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ARTIGO ORIGINAL

 

 

Aplicação da semiótica na análise de fac-símiles: pesquisa documental

 


Mercedes Neto1, Fernando Porto2, Simone Aguiar3

1Maternidade Maria Amélia Buarque de Hollanda
2Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro
3Conselho Regional de Enfermagem do Rio de Janeiro

 


RESUMO
Objetivo: demonstrar o uso da análise semiótica em fac-símiles aos estudos que se utilizam da imagem fotográfica como documento de pesquisa. Método: utilizou-se uma matriz de análise composta de quatro itens, cujos resultados foram iluminados pelas noções de rito institucional, representações objetais e hexi corporal, na perspectiva da microanálise. Resultado: Esses foram contextualizados à imagem articulados a noção de assinatura imagética, por meio dos elementos simbólicos do uniforme, véu/gorro e símbolo da cruz, correspondentes à Cruz Vermelha Brasileira. Discussão: ocorreram quanto à posição (expressão) corporal, aos uniformes e aos símbolos utilizados pelas enfermeiras, seus efeitos para o homenageado e o rito institucional. Conclusão: a matriz de análise é ratificada como mais uma ferramenta de pesquisa documental imagética possibilitando decodificar os códigos simbólicos para versões e (re)interpretações como vigilância epistemológica.
Palavras-chave: Enfermagem; História da Enfermagem; Fotografia.


 

INTRODUÇÃO

O termo semiótica tem longa tradição de uso e sua antiguidade remonta ao Médico grego Cláudio Galeno, no período de 131 e 201 da Era Cristã, cujas teorias influenciaram a medicina, até pelo menos o século XVII, quando o filósofo inglês John Locke propôs o uso do termo semiótica para designar a ciência dos signos, correspondendo, nesse sentido, à lógica tradicional(1).

Entretanto, por iniciativas independentes, a semiótica, por um lado, na designação de origem anglo-saxã e a semiologia, de outro, na vertente neolatina de cultura européia, seriam propostas como disciplinas autônomas.

No primeiro caso, o filósofo norte-americano Charles Sanders Peirce (1839-1914) e, no segundo, pelo linguista suíço Ferdinand de Saussure (1857-1913), cujo curso de linguística geral foi publicado postumamente, em 1916, por Charles Bally e A. Sechehaye, seus alunos, que constituíram o marco de referência da revolução teórica dos estudos na área(1).

A semiótica, no pensamento filosófico, tem sua origem histórica nos termos semiótica e semiologia, entendidos respectivamente pelas linhas filosóficas peirciana e morrissiana, e linguistico-saussureana de forma equivalente. No presente texto adotou-se o termo semiótica. A justificativa, para tanto, deve-se à carta constitutiva da International Association for Semiotic Studies - Association Internationale de Sémiotique, 1969, mas no entendimento de equivalência(2).

A imagem, como documento, recebeu destaque a partir da década de 60, quando Roland Barthes, pautado no projeto saussureano de uma semiologia geral, põe ao centro da estrutura, como modelo das relações possíveis, a linguagem verbal, e sob disputa, o sociólogo francês Pierre Francastel denuncia o centralismo do modelo filosófico de Barthes, argumentando que nenhuma forma de um complexo cultural pode ser reduzida perante as demais e, posteriormente, na década de 80, com os estudos de Michel Vovelle, Georges Duby e Carlo Ginzburg(3).

Ao se intensificar o pensamento plástico ou figurativo, este balizou o pensamento verbal, o que pôde traduzir a leitura de imagens sob formas: perceptiva e lógica. A estrutura e semiótica. no processo de olhar-pensar-descrever o mundo visual, consegue traduzir vestígios capazes de restituir à imagem sua própria temporalidade(3). Isso proporciona o entendimento de imagem, em contextos históricos, principalmente, como documento de sustentação de fatos que remontam acontecimentos e evidenciam relações e representações sociais de determinados tempos.

