uma pessoa que eu estou atendendo, a forma como eu me dirijo, o toque que faço, o cuidado que realizo. Eu acho que isso é ensino para o meu estudante. (Docente 7)

 

Ao refletir sobre sua corporeidade no ensino de enfermagem, a docente refere a sua trajetória no desempenho desta atividade. O início das atividades docentes mostrou-se cercado de medos, inseguranças e dificuldades, considerando a falta de experiência no ensino e o despreparo para a função:

] eu não tive nenhuma capacitação para ser docente (Docente 6).

] no início da vida profissional a gente tem limitações, pela própria inexperiência. (Docente 3)

 

Os primeiros contatos com o estudante, a responsabilidade por seu aprendizado e a dificuldade em lidar com a corporeidade foram motivos geradores de tensão emocional para a docente de enfermagem:

] no inicio, quando comecei a dar aula. O corpo físico era aquilo, não sabia onde colocava a mão [...] O meu corpo demonstrava basicamente a insegurança [...] será que vou dar conta da competência do conhecimento cientifico? E no relacionamento com os estudantes, no inicio, o corpo queria ficar um pouco mais para trás, deixando o outro na frente. (Docente 8)

 

A aprendizagem de como lidar com a corporeidade, no meio acadêmico, foi uma construção que ocorreu à medida que o tempo passou e a docente apropriou-se de seu papel de educadora. O tornar-se docente foi permeado por sofrimento:

] também acho que o estudante não tem que esperar um tempão para o professor se formar, porque ele está querendo aprender, mas no começo a gente sofre muito. (Docente 8)

 

Apesar de todas as dificuldades iniciais da carreira a docente mostra que houve crescimento no exercício da docência e que este é um processo contínuo:

] quando eu comecei aqui parece que eu não sabia nada, mas devagar a fui apreendendo. (Docente 4)

 

Verbaliza, ainda, que a vivência das várias funções que fazem parte do trabalho na universidade causam dificuldades:

] tem a parte administrativa que sempre está deixando a gente sobrecarregada; é nesse contexto que a gente vive. Porque somos submetidas a vários desgastes, de carga horária e responsabilidades. (Docente 8)

 

A produção intelectual do docente, a exigência quanto à realização de pesquisas e de educação permanente são consideradas aspectos desgastantes:

] porque, ao final, você tem que mostrar para a universidade ‘x’ produção. Só que para você alcançar esta produção tem que ter qualidade e, para ter qualidade, você tem que começar muito antes, tem que ter tempo e dedicação. Há também a exigência para a capacitação do docente [...] o doutorado tem que fazer; dar conta das atividades [...] Doutorado é obrigado na universidade, a gente é docente. (Docente 6)

 

Percebe a repercussão do processo de trabalho sobre sua vida e seu corpo:

] o cansaço físico e mental é muito grande. [...] porque no ano passado descobri que eu tinha triglicérides e colesterol alto e que eu tinha que fazer alguma atividade física. Eu já fazia, mas não era suficiente para dar conta de equilibrar, mas tudo isso por causa dos fatores estressantes do cotidiano. (Docente 6)

 

A docente vivencia uma situação de ambiguidade em relação às atividades do cotidiano profissional:

] eu gosto muito de ensinar. Isso, com certeza, eu sinto prazer em fazer. Mas, por outro lado, eu fico muito esgotada, é um esgotamento físico e mental muito grande. (Docente 6)
 

No conjunto de atividades, responsabilidades e funções a docente de enfermagem valoriza o trabalho educativo com o estudante e identifica a percepção deles em relação às suas atitudes:

] eles observam muito como eu trato o paciente, a minha postura mesmo, até o tom de voz, o acolhimento que eu faço, como eu cuido, como eu me cuido [...] (Docente 9)

 

Procura desenvolver seu papel de educadora da melhor maneira e coloca o estudante como o núcleo de sua intencionalidade:

] tentamos ajudar o estudante o máximo que a gente pode, no sentido de encaminhá-lo para ser um bom profissional [...] fazê-lo compreender o papel da Enfermagem na sociedade. (Docente 4)

 

Nas relações com o estudante conscientiza-se de que, em sua prática pedagógica, é necessário realizar ações de cuidado que contribuam para a formação do estudante:

] penso sobre qual é a minha contribuição na vida dele. (Docente 1)

Então, nessa relação de cuidar do estudante [...] suas necessidades [...] eu acho que o professor, de certa forma, cuida dele, é uma relação de cuidado. (Docente 9)

 

A intencionalidade de cuidar do estudante torna-se uma atitude que o ajuda a preparar-se, como cuidador de outros corpos, no mundo da saúde. Para efetivar as ações de cuidado, em relação ao estudante, a docente destaca a necessidade de proximidade, da criação de vínculos e da busca por esta proximidade:

] e uma coisa que, para mim, é muito importante e que eu valorizo, é você criar um relacionamento humano com o estudante. (Docente 1)

 

Nestas inter-relações com o estudante a docente de enfermagem percebe como a profissão exige de sua corporeidade. E, também, se percebe como um ser que necessita de autocuidado para então cuidar do estudante:

] tenho todos os cuidados que você puder imaginar para tentar me manter saudável [...] Como docente, o que eu preciso [...] é me equilibrar. (Docente 8)

 

Atribui um grande valor ao corpo na sua totalidade quando reflete sobre o ensino e a Enfermagem:

] a nossa profissão exige muito do ser humano, e ele requer todas as dimensões que formam esse corpo. (Docente 7)

 

 No dia a dia a docente preocupa-se em transmitir, por meio de sua corporeidade, exemplos que contribuam para a formação do estudante, pois sabe que é observada e que os estudantes aprendem com o modo de ser da docente:

] tem que ser um exemplo para quem está aprendendo com você [...] então o modo como você usa o seu corpo é que vai ajudá-los a saber como usar o deles. (Docente 8)

 

DISCUSSÃO

A discussão sobre o corpo é fundamental para a formação dos profissionais do campo da saúde. A pluralidade de perspectivas que influenciam a construção de sentidos sobre a imagem do corpo é inter e transdisciplinar e envolve instâncias psíquicas, individuais, coletivas, culturais, sociais, simbólicas, institucionais, religiosas e outras(5).

Neste estudo, o aspecto físico do corpo foi evidenciado caracterizando a Enfermagem, tanto no ensino quanto na assistência. A valorização do corpo, como estrutura física, pela docente de Enfermagem é corroborada pela cultura ocidental(10).

O uso que o homem faz de seu corpo transcende a dimensão biológica(1). Esta afirmativa reflete o vivido da docente de enfermagem, que consegue transcender o corpo biológico, e age em um determinado tempo e espaço na busca do corpo vivido na integralidade. Esta constatação impõe uma resignificação do movimento do seu corpo no espaço e no tempo de sua existência como educadora.

O corpo é definido pela existência em si e o sujeito precisa, primeiramente, ter um mundo ou ser no mundo, quer dizer, manter em torno de si um sistema de significações cujas correspondências, relações e participações não precisam ser explicitadas para serem utilizadas. Ele penetra no objeto pela percepção, assimila sua estrutura e, por meio de seu corpo, regula diretamente seus movimentos(11).

Ao adentrar o espaço existencial do ensino de enfermagem, a docente, como um ser perceptivo, observa aspectos relacionados a si, a inserção na prática pedagógica e a relação com o estudante. A percepção é o fundo sobre o qual todos os atos se destacam, sendo pressuposta por eles(1).

O corpo físico do enfermeiro é visto como instrumento de ensino dos procedimentos para o cuidado, contudo são enfatizadas outras dimensões da corporeidade e o exercício da docência que cria, no ato de cuidar, um momento existencial entre os seres humanos envolvidos no ensino da Enfermagem. Comunicamo-nos por meio dos movimentos corporais, da fala e dos gestos emitindo significados ao mundo existencial e permitindo que os corpos interajam e conheçam-se(1). Ao utilizar seu esquema corporal, a docente de enfermagem também usa de sua motricidade – movimento do corpo em relação ao mundo, aos objetos, ou ainda em direção às pessoas –, e estes movimentos são acompanhados de significados e intencionalidades. Ter um corpo é para o ser vivo juntar-se a um meio definido, confundir-se com certos projetos e empenhar-se continuamente neles(1).

O corpo encontra-se engajado em um mundo, com um projeto que se desenvolve na medida em que o executa, tendo a capacidade de improvisação, criatividade e adaptação diante das diversas situações de vida(11).

Os movimentos de proximidade são realizados pelo corpo e têm o potencial para fortalecer as relações interpessoais, oportunizando a docente e o estudante interagirem nas diversas situações de aprendizado. O conhecimento humano se estrutura nas relações que a pessoa estabelece consigo mesma, com os outros e com o mundo em um sistema de trocas, a partir de perspectivas relacionais e reflexivas advindas da vida e das experiências(12). A compreensão da educação em enfermagem, além dos aspectos técnicos, também se baseia na interpretação do significado da ação educativa realizada na relação professor-estudante(13).

A reflexão sobre a corporeidade no ensino de enfermagem remete a docente para o início da carreira e a faz trazer à tona as dificuldades próprias dos iniciantes da vida acadêmica. O preparo para o exercício das atividades educativas minimiza as dificuldades iniciais do docente. A capacitação e aproximação do enfermeiro, desde o curso de graduação, para a função docente é importante, visto que a educação permanente constitui-se em uma das suas competências profissionais e o ensino é um conteúdo curricular importante na formação do enfermeiro. Nesse sentido, as competências docentes são construídas ao longo das trajetórias pessoais e profissionais, no cotidiano do trabalho, expandido para além da sua área técnica de formação e invadindo os espaços sociais das relações interpessoais, tanto na sociedade, quanto nas instituições de ensino(14).

Todas as docentes tinham uma experiência na área de docência da Enfermagem. O tempo de atuação profissional é um importante fator na construção e mobilização dos saberes, aliado, também, a uma prática de trabalho coletivo e colaborativo que permeia a instalação de um permanente estado de reflexão sobre e na prática cotidiana(15). A exploração das experiências de vida no trabalho docente auxilia na compreensão de como é ser um educador de enfermagem e os significados explicitados podem subsidiar transformações na prática pedagógica(16). É a partir das experiências existenciais, que ocorrem durante o passado, o presente e o futuro, que o sujeito se compreende e cresce(1).

