O significado do trabalho para enfermeiros que atuam no serviço noturno – revistA GAUCHA ou Anna Nery (essa última acho melhor)

SENTIDO DO TRABALHO PARA ENFERMEIROS NOTURNOS DE UM HOSPITAL UNIVERSITÁRIO: ESTUDO DESCRITIVO

 

Rosângela Marion da Silva¹, Carmem Lúcia Colomé Beck², Regina Célia Gollner Zeitoune³, Francine Cassol Prestes4, Juliana Petri Tavares5, Soeli Teresinha Guerra6

 

1,2,4,5,6 Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, RS

3 Universidade Federal do Rio de Janeiro, Escola de Enfermagem Anna Nery, RJ

 

RESUMO

Tipo do Estudo: Pesquisa descritiva com abordagem qualitativa. Objetivo: Identificar o sentido do trabalho atribuído pelos enfermeiros que atuam no período noturno, relacionando-o à satisfação ou insatisfação profissional. Metodologia: A amostra foi composta por 42 enfermeiros de um hospital de ensino de alta complexidade localizado no Rio Grande do Sul/Brasil. A técnica de coleta dos dados utilizada foi a entrevista semi-estruturada. A análise temática possibilitou a construção das categorias denominadas trabalho é: elemento central da vida; satisfação e prazer; rendimento econômico; e, trabalho é insatisfação. Resultados: Pode-se afirmar que pela prevalência de expressões positivas com relação ao trabalho, a maioria dos enfermeiros atribui significado positivo a tarefa realizada, compreendendo-se que esses enfermeiros estejam satisfeitos profissionalmente. Conclusão: Compreender o sentido do trabalho possibilite aos gestores criar e implementar estratégias que permitam ampliar ações referentes à saúde do trabalhador na perspectiva da melhoria dos serviços e da satisfação profissional.

Descritores: Satisfação no Emprego; Enfermagem; Tolerância ao Trabalho Programado.

 

 

INTRODUÇÃO

 

A Revolução Industrial inaugurou um novo período histórico tanto pelas descobertas na área da física, química e mecanização, quanto pela extensão da jornada de trabalho para além do turno diurno, o que provocou profundas mudanças no mundo do trabalho.

Naquele tempo, o desenvolvimento das atividades industriais e comerciais, acompanhado da transição de uma sociedade agrária para uma sociedade industrial, levou milhares de pessoas a se dedicarem ao trabalho nas indústrias emergentes. Nesse contexto, uma das limitações à realização do trabalho no turno noturno era a precária iluminação, realizada por lâmpadas a óleo, que foi abandonada quando surgiu a iluminação a gás e após, a iluminação a querosene. Posteriormente, Thomas Edison inventa a lâmpada elétrica, favorecendo ainda mais a ampliação da jornada de trabalho para o turno noturno(¹) Esse acontecimento também repercutiu na Enfermagem, uma das profissões que realiza suas atividades em turnos.     

A enfermagem tem a organização do trabalho nos períodos diurno e noturno e de maneira contínua devido a procura dos usuários pelos serviços de saúde e, em particular, da necessidade da continuidade da assistência a nível hospitalar, que tem funcionamento ininterrupto. 

Os trabalhadores de enfermagem que desempenham atividades no período noturno têm a disponibilidade do turno diurno para a realização de outras atividades como ter outro emprego, estudar, realizar atividades do lar, cuidar dos filhos e estar com a família. Além disso, o menor tempo de deslocamento para o trabalho e a possibilidade de maior autonomia no processo de trabalho constituem-se fatores que podem contribuir para a procura por esse turno de trabalho (2) Essas condições oferecidas ao trabalhador podem conferir sentido ao trabalho, traduzindo-se em satisfação profissional.

Trabalho com sentido3 é aquele que proporciona a aquisição de habilidades e conhecimentos, que permite o aprimoramento de competências do indivíduo.  Sugere-se, assim, que o trabalhador que atribui sentido ao trabalho consegue crescer profissionalmente na organização e sente-se satisfeito profissionalmente. 