Para isso, é necessário que a imagem, como fonte documental, não escorregue em erros metodológicos comuns, como a sua utilização ilustrativa. Geralmente, usam-se imagens para ilustrar um argumento que se formou em detrimento da própria imagem, ou seja, a imagem é a tradução do discurso imagético de forma escrita.

As imagens são testemunhos de deferência do autor da imagem, o que implica que ela sofre influência dele, considerando que ele é quem elenca os posicionamentos, conduzindo a evidencia de olhares e tendências do tempo da imagem.

Um ponto de destaque para análise na perspectiva semiótica é atentar-se aos detalhes da imagem, nem que para isso se use uma lupa de vinte vezes de aumento, ou o zoom do computador, para que se possam identificar detalhes minúsculos ou de pouca nitidez na imagem(4).

Conjectura-se, então, que as tendências, o regime político, a moda, as estruturas sociais e a cultura do local, proporcionam a deferência do autor da imagem em um determinado ângulo ou na centralização de um sujeito ou um objeto, juntamente com os atributos de paisagem.

Para que isso seja analisado, deve-se atentar para as representações objetais que a imagem traduz, ou seja, buscar, nas pessoas e nos objetos, a leitura do tempo que foram registrados/capturados pelo autor da imagem.

Para tanto, o objetivo é demonstrar o uso da análise semiótica em fac-símiles, por meio de uma matriz, para os estudos que se utilizam da imagem fotográfica como documento de pesquisa.

A justificativa para a demonstração da matriz de análise deve-se ao desenvolvimento dos estudos com a imagem, como documento imagético, no sentido de esclarecer, nem que sejam de forma verossímil, acontecimentos históricos pelos rastros imagéticos, que contemplam e podem preencher lacunas dos documentos, em especial, os escritos.

 

MÉTODO

Trata-se de uma pesquisa documental(5), que teve por estratégia demonstrar o uso da análise semiótica em dois fac-símiles publicados na Revista Fon-Fon. Esta revista surgiu no Rio de Janeiro, em 1907, muito popular, com enfoque nas propagandas, na política e nas temáticas socias de interesse popular.

A palavra fac-símile do latim fac-símile tem seu significado em fazer semelhante no sentido de cópia exata de documento impresso, podendo ser obtido por diversos meios de reprodução, dentre eles, fotomecânico, eletrônico e eletrostático(6). Neste sentido, as duas imagens propostas para a demonstração foram veiculadas na Revista Fon-Fon, em 1917, ano histórico que abrangeu a I Guerra Mundial (1914-1918).

A tabela número 1 contém, de forma estruturada, a matriz de análise aplicada aos dois fac-símiles do estudo e possui quatro itens – dados de identificação, plano de expressão, conteúdo e dados complementares obtidos em outras imagens – desenvolvidos com base em dois conceitos da semiótica – plano de expressão e conteúdo. O primeiro refere-se à manifestação desse conteúdo como um sistema de significação verbal, não verbal ou sincrético, enquanto que o segundo, ao significado do texto, ou seja, o que o texto relata e como ele faz para dizer o que diz - a mensagem(6).

Tabela nº. 1 – Matriz de análise aplicada nos fac-símiles do estudo

1. Dados de Identificação

Local do acervo

Nome da instituição pública ou do proprietário, quando particular

Nome da revista, jornal ou periódico

 

Ano de publicação

 

Número do exemplar

 

Página em que se encontra a imagem

 

Data de publicação do exemplar

 

Título ou manchete que acompanha a fotografia

 

2.  Dados do plano de expressão

Crédito da imagem

Autoria da produção da imagem

Relação texto imagem

Fotorreportagem - tipo de notícia constituída, exclusivamente, por fotos com legendas, sem qualquer bloco de texto de apoio ou de contextualização, com imagens sequenciadas ou não opostamente a fotojornalismo

Legenda

Texto para identificar retratos e/ou cena na imagem, considerada, também, como texto-legenda, sendo de texto curto e sempre editado com foto. Os formatos podem variar entre uma linha conclusiva ou em média de três a cinco linhas, sem parágrafo e, em geral, acompanhada de um título que reproduz um pormenor da matéria que a sintetiza. Desta forma, a legenda tem por função ativar o leitor a ter conhecimentos correlatos à imagem mostrada, sendo considerada um gatilho mental para se fazer a leitura fotográfica, suprindo o leitor de informações não contidas ou não evidentes na imagem, pois é um convite para se explorar melhor a imagem e descobrir os significados menos evidentes, mas nem por isso menos importante.