A sobrecarga de trabalho e de responsabilidades consigo e com os outros faz com que a docente manifeste sensações de desgastes físico, mental, emocional, entre outros. A mulher tem sua vida e sua saúde influenciada pelas diversas jornadas de trabalho pelas quais tem se responsabilizado na sociedade atual(17).

Como seres biopsicossociais e culturais as docentes vivenciam vários papéis e levam consigo todas as dimensões destes ao meio acadêmico, pois se trata de um único corpo que vivencia a corporeidade nos diversos âmbitos da vida cotidiana. Papéis que, em alguns momentos, se entrelaçam compondo o ser mulher educadora na Enfermagem. A docente se envolve em uma rede de interações com os participantes da ação educativa, em um contexto no qual o elemento humano é determinante e dominante(15).

As atividades da docência extrapolam as atividades em sala de aula, assim, o trabalho da educadora torna-se intenso, pois, além das funções habituais que lhe são prescritas, outras são incorporadas em sua jornada de trabalho, tais como, coordenação de pesquisas, extensão universitária, produção de artigos científicos, além de atividades técnicas e administrativas. A sobrecarga de trabalho é um aspecto constantemente observado na vida dos professores universitários. As atividades tendem a ser diversificadas e fragmentadas. Vê-se, também, o aumento das exigências sobre estes profissionais que sofrem pressões relacionadas à progressão da carreira docente além da necessidade de autocapacitação e atualização constante de conteúdos curriculares(15,18).

Considerando seu processo de trabalho a docente refere a importância de manter-se saudável, salientando o cuidado com o corpo que refletirá no seu desempenho profissional. Para tornar-se autocuidador a pessoa necessita compreender sua condição crônica, ter automotivação para adquirir comportamentos saudáveis e ser proativa(19).

A docente de enfermagem mostra uma atitude de cuidado e respeito pela capacidade de desenvolvimento do outro. Evidencia o sentido de educar como um projeto para desenvolver diferentes possibilidades que podem se abrir para os estudantes e, desta forma, faz-se presente e facilita sua aprendizagem(20). Quando existem dois seres, o outro não é mais um simples comportamento em meu campo transcendental, somos um para o outro, ligados em uma reciprocidade perfeita. Nossas perspectivas deslizam uma na outra e coexistimos no mesmo mundo(5).

A apropriação do ensinar leva o ser-docente de enfermagem a propagar um sentimento de responsabilidade e de compromisso com a aprendizagem, na medida em que descobre a influência de sua corporeidade em seu trabalho(20). O movimento do corpo tem um papel na significação do mundo. Se ele próprio é uma intencionalidade original [...], é necessário que o mundo esteja em torno de nós, não como um sistema de objetos inertes e sem significados, mas, como um conjunto aberto de coisas em direção às quais nos projetamos(1).

Assim, a docente destaca o corpo como veículo de cuidado na prática pedagógica e vislumbra a possibilidade de contínuas reflexões sobre o papel de sua corporeidade na formação dos estudantes de enfermagem.

 

CONCLUSÃO

Este estudo permitiu compreender como a docente percebe seu corpo no ensino de graduação em enfermagem.

A docente de enfermagem demonstra consciência do corpo na prática pedagógica, além dos aspectos biológicos. Atribui ao corpo significados como facilitador de relações interpessoais e instrumento de ensino, que repercutem na aprendizagem teórica e prática, ao mesmo tempo em que percebe a repercussão do processo de trabalho sobre sua vida e seu corpo.

O resultado deste estudo desperta o interesse para o aprofundamento do conhecimento sobre a importância do corpo e da corporeidade da educadora em enfermagem na área do ensino e no âmbito da profissão. Oferece a possibilidade de refletir sobre o modo de ser docente e permite a compreensão de que no dia a dia, mesmo envolvida com tantas atividades, necessita conscientizar-se de sua corporeidade.

Evidencia que o corpo está presente nas relações de ensino que trascendem aos aspectos físicos. Assim, permite a reflexão acerca da subjetividade inscrita na ação educativa, tendo como elemento central a corporeidade docente.

Considera ainda os elementos humanísticos da aprendizagem, na área da saúde, que envolve o estudante, o docente e o cuidado.

Reconhecer-se como corporeidade e compreender a sua relação no ambiente da profissão provavelmente possibilitará, à docente de enfermagem, um fazer pedagógico que propiciará melhor interação docente-estudante, docente-equipe de saúde e docente-docente, que poderá facilitar o conhecimento de si e de suas relações nas atividades profissionais.

As informações oriundas deste estudo não podem ser generalizadas, mas, certamente, contribuirão para o incremento do conhecimento produzido pela Enfermagem.

A relevância da temática instiga a proposição de novas investigações, sob outras perspectivas, evidenciando a importância da corporeidade no ensino da Enfermagem.

 

REFERÊNCIAS

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Recebido: 04/01/2012
Aprovado: 01/08/2012

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