Considera-se satisfação profissional ou satisfação no trabalho o estado momentâneo de felicidade influenciado pela organização e condições de trabalho, pela subjetividade do trabalhador em dado momento da sua vida e relacionamento com outros trabalhadores. Já a insatisfação profissional é o estado momentâneo de adversidade e que tem influência dos mesmos fatores da satisfação profissional, porém com sentido antagônico.

Destaca-se que as variáveis que afetam a satisfação profissional na enfermagem podem ser as relativas aos valores intrínsecos ao trabalho, compreendidos como a realização das tarefas durante o horário de trabalho, a autonomia e os desafios emocionais do trabalho da enfermagem; ou relativas aos valores extrínsecos ao trabalho, como a remuneração, a progressão de carreira e as condições de trabalho (4).

Outra variável que pode afetar a satisfação profissional é o turno de trabalho, uma vez que os trabalhadores que atuam no turno noturno enfrentam alterações orgânicas e físicas em decorrência da realização da atividade em um momento em que o organismo se prepara para o descanso. O desgaste físico e mental, que podem implicar na manifestação de patologias físicas e psíquicas como dores musculares, fadiga, alterações de humor e lentidão de raciocínio, predispõe o trabalhador a alterações na sua saúde.

Assim, compreendendo que o sentido conferido ao trabalho pode repercutir na satisfação profissional do trabalhador, este estudo teve como objetivo identificar o sentido do trabalho atribuído pelos enfermeiros que atuam no período noturno, relacionando-o à satisfação ou insatisfação profissional.

 

METODOLOGIA

 

Trata-se de pesquisa exploratório-descritiva com abordagem qualitativa desenvolvida em um hospital de ensino de alta complexidade, porte IV, localizado no estado do Rio Grande do Sul.

Os participantes do estudo foram os enfermeiros que atuavam no período noturno no momento de coleta dos dados, de março a abril de 2008. Os critérios de inclusão foram: atuar como enfermeiro há, pelo menos, um ano no período noturno na instituição pesquisada e pertencer ao quadro efetivo. Foram excluídos aqueles que estavam em licença de qualquer natureza e em férias.

A técnica de coleta dos dados foi a entrevista semi-estruturada que foi guiada por um roteiro com questões abertas: Fale-me sobre o seu trabalho, Fale-me sobre seus sentimentos em relação ao seu trabalho, Como você se sente com relação ao seu trabalho. Foi realizada a partir de agendamento prévio, individualmente e no local específico de trabalho, após informações sobre os objetivos do estudo. Também foram gravadas em um microgravador digital (MP3) mediante autorização verbal e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Foram respeitados os demais aspectos éticos recomendados pela Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde.

As entrevistas foram transcritas e o seu conteúdo submetido à técnica de análise temática, uma das modalidades de análise de conteúdo(5).

Inicialmente, foi realizada a leitura exaustiva das entrevistas e a seguir, os dados foram classificados e agregados conforme semelhança, o que possibilitou construir categorias empíricas.

Para os estratos das falas apresentadas neste artigo, foi atribuída a letra E (Enfermeiro) seguido do número de ordem da realização das entrevistas (E1, E2, E3,...) no intuito de preservar a identidade e o anonimato dos enfermeiros. A pesquisa foi submetida ao Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Santa Maria e obteve parecer favorável do Certificado de Apresentação para Apreciação Ética (CAAE) sob número 0012.0.243.000-08 e número do processo 23081.000770/2008-61.

 

RESULTADOS

 

Participaram da pesquisa 42 enfermeiros distribuídos em diferentes unidades de trabalho (Unidades de Internação Adulto e Infantil, Unidades de Terapia Intensiva Adulto, Pediátrico e Neonatal, Pronto Socorro Adulto e Infantil, Bloco Cirúrgico, Centro de Material e Esterilização, Sala de Recuperação Anestésica, Centro Obstétrico). A maioria do sexo feminino (90,48%), faixa etária predominante com mais de 41 anos de idade (64,28%), situação conjugal casado/vive com companheiro (64,29%), com mais de dois filhos (38,10%), que optaram por trabalhar no noturno (90,48%) e que tem mais de 15 anos de tempo de serviço noturno na instituição (28,57%).