Resumo do texto

 

Tipo de foto

A foto posada e flagrante, conhecida também como instantânea, que teve seu início na década de 20. O introdutor dessa inovação foi o Dr Erich Salomon, fotógrafo alemão, considerado por Gisele Freund, como o primeiro a fotografar as pessoas sem que elas percebessem, denominando a técnica de “o instantâneo”. A prática desse tipo de foto serviu mais tarde como base do fotojornalismo, libertando a fotografia, até então, restrita à foto posada. Esse tipo de fotografia permitiu a visualização diferenciada da foto, pois passou a ter função de representar a realidade.

Formato

Desenho geométrico.

Plano

Os planos fotográficos são do tipo: plano geral, quando retrata ambientes amplos, geralmente, em exterior; plano conjunto, destinado às pessoas quando elas não são os objetos centrais da foto; plano americano é o plano no qual as pessoas são retratadas da cintura para cima; primeiro plano, conhecido como close de pessoas ou objetos; e o plano detalhe, variante do primeiro em sua máxima representação

Sentido se refere à imagem em relação à página

Horizontal e vertical

Localização da imagem na página

Zonas de visualização são áreas estratégicas, tendo como princípio a visão, pois se fixam no lado superior à esquerda do papel, por estarmos condicionados pela escrita ocidental. Esta tem início da esquerda para a direita, o que caracteriza o alicerce obrigatório dos olhos, influenciando decisivamente em nosso comportamento na leitura. A lógica racional para a leitura ocidental dá origem ao esquema em seis zonas de visualização.



A zona primária ou principal (1) contém elementos de forte atração para chamar a atenção do leitor. Como a visão instintivamente se desloca com rapidez em diagonal para o lado inferior oposto (zona morta - 4), a rota básica da vista se projeta do lado superior esquerdo (zona morta - 3) para o lado inferior direito (zona secundária - 2). Neste sentido, a importância do centro ótico (5) e geométrico (6) da página necessita oferecer aspectos atrativos para que a leitura seja ordenada, com racionalidade, sem o deslocamento brutal da visão 

3. Plano de conteúdo

Local retratado

Natural, cenário montado, interno, externo e o espaço geográfico

Pessoas retratadas

Grupo misto, grupo masculino, grupo feminino, grupo infantil, quantas pessoas retratadas; tema da imagem retratada

Atributos pessoais

Vestimentas e acessórios que as pessoas ostentam

Atributos de paisagem

Objetos, característica do cenário retratado, elementos presentes para composição da cena

4. Dados complementares obtidos de outra imagem
Origem da informação Localização da informação

Articulações possíveis com a imagem analisada

 

                                

 

 

 

Cabe destacar que é de interesse para a leitura do texto imagético a utilização de ampliação da imagem, por meio dos recursos da informática na tela do microcomputador no comando do zoom ou, então, pela projeção em multimídia, pois capta melhor o conteúdo do material a ser analisado. Esta ampliação deve ser utilizada com cautela, pois possibilita a distorção da imagem original(6).

A aplicação da matriz nos fac-símiles oferece dois tipos de abordagem na análise: quantitativa e qualitativa. Na primeira pode-se quantificar os dados obtidos na matriz, o que conduz a proposta de um desenho de pesquisa não experimental do tipo analítica ou observacional, seja de caso controle, coorte, correlacional ou transversal(5).

Na segunda abordagem os dados são analisados pela decodificação dos códigos dos signos. Neste sentido, aplicado ao método histórico, em especial, quando articulado à literatura da moda e ao próprio contexto histórico pelo jogo de escala(7).   

Destarte, a presente análise irá se limitar a abordagem qualitativa na perspectiva histórica da microanálise(7) interpretado à luz das noções de Pierre Bourdieu, principalmente, sobre rito institucional, hexis corporal e representação objetal.

O rito institucional tem função de imposição, por meio de competência técnica e social, sendo um ato de magia social(8) que consagra, sanciona e santifica um estado de coisas, uma ordem estabelecida(8), sendo as temáticas dos fac-símiles, que aplicado a presente noção decodificou o poder e prestígio ao momento, seja no sentido interno, como no externo ao ser veiculado na impressa, agregando valor simbólico ao rito e ao homenageado ao ser integrado a sociedade.

A noção de hexis corporal é uma das dimensões corporais de se comunicar, por meio da técnica da linguagem corporal, onde se exprime a relação do mundo social. Trata-se de um estilo articulatório, ou seja, um esquema corporal visando atingir o princípio da identidade social e da autoimagem(8), que pode ser exemplificada no sentido de que: mulher não deve sentar-se de pernas abertas, opostamente ao homem.

As representações objetais são signos coisas (emblemas, bandeiras insígnias, etc), ou atos, estratégias interessadas na manipulação simbólica, que possuem tendências  a determinada representação (mental) que os outros podem construir a respeito, tanto dessas propriedades, como de seus portadores(8). Aplicado ao presente estudo trata-se do uniforme, véu, símbolo da cruz, dentre outros elementos simbólicos na composição do texto imagético.

Destaca-se que o resultado da matriz, em virtude da polissemia da imagem deve ser triangulado, não no sentido da verdade, mas da verossimilhança, pois se trata de mais uma versão e interpretação possível, que pode (des)cristalizar resultados de estudos anteriores pelo estado da arte.

A análise dos fac-símiles publicados na Revista Fon-Fon teve por base o dispositivo legal da Lei nº 9.610/1998 quanto à autorização, à atualização e à consolidação da legislação sobre direitos autorais e outras providências.

 

RESULTADO

Mediante o preenchimento dos dados solicitados da matriz, este deve ser organizado em forma de texto escrito, como se segue após a visualização de cada fac-símile, que pode ser introduzido ao texto, na integra ou em síntese, conforme o interesse do pesquisador.

Fac-símile nº. 01 – Sem título, 1917, Revista Fon-Fon, Vários Aspectos da Manifestação feita ao Gel. Thaumaturgo de Azevedo, presidente da Cruz Vermelha, sendo inaugurado na sede de sua utilíssima instituição, o seu retrato a óleo  

O fac-símile de número um se encontra localizado na Biblioteca Nacional, oriundo da Revista Fon-Fon, datado de 07/12/1917, localizado na página 32, sem titulo, porém representando a chegada do homenageado.

O plano de expressão do fac-símile, em apreço, carece de identificação de autoria. A relação texto e imagem são do tipo fotorreportagem, que apresenta a legenda acima destacada. O texto imagético traduz a chegada do homenageado nas dependências externas da Instituição. A imagem é do tipo espontâneo. O desenho geométrico é do tipo retangular, que se apresenta no plano fotográfico em geral no sentido em relação á pagina horizontal e com zona de visualização nas regiões de número 1 e 2.

O plano de conteúdo, é um local natural, de ambiente externo, provavelmente no pátio de entrada da Cruz Vermelha Brasileira, Órgão Central, no centro Rio de Janeiro. As pessoas que inscrevem o texto imagético são compostas de um grupo majoritariamente feminino. Este grupo foi composto de 16 mulheres com uniformes na cor clara, algumas de mangas longas e outras mais curtas e véu. Todas ostentam o símbolo da cruz na cor escura em seus uniformes. No centro do texto imagético encontra-se o general Thaumaturgo de Azevedo, que recebe os olhares das Enfermeiras e/ou aspirantes a Enfermeiras da Escola Prática de Enfermeiras da Cruz Vermelha Brasileira. Os atributos de paisagem são retratados ao fundo, possivelmente da edição da Instituição.