A análise das entrevistas possibilitaram construir as categorias empíricas: trabalho é satisfação e prazer; trabalho é elemento central da vida; trabalho é rendimento econômico e trabalho é insatisfação.

Na categoria trabalho é satisfação e prazer, os enfermeiros mencionaram que o trabalho é satisfação e realização pessoal e profissional, conforme falas a seguir:

 

[...] para mim, o trabalho é minha satisfação pessoal e profissional, as duas estão interligadas, porque eu gosto muito daquilo que eu faço. Sou apaixonada pelo que faço, gosto muito!. (E26)

 

[...] eu gosto muito do que faço [...] para mim, é uma realização, eu não conseguiria me imaginar sem trabalhar. A maioria das pessoas vê o trabalho com sacrifício. Eu não vejo isso! Eu vejo como realização pessoal e profissional. É ele que te engrandece, te faz sentir gente, te sentir importante, produtiva, o que é fundamental para o ser humano. (E60)

 

 [...] para mim é tudo [...] estou me aposentando, mas eu amo e visto a camiseta [...] gosto da vida, batalho para ajudar a salvar, não gosto de pensar em me aposentar [...] vou sentir falta disso aqui. (E12)

 

Observa-se no relato de E12 a dificuldade da assimilação desse trabalhador quando reflete sobre a proximidade da aposentadoria, sinalizando o forte vínculo do indivíduo com o trabalho.

Para os participantes do estudo, o trabalho é elemento central da vida porque é a essência, o fator mais importante. A centralidade do trabalho é definida como o grau de importância que o trabalho tem na vida de uma pessoa em determinado momento, o que pode ser observado nos relatos a seguir:

 

[...] extremamente decisivo porque é o fator mais importante na minha vida e as outras coisas: lazer, vida pessoal, até hoje, ficam em segundo plano [...] o trabalho ocupa o primeiro lugar na minha vida!.(E45)

 

[...] o trabalho é fundamental, é essência da vida. Eu acho que sem o trabalho não há significado para a minha existência, porque tu ficar sem trabalhar [...] ainda mais quando o trabalho é gostoso. (E48)

 

Na categoria trabalho é rendimento econômico, os enfermeiros sinalizaram que a remuneração advinda do trabalho também ocupa lugar de destaque na vida e pode ser, por vezes, mais importante do que a própria realização pessoal, conforme evidenciado nas falas a seguir:

 

[...] antes de qualquer coisa o ganha-pão, depois a realização pessoal [...] mas um depende do outro. (E62)

 

[...] é de onde vem o meu dinheiro [...]. A enfermagem, hoje em dia, a gente parte muito para esse lado do dinheiro, infelizmente, porque a gente trabalha em dois, três lugares, porque em um é pouco [...]. (E23)

 

Na categoria trabalho é insatisfação, os enfermeiros relataram que o sentido do trabalho se perdeu ao longo dos anos devido a algumas situações como o descaso de alguns trabalhadores da saúde com os pacientes, a falta de humanização na assistência, associados à falta de valorização e reconhecimento da enfermagem, o que se constitui em desestímulo para o trabalhador, conforme relatos a seguir:

 

[...] o que eu noto é que, ultimamente, eu estou me sentindo um pouco frustrada [...] eu percebo que o atendimento direto ao paciente está ficando um pouco a desejar. A gente está vendo por todas as equipes da área da saúde um pouco de descaso com nossos pacientes [...] então isso realmente é o que está me incomodando no momento. Estou para me aposentar e eu nunca pensei que ia chegar o dia que eu ia me aposentar [...] mas, ultimamente, é a coisa que eu mais quero [...] atualmente estou insatisfeita devido ao descaso! Agora é um sacrifício vir! (E05)

 

[...] o sentido do trabalho se perde um pouco daquilo do cuidado humanizado, que é de atendimento ao paciente [...] a gente não consegue ver qualidade no atendimento, não consegue dar assistência, não tem uma solução [...] eu estou desestimulada [...] porque são 11 anos na mesma batalha, a gente fica tentando resolver, humanizar o serviço, tentando dar um tratamento adequado, e agora fico me perguntando: O que eu continuo fazendo aqui? (E24)

 

A análise das entrevistas possibilitou identificar outra percepção negativa atribuída ao trabalho como a falta de reconhecimento, conforme estrato da fala:

 

[...] o enfermeiro é um profissional de grande valor e de grande necessidade, só que o pessoal não reconhece a nossa profissão, não valoriza, não dá a importância que merece. (E46)

 

A falta de reconhecimento pode implicar em desestímulo, desgaste espiritual e sofrimento. O trabalhador de enfermagem precisa se sentir reconhecido e estimulado constantemente pelo trabalho realizado.

 

DISCUSSÃO

 

A relação do homem com seu trabalho está relacionada com a sua saúde psíquica, ou seja, quanto mais harmoniosa e equilibrada for essa relação homem-trabalho, mais capacitado esse trabalhador estará para utilizar suas potencialidades no desenvolvimento de suas competências o que possibilitará sentir prazer na realização das tarefas. É necessário que o trabalhador sinta-se estimulado com a tarefa que está executando para que possa ser estabelecida uma relação de prazer com o trabalho, pois, do contrário, o trabalho poderá se tornar uma fonte de tensão e desprazer (6).

Os participantes deste estudo destacaram que o trabalho é satisfação e prazer, sugerindo que esses trabalhadores atribuem sentido ao trabalho. A satisfação pessoal é alcançada por meio da tarefa realizada quando essa tarefa traz uma contribuição a quem a está executando, o que, invariavelmente, refletirá sobre a satisfação profissional.

Nessa perspectiva, trabalhar exige esforços pessoais de cada trabalhador(7), engajamento subjetivo, mobilização e aceitação de riscos à saúde física e mental, como expectativas em relação à auto-realização, à construção da saúde, ao reconhecimento pessoal e a organização de estratégias de defesas contra o sofrimento.

Para atingir a realização pessoal e profissional é preciso ter condições satisfatórias de trabalho, que oportunizem ao trabalhador sentir-se envolvido e motivado para o trabalho, o que pode conferir sentido ao trabalho. Condições laborais insatisfatórias podem repercutir na sobrecarga física e mental dos enfermeiros, conduzindo-os a um progressivo sofrimento.

Dessa forma, estratégias para essas situações deveriam ser construídas cotidianamente e coletivamente pelos enfermeiros do serviço noturno, bem como se espera que haja o compartilhamento das responsabilidades entre chefias, enfermeiros e equipe multiprofissional(8).

Em pesquisa realizada com enfermeiros que investigou os fatores de motivação e insatisfação no trabalho identificou “gostar do que se faz” como sendo fator motivacional de destaque, dado semelhante a este estudo. Portanto, o sentido atribuído ao trabalho, ou seja, gostar da atividade desenvolvida é um fator que está relacionado à satisfação profissional (9).

Outro destaque refere-se à centralidade do trabalho, mencionado pelos participantes deste estudo. O trabalho é o meio pelo qual o indivíduo estabelece contatos pessoais, alcança a sobrevivência por meio da remuneração recebida pela sua realização e encontra elementos que podem auxiliar na valorização de si mesmo e na construção da sua identidade pessoal e profissional. Pesquisadores referem que a identidade profissional, por ser construída no cotidiano do trabalho, pode estar suscetível a interferência de fatores como a baixa remuneração, as longas jornadas de trabalho, a falta de reconhecimento social e a pouca autonomia profissional, compreendidos como desafios profissionais para a enfermagem que se reconfiguram ao longo do tempo (10).

Nessa perspectiva, é necessário que o trabalhador encontre motivação para trabalhar e sinta-se satisfeito profissionalmente, pois, caso contrário, pode surgir a frustração e a insatisfação profissional uma vez que a realização do trabalhador está vinculada à produtividade e a sua contribuição para o próprio trabalho.