Fac-símile nº. 02 – Sem título, 1917, Revista Fon-Fon, Vários Aspectos da Manifestação feita ao Gel. Thaumaturgo de Azevedo, presidente da Cruz Vermelha, sendo inaugurado na sede de sua utilíssima instituição, o seu retrato a óleo

O fac-símile de número dois se encontra localizado na Biblioteca Nacional, oriundo da Revista Fon-Fon, datado de 07/12/1917, localizado na página 32, sem titulo, representando o momento da homenagem.

O plano de expressão do fac-símile, em apreço, carece de identificação de autoria, sua relação texto e imagem são do tipo fotorreportagem, que apresenta a legenda descrita acima. O texto imagético traduz a um dos momentos do rito de homenagem nas dependências internas da Instituição. A imagem é do tipo espontâneo. O desenho geométrico é do tipo retangular, que se apresenta no plano fotográfico, em geral no sentido em relação á pagina horizontal e com zona de visualização nas regiões entre as de número 1, 2 e 5.

O plano de conteúdo, é em um local natural, de ambiente interno, provavelmente, sem identificação específica nas dependências internas da Cruz Vermelha Brasileira, Órgão Central. As pessoas que inscrevem o texto imagético são compostas de um grupo majoritariamente masculino, de aproximadamente 23 pessoas. Este grupo foi composto de dez mulheres, trajando uniforme institucional, na cor em tom claro, com destaque para a ostentação de véu e símbolo da cruz na cor escura, três homens em trajes escuros – terno – alguns, provavelmente de camisa clara com relevo para a gravata em tom escuro e os demais do gênero masculino e feminino encontram-se de costa ou com pouca nitidez para inferências, mas parecem trajarem roupas sociais.

Próximo ao centro do texto imagético, do lado direito, é possível se identificar o general Thaumaturgo de Azevedo ladeado por duas mulheres em trajes institucionais.

Os atributos de paisagem são partes de quadros fixados à parede, como flores, mobiliários em geral, destacando-se o quadro pintado a óleo do general, que se encontra ornamentado de flores, localizado ao lado esquerdo do texto imagético.

 

DISCUSSÃO

Antes de decodificar os dados oriundos da matriz, cabe destacar que os dados complementares obtidos de outra imagem, não foram aplicados em virtude do conhecimento acumulado dos presentes autores sobre o histórico da Cruz Vermelha Brasileira e a Escola Prática de Enfermeiras da Cruz Vermelha Brasileira, por meio da produção de conhecimento de artigos, dissertações, tese de doutoramento e relatórios de pesquisa.

Por outro lado, isto não significa que, em outras imagens, não se faça necessário, mas, para tanto, isto depende do acúmulo de capital cultural do(s) pesquisador(es)  para aplicação da matriz de análise, motivo que o quarto item se faz necessário como ferramenta na análise, podendo ser entendido também como opcional.

A partir daqui, após as devidas ressalvas, dar-se-ia a decodificação analítica dos fac-símiles. Optou-se em iniciar pela posição corporal de algumas retratadas em apoiar o homenageado no caminhar até as dependências da Instituição, a qual pode ser entendida como uma atitude de deferência.

Esta atitude foi expressa pelo corpo, entendida como um dos estados de corpo, na linguagem corporal de deferência em apoiar a chegada do homenageado em seu caminhar, bem como pela expressão facial de sorriso, que representa a eficácia simbólica da hexis corporal(8).

Esta eficácia simbólica ocorre no sentido em que a expressão corporal de afeição, como risos e lágrimas, se faz presente nas dobras do corpo. Além disto, a eficácia simbólica é a capacidade coletiva reconhecida de agir, por meios de bens diversos, sobre as montagens do verbo-motor, seja para neutralizar ou reativar, fazendo funcionar de forma mimeticamente aquele que se expressa(8).

Depreende-se disto, que no fac-símile de número um as retratadas, ao receberam o homenageado com deferência, apresentaram estado e corpo com eficácia simbólica na imagem congelada que foi veiculada na Revista Fon-Fon. Ademais, entende-se como uma das formas de se materializar a crença simbólica entre as retratadas pelo poder e prestígio, que representava o homenageado, para e com a Instituição.

Nesse fac-símile, onde as aspirantes e/ou Enfermeiras ladeiam o homenageado, é interessante identificar o efeito de claridade(9) produzido. Dito de outra maneira, os uniformes das Enfermeiras na cor clara e em torno do homenageado iluminaram-no, ao se encontrar posicionado no centro imagético, oferecendo relevo a sua pessoa.

Conforme já mencionado anteriormente, o fac-símile de número dois se encontra abaixo do fac-símile de número um, que na diagramação da página na imprensa ilustrada, ofereceu o sentido de continuidade dos fatos narrados imageticamente.

No caso do descerramento do quadro em homenagem ao general Thaumaturgo de Azevedo, como o segundo presidente da Cruz Vermelha Brasileira, no período em que ocorreu o reconhecimento e autorização da Instituição, no âmbito nacional e internacional, se registra, por meio de sua imagem, uma das fases da história Institucional.

Ao registrar este momento na imprensa ilustrada, àquela imagem (fac-símile) transforma todos em objetos. Dito de outra maneira, o quadro pintado a óleo do homenageado, enquadrado na imagem de corte no tempo e no espaço, com o retrato no rito institucional, faz com que tudo seja objeto de distinção no sentido de deferência(4).

Ademais, o quadro do homenageado, também, pode ser entendido como aquele que proveu a Instituição. Neste sentido, o descerramento da imagem do homenageado e exposição desta nas dependências da Cruz Vermelha Brasileira, traz para os expectadores convicção de que aquilo que se vê existiu e que ocorreu de fato em um determinado e exato momento, como realidade apreendida pelo observador.

Os uniformes e símbolos ostentados nos corpos das Enfermeiras, como elemento registrado na matriz de análise sob denominação de atributo pessoal, o que registra a distinção de várias maneiras, as quais necessitam serem decodificadas para sua leitura e compreensão.

Estes atributos são representações objetais que, ao serem decodificados, traduzem significados que formam a assinatura imagética, entendida como marcador de distinção da origem de formação de cada Escola de Enfermeira(9).  

Aplicado aos dois fac-símiles é possível identificar a assinatura imagética da instituição – Escola Prática de Enfermeiras da Cruz Vermelha Brasileira -, por meio do uniforme, véu/gorro e símbolo da cruz na altura da fronte da cabeça e do tórax. Elementos símbolos característicos da Instituição.

Na decodificação, os elementos simbólicos – uniforme, véu/gorro e símbolo da cruz nos trajes das aspirantes/Enfermeiras da Cruz Vermelha Brasileira, podem ser entendidos como: o uniforme é um tipo de controle social e excessos, permitindo a distinção da pessoa que o veste das demais e a posição que ocupa na sociedade e/ou na institutição, na atividade e na profissão; o véu/gorro é decodificado como honra, sacralização, sinal de decência, pudor, distinção e responsabilidade e, o símbolo da cruz traduz significado de guardiã, missionária do bem e da caridade, e, na cor vermelha, de forma geométrica e  assimétrica, o símbolo internacionalmente conhecido da Cruz Vermelha(9-10). Neste caso, a tríade simbólica compõe a distinção, por meio dos elementos simbólicos, como assinatura imagética.

 

CONCLUSÃO

No período histórico da I Guerra Mundial, quando o Brasil se inseriu no conflito internacional, o rito institucional de homenagem ao general Thaumaturgo de Azevedo, realizado pela Cruz Vermelha Brasileira, por meio da representação objetal de um quadro, não ocorreu ao acaso.

Ao aplicar a matriz de análise a dois fac-símiles na temática do rito institucional, em tempo de conflito internacional, sem articular a intencionalidade da Cruz Vermelha Brasileira, entende-se como ingenuidade analítica, pois o rito institucional realizado ao primeiro presidente da Instituição com a patente militar de generalato faz-se conduzir, possivelmente, ao culto à personalidade do militarismo em voga no período proposto.   