A motivação pode estar relacionada à liberdade na tomada de decisões e autonomia. O turno noturno, em especial, possibilita ao enfermeiro maior autonomia, pois ocorrem situações que requerem a sua decisão uma vez que em muitas instituições há ausência de chefias e direções nesse período de trabalho. Essa decisão pode repercutir favoravelmente na construção da identidade profissional, relacionar-se à satisfação profissional.

Outra situação que pode ser um estímulo para o trabalhador no desenvolvimento do seu trabalho é o econômico, elemento que tem repercussão na satisfação pessoal e profissional.  A remuneração, como retorno pelo trabalho realizado, está relacionada à perspectiva de independência e autonomia do trabalhador, sustento da família, aquisição de bens e conquista de uma melhor qualidade de vida. Destaca-se que a autonomia financeira proporciona liberdade de escolha e decisão, o que confere sentido ao trabalho e pode estar relacionada à satisfação profissional.

No entanto, o fato de ser a enfermagem uma profissão majoritariamente feminina, associada muitas vezes a baixos salários, retrata uma situação que preocupa: mulheres que exercem jornada de trabalho dupla ou tripla no intuito de manter melhores condições de vida e o sustento da família. Essa situação pode repercutir negativamente saúde do trabalhador, principalmente aquele que exerce suas atividades no período noturno, ocasionando sobrecarga mental, física e social, impossibilitando-o, muitas vezes, de agir com rapidez e atenção em determinadas situações e impedindo-o de desfrutar de eventos sociais e festividades junto a sua rede social.

Os participantes deste estudo manifestaram o sofrimento com relação ao cuidado prestado ao paciente, fator esse que pode resultar em insatisfação profissional uma vez que não é percebida a melhoria do serviço no decorrer dos anos.

Estudo aponta que nas organizações são comprovados os resultados de que o trabalhador que está satisfeito com o local e tipo de trabalho que executa, tem um desempenho melhor. 6 Nesse sentido, é necessário que os gestores busquem identificar as causas do sofrimento dos trabalhadores e planejem estratégias para motivá-los no cotidiano de trabalho.

O trabalho hospitalar realizado pelo enfermeiro no turno noturno se caracteriza pela imprevisibilidade das atividades, ou seja, situações inesperadas que modificam quase que instantaneamente a condição do trabalho e a percepção do trabalhador com relação ao seu trabalho, podendo o mesmo transitar da satisfação à insatisfação profissional e que necessitam ser investigadas no sentido de buscar estratégias para melhorar o processo de trabalho.           

Convém destacar outra particularidade do trabalho realizado no turno noturno que é a falta de reconhecimento e valorização. Esse fato pode estar relacionado ao menor contingente de visitantes e gestores nas dependências do hospital neste turno, como chefias, direções.  Apesar dessa situação, é primordial ter o hábito de reconhecer o trabalho realizado pelas pessoas, o que confere a quem recebe o reconhecimento sentimentos positivos quanto a organização em que se encontra, o que pode influenciar a sua motivação e a busca por atitudes semelhantes na expectativa de obter novamente o reconhecimento.

O reconhecimento é a forma específica da retribuição moral-simbólica dada ao ego como compensação por sua contribuição à eficácia da organização do trabalho(7)

Considera-se como uma das explicações para que o trabalho da enfermagem não seja devidamente valorizado e reconhecido, tanto pelos pares quanto pelos pacientes, o fato de que é um tipo de trabalho cujo produto final, o cuidado, não poder ser tocado, sentido e sim percebido, sendo denominado de trabalho imaterial.

Por fim, a análise dos dados tornou evidente que os enfermeiros, de um modo geral, expressaram indiretamente que o sentido do trabalho está vinculado à realização e satisfação pessoal e profissional, expressadas pelo sentimento de identificação pelo trabalho e pelo retorno financeiro. No entanto, há relatos de descontentamento com a organização do trabalho, o que pode implicar em insatisfação profissional, aspectos esses que precisam ser discutidos no contexto do trabalho na busca de estratégias para melhorias dos serviços e da saúde do trabalhador.

 

CONCLUSÃO

 

A partir da análise das entrevistas, pode-se identificar que o sentido do trabalho está relacionado tanto ao contexto em que é realizado, quanto a singularidade dos trabalhadores. Por vezes o trabalho é identificado como sendo o elemento central da vida, rendimento econômico e realização pessoal e profissional, situações relacionadas à satisfação profissional. No entanto, o desestímulo de alguns enfermeiros que encontram no trabalho o descaso de determinados profissionais com os usuários, associados à falta de valorização e reconhecimento podem comprometer a satisfação profissional.

Assim, a análise do sentido do trabalho atribuído pelos enfermeiros que atuam no período noturno apresentou-se de forma ambígua. De modo geral, identificou-se a prevalência de relatos positivos em relação ao trabalho, sugerindo a satisfação profissional.

Vale lembrar que o sentido atribuído ao trabalho pode impactar na organização do processo de trabalho, na qualidade da assistência prestada e na saúde do trabalhador. Nesse entendimento, acredita-se que compreender o sentido do trabalho possibilite aos gestores criar e implementar estratégias que permitam ampliar ações referentes à saúde do trabalhador na perspectiva da melhoria dos serviços e da satisfação profissional.

Por fim, o estudo apresenta relevância pelas reflexões suscitadas e sugerem-se, para a área da saúde, novos estudos que investiguem o sentido do trabalho para as demais categorias profissionais da enfermagem que realizam suas atividades no período diurno, de modo a estabelecer possíveis comparações ou divergências com os resultados deste estudo.

 

REFERÊNCIAS

 

1 Fischer FM. Fatores individuais e condições de trabalho e de vida na tolerância ao trabalho em turnos. In: Fischer FM, Moreno CR de C, Rotemberg L, editoras. Trabalho em turnos e noturno na sociedade 24 horas. São Paulo: Atheneu; 2004. p. 65-76.

2 Silva RM, Beck CLC, Guido LA, Lopes LFD, Santos JLG. Análise quantitativa da satisfação profissional dos enfermeiros que atuam no período noturno. Texto Contexto Enferm. 2009; 18(2): 298-305.

3 Morin E, Tonelli MJ, Pliopas ALV. O trabalho e seus sentidos. Psicologia & Sociedade. 2007; 19 (ed especial 1): 47-56.

4 Hegney D, Plank A, Parker P. Extrinsic and intrinsic work values: their impact on job satisfaction in nursing. Journal Nursing Management. 2006; 14:271–281.         

5 Minayo MCS. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 10ª ed. São Paulo: Hucitec; 2007.

6 Spinola T, Santos RS. O trabalho na enfermagem e o significado para os profissionais. Rev Bras Enferm. 2005; 58(2):156-60

7 Dejours C. O fator humano. 3ª ed. ed. Rio de Janeiro: FGV; 2002.

8 Silva RM, Beck CLC, Lopes, LFD, Magnago TSBS, Prestes FC, Tavares JP. Patient satisfaction in the postoperative of fracture as nursing care: descriptive study. Online Braz J of Nurs [serial on the Internet]. 2010 [cited 2010 Out 2]; 9(2). Available from: http://www.objnursing.uff.br/index.php/nursing/article/view/j.1676-4285.2010.2951/html_137

9 Batista AAV, Vieira MJ, Cardoso NCS, Carvalho GRP. Fatores de motivação e insatisfação no trabalho do enfermeiro.  Rev Esc Enferm USP. 2005; 39(1): 85-91.

10 Beck C, Prestes F, Tavares J, Silva RM, Prochonow A, Nonnenmacher C. Identidade profissional dos enfermeiros de serviços de saúde municipal. Cogitare Enferm. 2009; 14(1): 114-9.

 

Contribuição dos autores: Pesquisa bibliográfica: Silva, Tavares, Prestes, Guerra  - Coleta dos dados- Silva - Concepção e desenho: Silva, Beck - Análise e interpretação: Silva, Beck, Zeitoune, Tavares, Prestes, Guerra  - Revisão crítica do artigo: Silva, Beck - Análise e interpretação: Silva, Beck, Zeitoune, Tavares, Prestes, Guerra  - Aprovação final do artigo: Silva, Beck, Zeitoune.