Os elementos simbólicos apresentados, ao serem decodificados à luz da literatura direta ou indiretamente da moda, contribuíram para a o desvelamento de alguns dos códigos institucionais, que tangenciam a construção da imagem da Enfermeira, por meio do uniforme e seus adereços simbólicos, na composição para a distinção de uma assinatura imagética, que não deveria ser confundida, mas, talvez, no jogo de interesse, objeto de desejo de outras instituições em suas propagandas e publicidades, seja na formação de Enfermeiras e até mesmo na comercialização de produtos farmacológicos, dentre outros.

Cabe destacar, que hodiernamente, o significado da palavra Enfermeira pode desencadear uma determinada imagem mental do gênero feminino em traje de branco e que se dedica a cuidar de doentes. Desta mesma forma, acredita-se que, no século passado, leigos ao verem imagens materiais com elementos simbólicos que tinham a intencionalidade de representarem essas “Enfermeiras” transmitiam o que se pode afirmar de credibilidade pela caridade e bondade.

Os elementos simbólicos ostentados nos corpos das Enfermeiras – uniforme, véu/gorro e símbolo da cruz – são rastros que possibilitam certo entendimento do passado no sentido de teoricamente se remontar a história da sociedade, pelo viés da semiótica, no jogo de escala pela microanálise.

Por outro lado, não se pode deixar de mencionar as limitações da demonstração, afinal, aqui foram analisados dois fac-símiles de um rito institucional da Cruz Vermelha Brasileira, com deferência a um dos ex-presidentes da instituição conduzido às dependências institucional pelas aspirantes/Enfermeiras, que ao serem flagradas iluminaram a sua chegada, por meio do efeito de claridade, dando mais relevo ao homenageado, como a luz que ilumina um ator numa peça teatral.

Entender as lacunas nos estudos, ensaios teóricos, dentre outros investimentos intelectuais, é permitir o avanço nas pesquisas, seja para (des)cristalizar assertivas, possibilitando versões e (re)interpretações dos resultados como vigilância epistemológica.

 

REFERÊNCIAS

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3. Freitas Artur. História e imagem artística: por uma abordagem tríplice. Estud hist [ serial in the internet ]. Jul 2004 [ cited 2011 dez 20 ] 2(34): 1-22. Available from:  http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/reh/article/viewArticle/2224.

4. Frehse F. Antropologia do Encontro e do Desencontro: Fotógrafos e Fotografados nas ruas de São Paulo (1880-1910). In: O imaginário e o poético nas Ciências Sociais. São Paulo: Edusc; 2005. p. 185-223.

5. Lima DVM. Desenhos de Pesquisa: Uma contribuição para autores. Online braz j nurs [ serial in the internet ]. Abr 2011 [ cited 2011 dez 2011 ] 10 (2). Available from: http://www.objnursing.uff.br/index.php/nursing/article/view/3648.

6. Porto F, Fonseca E.  Fac-símile na pesquisa em história da enfermagem obstétrica: inauguração da capela da Pró-Matre (1923). R Pesq cuid fundam [ serial in the internet ]. Out 2010 [ cited 2011 out 17 ]  2(4):1495-1505. Available from: http://www.seer.unirio.br/index.php/cuidadofundamental/article/view/1315/pdf_236.

7. Revel J. Jogos de escalas – a experiência da microanálise. Rio de Janeiro: FGV; 1998.

8. Bourdieu P, editor. A economia das trocas linguísticas – o que falar quer dizer. 2ª Ed. São Paulo: Edusc; 1998. p. 97-116.

9. Porto F, Santos T. A enfermeira brasileira na mira do click fotográfico (1919-1925). In: História da Enfermagem Brasileira: Lutas, Ritos e Emblemas. Porto F, Amorim W, organizadores. Rio de Janeiro: Águia Dourada; 2007. p. 25-188.

10. Freitas E. A imagem pública da Enfermeira-Parteira do Hospital Maternidade Pró-Matre do Rio de Janeiro de 1928-1931: (des)construção de uma identidade profissional. Dissertação [ mestrado em enfermagem ]. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Laboratório de Pesquisa em História da Enfermagem (Laphe); 2011.  

 

 

Recebido: 23/12/2011
Aprovado: 27/08/2012





 

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